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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #11

A desafiarem-me

Dono deste fantástico blogue, o Cumplice do Tempo apresentou-se também a terreiro nesta minha aventura para me desafiar. Pois... só poderia ser a palavra... cumplicidade. Poderia ter escrito muita coisa, mas recorri à continuação de uma estória escrita há uns anos, para outro desafio.

A ver o que sai!

Malquíades olhava embevecido para Eva que dormia sossegada no carrinho, para de vez em quando fugir com om olhar para o movimento daquela praça da capital catalã. Havia naquele seu olhar perante a filha uma cumplicidade que jamais imaginara que sentisse.

Só se lembrava de algo assim quando fora detido após aquela estória do baile...

Depois de ter sido apanhado, foi levado para o jipe da GNR que o transportou para o posto. Foi nesse longo caminho que percebeu a cumplicidade do outro agente consigo. Cedo descobriu que havia, naquela recambolesca aventura, algo que não batia certo.

Era o cabo que o detera que conduzia o veículo, resmungando durante todo o caminho algo imperceptível. O colega sentado defronte de Malquíades encolhia os ombros.

Chegados ao posto sairam os três e o jornalista sentou-se por ordem do cabo, num bando corrido.

- Agora ficas aqui até vir o sargento às oito horas da manhã. Canalha, malandro.

Ia para dizer qualquer coisa em sua defesa, mas o outro agente acenou-lhe com a cabeça negativamente. Não abriu a boca. Mais tarde encostou a cabeça a uma parede lateral e acabou por adormecer.

Acordou dorido da posição em que dormira e principalmente das algemas.

Quando o sargento chegou e vendo Malquíades perguntou com maus modos:

. Que temos aqui, cabo?

O subalterno aproximou-se, fez a continência habitual e declarou:

- Apanhei o detido em flagrante!

- A fazer o quê?

- A entrar numa casa. 

- E conseguiu entrar?

O cabo percebeu que fizera asneira, mas não o denotando continuou:

- Não meu sargento, pois apanhei-o antes de o fazer... - e depois em forma de desculpa - estes conheço eu bem!

O graduado olhou para o segundo agente e perguntou:

- Foi assim...

- Mais ou menos!

- Como mais ou menos? Ou foi ou não foi!

- O detido estava a tentar entrar numa casa que não era a dele...

- E como sabe que não era a dele?

O soldado olhou para o cabo e meio a gaguejar devolveu:

- Porque era a casa aqui do cabo Flores!

O sargento olhou para o outro e questionou de uma maneiro menos simpãtica:

- Então o detido não roubou apenas estava a entrar em sua casa, certo?

- C... certo meu sargento... mas, mas...

. Deixe-se disso, homem! Já é o terceiro esta semana a vir para aqui pela mesma razão... Bolas cabo... controle a sua mulher... que os rapazes não têm culpa...

Era a vez do cabo bufar! Depois dirigiu-se ao detido e libertou-o das algemas, dizendo:

- Sai daqui aventesma...

Porém Malquíades, que acabara por assistir ao diálogo de forma divertida, virou-se para o cabo que o detera e comunicou:

- Não lhe levo a mal o que me fez, mas deixe-me colocar uma questão: que cumplicidade há entre si e a sua esposa?

 

- Então homem que olhar é esse para com a Eva? - perguntou Beatriz retirando a criança do berço.

Malquíades ergueu-se lentamente do seu lugar, pegou nos ombros da namorada e olhando-a bem nos olhos, perguntou:

- Sabes o que é a cumplicidade numa relação?

- Eu sei, Malquíades, eu sei. E tu sabes?

O Avô Natal

Resposta a este desafio

Olhou o vetusto relógio que nunca dormia nem necessitava de corda, estrategicamente colocado num corredor de pedra, do velho castelo e percebeu que o patrão ainda não aparecera nessa manhã. Era a primeira vez que o São Nicolau não acordava primeiro que toda a gente.

Era véspera de Natal e o velhote atrasara-se.

O secretário do Pai Natal era um homem assaz baixo, muito gordo, caminhando com passos rápidos e curtos. Talvez por isso parecia que corria ou rebolava e daí ser conhecido entre todos pelo Rebola. De farta barba cinza, havia no Castelo quem jurasse a pés juntos que o secretário era mais velho que o próprio Pai Natal, contudo ninguém tinha coragem de lhe perguntar a idade. Sempre pronto para uma boa briga com o pessoal, só o São Nicolau conseguia dizer-lhe ou pedir coisas sem escutar dele uma só palavra de azedume.

Naquela manhã Rebola aproximou-se preocupado do quarto do Pai Natal e encostou as suas enormes orelhas à porta. Não ouvindo qualquer barulho começou a clamar pelo patrão de uma forma muito peculiar. Iniciou a arranhar com as sujas unhas a porta do quarto enquanto chamava:

- São Nicolau… São Nicolau…

O silêncio manteve-se. Então o idoso secretário encostou as suas mãos sujas ao puxador e rodou devagar. O trinco mexeu-se até que fez aquele costumado som da lingueta a correr deixando finalmente a porta aberta.

Pé ante pé, Rebola aproximou-se da cama do Pai Natal! Para finalmente o encontrar de bruços na esteira.

- Pai Natal, Pai Natal – chamou em voz alta rebolando-o. Parecia inanimado… Ou seria que estava… a dormir!

xxx

Na neve alva e funda percebia-se um rasto de pegadas que se dirigia para o Bosque Encantado. Rebola corria o mais que as pequenas pernas deixavam. De vez em quando parava para retomar fôlego. Até que chegou ao seu destino.

Era uma velha barraca naquela altura quase toda rodeada de neve. Todavia da chaminé saía um fumo espesso e cinzento. Com alguma dificuldade aproximou-se da porta de madeira à qual bateu com força. Ao fim de um bom bocado a porta finalmente abriu-se e surgiu um homem enorme, muito mais alto que o Pai Natal, de uma barba tão comprida que ultrapassava a própria cintura.

- Bom dia São Lau…

O anfitrião tossiu um pouco e depois perguntou:

- Quem és tu?

- Já não me conhece? Sou o secretário do pai Natal. Sou eu que faço as encomendas das crianças para depois o São Nicolau ir distribuir..

- Tu és o Rebola?

O outro fico furibundo com a pergunta, mas foi respondendo:

- Sim…

- Entra então… que aí está frio.

O pequeno homem entrou e correu para a lareira para se aquecer. Depois disse:

- Preciso da sua ajuda!

- Da minha ajuda? Para quê?

- O São Nicolau… o seu filho adoeceu hoje de manhã e até à hora que sai do Castelo ainda não se tinha levantado da cama. E preciso que ele se despache pois as crianças estão à espera dele… 

- Mas onde andou esse mariola para ficar assim?

- Isso eu não sei São Lau, mas que preciso de si para o substituir, é verdade…

- Olha’meste agora! Então não querem lá ver que tenho a consoada estragada?

A coisa parecia estar complicada e o secretário Rebola já estava a imaginar as noticias no dia seguinte:

Pai Natal falha entregas

Onde andará o Pai Natal?

Para os mais sensacionalistas afirmarem sem certezas:

Pai Natal apanhado pelo covid

Pai Natal preso por aliciar crianças

Rebola estremeceu só de pensar. Não lhe apetecia ir novamente para a neve, mas teria de arranjar maneira de levar o avô Natal com ele. Puxou da sua postura que sempre mostrava aos seus súbditos no castelo para ordenar:

- São Lau pegue nas suas coisas e siga-me faxavor! Não tenho tempo para birras de menino. Vá, vamos lá.

Colocou-se a trás do velho e empurrou-o com força. Só que este devido ao peso e ao tamanho não se moveu um milímetro, para finalmente dizer:

- Tu és aborrecido… sabias?

- E você um parvo…

O outro enfureceu-se e quis correr atrás de Rebola que mesmo com passos pequeninos conseguiu fugir para a rua onde o seguiu.

xxx

A perseguição durou até ao castelo onde finalmente o velho Lau entrou e procurou o filho. Chegado ao quarto encontrou o seu infante deitado na cama, mas acordado. Aproximou-se e naquele tom rude perguntou:

- Então isto são horas de estar na cama na véspera de Natal?

O outro gemeu e admirado e ver o pai, respondeu:

- Estou doente… que faz aqui meu pai?

- Vou fazer o trabalho que te competia.

Entretanto Rebola aproximou-se do Pai Natal e disse baixinho:

- Desculpe ter ido buscar o seu pai, mas o problema não é as crianças ficarem sem prendas…

- Ai não? – intrometeu-se o mais velho.

- Não…

- Então qual o problema?

- São as crianças deixarem de acreditar em vocês.  Já imaginou uma criança sem qualquer crença no Pai Natal? Era uma tristeza.

O velho Lau respirou fundo, percebeu a dica e finalmente ditou a sentença:

- Uma coisa é certa… posso ir… mas vou vestido de azul! Nada dessas cores encarnadas...

Rebola sorriu sozinho, esfregou as mãos, virou as costas a ambos e foi carregar os trenós de prendas!

"Young Mother Sewing" - Mary Cassatt

Resposta a este desafio da Fátima

 

Estou há horas a olhar para o quadro “Young mother sewing“ pintado por Mary Cassatt em 1900.

Mesmo para um brutamontes pictórico como eu sou, tal é a minha insensibilidade no que se refere à interpretação duma pintura, esta tela tem uma magia própria. Há uma luz algures... naquele pequeno espaço.

Tudo nele é beleza e harmonia: a mãe costurando compenetrada, a criança aos seus joelhos, a jarra azul repleta com flores amarelas, a janela por detrás deixando antever um campo verde e alguns pés de árvores. Depois o listado da costureira, a alvura do vestido da menina, as mãos inocentes vincadas na face e no braço… enfim um quadro quase perfeito.

O problema mesmo é olhar para esta tela e dizer o que se sente… ou para onde ela nos remete.

Percebe-se uma candura e uma paz que nos é transmitida essencialmente pela criança. Os olhos negros, expressivos denotam, porém, uma certa tristeza. Entretanto a mãe segura algo entre os dedos que suponho ser uma agulha como quisesse agarrar aquele idílico momento para sempre.

Entretanto o verde do prado indica-nos, quiçá, a esperança em novos e renovados dias.

Um quadro bucólico, doce e amoroso e que ficaria a matar numa das paredes quase vazia da minha enorme sala.

Pronto lá tenho eu de ir a Nova Iorque assaltar o Metropolitan Museum of Art  e roubá-lo!

 

Demais participantes: Ana D.Ana de Deus, Ana Mestrebii yueCéliaCharneca Em FlorCristina Aveiro, ImsilvaJoão-Afonso MachadoLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao Luar, e SetePartidas.

"A persistência da memória" - Dali

Resposta a este desafio

A noite negra caíra havia muito sobre a cidade. Corria um vento que principiava a gelar quem se afoitava na rua. Jorge ajustou melhor o sobretudo ao corpo evitando a brisa fria. Caminhava devagar para um encontro para o qual fora convocado por um amigo de longa data, mas que não via há muitos anos.

Estranhou o convite, mas como não tinha nada para fazer, aceitou. Enviaram-lhe a morada por correio postal o que lhe fez logo desconfiar da proposta. Porém como sempre gostara de desafios, ei-lo a caminhar pelas ruas desertas da cidade no sentido de uma morada meio estranha.

No instante seguinte ouviu uma viatura a aproximar-se, mas não ligou. O carro passou por ele para parar um pouco mais à frente. Abriu-se a porta traseira e de lá alguém o chamou:

- Jorge Gouveia?

- Sim sou eu.

- Entre no carro. Rápido.

- Desculpe, mas tenho mais que fazer que brincar aos raptos.

- Isto não é rapto. Não vai a um encontro ali à frente com o Dário?

Desconfiado começou a recuar… Não estava nada a gostar da brincadeira. Entretanto o interlocutor saiu e antes que Jorge fugisse, declarou:

- Não tenha medo, não pretendo fazer mal, mas é uma mera questão de segurança. A sério… E se tem dúvidas eu vou ligar ao Dário e fala com ele.

Jorge aceitou ainda deveras desconfiado. O outro fez a ligação, colocou em voz alta, quando responderam:

- Diz!

- O seu amigo está um tanto apreensivo…

- Jorge!

- Dário… há quanto tempo.

- Entra no carro e vem ter comigo. Não temas que não queremos fazer-te mal. Vá despachem-se que não tenho a noite toda.

Quando meia hora depois entraram num apartamento, o amigo veio receber Jorge de braços abertos. Depois de uns bons minutos para visitar memórias de ambos, Dário avançou:

- Bom sabes porque te convoquei?

- Não imagino…

- Estou numa brigada internacional que tem como função salvaguardar o património mundial das mãos alheias…

- E…

- Roubaram há dias um quadro num museu. Já o encontrámos todavia estamos desconfiados que não é o verdadeiro, mas uma cópia…

- Que quadro foi esse?

- Um Dali… “A persistência da memória”…

- Bolas bom gosto… Terá sido mesmo roubado? Ainda por cima do MOMA?

