O inspector Carmindo Novais era sempre o primeiro a entrar na enorme sala da brigada de Homicídios. Não suportava chegar atrasado e muito mais se aborrecia quando tinha de sair tarde.
A equipa com menos recursos humanos que os necessários, estava recheada de agentes muito competentes e esforçados. De todos talvez o chefe fosse o único de menor valia. Todavia tinha o cuidado de deixar a equipa trabalhar à-vontade, sem grandes receios dos directores acima de si. Muitos consideravam-no incompetente como polícia, mas assertivo como gestor de recursos humanos.
Carmindo sentou-se na secretária que em tempos fora de Valdemar, um inspector inteligente e profissional porém muito, muito flexível no que dizia à organização. Disse-lhe uma vez Benvindo da Cruz, o mestre dos disfarces quando deles se valia para recolher informações… especiais:
- Esta secretária é o local mais visível desta sala. Antes, com o Valdemar, eram os Himalaias de processos por fechar e arrumar, agora é o deserto Saahra sem um único papel. Os extremos tocam-se, bem dizia o outro!
O inspector ria-se, estendia a mão e recebia uma palmada, à moda americana.
No entanto a maior característica do inspector não era só a sua exigente pontualidade, mas a forma como se vestia. Diariamente Carmindo trajava um fato completo sobre uma camisa sempre alva que fechava com um par de botões de punho personalizados. Calçava uns sapatos clássicos sempre brilhantes de tão engraxados e com os quais alguns colegas ousavam brincar:
- Carmindo hoje esqueci-me do espelho… emprestas-me um dos teus sapatos?
Todos riam com a graça, até o próprio, que devolvia sempre com anormal classe.
- Pelo menos sempre ficarias mais bonito no sapato que num espelho verdadeiro!
Nova risada geral!
Certo, certo é que Novais tinha uma disciplina horária muito rígida. Levantava-se sempre muito cedo, arranjava-se para depois lentamente ir acordando as crianças. Diana, a esposa, já se adiantara e preparava o pequeno-almoço para todos.
Sentados à mesa as conversas variavam somente sobre os trabalhos da escola e os testes, pois Carmindo nunca trouxera para casa qualquer preocupação laboral, por mais grave que fosse o crime. Tudo e todos prontos metiam-se, por fim, no carro e eram distribuídos pelas diversas escolas. A última era a esposa que também tinha direito a uma boleia.
Assim quase sempre antes das oito da manhã estava à secretária a ler as novidades nos jornais.
Aquela manhã fora igual a tantas outras, com direito a investigação jornalística mas pouco credível, para após o almoço escutar o toque no vidro do gabinete do chefe. Uma mão chamou-o apressado e lá foi Novais no alto do seu metro e oitenta em passo lento.
- Boa tarde chefe!
. Boa tarde Novais! Temos um caso… Mas nem sei bem se deveremos intervir.
- Então vou para a secretária!
- Vais nada, pá! Um amigo meu trabalha como enfermeiro no INEM e foi há pouco convocado para uma paragem cardio-respiratória numa moradia no Restelo…
- Pensavas que eram só os pobres que morriam disso?
- Deixa-te disso e escuta. A dona da casa garante que não conhece o tipo, que nunca o viu, nem sequer imagina como foi lá parar.
- Então queres o quê?
- Pega aí numa dessas miúdas acabadinhas de chegar à brigada e leva-a contigo. Pode ser que a tipa se abra com a cachopa.
- De acordo, saio já! Mas não te esqueças que hoje tenho jogo e, portanto, vou sair mais cedo do que o costume.
- Como queiras… Só quero é que descubras o que se passou na casa.
Valdemar não gostou nada da forma como a enfermeira se referiu ao defunto, no entanto deu para perceber que não seria pessoa simpática e muito menos querida. De súbito perguntou ao médico que consigo descia as escadas:
- Dr. conseguiu encontrar alguma identificação do tipo? – e lançou a cabeça para o lado apontando para a vítima.
Não escutou qualquer resposta. Já na rua ambos retiraram as máscaras e respiraram com gosto o ar poluído da cidade.
- Nunca pensei gostar tanto de respirar ar poluído… Safa que aquilo estava agreste.
O médico provavelmente habituado a este género de odores apenas respondeu à primeira questão:
- Ninguém encontrou qualquer identificação. Nem um recibo de luz, água, qualquer coisa… E agora posso mandar levar o corpo?
- Sim, sim. Talvez passe mais tarde pela morgue.
- Se passar leva logo o tal anel!
- Isso, obrigado.
Um cumprimento simples e cada um seguiu o seu caminho não sem antes Valdemar avisar os elementos do INEM para levarem o corpo para a morgue.
Pegou então na bicicleta e estava para atravessar a fita delimitadora quando ouviu uma voz.
- Senhor, senhor…
O Inspector levantou a cabeça e percebeu que uma jovem agitava o braço para si. Aproximou-se já dos poucos mirones e questionou:
- É comigo?
- Não sei se é consigo… O senhor é polícia?
