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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quarta-feira, 08.07.15

Vi e sente!

Vi o teu crescer lento,

tão lento que nem parecias vivo.

Vi os medos por ti elevarem-se,

a dramas e tragédias sem razão.

 

Vi o ventre de tua mãe ficar redondo,

qual fruta verde e vermelha.

Vi a alegria dos teus movimentos,

como se fosses um irrequieto.

 

Vi a azáfama em teu redor

como se fosses o único no mundo.

Vi a tua forma franzina mas serena,

oferecendo finalmente calma e alegria.

 

Vicente! Isto tudo eu vi

e senti!

 

 

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por José da Xã às 23:15

Quinta-feira, 14.05.15

Contos tontos!

Foram anos e anos a procurar a mulher. Sempre ocupada, indisponível, ausente...

Até que um dia ele cansou-se.

Procurou então noutras alcofas a forma de matar o desejo.

Até que ela descobriu.

Mas a partir desse dia passou a estar disponível e pronta para aceitar o marido.

Tarde demais!

Ele perdera para sempre o desejo daquela mulher.

E ela perdera a hipótese de ser finalmente amada.

 

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por José da Xã às 23:41

Sexta-feira, 20.02.15

Recordações e lembranças

Recordo-me dos tempos idos,

Dos tempos sem tempo.

Lembro-me dos dias tristes,

E das amarguras vãs.

 

Recordo-me de alegrias fugazes,

E sonhos longamente perdidos.

Lembro-me das noites brancas,

E de amores sentidos e amados.

 

Recordo-me das faces claras,

Dos sorrisos e das carícias.

Lembro-me das figuras simples,

Mas serenas e amigas.

 

Recordo-me de não ser,

O que sempre desejei.

Lembro-me de querer  

O que nunca pude.

 

Recordo-me que o amor,

Foi então a chave de tudo.

Lembro-me que amar

Foi o cerrar de um ciclo.

 

O que será que ainda me resta?

 

 

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por José da Xã às 00:16

Sábado, 16.02.13

Para Sempre…

Nota: este texto foi escrito para um trabalho de mestrado. A Isabel Carvalho, mentora da história, pediu-me ajuda. E acabámos por escrever este conto. Tem alguma terminologia técnica, essencial ao trabalho, mas tem outrossim muito de real. Curiosamente convivi muito de perto com um colega, entretanto falecido, que tinha esta doença. E é realmente tenebroso a forma como o ser humano pode cair ao mais fundo da incapacidade e degradação física.

Aproveito para desta forma homenagear quem ajuda estes doentes e os seus familiares. Quem nunca viu estes enfermos, não imagina o que um ser humano pode sofrer.




Levar as mãos a cabeça era a única coisa que conseguia. Entretanto não se lembrava de mais nenhuma palavra de conforto. Estava tudo tão confuso e vê-la chorar de desespero era insuportável…

Eduardo e Sara eram um casal haviam-se conhecido na adolescência. Foi empatia à primeira vista e a amizade que os unia foi criando laços cada vez mais fortes até que o inevitável aconteceu: apaixonaram-se um pelo outro. Passaram a andar quase sempre juntos na escola que ambos frequentavam. Todavia quando chegaram à Faculdade cada um seguiu o seu próprio caminho.

Ele formara-se em Gestão e encontrava-se presentemente numa multinacional de renome internacional e que facturava números com diversos zeros… Exibia de uma aparência jovem mas já com algumas brancas a mostrarem a sua rebeldia, um ar sério e responsável em qualquer decisão, ideia ou ordem que implementava. Quase sempre bem-sucedido nas suas opções ganhara por isso o respeito e admiração de chefias e colegas. Outra das suas características era a sua permanente disponibilidade de ajudar de quem dele necessitasse.

Sara era uma profissional e competente médica no Serviço de Urgência, sempre com uma palavra amiga para oferecer aos doentes e familiares nos momentos mais complicados. A humanidade e o carinho que oferecia aos outros, era claramente difícil de encontrar em outro médico do mesmo Serviço. Raramente saía exactamente no final do seu turno, pois, sentia que tinha de ver se os pacientes, que tinha atendido antes de sair, estavam bem.

Porém nessa noite era diferente e tinha de se despachar… ia jantar com o namorado no seu restaurante preferido. Eduardo gostava de mimá-la com aqueles singelos gestos mas que a deixavam feliz.

O jovem gestor, que até à data tinha sido um jovem bastante calmo, estava naquela noite particularmente nervoso e agitado. Tinha tomado a maior decisão de todas… pedir Sara para ser sua mulher para o resto da sua vida. Vestiu assim o melhor fato e pediu a Sara que saísse a horas para puderem aproveitar a noite. Tinha tudo planeado ao pormenor: as flores, o jantar, o anel e surpresa da vida dela. Escolhera também a sobremesa favorita de Sara, um fantástico bolo de chocolate, em que a cereja iria ser substituída por um anel que ele próprio escolhera e comprara. A princípio pareceu-lhe essa ideia um tanto pirosa mas com o tempo aceitou que aquela noite teria de ser especial… muito especial

Sara conseguiu sair a horas do serviço e correu para casa para se preparar. Vestiu o seu melhor vestido e à hora combinada desceu para se encontrar com Eduardo. Ele estava a sua espera à porta de entrada e assim que a viu ficou deslumbrado. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita como aquela e naquele momento apercebeu-se que tinha tomado a decisão correcta de a escolher para passar o resto da sua vida ao seu lado.

Já no restaurante o ambiente era acolhedor, com música ambiente e cada mesa preparada ao pormenor. Eduardo estava nervoso mas tentava não transparecer, enquanto Sara por sua vez contava as suas aventuras nas urgências e como salvara uma senhora da morte certa. Adorava partilhar o seu dia.

A noite desenvolvia-se serena e animada e o jantar tinha sido bastante agradável, a conversa fluía e tinha chegado o momento. Eduardo pediu em surdina ao empregado que trouxesse o bolo e que colocasse a música que tocava no dia em que começaram a namorar, enquanto Sara fora à casa de banho.

Tinha chegado o momento que Eduardo tanto tinha esperado. Quando Sara se sentou à mesa apercebeu-se que estava a dar a música que lhe trazia uma recordação especial e a sua sobremesa tinha um brilho especial. Eduardo ajoelhou-se ao lado de Sara e depois de lhe disser que ela era a mulher da vida dele, pediu se ela queria dividir a sua vida com ele para sempre.

Sara emocionou-se e tudo o que tinha imaginado estava a acontecer. Só faltava dar a resposta mas algo estava errado. Começou a sentir os braços dormentes, a querer articular as palavras e a ver Eduardo coberto por uma névoa. Desmaiou nesse instante.

Não deixaram Eduardo entrar para acompanhar Sara quando esta deu entrada nas urgências. O rapaz sentia-se perdido, ninguém lhe dava notícias e a espera era desesperante.

Sara acordara deitada numa maca no SO que conhecia tão bem. Fazia parte do seu dia-a-dia, onde salvara vidas e perdera outras e por alguma razão que lhe estava a passar ao lado era a vez dela estar ali. Sentou-se na marquesa e viu o colega João chegar junto dela.

- Que se passa João? Porque estou aqui?

A mão robusta mas tranquilizadora do colega empurra-a para a marquesa, com a voz calma foi dizendo:

- Foi o Eduardo que te trouxe de ambulância. Pelo que parece desmaiaste em pleno restaurante.

- Desmaiei? Acreditas que não me lembro de nada…

- Acredito mas agora descansa… Uma bateria de análises já foram pedidas e só estamos à espera do Fitas, sabes quem é, não sabes?

Se sabia… Fitas era a alcunha de um maqueiro a quem ela muitas vezes pedia favores para os seus doentes. Agora era a sua vez de "cair" nas mãos dele.

Era quase madrugada quando finalmente João veio em busca de Eduardo comunicar-lhe os resultados dos exames entretanto feitos por Sara.

- É melhor sentar-se que as notícias não são boas.

Eduardo sabia pelas histórias que Sara contava, que aquela frase não podia significar boa coisa.

- A Sara teve um surto de esclerose múltipla. Diagnosticámos uma esclerose múltipla secundária progressiva. Tivemos confirmação do diagnóstico através da Ressonância Magnética, Punção Lombar e pelos potenciais evocados. Não existe qualquer dúvida.

O mundo de Eduardo desmoronou. Já ouvira falar da doença, até na boca da própria namorada… e apercebera-se que era uma enfermidade degenerativa muito dada a surtos cada vez mais frequentes e obviamente mais limitativos… Apeteceu-lhe chorar. Mas se gostava de Sara - e como gostava! - não podia dar parte fraco. Respirou fundo, olhou o colega da mulher e perguntou:

- Posso vê-la?

- Agora não… Desculpe, mas a Sara está a descansar. Mas amanhã pela manhã já pode vê-la e até levá-la para casa.

- Já amanhã?

- Sim… Isto foi só um surto…

Eduardo estendeu a mão ao médico e abandonou as urgências em passo rápido. João por seu lado tremia só de pensar no futuro daquele casal. Mentira no que respeitava a Sara, que acordada na maca aguardava impacientemente pelo colega João.

Quando o viu já próximo de si respirou fundo. Sem mais demoras, atirou:

- E…?

- E o quê?

- João por favor…

O médico deu-lhe então a notícia da forma mais suave que sabia. A cara de incredulidade da médica foi algo que o marcou durante muito tempo. Porém naquele instante não existia nada, que ele ou alguém pudessem fazer.

Na manhã seguinte Eduardo levou Sara para sua casa. Fizeram a meia dúzia de quilómetros em profundo silêncio como se ainda não tivessem consciencializado do que estava a acontecer. Sara continuava com a sensação de falta de força no corpo e só queria dormir para que o pesadelo acabasse. Não poderia ter esclerose múltipla, era impossível. Lidou com tanta gente doente na sua carreira que nem nela própria reconhecia os sintomas.

Sentado na borda da cama onde Sara passara a maior parte dos últimos dez anos, Eduardo chorava com uma criança. Pairava no quarto um cheiro a medicamentos que ele já não suportava. Cadeira de rodas, canadianas e outros apetrechos espalhavam-se pelo resto da casa. Entretanto tinha a perfeita consciência que Sara jamais regressaria aquela casa… E isso era o que mais lhe doía.