- Pois esse é que é o busílis da questão. Esse quadro estava em trânsito para um local secreto pois o Museu recebeu uma ameaça de que o iriam roubar…

- Ahahahahahah! Deixa-me rir antes que me esqueça. Quer dizer recebem a ameaça e em vez de redobrarem a segurança retiram-no do Museu… Isto é, colocaram-se a jeito…

Dário coçou a nuca para finalmente devolver:

- Tens razão, mas não tens…

- Mau… então!

- O quadro não saiu do Museu, mas eles simularam que havia saído…

- Ena que confusão…

- Pois… americanices… E agora sobra para a gente. Pois o verdadeiro desapareceu mesmo… lá dentro. Entretanto encontrámos um… mas… não sei! E sendo tu um especialista nestas coisas lembrei-me de te convocar!

- Tu arranjas cada sarilho… Mas pronto vou tentar perceber se o quadro é genuíno. Onde está?

Dário chamou-o e levou para outra sala onde em cima da mesa encontrou uma manta. Puxou por esta e deixou perceber a beleza da pequena tela. O especialista mirou e declarou rápido:

- Dário, isto é uma falsificação muito grosseira…

- Bem me quis parecer. Não sei porquê desconfiei... Como descobriste?

- Fácil… porque o quadro original tem formigas num dos relógios e este tem… pulgas!

 

Demais participantes: Ana D.Ana de Deus, Ana Mestrebii yueCéliaCharneca Em FlorCristina Aveiro, ImsilvaJoão-Afonso MachadoLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao Luar, e SetePartidas.

Escrita a gosto! #22

Desafio de Agosto da Ana

dia 22 - quadrados

A polémica estava instalada ao redor de enorme mesa. Até àquele instante o repasto havia decorrido de forma amigável e divertida. Só que num segundo a faísca da discórdia saltou e os vapores etílicos já presentes fizeram o resto.

O tom de voz cresceu a cada palavra discordante. Havia já algumas tentativas meio dissimuladas para passar às "vias-de-facto". Entretanto o casal anfitrião tentava apaziguar os ânimos, sem sucesso.

A determinada altura um dos convivas que não entrara em polémicas e percebendo o caminho que as coisas estavam a tomar ergueu-se da sua cadeira, subiu para a mesa, colocou as mãos a fazer de altifalante ao redor da boca e deu um grito:

- OI!

O troar da sua voz teve o condão de apaziguar as demandas quase como por milagre. Depois:

- Obrigado pela vossa atenção. Sejamos civilizados e ordeiros.

Continuava a receber a atenção da plateia. Olhando em redor continuou:

- Mas quem é que zaragata por considerar que os gatos são mais espertos que os cães ou vice-versa?

Alguém pretendeu dizer algo, mas o orador continuou rematando:

- Eh pá... não sejam parvos nem quadrados. Que coisa! Vá gira para os seus lugares que eu quero comer a sobremesa... Já ouvi dizer que está uma delícia!

Escrita a gosto! #18

Desafio de Agosto da Ana

dia 18 - há cinco anos

Ela acordou, espriguiçou-se, olhou o relógio-despertador e virou-se para o lado do marido. Depois acordou-o devagar.

- Olá querido, sabes que dia é hoje?

O homem obrigado a acordar, ergueu-se da cama, esfregou os olhos e olhando ainda ensonado para a esposa devolveu:

- Sexta-feira... acho eu!

- Certo e mais?

- Mais o quê mulher?

- Não te lembras o que aconteceu há cinco anos?

- Não me lembro do que aconteceu ontem...

Ela interrompeu-o furiosa:

- És um brutamontes, um estúpido, um parvo. Nem sabes o dia em que casámos.

- Eu sei... tu é que não!

- Ai eu não sei?

- Não... é que só fazemos anos de casados... amanhã!

Escrita a gosto! #14

Desafio de Agosto da Ana

dia 14 - amor é...

A barulheira no bar era imensa de tal maneira que quase necessitavam gritar para se ouvirem.

Aqueles dois há muito que se entretinham a beber fazendo comentários e piadas sobre quem estava na enorme sala.

Entretanto no meio da pista de dança uma jovem bonita trajava uma t-shirt estampada com uma célebre frase: amor é...

Pergunta um dos ébrios:

- É o quê? - apontando à vestimenta da jovem.

Responde o outro:

- Uma chatice!

- O quê o amor?

- Não! A nossa bebedeira...

Léxico em estado puro!

Vovó, vovó

A gaiata chama.

Queres um popó

A avó oferece.

Tens de fazer um o-ó!

 

Mais tarde é o vovô

Que dá a boa papa.

Mas a menina tem cocó

Ou será somente xixi?

Calcula a titi.

 

Há um miau que é gato

E um ão, ão patudo.

Depois vem o pá de pato

E o piu-piu do passarinho

Falta a tuta de tartaruga.

 

Aprender a falar ou

a dizer o que se sente é duro,

já que as palavras simples

serão apenas sons

de um amante coração.

Mataram o Pai Natal! - 1

Em resposta a isto!

 

Olegário quase que dormitava em cima da secretária ao tentar ler alguns relatórios criminais todos para arquivo. Estava a meses da aposentação e solicitara por isso ao chefe Baptista que lhe dessem trabalhos de secretaria.

Estava cansado de prender criminosos de toda a espécie, que rapidamente eram libertados e não pretendia ser mais um herói morto. Preferia antes ser um cobarde vivo.

Naquela última Consoada que passaria de plantão esperava uma noite serena. Por isso trouxera um bom pedaço de leitão assado, uma botelha de vinho tinto oriunda da aldeia, muitas batatas fritas de pacote e um bolo-rei. Aguardava apenas que o pessoal saísse para ficar a sós com o seu repasto.

Os colegas foram saindo desejando-lhe um bom Natal ao qual o transmontano respondia com um aceno de mão por entre relatórios.

Quando olhou para o velho Cauny percebeu que eram horas de ir comer. Fechou o processo que tinha entre mãos quando um telefone tocou na sala.

- Deixa-o tocar… Será que não percebem que hoje é véspera de Natal?

O telefone teimava em não se calar. Olegário aproximou-se e acabou por atender:

- Brigada criminal, fala o inspector Olegário. Quem fala?

- Boa noite inspector, sou o agente Galante e necessito da vossa presença aqui junto à Avenida de Paris onde acabaram de assassinar o Pai Natal.

- Desculpa lá, mas isso não é uma brincadeira, pois não?

- Obviamente que não… Tenho aqui um morto estendido à minha frente.

- Logo hoje…

- Sim é verdade, logo hoje. E ainda por cima o Pai Natal…

- O Pai Natal ou um Pai Natal?

- Pois… isso não sei, mas está ali parada uma rena atrelada a um trenó.

- Você está a gozar comigo a uma hora destas?

- Nem pensar… Isto está aqui uma confusão. Só preciso saber se vêm para cá…

O inspector respirou fundo, olhou o saco de plástico com o farnel e acabou por dizer:

- Vou já para aí!

Deu meia volta, foi à secretária onde pegou na carteira e na arma, passou pelo armário das chaves dos carros sacou a única que lá estava e olhando para a matrícula comentou:

- Claro, claro… o chaço ficou cá!

Depois ligou para o chefe. Atenderam:

- Que se passa homem?

- Chefe fui chamado para tomar conta de uma ocorrência.

- Sabes o que é?

- Sei… um morto. E nem imagina quem?

- Ai quem foi? – a voz denunciava alguém assustado.

- O policia que me contactou diz que é o Pai Natal.

- Um Pai Natal? Esta noite há muitos... por aí!

- Não chefe, não está a perceber. Mataram o Pai Natal...

Um silêncio. Depois:

- Como é que sabes que é o verdadeiro.

- Porque a rena já comeu as flores todas que havia num canteiro.

Desligou a rir-se, desceu até à garagem onde procurou o único carro presente e penetrou na noite. O trânsito àquela hora era diminuto e num instante chegou ao local do possível crime. Muita gente a rodear o corpo que os poucos polícias não conseguiam controlar.

O inspector cortou por entre a multidão para finalmente chegar junto ao morto. Este encontrava-se deitado de bruços e tinha uma enorme mancha de sangue nas costas. Por fim virou-se para um agente e perguntou:

- O Galante quem é?

- Foi embora…

- Para onde?

- Para casa… creio eu!

- Com um crime entre mãos? Acho estranho…

- Disse que tinha de ir a casa avisar a família.

- Avisar a família de quê?

- De que o Pai Natal havia sido morto e portanto … nada de prendas este ano.

O inspector abanou a cabeça em negação para perguntar:

- Este veio como, sabes?

O outro polícia apontou para um animal corpolento com o queixo que calmamente ratava um pouco de erva num canteiro. Olegário aproximou-se da rena, fez-lhe uma festa e finalmente perguntou:

- Que sabes tu disto?

(continua...)