- Sou o inspector encarregue deste caso. Porquê?
- Sabe o que aconteceu ali?
- Sei mas não posso dizer… como imagina!
- É que ali vive um tio meu… de quem não sei nada há umas semanas…
Valdemar abriu os olhos e pegando no braço da jovem puxou-a para o seu lado.
- Em que andar mora?
- Mora no segundo esquerdo…
O inspector levou a mão à cabeça, olhou em redor em buscar de um sítio para se sentarem e encontrando um banco ali ficaram ambos.
- Encontrámos um corpo em avançado estado de decomposição nesse andar. Seria o seu tio?
- Oh não! – levou as mãos à cara e principiou a chorar.
Valdemar tentou amenizar a situação.
- Pode não ser ele!
- É certamente. Ele só se dava comigo pois era eu que lhe pagava as contas e lhe dava dinheiro para ele comprar o que necessitava. Como terá acontecido?
- Não sabemos menina… E como é que ele se chamava?
- Armelindo Lobato!
- Hummm! – pegou numa caneta e num papel e escreveu o nome.
Para logo a seguir insistir:
- Que idade teria?
- Praí uns 55 a 60 anos… Não sei bem… Só perguntando à minha mãe.
Agora seria a pergunta para a qual já sabia a resposta:
- Ele teria inimigos?
- Nem amigos ele tinha quanto mais inimigos!
Levantou uma nova questão para a qual também sabia a resposta, mas necessitava de uma confirmação:
- Sabe se ele fumava?
- Fumava e muito… Quase todo o dinheiro que lhe dava era para tabaco e bebida… Era um desgraçado. Tenho tanta pena dele.
- Sabe se era casado?
- Casado? – deu uma gargalhada semi triste. Devolveu:
- Quem gostaria de um homem assim?
- Pois não sei… A verdade é que tinha uma aliança no dedo!
- Uma aliança? Então não é o meu tio, com toda acerteza.
Valdemar passou a mão pela cabeça e vendo o corpo a entrar na ambulância sugeriu:
- Será capaz de o identificar?
A jovem pegou no lenço de papel, assoou-se, respirou fundo e aceitou o desafio:
- Claro! Mas creio que não será ele…
- Como é que tem a certeza disso?
Novo suspiro:
- Porque… porque… - gaguejou – o meu tio era homossexual…
Municiado com diversas máscaras no bolso e tendo colocado duas na face, entrou decidido no vetusto prédio. De início não sentiu o cheiro, mas depressa as máscaras foram impotentes para tamanho pivete. Todavia era o seu trabalho. Nos diversos patamares foi encontrando agentes da polícia que o cumprimentaram quase enojados com o cheiro. Quando chegou ao segundo andar ficou à porta e recebeu o primeiro choque não evitando uma expressão mais forte:
- Porra! O que é isto?
O maior realce estava no chão completamente atapetado de beatas de cigarro há muito fumadas. Não se conseguia ver o soalho verdadeiro. Como o pé foi raspando até encontrar o fundo que exposto estava obviamente negro e queimado.
Entrou devagar e o odor que mesmo com máscaras lhe chegava às narinas era quase insuportável. Uma passagem para uma sala sem porta, todavia reparou nas dobradiças ferrugentas e partidas. A sala parecia grande especialmente pelo aspecto minimalista. Encostado à parede do fundo uma velha televisão estava ligada, mas sem som. Do lado oposto um sofá em muito mau estado, um corpo morto e um especialista de volta deste. Vendo Valdemar acenou com as mãos evitando respirar aquele ambiente.
No entanto o inspector necessitava de respostas às questões que a sua mente sempre tão activa discorria. Assim aproximou-se do cadáver e mirou-o atento. Aquilo não era bonito de se ver, nada mesmo, mas não podia retirar dali o corpo sem uma inspecção atenta. Finalmente perguntou:
- Há quantos dias terá morrido?
O outro ergueu três dedos.
- Três dias?
A mão enluvada fez sinal negativo.
- Três semanas?
Finalmente tremeu numa dúvida e Valdemar percebeu que se aproximava mais da data da morte. Insistiu:
- Alguma causa evidente de morte?
Nova negação com a mão.
Valdemar olhou para algo e virando para o médico legista perguntou:
- O que é isso nessa mão? Parece um anel..
Um polegar para cima confirmou a ideia do inspector.
- Consegues tirar?
Nova negação!
- Ok! Depois envia-me essa aliança para mim. Pode ser importante. Vou ver o resto do apartamento.
O médico ergueu-se e fez um sinal para que não fosse. Só que o inspector não gostava de deixar as coisas para trás e seguiu por um corredor. O chão continuava macio de pontas de cigarros e ao fundo à esquerda entrou no que parecia ser a cozinha. Quase deu um salto.
- Safa... parece uma estrumeira! Como pode alguém viver num sítio destes.
Continuou a inspecção e quando saiu encontrou o médico legista que também abandonava o local. Chegados ao patamar das escadas encontrarem uma jovem que carregava uma mala às costas. O inspector estranhou aquela personagem, mas lembrou-se da vizinha acamada. Por isso apenas perguntou:
- Vem para a D. Efigénia?
- Venho sim… Lá na Associação estamos sempre a vê-la de forma remota, mas hoje parece mais agitada que o costume. Daí estar aqui… Já agora que se passou e que cheiro pestilento é este?
- O vizinho… da frente…
- Morreu?
- Sim, parece que há umas semanas e ninguém deu por nada! Alguma vez se cruzou com ele?
- Raramente e cruzei-me sempre que ia a descer e ele vinha a subir.
- Ele algumas vez disse alguma coisa?
- Sinceramente?
Valdemar estranhou a última questão e só soube dizer:
O monte de processos e demais papelada teimava em não desaparecer. Anos e casos a mais sem relatórios e, pior que tudo, sem arquivo. Agora Aquiles dera-lhe apenas uma semana para limpar a secretária… Com a condição de não ser chamado para nenhum caso. Apenas um trabalho das nove ás cinco da tarde que Valdemar olimpicamente detestava.
Tocou o velho telefone algures na mesa, escondido sob arráteis de papéis. O aparelho calou-se. O inspector suspirou para logo a seguir:
- Valdemar! – soou em toda a sala.
O inspector ergueu-se por detrás de um monitor do tempo jurássico e respondeu:
- Diga chefe!
- Porque não atendes a porra do telefone?
- Já lá ía…
- Vem ao meu gabinete, rápido!
O jovem inspector detestava aquele tom de voz e preparou-se para algo que certamente não iria gostar. Entrou no aquário de vidro e alumínio, fechou a porta devagar e aguardou:
- Preciso de ti para um caso…
- Mas o chef…
- Eu sei, eu sei… mas este caso precisa de ti! - interrompeu.
- Fónix Aquiles assim nunca mais despacho aquela papelada.
- Pega nas perninhas e vais a esta morada… Esperam-te lá. Se quiseres um carro leva-te, sempre chegas mais depressa.
Valdemar olhou a morada, arregalou os olhos e exclamou:
- Olha esta rua é duas acima da minha. Vou na minha bicicleta.
- Vai, desanda daqui.
No fundo o inspector estava feliz. Odiava papéis e sair daquela sala era uma alegria. Todavia não o poderia confessar ao chefe. Desceu as escadas e saiu até à rua. Tirou a chave do cadeado do bolso, destrancou-o e saltou para o selim da sua bicicleta. Num ápice chegou ao destino.
Como previa uma multidão rodeava o círculo que a polícia fizera com fitas azuis e brancas. Do outro lado da rua carros de Bombeiros, uma ambulância do INEM e diversas viaturas da Polícia. Foi passando devagar por entre os mirones puxando a sua duas rodas até que se aproximou do limite. Como de costume perguntou:
- O que se passou?
O olheiro do lado colocou a mão na garganta e num tom de voz esquisito respondeu:
- Apanharam um tipo a fumar dentro do prédio…
Valdemar ergueu o sobrolho e quase riu. Depois levantou a cinta e passou. Atrás de si escutou:
- Olhe que não pode passar…
Valdemar cumprimentou o primeiro polícia com um aperto de mão:
- Estás bom Gomes?
- Inspector… bom dia! Voltaste à Terra? Ainda por cima de bicicleta…
- Não gozes, pá, não gozes! Estava fartinho dos papéis. Ainda vou ter de agradecer ao criminoso. Sabes do que se trata?
- Um tipo que está morto há semanas e ninguém deu por falta…
- Obrigado!
Em passo decidido Valdemar aproximou-se do prédio onde à porta diversas pessoas trocavam impressões.
- Bom dia – de cartão identificou-se, para completar – sou o inspector Valdemar e algum dos senhores mora neste prédio.
Um homem alto, de cabelos alvos e voz firme avançou, respondendo:
- Moramos todos. Fui eu que chamei os Bombeiros devido ao mau cheiro…
- Muito bem. Em que andar está o corpo?
- No segundo esquerdo.
- Obrigado! E enquanto o corpo não for levado não devem entrar. Desculpem o incómodo, mas tem de ser assim.
O idoso morador ainda acrescentou:
- Diga isso à D. Efigénia que está acamada há três anos!
Valdemar percebeu que gozava dele e voltando para trás encostou o dedo no peito do idoso e perguntou:
- Como é que sei que não foi o senhor que o matou?
O velho engoliu em seco, arrepiou caminho e num ápice percebeu que falara demais e devolveu:
- Desculpe senhor inspector!
- Assim que me despachar eu aviso.
Um bombeiro vinha a sair de máscara na cara. Valdemar interpelou-o:
- Tem alguma máscara para mim?
- Não, acabaram-se… Mas olhe que vai precisar… aquilo não está fácil!
Valdemar abanou a cabeça contrariado e aproximou-me de uma patrulha.
- Tem uma máscara que me dê?
O agente olhou-o, mas não o conhecendo, perguntou:
- Para que quer a máscara?
Valdemar quase que espumava de raiva e mostrou o cartão de inspector: