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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

"Several circles" de Wassily Kandinsky

Resposta ao desafio da Fátima

Pegou no portátil para esgalhar o seu costumado texto sobre um quadro.

O dia amanhecera luminoso, mas frio resultado de um Inverno demasiado seco. Procurou imagens do quadro do artista russo Wassily Kandinsky denominado “Einige Kreize”* e ficou serenamente a olhar para aquele conjunto de círculos que lhe surgiram na frente.

O quadro era curioso, engraçado, quiçá diferente. Todavia entender o que o fantástico artista pretendera mostrar é que se tornaria mais difícil. Na verdade nunca tivera jeitinho nenhum para ser critico de arte ou, no mínimo, perceber o que o pintor pretendera dizer através do seu pincel.

- Onde estão as metáforas? - questionou-se.

Enquanto ia rabiscando algumas ideias, à sua volta volteava qual borboleta a sua neta Maria. Uma menina traquina, como são todas as crianças, mas esperta e vivaça.

A menina brincou com os bonecos, passou em seguida para os livros de colorir e foi aí que o avô olhando a cachopa teve uma ideia.

Colocou o quadro em causa a preencher todo o monitor do seu portátil e virando este para a neta, perguntou:

- Olha Maria… o que vês aqui?

A criança desviou os olhos dos livros e mirando o desenho que o avô lhe mostrava, respondeu:

- Bolas, bolas, tantas bolas…

O escritor virou então para si o computador e riu-se com gosto. Nada como a inocência de uma criança para ver o mais simples da arte.

* Título original do quadro

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em Flor,  Cristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

"Cabelo perseguido por dois planetas" de Joan Miró

Resposta ao desafio da Fátima

 

O sábado estava convidativo a uma caminhada pela cidade condal. Beatriz aproveitou uns dias livres na galeria e foi com Malquíades passear. Eva dormia no carrinho que o pai empurrava.

O passeio iniciou-se na praça de Espanha, passaram pelo Palácio Nacional sem entrarem e subiram a Montjuic. Cruzaram-se com muitos casais quase todos com três infantes. Malquíades deu um pequeno toque no braço da namorada e observou:

- Ainda nos faltam dois...

Beatriz riu também para logo acrescentar:

- Para isso é necessário que vivas cá! Se com uma filha já te queixas... como seria com três!

Apanharam então a avenida Miramar com o intuito de descerem até Barceloneta através do teleférico. De repente a pintora puxou o braço do namorado e disse:

- Anda vamos visitar a Fundação Joan Miró.

- Achas que vale a pena?

- Espero que estejas a brincar... Só podes...

Perdida a competição Malquíades entrou no edifício dando logo de entrada com uma enorme tapeçaria. Depois foi deambulando por salas e mais salas. Beatriz parecia realmente feliz enquanto o namorado parecia estar a viver um frete.

- Amor vem aqui ver este quadro...

Empurrando o carrinho onde Eva ainda dormia, Malquíades aproximou-se de uma tela mais alta que ele e calou-se. Foi a namorada que avançou:

- Lê o título do quadro...

Malquíades leu em voz alta:

- "Cabello perseguido por 2 planetas"...

- Que me dizes deste quadro, hem?

- A sério... queres que comente isto?

- Claro...

- Prefiro não o fazer... Tu não irias gostar.

- Vá, diz lá...

O jornalista suspirou e devolveu:

- O tipo metia para a veia com toda a certeza... E era com a seringa das farturas que tem dose maior...

Beatriz quis rir, mas depois respondeu:

- Não sejas assim... Não percebes esta beleza?

- Sinceramente? Não!

- Então vá eu explico...

Após uma pausa:

- Um cabelo refere-se a quê? Tu ao escreveres também usas metáforas... o pintor faz o mesmo. Portanto um cabelo será o quê?

- Uma pessoa.

- Certo ou o ser humano... Pode ser?

- Pode!

- Os dois planetas serão assim?