Eduardo fazia tudo o que podia por Sara. Primeiro, e logo a seguir ao primeiro surto arranjou de tratar dos papéis para se casarem. E numa tarde de sábado Sara e Eduardo casaram-se numa cerimónia civil, breve e pouco concorrida. Depois levou-a numa viagem até Barcelona, cidade que Sara sempre falara que gostaria de conhecer. Quando regressaram da lua-de-mel, Sara parecia ter renascido e a doença parecia ter sido debelada. Todavia os surtos que haviam atacado anteriormente Sara começaram a surgir com mais frequência, dois meses após o casamento. Primeiro o cansaço permanente, depois a dificuldade cada vez mais evidente em se deslocar. Perdera ao longo do tempo a capacidade de cuidar dela própria. Cada pequeno esforço era como se toda a sua energia fosse consumida. Pentear o cabelo, lavar os dentes e comer era algo que demorava uma eternidade. Não lhe apetecia depender de Eduardo mas acabara por acontecer. Este ajudava-a nos pequenos gestos que ela não conseguia e por vezes realizava-os por ela quando não existia mais energia. Sara despediu-se do Hospital por já não conseguir estar nas suas plenas capacidades. A primeira decisão complicada que Sara teve de tomar e completamente consciente foi que Eduardo, não poderia nem conseguiria cuidar dela sozinho durante o decorrer da evolução da doença. Falou com Eduardo que apesar de revoltado e não compreender a decisão da mulher, aceitou.

Marcaram uma visita com uma assistente social responsável do serviço de apoio domiciliário da zona de residência. Era demasiado estranha aquela situação para Sara. Normalmente era ela que encaminhava os doentes para os serviços, mas desta vez era ela que ia usufruir do tempo e do cuidado de outros sem ser o marido.

O contracto feito com a assistente social é que iria usufruir da ajuda das ajudantes familiares e da Fisioterapia quando achasse que chegara o momento em que Eduardo necessitasse de ajuda. Tentou conter as lágrimas mas não conseguiu. Não ter controlo sobre o seu próprio corpo era algo que nunca imaginaria, e ter alguém a ver o seu intimo sem ser o seu companheiro de uma vida era extremamente desconfortável. Mas iria demorar muito tempo pensou.

Na noite de consoada desse mesmo ano, Sara sentiu de repente que o chão fugia debaixo dos pés, sentindo a força a fugir-lhe do corpo e a visão a ficar com uma névoa de novo. Num instante estava estendida no chão. As pernas tremiam em espasmos violentos e Eduardo num salto assentou as suas mãos nas pernas da esposa e conseguiu pará-los. Aprendera o truque com a Fisioterapeuta. Depois ergueu-a e levou-a para o hospital.

No caminho ligou ao Prof. Vital, médico especializado em esclerose múltipla e comunicou-lhe o caso:

- Professor, desculpe incomodá-lo a esta hora, mas a Sara teve outro surto.

- Meu Deus, já? A doença está a evoluir muito depressa… Leve-a para o hospital que eu vou já lá ter.

- Não vale a pena maçar-se… Eu só necessito que ela tome os corticosteróides… que eu não tenho em casa.

- Mas eu preciso vê-la. Até já!

A voz do Professor denotava enorme preocupação. A noite estava fria, o trânsito reduzido, a velocidade exagerada. Chegou sem mácula às urgências onde relatou o caso da esposa. Apareceu o Fitas que reconhecendo a médica amiga dizendo:

- Doutor, deixa-a comigo… Eu sei para onde ela deve ir…

- Mas o Professor Vital vem cá ter, agora…

- Eu sei… eu sei… - e empurrando a maca fê-la desaparecer por detrás das portas automáticas.

A ambulância partiu devagar levando consigo dez anos de tormentos e angústias. Eduardo já não conseguia lidar com a doença e acima de tudo sentia-se impotente para melhorar a qualidade de vida de Sara. A cara linda que a mulher sempre tivera até surgir a doença era agora rasgada por rugas de sofrimento. O olhar tantas vezes expressivo tornara-se vago, distante. As mãos tremiam-lhe de tal maneira que nem conseguia comer pela sua própria mão. Era Eduardo que pacientemente lhe colocava a comida na boca, devagar mas sempre com um sorriso externo nos lábios…

Eduardo adormeceu na sala de espera das urgências. Quando acordou doía-lhe o pescoço e sentiu os pés gelados. Levantou-se devagar. Bateu com os pés no chão para activar a circulação e tentou saber da mulher. De súbito reparou que ela vinha a sair pelo seu pé, devagar amparada ao Professor Vital. O marido correu para Sara e beijando-a só soube dizer:

- Feliz Natal, meu amor!

Sara olhou envergonhada para o médico e foi dizendo lentamente:

- Este homem envergonha-me em qualquer lado… Já viram isto?

E conseguiu sorrir. Deu o outro braço ao marido, encostou-a cabeça e foi dizendo:

- Temos um longo caminho para partilhar…

Eduardo não percebeu! Assumiu que ela se estaria a referir ao casamento e com um sorriso rasgado, confirmou:

- Claro! Foi para isso que casámos!

Já no carro ajudaram ambos Sara a sentar-se no lugar do pendura. Quando fechou a porta o Professor chamou Eduardo e perguntou-lhe:

- Está preparado? Está preparado para o pior que vem aí? A Sara tem de tomar injecções  semanais de Interferões. É o Eduardo que as vai dar? Vai pedir ajuda? Eduardo tem de recorrer à ajuda. Chegou o momento.     

O gestor entendeu o alcance da conversa e sem mais delongas respondeu afirmativamente que cuidaria do assunto. Todavia acrescentou:

- Creio que ninguém, nem mesmo o senhor, está preparado para esta doença…

O silêncio instalou-se entre os dois homens. E com um abraço que selou aquela amizade disse:

- Obrigado Professor Vital por tudo o que tem feito por nós.

