João percebe movimento no corredor. Estremunhado imagina ser um sonho, para no instante seguinte escutar conversas em surdina.
Devagar acorda a mulher e faz-lhe um sinal de silêncio e pede para se levantar. Depois ambos escondem-se atrás da porta do quarto. No corredor continua um diálogo em tom muito baixo mas que ainda assim o pai consegue escutar:
- Vai tu Santiago és o mais velho...
- Não posso, vai o Simão que é o mais novo!
- Não quero, tenho medo!
- Pronto vou eu - avançou Salvador.
O rapaz do meio entra no quarto meio escuro, todavia encontra a cama vazia. Recua e nem sequer repara nos pais escondidos.
- Não estão cá!
Os miúdos olham-se e temem o pior. Simão palpita:
- Foi o Pai Natal que os levou?
- Deixa-te de ideias parvas miúdo. O Pai Natal não existe, pá!
- Existe sim... eu já o vi!
- Viste nada, os pais levantaram-se mais cedo e devem ter ido para baixo.
Os três rapazes de 12, 9 e 5 anos descem as escadas e aparecem na cozinha. Mas pelo caminho reparam que tudo está ainda em silêncio devido à hora madrugadora. Voltam para cima.
É neste vai vem que acabam por encontrar os pais. A mãe estende os braços para os filhos e eles caiem-lhe em cima numa alegria contangiante.
- Bom dia meninos, Feliz Natal!
- Feliz Natal mamã! - gritam em uníssono.
Depois é a vez do pai receber os cumprimentos matinais dos seus rapazes e por fim descem para preparar o pequeno-almoço. Mas o mais importante estava ainda por vir. As prendas no sapatinho...
- Mamã quando vamos abrir as prendas?
- Daqui a nada! Primeiro vamos comer e depois vamos ver as prendas.
A refeição corria melhor do que o esperado já que as crianças estavam em pulgas para verem o que o Pai Natal lhes teria deixado. Faltam apenas os dois primos e os tios sempre dorminhocos e atrasados.
Quando todos se juntam alguém declarou:
- Vamos lá ver então as prendas que o Pai Natal deixou no sapatinho de cada um!
Entram na sala, mas surpresa das surpresas não havias dezenas de embrulhos como era hábito em anos anteriores. Ao invés as cinco crianças apenas acharam um embrulho sob cada sapato. A prenda parecia grande, mas não havia rigorosamente mais nada.
Entre o assustado e o admirado cada criança olhou para certificar-se que os outros ao seu redor estavam nas mesmas condições.
Foi Santiago que afoito começou a rasgar o papel de embrulho. As outras crianças imitaram-no. Papel desfeito o menino abriu finalmente a enorme caixa de papelão. Olhou para dentro dela e logo duas lágrimas cairam pela face. Sentou-se no chão e esperou a reacção dos outros.
Para todos as prendas foram iguais e abertas as caixas havia um coro de lágrimas, até que Salvador ergue-se do chão e leva a caixa para junto do pai e da mãe, quase grita:
- Esta caixa está vazia! Não tem nada. Onde estão as minhas prendas?
Cinco tristes crianças olham para o pai e tio e aguardam a resposta à questão de Salvador.
Com calma João coloca-se estrategicamente no meio das crianças, para depois se agachar. Senta-se no chão ficando quase ao mesmo nível dos miúdos e finalmente espera que todos acalmassem nem que fosse com a ajuda maternal.
- O que encontraram nas caixas?
- Nada - respondem em uníssono. As caixas estão vazias.
- A minha também - avançou Benedita, a mais nova de todos.
- Pois é, foi de propósito!
- Porquê, porquê?
- Calma, eu explico se me deixarem! Estamos na época do Natal e assim todos os meninos e meninas pedem coisas ao Pai Natal...
- Eu só quero uma boneca... - insistiu Benedita.
João passa a mão pela cabeça da sobrinha e acaba por carregá-la para o seu colo. Para logo continuar:
- Mas há muuuuuuuuuuuuuuitos meninos por todo o Mundo como vocês que nem uma caixa sem nada tiveram direito. Nada! O Pai Natal para eles apenas existe como um boneco de uma bebida, pois sabem que ele nunca lhes trará nada. Portanto achámos todos aqui que estava na altura de todos vós sentirem o que sentem as crianças pobres.
Um longo silêncio paira na sala para o pai dizer:
- Santiago... gostei das tuas lágrimas.
As crianças olham umas para as outras em silêncio. João ergue-se do chão com a sobrinha ao colo e olhando em redor e recebendo dos crescidos a aprovação final abre a porta do quarto contíguo e anuncia:
- As vossas prendas estão aqui todas. Agora divirtam--se.
Num segundo a magia do Natal volta àquela sala e a confusão no quarto parece enorme. Para logo a seguir Santiago e Salvador chegam perto do pai e da mãe e declaram em tom quase solene:
- Tivemos prendas a mais. Vamos querer dar algumas das nossas a outros miúdos. Consegues tratar disso pai?
Assim que saiu do aeroporto Vera entrou no táxi e deu a morada de destino:
- Boa noite, é para a rua Nova do Calhariz, se fizer favor!
- Com certeza menina.
Chegou ao destino, pagou a corrida e dirigiu-se ao prédio de três andares e empurrou a porta de fora, mas esta não se abriu.
- Olha queres ver que o senhorio já a arranjou?
Contudo logo a seguir lembrou-se do segredo para abrir e experimentou. Bingo! A porta abriu-se sem esforço e Vera subiu os dois andares onde tocou à campainha.