Malquíades pensou para responder:

- Terra e Lua...

- Portanto o homem vive obsecado e quiçá perseguido pelos astros.

- Então e o resto da tela tão grande?

- Representa todo o Universo. O desconhecido, a dúvida, o medo...

- E aquela bola alaranjada será?

- O nosso Sistema Solar...

Malquíades pegou então no carrinho com a criança deu meia volta e disse à namorada:

- Enquanto divagas por aí eu e a Eva vamos lá fora ver de que cor é o nosso céu...

 

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"Ilustração de Moda" de José de Almada Negreiros

Resposta ao desafio da Fátima

 

Pairava na sala um silêncio estranho. Nem era bem algo imposto, mas tão somente uma ausência de diálogo.

Lurdes sentada num canto do sofá olhava o lume que crepitava forte em labaredas sempre desiguais, quentes e acolhedoras. Na mão direita uma caneca de chá de erva príncipe que já estivera quente.

No lado oposto a esposa, a Lúcia. Esta tornara-se uma jornalista com nome firmado no meio. Bonita e corajosa raramente temia um oponente. Lia um livro para, de vez em quando, olhar para o lado contrário tentando perceber a esposa. Ou entender o silêncio quase sepulcral.

Foi o seu impulso momentâneo que destruiu a quietude de palavras:

- Que tens Lurdes?

A outra olhou-a com carinho e devolveu:

- Desculpa este mutismo, mas ando preocupada com o futuro…

- De quê?

- Meu… nosso… enfim!

A outra ergueu-se num salto do seu lugar e temendo algo insistiu:

- Explica lá isso que agora disseste…

A outra percebendo que não usara as palavras correctas tentou emendar:

- Estou preocupada com o nosso futuro em termos profissionais…

- Mas porquê… que te falta? Tu sempre foste muito boa na área da moda…

- Eu sei que sim, mas ando longe de novas criações… e ainda por cima tenho em breve um novo desfile.

Lúcia suspirou de alívio e aconchegando-se a Lurdes animou-a:

- Tu de um momento para o outro descobres a pólvora… Fazes sempre assim!

A outra avançou:

- Já fiz roupa de quase todos os materiais chamando a atenção das pessoas para os diversos problemas… desde plásticos a latas fiz de quase tudo. Mas agora faltam-me ideias.

- Verás que não tarde nada surge-te uma coisa fantástica.

- Ai não… não sai nada!

Lúcia num dos seus repentes levanta-se do sofá e segue para o enorme escritório onde liga o computador e após alguma pesquisa diz:

- Lurdes, vem aqui querida… vê isto!

A outra ergueu-se do sofá e colocando os braços à volta da sua amada:

- Diz lá…

- Olha para este quadro de José de Almada Negreiros… que me dizes?

A outra olhou-o com algum interesse para depois devolver:

- Essa é a “Ilustração de Moda” assaz conhecido.

- É só isso que sabes dizer?

- Não… Ela é muito magra e ele tem cara de fuinha.

- Ideias? Nada?

- Sim sim surgiu-me agora uma…

- Então qual é?

- Vou desenhar roupa para gordos!

 

 

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"O Beijo" de Gustav Klimt

Resposta ao desafio da Fátima

Cumprimentaram-se de forma fria e sentaram-se frente a frente.

Àquela hora da manhã a Praça Navona, em Roma, era um lugar quase vazio. Um dos homens puxou de uma pasta e mostrou o interior repleto de notas de 500 euros ao oponente.

- Tenho um negócio a propor...

- Mas eu não entendo nada de negócios... sou em mero reformado!

- Um estranho reformado que viajou para Itália em jacto privado.

- Mossad, CIA, Interpol?

- Nada disso. - e avançou - represento alguém abastado que requisita os seus especializados serviços.

- Não imagino como o poderei ajudar?

- O meu patrão quer que pinte uma réplica perfeita de um quadro famoso. Sei que o fez com um de Van Gogh e outro de Goya e muitos de menor importância.