Durante vários meses Sara foi tendo altos e baixos… Mas foi sempre perdendo capacidades. Tinha chegado a altura de pedirem ajuda ao apoio domiciliário. No contracto que tinham pedido, acrescentaram a visita semanal da enfermeira para aplicação das injecções. Como Sara passava mais tempo sentada pediu para verificar se não apareciam ulceras de pressão. A fisioterapeuta aparecia em sua casa 3 vezes por semana, para tentar reduzir as alterações articulares, e sobretudo a espasticidade que se estava a instalar. As dores eram algo que era difícil começar a suportar. A presença das ajudantes familiares era o que mais lhe custava todos os dias, era o pior momento do dia. Apesar de tentarem ter cuidado e demonstrarem carinho, para ela a invasão do seu próprio espaço e corpo era horrível. Não aceitava bem que a higiene fosse feita por uma pessoa estranha e que o seu corpo desnudado fosse mostrado enquanto tentava realizar conversa de circunstância. Odiava aquela situação mas Eduardo não podia estar com ela a todas as horas do dia.    

Eduardo foi gerindo a sua vida em função da doença da mulher. Optou por mudar de funções dentro da empresa de forma a ter mais disponibilidade e passou a viver mais para a esposa. Mimava-a sempre que podia e Sara gostava daquela forma muito simples mas muito genuína de Eduardo a amar. Até que um dia Sara deixou de conhecer o marido. Foi por pouco tempo mas aconteceu.

Nem sabia por onde começar a arrumar as coisas. A certeza do não regresso a casa por parte da mulher fazia-o sentir-se ainda mais triste. Lembrou-se então duma tarde…

O sol primaveril batia na varanda. Sara estava sentada na cadeira de rodas e tentava com dificuldade virar uma folha de um livro que andava a ler. A mão não parava de tremer e já não tinha preensão fina para realizar tal gesto. Reparou que Eduardo a olhava com ternura e vontade imensa de a ajudar e já com dificuldade chamou-o:

- Eduardo.. - a voz era arrastada e quase cavernosa.

- Diz meu amor.

- Prometes-me uma coisa?

- Não sei se posso… Mas prometo, seja o que for prometo…

- Quando eu não conseguir andar leva-me daqui… - respirou fundo, como se adivinhasse o futuro - e põe-me num local onde alguém trate de mim.

- Mas eu trato… sempre.

- Eu acredito… Mas prometes?

As lágrimas rolaram cara abaixo. Eduardo enxugou-as com as costas da mão e disse:

- Claro, tu sabes que faço tudo por ti.

Sara chorava quando saiu de casa deitada na maca, pela última vez. Eduardo segurava a cabeça com se tentasse evitar que esta estoirasse. E nem a acompanhou à rua. Tudo fora previamente combinado entre ambos.

Eduardo dirigiu-se a uma unidade especializada de cuidados de longa duração. Tinha sido recomendada pelo médico que os ajudara neste processo, e a mulher tinha deixado expresso que queria que fosse aquela a unidade onde fossem prestados os seus últimos cuidados. Fora a decisão mais difícil de todas e sabia perfeitamente o que aquilo significava. Sara passava o seu tempo entre a cadeira de rodas com apoio de cabeça e a cama articulada que tinham pedido emprestada às ajudas técnicas. A espasticidade estava completamente instalada, as articulações mantinham-se na mesma posição de suposto conforto durante os anos, os tremores da cabeça e mãos eram constantes e Sara já não tinha controlo do seu sistema urinário e intestinal. Começara a utilizar fralda e uma algalia, quase cinco anos depois de pedir ajuda do apoio domiciliário. O seu corpo foi entrando em degradação e sabia que não existia mais nada a fazer. Eduardo visitava-a todos os dias e tinha o privilégio de por vezes fazer-lhe companhia de noite. Já não reconhecia a mulher mas o amor por ela era exactamente igual ao primeiro dia em que se conheceram. Mantinha-se forte ao lado da mulher mas quando saia do lado dela e voltava para casa sozinho, chorava até perder as forças e adormecer. Não queria perder Sara mas não o desespero também dele era incontrolável.

Sara faleceu dois meses depois, serenamente como uma vela a quem se acaba o pavio. 

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por José da Xã às 21:10

Quarta-feira, 26.09.12

Ainda o Outono...

 

(Como prometi  José. Aqui fica com carinho e amizade.)

 

Nas nuvens, que a chuva prenunciam

e nos acessos de vento desmedidos

vê-se o alterar do tempo,

como em nós ele passa lento

e vai deixando sulcos na pele

regados por lágrimas, que como cinzel

nos modelam a face...

 

Nos lembram dos dias, que já passados

faltam menos para contar...

E isso, que importa?

Quando cá dentro, a idade, não conta

mas uma criança a pular,

de poça em poça, em pingos tão grossos,

sem ter medo de se molhar.

 

Nua, simples, ou atribulada

a vida que gostas, não dá trégua, ou escolha

terás que atrever-te, a viver

entre ventos que sopram, gotas que caem

raios de sol que te afrontam,

mas que te beijam também... Uma certeza terás.

Vais vencer. Porque tem de ser. Cada dia, que sem temer, à vida te dás. 

 

(Muito obrigado pela companhia e pelo ser humano bom que és)

 

Fátima soares/Verniz Negro

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por José da Xã às 12:36

Domingo, 23.09.12

Outono na minha vida

 

(para a Maria de Fátima, com amizade)

 

Sinto o outono da vida nos ossos

Como um cão que ferra o dente.

Sinto o Outono da vida nos dias,

Como o vento que agita a copa.

 

Sinto o Outono da vida nos passos,

Como roda rangendo nos caminhos.

Sinto o outono da vida nas mãos,

Como uma deformada artrose.

 

Sinto o Outono da vida nas noites,

Como mantos negros de tristeza.

Sinto o outono da vida na voz

Como falcão percebendo a presa.

 

Sinto o Outono da vida nos sonhos,

Mas há muito que deixei de sonhar!

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por José da Xã às 22:44

Domingo, 16.09.12

Sentido dos dias – Descoberta XXVIII

Assim que desligou o telemóvel Maria da Graça sentou-se na velha cadeira da livraria e tapou a boca num espanto desmedido. Calculava que a ida do pai a Angola, não era no mínimo inocente mas aquilo… Tinha de falar com os irmãos, contar-lhes da novidade. Pensou na mãe. Lá longe para onde fora a correr quando soubera do estado do marido, sozinha a lidar com uma miríade de acontecimentos. E agora já regressada... A sua voz calma a contar-lhe ao telefone, porque tinha de desabafar. A pedir-lhe para reunir os irmãos para conversarem todos. Coitada! Como conseguia ela, ser aquela mulher impressionante e sacrificada? Pegou novamente no telemóvel e ligou a João, o irmão mais novo e com ela tinha uma relação de muita proximidade. Esperou que atendesse, não obstante ainda ser cedo.

- Estou Gracinha, bom dia.

- Boa dia mano, como estás?

- Acordado – e riu numa gargalhada sonora e bem disposta que a irmã gostou de ouvir.

- Tenho enormes novidades para te contar.

- E são boas?

- Não sei, tu próprio analisarás…

- Então diz-me.

- Sabes aquela ideia idiota do pai ir a Angola?

- Sim sei…

- Não era tão idiota como isso.

- Então?

- O pai quando esteve em África na guerra teve lá uma namorada.

- Mas isso já desconfiávamos… Hum… cheira-me que essa história tem outros contornos…

- Pois tem! A mãe deu de caras com uma outra realidade.

- Coitada… Mas diz-me o que passa.

- Temos dois irmãos gémeos…

Um silêncio foi tão grande que Maria da Graça, chamou:

- João! Estás aí?

- Estou sim… - a voz parecia mortiça e triste.

- Então o que se passa?

- Levei um murro nos estomago.

- Pois calculei.

- Eu sempre percebi que o pai ia à procura de qualquer coisa. Jamais pensei que fosse de dois filhos.

- Mas o pai também não sabia…

- Não? De certeza?

- Não! Apenas tinha conhecimento da gravidez da senhora com quem teve uma longa história de amor. Quando regressou na altura à metrópole ela disse-lhe o estado em que estava mas o pai temeu que ela apenas estivesse a tentar prendê-lo.

- E o pai viveu todos estes anos na dúvida…

- Exactamente. E quando se sentiu mais doente pretendeu esclarecer todo esse passado.

- Mas a mãe sabia da existência dessa senhora?

- Sabia!

- Ui! Agora entendo algumas atitudes e conversas …

- Que conversas?

- Quando miúdo ouvi diversas vezes a mãe a solicitar ao pai que mudasse de maneira de ser, que ela não aguentava viver com aquela tristeza permanente dele.

- Não admira que assim se sentisse – desculpou Maria da Graça.

- Então a mãe descobriu isso tudo?

- Um dos médicos que está a tratar do pai é um dos rapazes…

- Ena que coisa estranha… Então e agora?

- Agora não sei…

- E já falaste à Ana?

- Ainda não… Tu sabes que ela vive naquele seu mundo do teatro muito especial e sempre ligou pouco a todos nós.

- Eu sei eu sei, mas tens de lhe contar…

- Pois tenho, mas mais logo.

- Queres que vá ter contigo aí à loja?

Ela queria . Mas custava-lhe dizer. Mas ganhou coragem e respondeu:

- Sim gostava muito… Sinto-me agora que sei que tenho mais dois irmãos, mais só!

- Mais só? Então e eu? Não conto?

- Contas João contas… Mas falta-me algo…

- A nova descoberta não te deu grande alegria.

- Pois não… Falta-me o sentido dos dias.

E desligou.

 

José da Xã 

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por José da Xã às 13:26

Quarta-feira, 05.09.12

Sentidos dos dias - Desorientação XXV

Helena sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. A sua vontade de se despachar para poder ouvir algum bocado da conversa do dois, deu lugar a uma desorientação estúpida, que nunca sentira antes. Uma impotência que lhe dava medo! Se por um lado tinha a noção que deveria estar ao lado do marido, não só para lutar por "aquilo" que era "seu", mas zelar para que a emoção não o prejudicasse, por outro e agora como escolha, a puder fazê-la, seria desaparecer. Ou melhor! Voltar àquela tarde em que ficara pela primeira vez cara a cara com Pedro. Poder reverter toda a sua vida. Amava-o?! Muito. Ainda hoje ele era, fora sempre o homem da sua vida. Tivera os seus filhos e esforçara-se constantemente por estar à altura. Ser a esposa que ele idealizara, mas hoje? Lá atrás... Se tivesse sido mais forte, teria esquecido a empatia. O envolvimento. Não teria logo partido para uma relação precoce, com a sua mania de ser boa samaritana. De o pôr à frente de todas as suas prioridades... Até do emprego. Da sua formação académica que na altura a uma mulher custava tanto a conseguir. E hoje? Que coisa! Sentia-se parva com aquela palavra a repetir-se na sua cabeça. "Hoje... Hoje o quê?!" A saber o que se fizera entendível, neste momento, ponderava se talvez não fosse melhor ele ter regressado a Angola.  Ter feito toda a sua vida ao pé de Zuleica e ela ter seguido o seu caminho. 

Sem saber, formaria com Pedro este triangulo amoroso de miseráveis insatisfeitos. Três almas diferentes, que nunca tiveram descanso. Que sem se conhecerem, duas delas, partilharam aquela terceira, sendo quiçá, ela ( a esposa)a menos beneficiada, embora o tivesse ao lado. Caramba! Ele era o seu homem. Dormiam juntos. Nos primeiros tempos Pedro era fogoso. Exigia dela o que qualquer homem pede duma mulher, mas... Todavia ela nunca viu na relação de ambos, qualquer tipo de escândalo em lhe dar o que pedia. E era muito satisfatória a sua relação sexual. Porém no fim ficava sempre aquela sensação de frustração no seu íntimo. Quando ele a deixava muitas vezes imediatamente e ia fumar para a janela, pensativo. Não havia aquela conversa carinhosa, depois. Aqueles afagos e o ficar um pouco, que acontecia tão esporadicamente... Noutras entrava furioso na casa de banho e tomava banho mal acabavam. Como se quisesse tirar o gosto e o cheiro dela, de si. Seria isso? Equacionou através dos anos tantos cenários para as atitudes esquisitas... Meu Deus, tinha tantas! E a pensar assim enlouqueceria. Ela tinha de acreditar que Pedro também a amava quando o expressava e a quisera, também. E os filhos? Mas... Quando tinham começado os problemas, o afastamento? As discussões e a raiva surda que se apagava no corpo, mas se tornava amiúde uma "tarefa" a cumprir e não...Amor! Se bem que da parte dela era, mas sempre com medo de saber o porquê daquelas fúrias. Da instabilidade, das horas tardias para chegar a casa, do álcool. O fechar-se no escritório até altas horas a escrever como um fugitivo, escondendo o que fazia. O olhar perdido, o pensamento em noutro lado. Tudo se fazia claro... Hoje! 

Ele vivera com ela sempre pensando noutra! Quantas vezes teria fechado os olhos e imaginado que estava com ela? Se saciara quase de modo violento, lembrando-a e a rejeitava a seguir? Naquelas formas malucas de estar, que a princípio lhe pareceram desadequadas. As evasivas pobres que não lhe serviam. Havia algo mais e ela sentia-o. Sempre sentiu. E quando ele contou doeu-lhe como mais nada doeria, mas nunca imaginou que aquela "sombra distante" significasse mais, muito mais que ela nunca significou para ele de facto! De repente teve de sair do lado de João, tentar  ir respirar noutro lado. r os pensamentos no lugar sozinha. Mas onde raios naquela terra, se podia respirar, com o maldito clima? Onde podia ir, se não conhecia nada dos arredores? Sujeita a cair nalgum barranco, ou ser vítima de um animal ou... Mas tinha de fugir dali, mesmo que os dois estivessem agora nos braços um do outro (o que seria difícil dada a monitorização a que Pedro estava sujeito)... Mas como o filho dos dois ao pé. O outro médico de conivência até podiam... Jesus! Isto era insuportável, estava a ser vulgar e absurda. E quando o melhor do "seu longe", passou pelo extremo do convento muito distanciado do sítio onde estivera, pelo menos sentou-se num banco isolado de tudo, debaixo duma palmeira com uma sombra providencial e desabou. Sem ninguém a ver chorou como nunca chorara. Nada indicado para a sua idade. Daqui a nada seriam dois com um avc, para tratar. Tentou acalmar-se. Enquanto isso apalpou o telemóvel. Afagou-o pensando nos filhos. Especialmente em Maria da Graça. De mulher para mulher. Não de mãe para filha! Helena necessitava desabafar. Gritar e revoltar-se, sob pena de rebentar. No entanto, para que ia macular a imagem do pai, perante os seus descendentes? Ela era que tinha de lidar com aquilo e decidir. Teimosa, cheia de altivez levantou-se, mal pressentiu o vulto de Zuleica a caminhar na sua direcção. Maldita, sina! Ia ter de ouvi-la? Falar-lhe depois de não saber como fora o seu encontro com o homem... Que afinal, ao que parecia as duas amavam! Ou ela não teria ido lá. Nem que o filho pedisse, ou o outro clínico quisesse. Se ela não sentisse nada, que desprezo... Distanciamento. Ou Pedro lhe fosse hoje, indiferente, não se abalaria do sítio onde morava ali, por uma homem que a abandonara e aos filhos, sem nunca mais dar notícias. Mesmo que ele estivesse às portas da morte! Ou seria outra estúpida que levava o  ser cordial, solidária e humanista, à letra, mesmo para quem a ferira? Reparou que os bonitos olhos verdes estavam raiados de sangue. Também chorara! E toda a contrariedade e desdém lhe passaram naquela hora. Queria poder ser capaz de a odiar. De enfrentá-la e deixar claro que teria sido a última vez que falaram e se viam. Tanto! Muito mais combatia dentro de si em relação à outra, mas sobrepunha-se sobretudo dó! Até de si mesma. Não podia desfeitear a outra! Ela era uma vítima maior que ela talvez dado o que sabia agora. E quando ela lhe disse uma única palavra (obrigado) e a olhou nos olhos com aquele ar resignado e sofrido e seguiu caminho, placidamente, teve vontade que se sentasse. Ficassem ali, uma ao lado da outra em silêncio, com lágrimas, problemas e um sentimento em comum, que talvez ambas quisessem partilhar, tentar compreender, dar volta a algo que não tinha volta a dar.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 11:28

Domingo, 02.09.12

Sentido dos dias – Leituras XXIV

Meticulosamente foi arrumando as roupas na mala. Helena escolhera-as e colocara-as em cima a cama para que o marido a arrumasse. Sempre fora assim… metódico.

Helena da porta do quarto olhou o marido e achou-o envelhecido. O cabelo branco rareava já e as rugas cortavam-lhe a face qual regos de arado em terra fecunda. Depois aquela respiração sempre funda e lenta. Aquele coração não iria resistir a tantas emoções que o esperariam em Angola.

Pedro pegava na roupa e lentamente dispunha-a na mala. Depois buscava outra e repetia o gesto. Olhou para a porta e reparou que a mulher o observava com carinho mas também com alguma contida raiva. Ela sabia o que ele iria fazer a África, mas era impossível evitar a viagem…

Do meio de alguma tralha para arrumar Pedro Rafael recolheu uma velha sebenta. As folhas amarelas, o cheiro que ele tão bem conhecia de papel velho, as recordações ali escritas havia tantos anos… Sentou-se então na borda da cama e abriu o caderno. Na primeira página uma data e um local. Depois as descrições.

Começou a ler devagar, como sempre fazia, um diário com mais de quarenta anos. Pedro nem reparou nos erros ortográficos que ele próprio escrevera. Só lia… e sentia como se tudo surgisse na sua mente uma vez mais… Os camaradas de guerra, as patrulhas furtivas, os tiroteios por vezes quase incessantes, os corpos estropiados, os gritos lancinantes dos feridos, o cheiro de carne humana queimada. Mais á frente novos ataques descritos quase ao pormenor jornalístico. E por fim…

Durante páginas e páginas leu um conjunto de sentimentos sinceros e quiçá ingénuos. Folheando as páginas uma a uma Pedro lembrava-se como se fosse naquele instante o momento em que escrevera aqueles textos. Nas tendas os camaradas quando o viam de caneta em punho logo brincavam:

- Aí está o nosso cronista…

- Ainda ganhas um Nobel com esses textos – observava em tom meio a sério meio a brincar o tenente que comandava o batalhão já muito dizimado.

Aquelas noites de luar intenso e calor profundo davam-lhe serenidade interior. Não paz… que esta era palavra proibida em tempo de guerra. E depois haviam os cheiros daquela terra, os aromas das frutas maduras que misturadas com a selva próxima originavam sensações inebriantes.

As lágrimas começaram a cair, pela face marcada, sem que desse por isso. Havia muitos anos que evitava a leitura daquela e de outras sebentas, porque se conhecia e sabia de antemão as reacções que a sua alma e o seu coração iriam sofrer. Mas um dia teria de ser… E agora a poucas horas de embarcar para uma terra donde saíra, havia mais de quarenta anos tinha que ter a coragem de enfrentar o seu passado.

Fora no passado que a sua vida sofrera um enorme revés, fora no passado que Pedro amara sofregamente, fora no passado que quisera deixar suas lembranças. Mas estas nunca por lá ficaram. Viajaram no tempo consigo, permanentemente.

Não havia dia nenhum que o alfarrabista não se lembrasse de Zuleica. Dos momentos felizes que com ela passara, dos desejos sonhados a dois, das promessas jamais cumpridas. Era tempo de refazer o passado. Não que ele vivesse muito mais tempo para o poder gozar, mas acima de tudo poder partir em paz consigo mesmo.

João surgiu à porta do quarto sem que Pedro notasse. O filho mais novo, contra a vontade do pai inscrevera-se anos antes na Escola Naval e hoje era já um oficial. Vendo o pai embrenhado na leitura das sebentas, pensou em não o maçar… Porém o pai partiria no dia seguinte e…  Podia ser a última vez!

Devagar sentou-se ao lado de Pedro, passou-lhe o braço por cima do ombro e despediu-se:

- Pai venho despedir-me…

- Obrigado João… Também não vão ser muitos dia… Espero regressar muito em breve.

- Eu sei pai, eu sei… Mas ainda assim…

E calou-se. Pedir um abraço ao pai era algo que nunca passara pelo seu pensamento. Todavia ambos eram homens e não obstante a forma sempre discreta com que o pai mimava os filhos, João sentiu vontade de pelo menos naquele instante sentir o pai mais próximo de si.

Finalmente arriscou:

- Dê-me um abraço… meu pai!

Pedro ergueu-se devagar, abriu os braços e recebeu neles o corpo atlético do filho. Foi a primeira vez que Pedro abraçou o seu benjamim… E de súbito as palavras saíram como se fosse outro a pronunciá-las:

- Que Deus te abençoe meu filho! E obrigado…

O militar afastou-se do antecessor admirado, não com a bênção mas com o agradecimento. E sem pejos perguntou:

- Agradeces-me porquê pai?

Pedro esboçou um sorriso. Era raro nele, muito raro. Finalmente respondeu:

- Porque nunca o fiz, nem a ti nem aos teus irmãos… Agradeço-te apenas o amor que me tens e à tua mãe.

-Pai… esta conversa parece uma despedida muito dramática…

- Meu filho, a vida foi, é e será sempre um drama… 

 

José da Xã

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por José da Xã às 02:05

Quarta-feira, 29.08.12

Sentidos dos Dias - O segredo XXIII

Podia proibi-la de vê-lo, com todas as desculpas válidas e o facto de ser sua mulher... E ele jamais a perdoaria quando soubesse. Podia exigir estar presente, ou pelo menos próximo, que pudesse ouvir o que falavam, mas seria traição. Baixo da parte dela. Além de que fervendo em pouca água, lhe daria vontade de intervir. Portanto seguindo a sua capacidade de "encaixe", deixando-se levar pelo bom senso, foi assim que Helena voltou costas a Zuleica, e enquanto esta ia com o tal médico negro ao encontro de Pedro, ela foi com João até ao jardim do Convento. Pelo caminho cruzaram-se com o físico mais idoso que a cumprimentou efusivamente.

- D. Helena! Como está a senhora, hoje? Espero que tenha descansado. E o nosso doente?

- Bom dia, Dr., lamento desapontá-lo. Na realidade não preguei olho. O meu marido passou bem, dentro do esperado, suponho! Está agora...

- Sei, muito bem! Está com visitas. Não espero que compreenda. Aceito que me censure, mas na minha idade já vi de tudo e se isto não resultar...

- Devo presumir que este "tratamento de choque" é o que chamou de contenção de emoções? Não! Não percebo. Se ele piorar o senhor vai explicar a sua ideia, e praticas de medicina, também aos meus filhos!

- Não se revolte comigo. O seu marido é reincidente, portanto um homem forte! Já sobreviveu antes. Está cansado, muito cansado. Desmotivado. A pensar que desta, já não há volta a dar. Está bem acompanhado! E eu estou decidido a que saia daqui, como veio...Pelo seu pé! Ponho a minha carreira em jogo. Ele também precisa de estímulos...Bem dirigidos. A senhora foi um. Notou que gostou que viesse. Agora a outra senhora, segundo parece, também seria alguém com quem deve falar. Um homem deve tratar dos seus assuntos, não acha? Considere isto uma fisioterapia do músculo cardíaco.

Helena seguiu com João cada vez mais nervosa e angustiada. Não sabia que pensar. Se o homem era maluco ou seria ela que não estava boa do juízo! Em Portugal nenhum médico faria isto de certeza, mas queria despachar-se. Regressar depressa ao quarto, a fim de ver a reacção de Pedro. Se pudesse apanhar alguma coisa do fim da conversa... E diante do amigo dele ouviu finalmente, bebendo as palavras, a história dos dois. O segredo totalmente revelado. João fez questão de não omitir nada. Disse-lhe que menos, nem uma ou outra, o mereciam. E todo o tempo em que Pedro falaria com o seu primeiro amor, a mulher soube que existiam dois filhos, sim! Gémeos falsos. Não só o destino fizera o "favor" de os separar do pai, como dera àquela mulher mais uns "brindes" pelo caminho. João e a mulher foram para ela, o que Pedro devia ter sido. Depois do abandono ela trabalhou muito e conseguiu reerguer-se. Voltou à sua terra empregou-se novamente como professora. Os miúdos teriam por volta dos onze anos quando na sua escola, eram "vítimas" sucessivamente, da maldade de outros alunos. O que fez com que um deles não aceitasse que Zuleica não contasse o que acontecera  com o pai, uma vez que se recusara a deitar mão duma mentira. Contar-lhes que morrera! E assim livrar-se de mais explicações. 

Mas, num dia já muito cansada e sem ver por que adiar,(quando o miúdo não se calava, contagiando o outro) desesperada, triste e humilhada, sentou-os na frente e contou: O pai deixara-os. Era um soldado, que tinha escolhido vir para o seu país, como muitos fizeram. A culpa não era de ninguém, mas da guerra. Um dia, quem sabe, poderiam conhecê-lo... Só que nunca pensou que depois de ser bombardeada de perguntas, sobre o porquê dele nunca perguntar por eles? Se tinha outra família, como se chamava... e os ver já exaustos a dormir, um, durante a noite fugisse de casa. Explicara que queria apanhar boleia com o intuito de vir a Lisboa... Mas o que conseguiu foi, ser encontrado pelo irmão e a mãe, caído na estrada com uma bala alojada na espinha, disparada por não se sabe quem.

Resumindo: O resultado de todo aquele calvário era, além de muito mais de que ficou conhecedora, um dos filhos de Pedro ser nem mais nem menos o rapaz gerente do hotel onde ele ficara acomodado. O outro? E aqui Helena quase ia tendo ela própria, uma sincope! Era o Doutor Gil...Que vendo o irmão a esvair-se em sangue, jurou naquele momento, que seria médico se ele se salvasse. O que podia Helena fazer contra tamanha revelação? Tanto pormenor cheio de sangue, lágrimas. Uma vida de martírio? O que podia ela contra o maldito destino, ter posto agora um dos filhos a tratar do pai, e um outro, no seu hotel. Muito antes de todos terem chegado aqui...A um convento no meio do nada! Quando se levantara de manhã, nunca supos vir a sentir-se, assim... Pavorosamente siderada.

 

Verniz Negro

 

 

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por José da Xã às 10:30


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