Ouviu uma voz:
- Quem é?
- Sou eu a Vera – todavia estranhou não conhecer a voz da mãe.
- Desculpe, mas não sei quem é a senhora…
Atarantada Vera olhou em redor e percebeu que alguém a olhava pelo óculo da porta. Voltou a tocar:
- Diga!
- Não mora aqui a dona Odete?
- Mora sim!
- Ora eu sou a filha.
- Vou-lhe perguntar. Aguarde se faz favor!
Vera estava irritadíssima por estar a falar com alguém com uma porta pelo meio. Temeu o pior com a mãe.
Finalmente:
- A Dona Odete afirma peremptoriamente que não tem filha. Lamento. Passe bem!
Vera bufava! Virou as costas à porta, respirou fundo e lembrou-se da vizinha do rés do chão. Desceu as escadas do prédio e tocou à campainha. Do outro lado escutou passos e uma voz:
- Quem é?
Temendo igual desfecho do andar de cima, perguntou:
- É a dona Alzira?
- Sou!
- Sou a Vera, a filha da Odete do segundo…
Ouviu então a chave rodar e o trinco abriu-se!
- Olá Alzira, viva como está?
- Oh minha querida Vera. Ai meu Deus que já nem te conhecia… Faz tanto tempo que não te via. Mas entra, entra, não fiques à porta.
- Dez anos… mais ou menos – e Vera fez um gesto com a mão, sinal de incerteza, enquanto entrava na casa.
- Já dez anos? Parece que foi ontem…
- Desculpe maçá-la, mas vou directa ao assunto: passa-se alguma coisa com a minha mãe?
- Que eu saiba não. Porque perguntas?
- Porque fui lá bater, atendeu-me uma voz feminina que nem me abriu a porta e depois comunicou-me que a minha mãe nunca tivera uma filha…
Um silêncio ficou na sala onde ambas se sentaram. Alzira foi à janela confirmar se estaria fechada regressando para ao pé de Vera.
- Sabes… a tua mãe nunca perdoou a tua partida… Sempre pensou que estavas a fugir dela… E esse pensamento tem-na devorado.
Vera ergueu-se e conferiu a casa humilde. Um pequeno hall de entrada e na parede uma figura de Nossa Senhora. Percebeu também as decorações de Natal espalhadas por quanto o seu olhar alcançava. Numa trinchante encostada à parede uma fotografia a preto e branco de um homem que deveria ser o senhor Américo, marido de Alzira. Tudo aquilo era pobre, mas cheirava a bafio e a genuíno.
Virou-se para Alzira:
- O que disse tem um pouco de verdade. Quando acabei o meu curso superior tive a hipótese de fazer um estágio em Barcelona. O estágio seria pago e ainda com direito a estadia. Por isso parti aproveitando a oportunidade surgida. Depois, sim, fugi das suas garras sempre tão poderosas.
- Mas o que é que tu querias que ela fizesse?
- Eu tenho consciência… ela criou-me sozinha, sem pai. Mas não era razão para me prender. Sabe… - e fez uma longa pausa como se quisesse ganhar coragem – ela detestava esta época do Natal.
- Detestava nada.
- Recordo-me que um certo Natal fui passar uns dias com a minha avó Florinda. Quando entrei deparei-me com uma árvore de Natal e um presépio, lindo, lindo, lindo… cheio de figuras, uma ponte, um moinho, uma fonte.
- Lembro-me bem desses presépios…
- Pois… só que a minha mãe proibiu-me de o contemplar. E de tal forma o fez que mandou a minha avó desmanchar o presépio ou no mínimo colocar um lençol sobre ele, se não íamos embora.
- E a tua avó que fez?
- Disse que na casa dela mandava ela. E se a minha mãe queria ir embora que fosse.
- E ela foi?
- Não! Mas sobrou para mim. E desde esse dia nunca mais tive direito a viver o Natal como os outros meninos. Até na escola foi complicado…
- Imagino…
- Olhe, dona Alzira, agradeço ter-me aberto a porta, mas vou-me embora para o aeroporto a ver se apanho um avião de regresso a Barcelona. Detesto sentir-me a mais, sabe?
- Vera, querida, não faças isso! A tua mãe sofre muito com a tua ausência…
- Não parece… - e uma lágrima caiu na mão de Alzira que lentamente afagou os cabelos bonitos da menina que vira crescer.
- A minha casa é pequena, mas tenho uma cama para ti. Aguarda até amanhã. Deixa-me lá ir falar com ela.
- Não merece a pena D. Alzira… a sério. E agradeço muito o seu gesto. Feliz Natal!
Vera deu dois beijos na idosa, abriu a porta e saiu sem olhar para trás.
De regresso inesperado à cidade condal, a jovem assumiu a sua ruptura com a antecessora, um sentimento que a deixou profundamente triste, numa época que se diria de reconciliação. Percebeu que nada mais na sua vida a ligaria ao seu velho Portugal. Passaria a ser mais uma catalã, apenas com a nuance de ter nascido no país vizinho.
O tempo voou e um ano depois da viagem de Vera à cidade que a vira nascer, uma mulher descia o Passeig de La Gracia a caminho da Plaça de Catalunya. Empurrava um carrinho de bebé e parecia imensamente feliz, ao mesmo tempo que a criança de meses, olhava a miríade de luzes daquele início de noite fria.
O tempo de Natal espraiava-se por toda a cidade com muita luz, cor e outrossim muitas feiras alusivas à época, com centenas ou milhares de pessoas em busca de algo diferente para colocar num sapatinho.