O falsificador levantou-se, pegou no chapéu de chuva e preparou-se para partir quando escuta:

- A ideia não é só fazer uma cópia, mas substituir a falsificação pelo original!

A ideia súbita de ter uma quadro pintado por si exposto, mesmo sendo uma cópia, fê-lo pensar. Todavia temia que as autoridades o voltassem a perseguir como acontecera outrora e já não tinha paciência para tais sarilhos. Assim antes de responder foi questionando:

- Como sei que não é da polícia?

- Não sabe! Por isso o melhor será mesmo confiar. Mais... não creio que as autoridades tivessem coragem de andar na rua com tantos milhões numa mala... como eu!

O pintor ficou a olhar o oponente que continuava sentado, tentando perceber onde começava a verdade e acabava a mentira. Preferiu ainda assim abandonar o encontro.

- E se fosse "O Beijo" de Gustav Klimt? - ouviu já longe.

Estacou. Virou-se e aproximando-se do opositor declarou de forma peremptória e de dedo em riste:

- Esse quadro é o único que nunca falsificarei... Nunca! O seu chefe que tire daí o sentido...

- Pode ao menos explicar porquê?

- Porque esse quadro, caríssimo senhor, representa o amor genuíno de um homem e uma mulher e tudo representado num singelo beijo. Por muito que eu tentasse jamais o conseguiria falsificar porque há demasiado sentimento nessa tela!

O interlocutor nada disse, mas quando tentava convencer o pintor, escutou deste:

- Bom dia e passe bem!

 

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"El sueño" de Frida Khalo

Resposta ao desafio da Fátima

 

Sonhei que tinha morrido.

Agora que estou de novo acordada, queria demais que o sonho fosse realidade.

Sonhei que tinha partido.

Neste momento em que olho para esta cama que me detém, queria sublimemente que aquele fosse verdadeiro.

Há quase trinta anos que descobri que tinha esclerose múltipla. Comecei por coxear, depois canadianas, mais tarde cadeira de rodas para agora aqui estar imóvel, a sonhar a todo o momento que a doce negra me leve e deixe, por fim, descansar quem cá fica.

Sei, no entanto, que ela paira algures por aí. Pode dormir comigo aqui a meu lado ou no beliche de cima, todavia ainda não teve a ousadia de me levar. Preciso outrossim de paz, necessito que aqueles que me rodeiam repousem destes anos de amarguras.

Porque eu…. eu já fui o que não sou agora. E sempre acreditei no milagre de uma suposta cura... Triste e pobre crença.

Sonhei que corria.

Para perceber que as minhas pernas hoje são mais empecilhos que alegrias. Que os meus braços são mais cepos que força.

Sonhei finalmente que vivia.

Morrendo!

 

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"40 anos" de Fátima Mano

- Mããããããiiiiiiiii ó mãããããããiiiii!

Isabel apareceu em tom aflito no quarto do filho, tentando secar as mãos a um pano.

- Que se passa Zé? Que gritaria é essa?

- Desculpa mãe, mas estou aqui com um problema e não consigo antever uma boa solução.

- Então qual é o problema?

- A professora Fátima entregou-nos este quadro para escrevermos um texto sobre ele… O que nos vier à cabeça…

A mãe olhou com interesse a pintura de Fátima Mano para finalmente dizer...

- Não vejo onde estará o problema. Olha… descreves o que vês…

- Achas isso fácil, mãe?

- Então não é? – depois arriscou – e o que escreveram os teus colegas?

O jovem fez um gesto de enfado perante a questão materna para finalmente responder:

- Oh… cada um diz sua coisa. Por exemplo a Ana de Deus viu o quadro de uma forma, a Ana Mestre de uma completamente diferente. O João-Afonso escreveu uma coisa ainda mais estranha, a Olga pior ainda…

- Que mal é que isso tem? Cada um vê as coisas de uma maneira muito própria. Então a Célia, a Maria Araújo, a Luísa, por exemplo?
- Essas escrevem tão bem que nunca percebo o que querem dizer…

- Então a culpa é tua que lês e escreves pouco… Eu bem que te aviso.

- Vá lá mãe… não sejas chata… pareces a Mia e a Cristina.

- Porquê?

- Porque elas estão sempre a dizer isso… que leio pouco… Então a Charneca em Flor

- Quem? Essa não conheço.

- Também não conheces a bii yue ou a Peixe Frito também minhas colegas e bem fixes por sinal.

- E os outros não são?

- São mas…

- Mas o quê? Escreve mas é esse texto que estou quase a acabar o jantar.

- Bem fizeram a Sam e o setepartidas.

- Que fizeram eles?

- Não posso dizer… é confidencial!

"O Grito" de Edvard Munch

Resposta ao desafio da Fátima

Naquela manhã Rafael acordou completamente transfigurado já que havia qualquer coisa no seu espirito ou alma ou fosse onde fosse que o fazia sentir-se… vazio. Nunca se sentira daquela maneira. Por isso manteve-se na cama até mais tarde no intuito que aquele mau estar eventualmente passasse.

Quando por fim se levantou sentiu o quarto a rodar à sua volta como se estivesse profundamente ébrio. Respirou fundo, tentou acalmar-se e pretendeu encetar os primeiros passos em direcção à casa de banho. Não foi capaz.

Sentou-se na beira da cama e enfiou a cabeça entre as mãos e sem que desse por isso as lágrimas começaram a cair em profusão. Desconhecia porquê...

Não tinha nenhuma dor, unicamente aquele aperto no peito que quase o não deixava respirar. Voltou a tentar encher os pulmões, mas estes recusavam-se.

Estava sozinho em casa. A mulher saíra para fazer umas compras e inexplicavelmente teve medo, muito medo.

Com um esforço quase titânico arrastou-se para a sala. Não ligou a televisão, nem a aparelhagem. Não desejava ouvir ninguém, só queria silêncio. Fechou os olhos e de repente cresceu uma vontade de… morrer! Ou de, pelo menos, sair dali para fora...

Quando a mulher chegou foi encontrar o marido deitado no sofá numa posição fetal. Estranhou:.

- Rafael, Rafael… o que se passa?

Não respondeu! Ela insistiu:

- Amor, querido, que se passa?

Finalmente:

- Não sei… deixa-me morrer! Por favor...

Elsa assustou-se, pegou no telemóvel e ligou para um amigo de ambos que era psiquiatra que logo se disponibilizou para ir ver Rafael. Rapidamente o médico diagnosticou uma depressão. Profundíssima e consequentemente requereu muitos cuidados e terapia.

Rafael começou a ser medicado e em breve perceberam-se evidentes melhoras. No entanto não podia falhar um dia que fosse os comprimidos que paulatinamente foram sendo incrementados. Certo dia disse Rafael ao seu médico e amigo:

- Preciso acabar com tudo isto… – e apontou para a prescrição médica.

- Não conseguirias viver sem eles – o médico pegou no papel e agitou-o no ar.

- Haveria de conseguir…

- Falar é fácil… Mas pela minha experiência se parasses com isto em poucos dias estavas de rastos. Sabes… aproveita e vai passear. Enquanto andares por lá não pensas na doença.

Certa tarde Rafael folheava uma revista quando deu de caras com a lista dos melhores quadros do Mundo. Alguns conhecia bem, outros nem tanto e houve um que o marcou profundamente. Olhou o quadro impresso na revista e de repente disse a Elsa, que lia um livro a seu lado:

- Vamos a Oslo. Preciso de ver ao vivo “O Grito” de Edvard Munch.

- Porquê?

- Porque este quadro mostra tudo o que sinto… E como me sinto… Tenho um grito dentro de mim que não sei gritar!

- Mas esse pintor também não gritou...

- Pois não... mas desenhou-o.

 

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