A criança pareceu agitar-se no berço de rodas e a mulher colocou-se na sua frente e perguntou-lhe:
- Queres ver o presépio, queres? Sim?
O bebé sorriu como que consentindo na visita.
- Então ‘bora lá!
Odete atravessou toda a Plaça e entrou no bairro El Gotic.
Nos tempos antigos de usar calção, Saía a pequenada, das duas salas, Cantando afinados na emoção, Desafinados nas vozes engalanadas.
Corria pimpona a pequenada, Saltando em fintas alegres, “Aulas acabadas, férias começadas, Vamos para casa comer rabanadas.” Em dezembro pelos vinte e dois, ou e três, Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro Anunciava-se o quase, quase já, Do dia mais mágico do ano e do mês. Toda a pequenada abalava até casa Pegar em cestos e carrinhos Depois, entre mato e pinheiros, Colhia o melhor musgo p’r’ó presépio
Todos sabíamos de antiga tradição, Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha, Que aquele dia era de enorme encanto De fazer presépios no canto da sala. Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes, Nos outros dias do ano inteiro, Naquele dia incendiavam-se Como se lá se acendessem candeeiros. Ó meus amigos de antigas pernas nuas, Cobertas de picos e arranhões. Hoje olhamos pelas janelas da vida E tudo se desmorona aos atropelões.
É uma rua que se incendeia em novembro, É uma cantoria vendedeira pelas ruas, Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação De voz cansada rouqueja oh … oh… oh … Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções, De joelhos no chão a raspar musgo, Mataram o nosso Natal de sonho e magia, Sepultaram-no no féretro do tudo se vende e se compra.
Assim que Artur, com pouco mais de três anos percebeu do poder que exibia perante os pais, passou a usá-lo sem dó nem piedade e fosse onde fosse. As birras que criava por querer aquele brinquedo ou simplesmente por teimar em ficar no baloiço mais uns minutos enquanto outras crianças esperavam que ele saísse, envergonhavam o pai Tomás e a mãe Marília.
De tal maneira as cenas eram tão estremadas em frente dos pais que amiúde estes evitavam sair de casa.
Entretanto no colégio Artur era tido como um menino bem comportado e educado. Nada de birras nem reacções adversas aceitando com humildade as ordens que recebia das educadoras.
Os pais admiravam-se desta dupla postura e acabaram por recorrer a um pedopsiquiatra que explicou com muita teoria e alguns exemplos práticos que o filho era uma criança perfeitamente normal apenas procurava o seu espaço.
Feitos os quatro anos a personalidade não mudou. Ou se mudou foi para pior. Aproximava-se a época do Natal e certo dia a Marília perguntou ao filho:
- Já sabes o que vais queres no Natal?
- Sim mãezinha…
E logo despejou um rol de desejos, a maioria só porque vira na televisão. A mãe escrevia a lista ciente que nem metade ele teria, mas enfim… era uma criança… deixá-la sonhar!
O Natal crescia em passos gigantes quando Tomás e Marília decidiram levar o filho a uma feira muito conhecida e imensamente divertida para crianças e pais. Ali chegados a pé depois do carro ficar a um quilómetro de distância Artur percebeu que os pais não o haviam enganado. Tanta luz, cor, música e meninos.
Porém no primeiro carrocel Artur não pretendeu esperar como as outras crianças e respectivos pais e esgueirando-se por entre a multidão infantil e mais crescida foi-se sentar num cavalito de madeira. A equipa percebeu a intrusão e logo solicitou em voz alta:
- O responsável por este menino, onde está?
Tomás demasiado envergonhado apareceu a receber o filho que logo ali perante todos fez uma birra descomunal. A organização e outras crianças deixaram que ele lhes passasse à frente e logo que se sentou, Artur sorriu.
Assim que acabou o menino quis mais, mas foi a vez do pai impor a sua vontade, dizendo:
- Artur já me fizeste passar uma vergonha. Não passarei outra. Portanto se pensas em fazer nova cena, ficas aí sozinho que eu e a tua mãe vamos embora. Grita, barafusta, mas não nos procures.
E virando costas e puxando pelo braço da mulher saiu dali. Artur percebera que esticara em demasia a corda e agora esta partira-se. Assim ergueu-se do chão e partiu a correr atrás do pai e da mãe que quase se misturavam na multidão. Finalmente sossegado viu as barracas onde quase tudo se vendia. Mas quando se aproximou do algodão doce num instante esqueceu a ameaça do pai e pretendeu exigir.
Tomás em profundo mutismo, continuou o seu passeio pela Feira de Natal, sem ligar aos pedidos do filho, até que chegou a um local onde numa enorme e iluminadíssima cadeira se sentava… o Pai Natal. Este estava vestido todo de vermelho que contrastava com os seus cabelos brancos que se alastravam até à barba.
Lá conseguiu a permissão de se sentar ao lado do Pai Natal e desta vez aguardou na fila como os outros.
Quando chegou a sua vez aproximou-se devagar do homem gordo e alto e sentou-se a seu lado. O velhote simpático perguntou-lhe:
- Como te chamas?
- Artur!
- Quantos anos tens?
- Quatro!
- Muito bem e agora dá cá um abraço ao Pai Natal…
O rapazito levantou-se do pequeno banco e aproximou-se ainda mais do bom velhote. Mas naquele instante a sua malvadez fez com que agarrasse as barbas do idoso e as puxasse para baixo. Depois exclamou:
- A barbas não são verdadeiras!
Mas no segundo seguinte a tenda onde estavam ambos fechou-se como por magia e as luzes apagaram-se ficando tudo num bréu. Artur viu-se sozinho e desatou num berreiro:
Da mesma maneira que se apagaram as luzes estas acenderam-se. Só que o menino não viu pai nem mãe e muito menos o tal Pai Natal a quem tentara arrancar as falsas barbas. À sua frente muitos meninos da sua idade, mas com ar muito travesso. Cada um tinha na mão um objecto que Artur percebeu serem iguais aos seus desejos.
Uma das crianças aproximou-se e mostrou-lhe um carro de bombeiros grande e muito engraçado:
- Foi isto que pediste ao Pai Natal?
Artur acenou afirmativamente com a cabeça e acto contínuo o outro menino desfez o brinquedo com os pés. Logo outro gaiato apareceu com um novo objecto:
- Pediste este?
Artur chorava agora e respondeu que sim. O outro despedaçou também o brinquedo. Um a um os brinquedos que Artur colocara na lista apontada pela mãe passaram pela sua frente e todos foram destruídos. Quando acabou a mostra o último menino travesso ordenou:
- Despe-te! Tira toda a roupa. Precisamos dela para dar a crianças que não têm nenhuma e que só pedem agasalhos. Vá despe-te…
Quando Artur se sentou no chão para principiar a descalçar, a luz voltou a desaparecer para logo surgir.
O mais fantástico é que Artur estava novamente ao colo de Pai Natal com a mão na barba. Porém em vez de a puxar o menino deu um abraço ao Pai Natal e correu por fim para os braços dos pais.
Na noite de Natal à meia-noite Artur foi a correr abrir as prendas e viu o que pedira inteiro e imaculado. Brincou, divertiu-se para no fim, já noite fora, adormecer no sofá enrolado, não ao carro de bombeiros que tivera direito, mas a um Pai Natal que retirou do pinheiro iluminado.
Horácio deu conta da porta da rua abrir-se ao mesmo tempo que o velho relógio de pé da entrada batia três badaladas. Admirou-se da hora tardia e confirmou com o velhíssimo relógio de pulso.
- Ena tão tarde e eu ainda sem nada esgalhado… Que chatice!
Passaram uns breves minutos quando escutou:
- Boa noite pai, ainda a pé?
- Boa noite filho… é tarde é… mas ando às voltas para escrever um conto de Natal e ainda não saiu uma palavra sequer!
- Isso acontece não te maces. Deitas-te e amanhã escreves uma estória num ápice, logo pela fresquinha!
Sorriu à confiança do filho no seu desembaraço, mas ousou contradizê-lo:
- Isto do Natal já foi mais fácil escrever!
- Então porquê?
- Porque já se escreveu sobre tudo e mais alguma coisa nesta época. Desde o Dickens…
O filho rodeou a secretária do pai, sentou-se do outro lado do móvel naquela velha e pesada cadeira de pau-santo e dispôs-se a ter aquela conversa.
- Achas mesmo?
- Ai rapaz detesto esses achismos que usas, mas pronto hoje alinho: acho!
- Pai, o Natal é muito mais que comércio selvagem! E também sei que não concordas nas crenças religiosas!
- Tenho consciência disso tido, mas responde-me lá: a quem interessa verdadeiramente o Natal?
O jovem pegou nuns papéis depositados no tampo da secretária, juntou-os e finalmente entregou-os ao pai quase como fosse uma oferta. Por fim acrescentou:
- Há dois tipos de Natal… Provavelmente haverá mais, mas dois existem de certeza.
- O Natal dos Hospitais e o Natal dos Hotéis…
- A sério pai… a brincar com isso? – O tom de voz parecia ter mudado.
- Desculpa tens razão! Nunca fui adepto destes dias recheados, dizem, de tanta coisa e depois vai ver-se e não é nada! E também esse tal de espírito de Natal!
O jovem ergueu-se da pesada cadeira e foi dar uns passos pela enorme sala que servia também de escritório, parou defronte da enorme pintura que diziam ser do seu bisavô que ninguém conheceu e voltando-se para o pai:
- Sabe quem foi este atrás de mim?
- O teu bisavô Segisnando!
- Tem a certeza?
Um silêncio escondeu a dúvida. Horácio acabou por responder:
- Como posso ter a certeza se não o conheci? Quem o conheceu, e por pouco tempo, foi o teu avô já que ele morreu ainda relativamente novo. Creio com a pneumónica!
- No fundo o Natal é assim como este teu antepassado… Sabes que existiu, mas nunca o viste…
O pai ergueu a cabeça para finalmente pedir um ponto de situação:
- O que é que esse avô tem a ver com o Natal… Não entendo… Provavelmente deve ser da hora tardia.
O filho esboçou um sorriso para devolver:
- Tu necessitas escrever sobre o Natal e eu estou a mostrar pistas para o fazeres.
- Ai… Cada vez percebo menos…!
- Pai… imagina como seria o Natal deste teu avô? Mais imagina como seria o Natal dos pobres dessa altura?
O antecessor levou a mão à cabeça e por via das dúvidas tentou esclarecer:
- Estou tão baralhado que não percebo como começámos para acabar neste ponto…
- Mas eu sei pai!
- Estou a ver que sabes mais que eu!
- Sabes onde estive até agora?
O pai ergueu o olhar pesado para o filho. Depois respondeu:
- Não sei, nem tenho nada que saber! És maior e vacinado…
- Pronto ficas agora saber: faço parte de uma comunidade de voluntários e andamos a distribuir comida e agasalhos aos sem-abrigo, durante toda a noite.
- ‘Tás a gozar…
- Eu não brinco com isto, pai. Faço-o há muito tempo e não só na época do Natal. Ou melhor… diria que faço com que o Natal aconteça durante todo o ano.
O velho não respondeu. Continuou:
- Creio que gostarias de um dia ir comigo... Talvez olhasses para esta festa de forma bem diferente...
Num momento seguinte o jovem visou atentamente o pai, mas Horácio estava ora longe pois esgalhava freneticamente esta estória!
Após o demorado almoço decidi apresentar aos meus amigos os restantes animais! Já haviam conhecido as galinhas e os coelhos, mas faltavam aqueles com quem andava diariamente pelas charnecas e lameiros.
Fomos a pé, todos be⁸m agasalhados que o frio por aqui não é para brincadeiras. Por vezes até neva! Estava ainda longe do curral a já escutava o balir triste das ovelhas todo o dia presas.
Os borregos foram obviamente a sensação e os alvos preferidos das miúdas. Ficaram mais tristes quando lhes comuniquei qual o destino provável das crias. Mas eu também tinha de ter algum rendimento.
A tarde tornou-se plúmbea por uns algodões celestiais vindo da serra. Comuniquei:
- Não seria pior irmos para casa? Não tarda chove e está muito frio.
Já entre paredes iniciámos a preparação da célebre consoada. Na horta a tardoz cortei algumas couves que trouxe para casa num braçado gigantesco.
- Ai tanta couve... Mas vem cá mais gente? - perguntou Isabel num sorriso maroto.
- Não, mas prefiro que sobre a que falte. E se sobrar vai para as galinhas... Aqui nada se desperdiça!
O curioso desta tsrde foi a postura de Joca... Estava distante, afectuoso, mas diferente! Assumi que fosse da emoção, mas em breve perceberia o porquê:
- Precisamos falar!
- Mau rapaz... que tom de voz grave é esse? Que se passa?
- Podemos ir para ao pé da lareira enquanta elas tratam da janta?
- Claro... Mas estás a deixar-me preocupado.
- Não te preocupes... é que é Natal e não sei o que gostas... e vai daí não te trouxe prenda nenhuma para te oferecer. Tenho para as miúdas e para a Isabel, mas tu...
- Oh homem... deixa-te disso! Não quero nada! Como vês não tenho televisão, computador, nem telefone fixo. E só tenho telemóvel porque posso precisar de ajuda quando ando por lá sozinho!
Depois apontei um velho aparelho:
- À noite oiço umas notícias naquele velho rádio e mais nada! Os livros que me mandas chegam!
- Pronto antes assim mas estava preocupado.
Num cagagézimo de segundo mudou a postura:
- E escrever, hem? Quando começamos?
Ri.
- Estás a rir de quê?
Fui à gaveta e retirei o velho caderno e mostrei-lhe. João abriu-o devagar para logo exclamar:
- Uau que desenho mais bonito... Quem fez?
- Não imagino, mas isso que aí está escrito é a letra da minha avó Pureza. O desenho não sei se foi ela, mas desconfio que sim!
Continuou a folhear o vetusto caderno e parou no que eu escrevera. Leu devagar para logo perguntar:
- Falta o resto...
- Pois falta! - admiti - Necessito de inspiração.
- Puxa pelo bestunto, companheiro!
Mudámos de assunto até que lhe perguntei:
- E filhos, não queres?
A face mudou de tom e eu logo percebi que algo estava menos bem. Sem insistir mudei de conversa:
- Desculpa lá, dá-me aí esse tronco se fizeres favor. Está-se aqui bem, não está?
- Não posso ter filhos...
- Tens duas meninas - apressei a devolver.
- Um problema qualquer que eu tenho... nem com tratamentos...
- Tem calma, não fiques triste... não estás só como eu...
Joca deu-me outro abarço e continuámos a matar saudades de outros tempos.
Finalmente a ceia. Ou Consoada. Que eu havia muitos anos não fazia questão em comer diferente. Mesa posta mais perto do lume e iniciámos o jantar.
Até que de repente tocou o sino da aldeia:
- A tocar a rebate? - perguntou Isabel.
- Calculo que estarão a chamar os fiéis para a missa do Galo!
- Oh nunca fui a nenhuma...
- Mas podes ir hoje...
As meninas ficaram alvoraçadas:
- Podemos ir, podemos ir?
- Claro... mas só depois de comermos.
Fazia muito tempo que não estava com tante gente a jantar. E muito menos em casa. A refeição correu rápida e as meninas seguiram para a igreja.
- Podes ir Joca...
- Eh pá tu sabes que nunca fui muito de alinhar nestes credos.
- Eu também não. Mas reconheço que muitas vezes são verdadeiros apoios psicológicos - assumi.
- Ai acredito! Mas vão elas e a gente fica aqui a arrumar a cozinha.
- Boa ideia!
Era perto da meia-noite quando uma algazarra entrou na casa. As meninas vinham excitadas com a noite.
- Este é mesmo um Natal especial, pai! - disse Filipa abraçando o meu amigo.
De súbito um silêncio entrou na sala. Não tendo percebido acabei por perguntar:
- O que se passa?
Isabel aproximou-se de mim e de olhos rasos de lágrimas confessou:
- Foi a primeira vez que a Filipa o tratou como pai!
Nem comentei pois percebi que aquele momento seria apenas deles. Entretanto a esposa desaparecera da sala, regressando com alguns sacos que poisou no chão. Depois e como não havia árvore de Natal... apenas a jarra com o giz-barbeiro foi lá que encostou cada prenda sobre os sapatos.
- Joca, este embrulho é para a Filipa e esta é para a Sara.
Chegou a hora de abrir as prendas. A excitação ao rubro por parte das meninas mais novas. No sapato de Isabel um pequeno embrulho que esta abriu devagar quase temendo o que lá estaria. Finalmente abriu uma pequena caixa de veludo onde encontrou um anel com um brilhante. Levantou o olhar para o João e parecia perguntar algo:
- É um anel de noivado! Queres?
As lágrimas corriam pela face bonita de Isabel que só soube dizer:
- Sim, claro que sim! - e beijou o noivo!
Entretanto as meninas nem tinham dado pelo caso e só souberam mais tarde. Sara ria muito e perguntava na sua inocência:
- Vais ser o meu pai verdadeiro?
- Sim, se quiseres...
- Quero, quero muito!
Afastei-me por que achei aquilo um tanto lamechas e sendo eu quase um eremita percebi que me deveria afastar. Fui à cozinha e trouxe um moscatel velho para comemorarmos. Peguei em três copos e na botelha e quando cheguei, Joca parecia também chorar. Disse para comigo:
- Isto dava para uma estória de cordel...
João viu-me e quase correndo para mim trazia uma papel na mão. Confessou:
- O Natal fez o milagre...
- Ainda acreditas nisso?
- Agora mais do que nunca - e mostrando o papel, continuou - vou ser pai!
- Como?
- Esta é uma imagem da ecografia do meu José.
- Ups! - Exclamei espantado.
- Sim será José como tu.
Mas nem tive tempo de falar. As miúdas tinham vindo à rua buscar algo e regressaram gritando:
Por esta altura do ano, invariavelmente, o Joca (sei como ele detesta este tratamento agora que somos velhos!!!) telefona-me. Entre muitos temas que falamos há um que é recorrente.
- Será este ano que leio um conto teu?
- Tu és um bocadinho teimoso, não?
- Serei? Talvez, mas nota que não teimo sozinho!
- Deixa-te disso! Sabes bem que não compro essa ideia!
Joca é jornalista e andámos juntos na escola durante diversos anos. Num desses períodos a professora de português, a Dona Elvira, uma santa e viúva senhora, lançou um concurso para as melhores composições sobre o Natal. O concurso acabou por ser alargado a toda a escola surgindo centenas de textos.
A minha composição também foi a concurso, mas porque foi o Joca a inscrevê-la sem a minha prévia autorização. O resultado foi divulgado no último dia de aulas antes das férias de Natal e o premiado vencedor… fui eu!
Desde esse dia o meu amigo passou a insistir para que escrevesse amiúde, coisa que jamais aconteceu, acima de tudo porque no final desse ano lectivo fui transferido para o interior do país.
O meu pai, operário de profissão, fora despedido por encerramento da fábrica e perante a escassez de dinheiro e trabalho teve a ideia de regressar à aldeia que o vira nascer. Fomos todos…
Se durante os primeiros meses a coisa pareceu complicada, quando o meu pai conseguiu trabalho na Quinta do Leal, tudo se tornou bem melhor!
Regressei à escola, agora já sem Joca para me atentar o juízo, mas depressa desisti de estudar. A minha paixão pelo gado levou-me a passear os animais pelas charnecas e encostas da quinta que aceitara meu pai!
Uma vida que ainda hoje sigo, ora sem prestar contas a ninguém! Na verdade, a enorme herdade, após a morte do velho dono, foi vendida por um punhado de notas e mais tarde definitivamente abandonada, porque as terras querem quem as trate com carinho e paixão.
Hoje a casa é um monte de escombros invadida por hera e alaga-cão, o pinhal, esse, ardeu há uns anos e ainda está por cortar, as oliveiras cresceram, entretanto, desmesuradamente e o resto… são frondosos silvados sem controlo!
O telefonema costumeiro foi há uns dias, mas hoje lembrei-me do João Carlos ou Joca, para os amigos e do seu insistente pedido: quando escreves um conto de Natal?
Andava pelas terras a pastorear uma centena de ovelhas, muitas delas acompanhadas das suas bíblicas crias, quando percebi por debaixo de um silvado, por onde havia fugido um animal, um tufo de giz-barbeiro! Fazia muito tempo que não via esta planta tão campestre!
A minha falecida avó Pureza é que costumava, por esta altura do ano, andar pelos campos em busca deste selvagem arbusto. Quase com meiguice cortava uns ramitos donde se destacavam as bagas sempre vermelhas e já em casa colocava-os numa jarra que ornamentavam o presépio.
Recordei esses Natais, vividos há tantos anos…
Nessa altura já havia abandonado a cidade e os estudos. Mas nunca a leitura. De vez em quando recebia uma encomenda de livros vindo de Lisboa. Sabia que era o Joca… que mos fazia chegar como prenda de Natal. Aquele mariola… era um bom amigo!
Peguei no giz-barbeiro e com o canivete cortei os pés que tinham mais bagas. Sorri porque naquele segundo me senti imensamente feliz! Sabe sempre bem recordar quem amámos, mesmo que já tenho feito a derradeira viagem.
Já tarde e depois de gado ordenhado e guardado coloquei num aparador o ramo silvestre, devidamente enjarrado. Fiquei a olhar aquele verde salpicado de vermelho redondo quais pérolas rubras, enquanto na lareira velha e negra ardia com fervor um cepo de mimosa.
Escrever um conto de Natal? Quem leria? O Joca, a namorada, o pai da namorada? Ou simplesmente ninguém.
Levantei-me da vetusta cadeira que já fora do meu avô Patrício e procurei na cristaleira, onde deixei as fotos mais antigas em molduras de pau-santo (quem diria?), umas folhas brancas. Encontrei um velho caderno de folhas fritas pelo tempo e humidade.
Não sei porquê aquele caderno pareceu-me familiar… Provavelmente já lhe pegara para retirar alguma folha em branco… Abriu-o e na primeira página o meu nome escrito com letras grandes e bem desenhadas.
- Esta é a letra da minha avó! Lembro-me bem dela!
Página dois! Li:
- Um conto de Natal.
Ri com gosto pela bizarra coincidência para na página seguinte dar conta de um desenho a lápis de cor! Era um ramo verde de giz-barbeiro repleto de bagas vermelhas tão bem desenhadas que quase pareciam verdadeiras.
O desenho tinha por baixo uma assinatura. Um mero rabisco, que ao invés do resto era quase indecifrável. Mas antes uma pequena frase que me deixou petrificado:
- O meu desenho de Natal!
E a mesma letra redonda e perceptível da minha avó Pureza.
Virei mais uma página que estava, desta vez, vazia e comecei então a escrever. O caderno pequeno foi ficando ocupado de letras, frases, parágrafos, no entanto não está completo pois eu ainda não escrevi nele o meu conto de Natal!
O Natal aproximava-se à velocidade de uma bota de sete léguas como rezava a antiga estória de Perrault! Por isso Mário Felício e Maria Felícia andavam numa fona desde o início do mês de Dezembro com óbvias referências ao que gostariam de ter no Natal próximo.
De vez em quando a menina mais nova escrevia no uotessape: Desculpem algum erro, mas este aparelho já deu o que tinha para dar... Tenho de ver se arranjo outro nem que seja em segunda mão (Maria Felícia sabia do pânico que a mãe tinha em comprar coisas em segunda mão!).
Mário Felício pelo seu lado era mais subtil e respondia assim à irmã: Não sejas idiota... esse telemóvel terá pr'aí um ano. Se tivesse uma consola para jogos com cinco anos... ainda terias razão. Entretanto Felício e Felícia faziam-se de surdos e cegos não dando qualquer seguimento às conversas dos filhos.
Na verdade pagavam da mesma moeda que os infantes haviam entregue aos pais aquando da campanha da azeitona, de má memória.
O Natal chegou enfim com a costumada alegria da época. Alguns acepipes na mesa, uma garrafa de tinto daquele especial que Maria Felícia trouxera do supermercado onde havia semanas era caixeira e uma lampreia de ovos, o doce preferido do chefe do clã.
A família Felício não fugiu à ancestral tradição e logo pela manhã a troupe juntou-se de volta da árvore de Natal pouco iluminada. No chão ao redor sapatos velhos, mal cheirosos e uns embrulhos.
Mário foi o primeiro a pegar na prenda que encontrou sob o seu sapato rôto. No entanto achou estranho que não fosse uma caixa maior, mas imaginou alguma brincadeira familiar.
Rasgou o papel colorido e logo percebeu que não teria o que imaginara. Ao invés desembrulhou um belíssimo cachecol de malha do Clube Desportivo e Cultural de Alguidares de Baixo.
Uma fúria nasceu dentro de si justamente quando a mana viu a sua prenda e ria a bom rir.
Mas quando Maria foi abrir a sua e descobriu que em vez de um novo telemóvel (como quase pedira!) recebera um conjunto de costura, rapidamente perdeu o sorriso para enorme gáudio do irmão.
No mesmo instante ambos olharam o casal de pais. Estes riam apenas.
Depois o Felício escreveu:
- Feliz Natal. Bonitas prendas, hem!
Logo veio a resposta. Mário primeiro:
- Tens cá uma graça!
Seguiu-se Maria:
- Sim, muito bonita a minha prenda. Tal qual a tua cara.
Entretanto Felícia abre a sua prenda e encontra um avental todo giraço!
Mas para o pai estaria guardado o melhor naco de fantasia. Aberto o embrulho o táxista encontra uma capa para o seu telemóvel.
- Boa malha! - escreve no uotessape.
Depois abre o involucro e constata que este tem o símbolo do clube que Felicio detesta.
Recua dois passos, deixa cair todo o corpo no velho sofá enquanto diz em tom furibundo:
Os dias que antecederam aquele Natal foram de enorme azáfama para que à hora tudo estivesse impecável e não houvesse falhas. Havia casado ainda naquele ano e aquele seria o primeiro Natal das duas famílias.
No dia da consoada, pela manhã, Lurdes recebeu um inesperado telegrama dando conta da ausência do seu irmão, no jantar. Invocou uma desculpa qualquer que não satisfez a anfitriã. Mais tarde recebeu uma chamada da mãe a desculpar-se com uma dor (que provavelmente não teria) para faltar também ao jantar.
Lurdes percebeu a ideia e a artimanha, mas nada disse ao marido. Já muito perto da hora da consoada comunicou a ausência da sua família. Todos os presentes lamentaram, mas Lurdes preferiu assim! Sabia das razões das faltas. Mas esse seria um assunto só dela.
No ano seguinte voltou a convidar os sogros, mas não a sua família. Na noite de consoada tocou o telefone. Era a mãe:
- Boa noite, ainda estás viva?
- Boa noite mãe. Sim estou… porque quer saber?
- Há um ano que não falas nem apareces…
Lurdes manteve-se em silêncio aguardando que a mãe continuasse:
- A que horas é hoje o jantar?
- Mas quem a convidou?
A mãe parecia não esperar a questão. Voltou à conversa:
- Estás a dizer que não posso ir jantar a tua casa?
- Claro que não… Deve ter aí uma dor qualquer para ser tratada… Portanto trate-se… As melhoras!
Colocou o auscultador no descanso para logo a seguir o levantar, poisando-o ao lado evitando receber mais chamadas.
Certo é que a partir dessa noite nunca mais soube nada dos pais nem do irmão, nem nunca mais decorou a casa com enfeites natalícios, mesmo com a presença das três filhas.
O Natal tornou-se assim numa época em que Lurdes aproveitava para ir passear com as filhas para longe da cidade. Adquirira uma casa numa aldeia perdida entre serras e vales e por ali ficava até que as crianças iniciassem na escola.
Tempos que Lurdes nunca explicou às descendentes as verdadeiras razões, mas sempre que o assunto era aflorado ela tentava desviar-se do tema. Tinha consciência que para as crianças viver a época de Natal seria uma alegria e as suas estavam impedidas disso.
II
- Mãe, temos de conversar.
- Ui pelo teu tom de voz a coisa parece grave.
. Não sei se é grave, mas tenho um problema que tenho de resolver e necessito de si.
Lurdes virou-se para a filha segurando-se à bengala que assumira após o acidente de carro e perguntou com ar de preocupada:
- O que se passa Isabel?
A filha mais velha olhou a mãe nos olhos, agarrou-a pelos ombros e perguntou:
- Explique-me esse seu ódio ao Natal… O que lhe fizeram para sentir esse rancor?
Lurdes baixou o olhar para o chão para esconder uma lágrima. Depois respirou fundo e reencontrando o olhar da filha:
- Tudo começou há muitos anos… tinha eu acabado de casar com o teu pai!
Foram longos minutos onde Lurdes desfiou um imenso rosário de tristezas, lágrimas, dúvidas e algum arrependimento. Isabel tapava a boca de espanto sem pronunciar uma só palavra. Apenas escutava.
- Agora diz-me Isabel como te sentirias se eu tivesse feito a ti o que fizeram a mim?
- Mãe… sinceramente… não sei! Logo no Natal…
- Quando toda as pessoas falam em paz a tua avó criou a guerra, quando se diz que é o tempo de dar aos outros a tua avó retirou-me o mais importante… Portanto… ficou este tempo sozinha e com os amigos dela.
- Não sejas injusta…
- Injusta eu?
A filha embrulhou os ombros nada dizendo, para a mãe continuar:
- Tinha 22 anos, estava a estudar e obrigou-me a casar com o teu pai e ainda bem acrescento, só porque me apanhou com ele na cama. Casei rapidamente para calar as bocas das coscuvilheiras amigas da minha mãe… Ainda por cima não gostava do teu pai... Provavelmente desejaria para genro algum dos filhos parvos das amigas...
- Mas isso não é razão para nunca mais se comemorar o Natal. Imagina o que eu tive de inventar quando me faziam perguntas na escola?
- Acredito filha, mas o Natal deixou de fazer sentido para mim! Lamento imenso Isabel o que passaste… - O problema é como vou explicar ao Rui esta ausência… ele não irá perceber!
- Acredito que não…
Depois um silêncio para a seguir:
- Mas podes ir ao sótão, ao fundo debaixo de uma velhas mantas está uma caixa grande com muitos enfeites. Trás para baixo e pede-lhe que te ajude a montar a decoração na casa.
- Ó mãe… isso seria… simplesmente maravilhoso! Posso ir?
- Podes filha… podes!
III
Num ápice uma alegria desmesurada entrou em casa. O avô Artur não entendia o que se estava a passar quando viu o seu neto Rui com um conjunto de fitas de Natal a correr pelas divisões. Parou de conversar com o genro para tomar consciência do que via.
Regressou ao diálogo quando a esposa apareceu e lhe disse:
- Artur é tempo de ires buscar uma árvore de Natal…
O marido olhou o relógio e perguntou:
- Estás a ver que horas são? Está tudo fechado a esta hora!
Lurdes ergueu a bengala e apontou para lá da janela.
- Na tua oficina está uma árvore de Natal que eu vi trazeres. Como sabes que não vou lá…
O marido passou a mão pela calva e devolveu:
- Tu és terrível… sabes tudo!
- Não sei não! Só que estou atenta. E uma mulher atenta é uma mulher vencedora!
Artur virou-lhe as costas e saiu em busca da árvore de Natal que escondera na sua velha oficina. Quando regressou deu conta da chegada das suas duas filhas mais novas.
- Viva meninas!
- Olá pai… - sem mais nada para além do costumado beijo ambas perguntaram – o que é isto? – apontando para os enfeites natalícios.
Artur sorriu e devolveu:
- Um milagre chamado Rui!
- E a mãe sabe?
- Foi superiormente autorizado por ela!
As filhas riram dos termos do pai e correram em busca do sobrinho, da mãe e da irmã enquanto Artur com a ajuda do genro montavam o pinheiro verde repleto de luzes e bolas. Finalmente o genro perguntou em surdina:
- O que se passou aqui?
O sogro explicou-lhe rapidamente e o genro devolveu:
- O que foi feito dos seus sogros… Já devem ter morrido. Certo?
Nesse instante a campainha da porta soou pela casa. Artur respondeu então ao genro: