Quando Armandina e Olegário já tinham desistido de serem pais, eis que certa tarde a esposa foi encontrar o marido a perceber como estava a latada de uva branca.
Num breve gesto de olhos o homem percebeu a novidade e exaltou de alegria quase bíblica. Nessa mesma noite convocou todo o pessoal não só para informar da belíssima notícia, mas também pedir que todos olhassem pela futura mãe.
A mulher ergueu-se para tomar da palavra:
- A minha mãe sempre me disse que gravidez não era doença, ela teve 13 filhos e sempre fez a sua vida. Mas prometo quando não me sentir bem pararei e pedirei ajuda.
Todos felicitaram os patrões e estes, já noite dentro, encontraram-se no quarto onde Olegário pediu:
- Mulher… toma cuidado contigo, por favor… Tanto sofreste para alcançar este estado…
- Homem, crê que eu terei o maior cuidado comigo e com quem aqui carrego.
Em Abril do ano seguinte Armandina deu à luz. Finalmente após uma gravidez um tanto complicada que obrigou a mulher a passar a maior parte do tempo de cama. O Dr. Ambrósio assim aconselhara.
Na hora foram chamadas diversas mulheres, entre elas a parteira, a mãe, a sogra e uma irmã. Do lado de fora do quarto o pai descascando umas laranjas sem sequer as comer. A noite fora longa quando saem do quarto duas mulheres carregando cada uma, as filhas. Sim… Armandina tivera gémeas, algo raro por aquelas zonas.
No instante seguinte o pai lembrou-se que uma tia, entretanto falecida, era irmã gémea de uma outra que optara pelo convento e da qual nunca mais tivera notícias. Se um filho era uma alegria, dois seria alegria a dobrar.
Mas o homem olhou para a nova avó e percebeu que qualquer coisa não estaria bem com as crianças. Aproximou-se das lactentes e antes de se debruçar perguntou à sogra:
- Que se passa minha mãe?
A avó deu-lhe a criança e avisou:
- Vê por ti!
Destapada a face da recém nascida Olegário, quase deixou cair a criança. Depois ficou a olhar para a gémea e percebeu o mesmo sentimento.
- Serão deficientes?
- Não meu filho… São feias como uma noite de tempestade.
- Quando forem mais velhas, verá, que tornar-se-ão bonitas.
A avó não pretendeu contrariar o genro e levou dali as crianças.
2
O tempo passou célere para Hermengarda e Hirondina, porém a fealdade das meninas manteve-se sem um naco de melhoramento, muito embora mãe e avós tentassem, em vão, dissimular o aspecto das cachopas.
Os pais lutaram para que as meninas convivessem com as jovens da mesma idade, mas na aldeia todos fugiam à sua passagem. Desse modo os pais acabaram por contratar diversos professores que lhes foram ministrando conhecimentos. Se bem que iguaizinhas no aspecto físico ambas tinham gostos muito diferentes. Hermengarda preferia área das ciências, matemáticas e químicas, enquanto Hirondina estava talhada para as letras com leitura de imensos clássicos, estudos aprofundados de história e filosofia, para além de línguas estrangeiras, especialmente Francês.
Para comemorar o aniversário dos dezasseis anos das filhas, os pais organizaram uma festa enorme, nos jardins da casa senhorial onde viviam. A ideia seria algum jovem se embeiçar de uma das filhas e daí nascer talvez maior relação com outras pessoas.
Para a festa foram convidadas todas as famílias de três léguas em redor, para além de uma orquestra, artistas diversos e muita e boa comida e bebida. À noite abriu-se o baile, mas as manas continuaram sentadas durante toda a noite sem que um rapaz se aceitasse delas convidando para dançar. Desiludidas as moças abandonaram o recinto da festa sem sequer partirem o bolo, que contudo não ficou por comer.
Anos mais tarde Olegário morreria de forma repentina para logo a seguir partir aa esposa incapaz de aguentar a dor do falecimento do marido.
As gémeas agora com 22 anos e prontas para a vida de professoras, profissão para que haviam sido ensinadas, estavam longe dessa vida quase académica. Até que certo dia uma criada as veio chamar:
- Meninas, meninas… está na biblioteca um senhor que deseja falar com vocês.
- E com qual de nós?
- Ai isso não sei menina… O senhor não deu preferência.
- Diz-lhe que já descemos.
Quando por fim entraram na biblioteca a visita quase se assustou. Era verdade o que diziam daquelas jovens, mas sem demonstrar qualquer constrangimento, avançou:
- Bom dia meninas! Chamo-me Alcibíades e venho da adeia ao lado. O que aqui me trás prende-se com o meu filho Zenóbio que tendo passado por um conjunto de colégios e professores, ninguém conseguiu meter-lhe alguma sabedoria naquela cabeça tonta. Ouvi entretanto que as meninas poderiam ajudá-lo e assim venho perguntar se estarão disponíveis para ensinar alguma coisa ao meu rapaz? Pagando claro… E o vosso preço será o meu preço.
As manas não esperavam aquela oferta e ficaram um pouco indecisas. Foi Hermengarda que erguendo-se do vetusto “fauteil” declarou:
- Aceitamos essa incumbência, mas só com uma condição!
- E qual é?
- Se daqui a umas semanas o senhor não vir melhoramentos no seu filho não recebemos o dinheiro e o seu rapaz pode partir.
- Como queiram. E quando poderá vir?
- Quando quiser. A minha irmã dará as partes das letras de manhã e de tarde darei eu as ciências. Três horas de manhã e três de tarde… Que nos diz?
- Óptimo! Amanhã pelas nove estará cá. Será boa hora?
- Sem dúvida. Cá o esperaremos!
No dia seguinte às nove em ponto Zenóbio entra no solar das "Gémeas Feias” preparado para as aulas.
O jovem de quinze anos parecia ter muito mais idade. Um olhar vivo e um sorriso contagiante ainda assim insuficiente para agradar às manas professoras. Na biblioteca reservaram-lhe um lugar e Hirondina deu início às aulas.
3
Durante muitos meses as gémeas mostraram que podiam não ter qualquer beleza física, mas conseguiam bons resultados com os alunos. Zenóbio foi um deles. A fama de competência das feias professoras acabou por se alastrar a toda a região, originando uma procura inusitada.
Certo dia Hirondina chamou a irmã ao quarto. Hermengarda estranhou o pedido, mas foi lesta a apresentar-se defronte da irmã:
- Que se passe mana?
- Sinto-me estranha…
- Como assim estranha?
- Hoje de manhã estava nauseada e fui lá fora ao jardim apanhar ar, mas acabei por vomitar. E depois veio o cheiro da comida da cozinha e ainda fiquei pior…
Hermengarda levou as mãos à boca dizendo:
- Ai mana… o que fez?
- O que eu fiz? Não fiz nada!
- Mana… há quanto tempo a boca do seu corpo não vomita as tristezas?
- Ah… isso… sim… há umas semanas. Mas porquê?
- A mana Hirondina está grávida!
- Eu grávida? Não pode ser… Só se for por obra e Graça…
- Do Zenóbio, não?
- Não mana, não!
Hirondina agachou-se defronte da irmã e pegando-lhe nas mãos comunicou:
- Não sei como aconteceu, mas a mana está grávida e eu vou ser tia!
- Ai que vergonha… mas como aconteceu isto, como?
Hermengarda levantou-se puxou de outro tom de voz e descarregou:
- Não me faça de parva, mana. Aconteceu a si e há-de acontecer a muitas mulheres neste Mundo. Agora só gostaria de saber com quem foi? Vá lá desembuche…
Hirondina deixou que as lágrimas inundassem a sua face para finalmente confessar.
- Há uns meses entrei atrasada na missa e sentei-me cá atrás. Quase a começar a eucaristia veio um cavalheiro e sentou-se a meu lado. Pareceu-me simpático e trocámos umas palavras. Na missa seguinte lá estava outra vez. Depois perguntou-me quem eu era e quando lhe disse que era professora ficou entusiasmado, porque gostaria de saber ler e escrever.
Um lenço alvo afagou as lágrimas.
- E depois?
- Assim quando a mana dava aulas de matemática eu fui a casa dele ensinar-lhe a ler e a escrever.
- Pronto já percebi… mas agora necessito saber quem é ele? E não vale a pena enganar-me…
Hirondina chorava, para num momento de pausa por fim confessar:
- Foi o João…
- João, qual João? Deve haver muitos cá na aldeia…
A primeira coisa que tenho a dizer é que detesto o animal homem. Retirando algumas honrosas excepções o humano é um bicho em quem não consigo confiar. De todo. Porque cada um pensa de maneira diferente, enquanto nós, os gatos, temos mais ou menos a mesma ideia: comer, dormir e de vez em quando uma festita, mas não muito longa.
A minha memória não me leva à infância, mas recordo-me de ter chegado a esta casa e ser recebido por uma senhora anafada mas simpática, que me fez uma quantidade de festas. Sinceramente gostei do que me fez, mas não foi por isso que sou amiga dela. Pois, nem quero ser!
Reconheço que sou um oportunista! É verdade! E ao invés do que vão por aí dizendo não sou um animal doméstico. Convivo com o homem por puro interesse. Geralmente são as fêmeas humanas que gostam mais de mim ou de nós, que os machos, sinceramente tanto se me dá que seja um ou seja outro, desde que não me maltratem e não me faltem com a comida!
Neste instante estou pachorrentamente sentado nesta parede, meio acordado semi a dormitar e a aguardar que a fêmea gorda que tanto gosta de mim me venha dar de comer. Um acto que faz sempre com alegria e que eu sinceramente nunca agradeço.
Só que há tempos aconteceu-me uma parte que não contava. A verdade é que depois desse estranho episódio a senhora tem muito mais cuidado comigo. Não obstante ser um gato, não sou parvo e aquela janela é uma armadilha.
Vocês não sabem o que aconteceu, pois não? Eu conto.
Um dia apareceu por aqui um humano mais pequeno de óculos graduados escarranchados numas orelhas grandes. A senhora simpática deve ter-lhe dito alguma coisa pois o humano pequeno nunca se aproximou de mim. Passaram muitos dias até que uma manhã o pequeno começou a atirar uns peixinhos maravilhosos ao ar. Obviamente que não deixei fugir nenhum. O pior é que um deles foi atirado pela janela fora que fica aqui bem por cima donde eu estou agora a reviver aqueles bizarros momentos. E eu cego e parvo fui atrás do carapau. Por acaso era um belíssimo pelim!
O que aconteceu a seguir fez-me perder certamente algumas das minhas vidas. Não que me tivesse aleijado, mas quando me vi a voar sem para-quedas, apanhei um susto daqueles e temi pela minha vida. A sério!
Foi de tal forma marcante que ainda hoje acordo sobressaltado com esse acontecimento. O que vale é que nas descida vertiginosa tive imensa sorte em apanhar uma árvore e acabei por aterrar no seu cocuruto. Sinceramente repito… vi a coisa mal-parada. No meio disto quem ganhou foi um comparsa meu de cor preta que se alambazou com o carapau que me era destinado.
O problema seguinte foi perceber como iria descer da árvore. Espreitei para baixo, enchi-me de coragem felina e calmamente fui descendo. Uns outros comparsas viram-me e como não me conheciam principiaram a miar. Foi a minha sorte porque, de súbito, apareceu um humano que indo buscar uma escada tentou ajudar-me a descer.
Ainda o ameacei quase me assanhei, mas ele não teve medo de mim e rapidamente vi-me enfiado num saco de serapilheira. Uma coisa horrível. Debati-me como pude, mas as minhas unhas nada conseguiram.
Estava eu nesta bravata entre mim, o saco e o humano quando alguém assumiu saber onde eu pertencia pois ouvi:
- É o Xavier o gato da Rosa a cozinheira do segundo andar.
Bem lá foram entregar-me a casa e quando me libertei, corri que nem um doido para o meu lugar, desejoso que ninguém se aproximasse, nem a humana amiga.
O velhaco do humano pequeno ainda andava por lá e só tive vontade de o arranhar todo. Seria bem feito. Sacaninha do humano…
Mas querem saber que não me livrei dele. Passadas uma semanas lá surgiu ele armado em parvo e com um sorriso de profundo gozo.
A verdade é que quando o revi soltei um gemido, quase a pedir socorro à minha amiga humana. Mas tive a sensação que ela percebeu tudo ao contrário. Valeu a sensatez do pequeno humano em nunca se aproximar de mim, pois se o fizesse ficaria certamente bem marcado.
Há muitos, muitos anos, era eu um terrível gaiato quando conheci uma tia-avó paterna cozinheira de profissão numa família abastada e que vivia num volumoso segundo andar na Avenida de Roma, em Lisboa.
Daquela minha parente lembro-me bem de ser gorda, quase redonda muito próxima de um boneco que uma marca de pneus imortalizou. Tinha uma queda especial para a cozinha de tal maneira que nunca tinha necessidade de provar um prato ou a sopa para saber se estava salgada ou insossa. Bastava, para tal, passar a mão sapuda pelo vapor e levá-la ao nariz para perceber como estaria o tempero.
A maioria do tempo a minha tia passava-o entre aquelas quatro paredes forradas a azulejo branco. Quatro não, apenas três já que havia uma que fora substituída por uma enorme marquise. Apenas a um metro do chão estava o que restava da parede... depois para cima uma vitrine imensa.
Quando lá entrei a primeira vez, pela mão dos meus pais, a tia Rosa sorriu naquele seu ar simpático que só os gordos sabem ter e deu-me um bombom de chocolate com uma cereja dentro. Com cuidado desembrulhei devagar para não rasgar a prata que escondia o chocolate e finalmente atirei-me ao acepipe. A prata desdobrei-a depois de forma paciente e tentei alisá-la… para mais tarde a colocar entre as páginas de um livro.
Mas o que a cozinha da tia Rosa tinha de mais interessante era… um gato. Xavier de seu nome. Gordo, lustroso de tão bem tratado, era ainda assim muito pouco simpático. Quando reparei nele, estava sentado num rebordo da parede que sustentava a enorme marquise. Por cima dele abria-se uma janela basculante que a tia mantinha sempre aberta por causa do calor e dos cheiros.
Quando naquela manhã de Domingo vi aquele felino siamês, tentei aproximar-me para lhe fazer uma festa, ao que a minha tia logo me avisou:
- Não te chegues perto dele, que ele não é puro. Faz de conta que nunca o viste nem que está ali.
Nesse dia não voltei a aproximar-me dele, mas durante as visitas seguintes fui paulatinamente tentando chegar mais perto do bichano. Mas este nunca reagia.
Eu adorava estar ali na cozinha com aquela tia balofa, mas sempre despachada. Foi também ali que percebi que o Xavier era um bicho matreiro e guloso. Tão guloso que aguardava pacientemente que a minha tia tirasse as petingas do frigorífico e assim que ela saía da cozinha para fazer algo, ele assaltava o peixe. Depois regressava ao seu lugar como se nada fosse para a tia mais tarde e depois de fritas as sardinhas pequenas lhe atirar uma, sem sequer perceber do roubo do felino.
Mas a coisa tinha arte circense já que o gato ficava atento e quando tia atirava a sardinha ao ar de propósito, o bichano como tivesse molas nos pés dava um salto apanhando o peixe no ar. Para logo regressar ao seu lugar.
Tal como prometera nunca me aproximei do gato, todavia sentia por ele alguma animosidade, especialmente pela forma como ele enganava a minha tia.
Ora certa manhã de Domingo, dia em que fazíamos a visita à tia Rosa, pensei em fazer o gato pagar pela sua matreirice. Assim a tia que comprara “jaquinzinhos” para o nosso almoço, colocou-os na bancada depois de os bem amanhar e temperar. Finalmente perguntou-me:
- Ficas aqui a brincar enquanto vou lá dentro com a tua mãe dar uma “ajeitadela” à casa?
Respondi afirmativamente e preparei a partida. Logo que a tia me deixou sozinho fui à bancada e peguei em meia dúzia dos pequenos carapaus pelins. Xavier atento olhou para mim e quando atirei o primeiro peixe ao ar o gato filou-o com aquela destreza felina. Gostei da brincadeira e atirei outro pelim, desta vez para um lugar diferente. O bichano não se conteve e saltou para apanhar mais um peixe. E mais outro. Outro ainda. Até que o último atirei-o… pela janela de vidro.
A verdade é que o Xavier nunca se apercebera que para lá da janela não havia senão ar… e um chão duro a muitos metros de altura. Por isso atirou-se pela janela tentando apanhar o derradeiro carapau.
Assim que lancei o peixe e vi o Xavier seguir o destino do isco, arrependi-me logo da partida. Não obstante o gato estar sempre na cozinha, não era a minha tia a verdadeira dona do felino, mas sim a dona da casa. Acabara assim de arranjar um sarilho para cima de mim. Pensei ir à casa de banho fugindo à responsabilidade da situação, mas antes pretendi perceber o que teria acontecido ao Xavier.
Peguei num banco que havia por ali, encostei-o à parede subi para cima e espreitei pela janela aberta, a mesma por onde sumira o gato.
Dizem os ingleses que os gatos têm nove vidas, os portugueses dizem que só têm sete, mas com toda a certeza que Xavier deve ter perdido mais que uma quando se viu a voar atrás de um pequeno carapau. Porém a sorte protege os audazes e o animal acabou por aterrar no cimo de uma araucária que crescia desde o pátio da cave até quase ao segundo andar.
Arrumei o banco e fugi para a casa de banho onde fiquei um bom bocado. Depois ouvi vozes diferentes das habituais e arrisquei finalmente sair do meu refúgio. Deparei com um homem que trazia um saco muito irrequieto que percebi ser o gato.
Muitas semanas mais tarde voltei a casa onde a tia Rosa trabalhava e vivia. Na cozinha no local do costume estava Xavier. Quando entrei o gato miou. Mas era miar dolente, estranho quiçá receoso. A minha tia ao perceber o miar do gato disse com alegria:
- Já vi que o Xavier gosta de ti!
Não me manifestei, mas validei que aquele miar do felino não seria, provavelmente, de alegria, mas assemelhava-se, com toda a certeza a uma queixa.
E tinha toda a razão!
Nota: esta estória foi inventada e nunca aconteceu e eu não tendo com os gatos a mesma relação que tenho com cães ainda assim seria incapaz de fazer mal a um felino.
Valdemar não gostou nada da forma como a enfermeira se referiu ao defunto, no entanto deu para perceber que não seria pessoa simpática e muito menos querida. De súbito perguntou ao médico que consigo descia as escadas:
- Dr. conseguiu encontrar alguma identificação do tipo? – e lançou a cabeça para o lado apontando para a vítima.
Não escutou qualquer resposta. Já na rua ambos retiraram as máscaras e respiraram com gosto o ar poluído da cidade.
- Nunca pensei gostar tanto de respirar ar poluído… Safa que aquilo estava agreste.
O médico provavelmente habituado a este género de odores apenas respondeu à primeira questão:
- Ninguém encontrou qualquer identificação. Nem um recibo de luz, água, qualquer coisa… E agora posso mandar levar o corpo?
- Sim, sim. Talvez passe mais tarde pela morgue.
- Se passar leva logo o tal anel!
- Isso, obrigado.
Um cumprimento simples e cada um seguiu o seu caminho não sem antes Valdemar avisar os elementos do INEM para levarem o corpo para a morgue.
Pegou então na bicicleta e estava para atravessar a fita delimitadora quando ouviu uma voz.
- Senhor, senhor…
O Inspector levantou a cabeça e percebeu que uma jovem agitava o braço para si. Aproximou-se já dos poucos mirones e questionou:
- É comigo?
- Não sei se é consigo… O senhor é polícia?
- Sou o inspector encarregue deste caso. Porquê?
- Sabe o que aconteceu ali?
- Sei mas não posso dizer… como imagina!
- É que ali vive um tio meu… de quem não sei nada há umas semanas…
Valdemar abriu os olhos e pegando no braço da jovem puxou-a para o seu lado.
- Em que andar mora?
- Mora no segundo esquerdo…
O inspector levou a mão à cabeça, olhou em redor em buscar de um sítio para se sentarem e encontrando um banco ali ficaram ambos.
- Encontrámos um corpo em avançado estado de decomposição nesse andar. Seria o seu tio?
- Oh não! – levou as mãos à cara e principiou a chorar.
Valdemar tentou amenizar a situação.
- Pode não ser ele!
- É certamente. Ele só se dava comigo pois era eu que lhe pagava as contas e lhe dava dinheiro para ele comprar o que necessitava. Como terá acontecido?
- Não sabemos menina… E como é que ele se chamava?
- Armelindo Lobato!
- Hummm! – pegou numa caneta e num papel e escreveu o nome.
Para logo a seguir insistir:
- Que idade teria?
- Praí uns 55 a 60 anos… Não sei bem… Só perguntando à minha mãe.
Agora seria a pergunta para a qual já sabia a resposta:
- Ele teria inimigos?
- Nem amigos ele tinha quanto mais inimigos!
Levantou uma nova questão para a qual também sabia a resposta, mas necessitava de uma confirmação:
- Sabe se ele fumava?
- Fumava e muito… Quase todo o dinheiro que lhe dava era para tabaco e bebida… Era um desgraçado. Tenho tanta pena dele.
- Sabe se era casado?
- Casado? – deu uma gargalhada semi triste. Devolveu:
- Quem gostaria de um homem assim?
- Pois não sei… A verdade é que tinha uma aliança no dedo!
- Uma aliança? Então não é o meu tio, com toda acerteza.
Valdemar passou a mão pela cabeça e vendo o corpo a entrar na ambulância sugeriu:
- Será capaz de o identificar?
A jovem pegou no lenço de papel, assoou-se, respirou fundo e aceitou o desafio:
- Claro! Mas creio que não será ele…
- Como é que tem a certeza disso?
Novo suspiro:
- Porque… porque… - gaguejou – o meu tio era homossexual…
Municiado com diversas máscaras no bolso e tendo colocado duas na face, entrou decidido no vetusto prédio. De início não sentiu o cheiro, mas depressa as máscaras foram impotentes para tamanho pivete. Todavia era o seu trabalho. Nos diversos patamares foi encontrando agentes da polícia que o cumprimentaram quase enojados com o cheiro. Quando chegou ao segundo andar ficou à porta e recebeu o primeiro choque não evitando uma expressão mais forte:
- Porra! O que é isto?
O maior realce estava no chão completamente atapetado de beatas de cigarro há muito fumadas. Não se conseguia ver o soalho verdadeiro. Como o pé foi raspando até encontrar o fundo que exposto estava obviamente negro e queimado.
Entrou devagar e o odor que mesmo com máscaras lhe chegava às narinas era quase insuportável. Uma passagem para uma sala sem porta, todavia reparou nas dobradiças ferrugentas e partidas. A sala parecia grande especialmente pelo aspecto minimalista. Encostado à parede do fundo uma velha televisão estava ligada, mas sem som. Do lado oposto um sofá em muito mau estado, um corpo morto e um especialista de volta deste. Vendo Valdemar acenou com as mãos evitando respirar aquele ambiente.
No entanto o inspector necessitava de respostas às questões que a sua mente sempre tão activa discorria. Assim aproximou-se do cadáver e mirou-o atento. Aquilo não era bonito de se ver, nada mesmo, mas não podia retirar dali o corpo sem uma inspecção atenta. Finalmente perguntou:
- Há quantos dias terá morrido?
O outro ergueu três dedos.
- Três dias?
A mão enluvada fez sinal negativo.
- Três semanas?
Finalmente tremeu numa dúvida e Valdemar percebeu que se aproximava mais da data da morte. Insistiu:
- Alguma causa evidente de morte?
Nova negação com a mão.
Valdemar olhou para algo e virando para o médico legista perguntou:
- O que é isso nessa mão? Parece um anel..
Um polegar para cima confirmou a ideia do inspector.
- Consegues tirar?
Nova negação!
- Ok! Depois envia-me essa aliança para mim. Pode ser importante. Vou ver o resto do apartamento.
O médico ergueu-se e fez um sinal para que não fosse. Só que o inspector não gostava de deixar as coisas para trás e seguiu por um corredor. O chão continuava macio de pontas de cigarros e ao fundo à esquerda entrou no que parecia ser a cozinha. Quase deu um salto.
- Safa... parece uma estrumeira! Como pode alguém viver num sítio destes.
Continuou a inspecção e quando saiu encontrou o médico legista que também abandonava o local. Chegados ao patamar das escadas encontrarem uma jovem que carregava uma mala às costas. O inspector estranhou aquela personagem, mas lembrou-se da vizinha acamada. Por isso apenas perguntou:
- Vem para a D. Efigénia?
- Venho sim… Lá na Associação estamos sempre a vê-la de forma remota, mas hoje parece mais agitada que o costume. Daí estar aqui… Já agora que se passou e que cheiro pestilento é este?
- O vizinho… da frente…
- Morreu?
- Sim, parece que há umas semanas e ninguém deu por nada! Alguma vez se cruzou com ele?
- Raramente e cruzei-me sempre que ia a descer e ele vinha a subir.
- Ele algumas vez disse alguma coisa?
- Sinceramente?
Valdemar estranhou a última questão e só soube dizer:
O monte de processos e demais papelada teimava em não desaparecer. Anos e casos a mais sem relatórios e, pior que tudo, sem arquivo. Agora Aquiles dera-lhe apenas uma semana para limpar a secretária… Com a condição de não ser chamado para nenhum caso. Apenas um trabalho das nove ás cinco da tarde que Valdemar olimpicamente detestava.
Tocou o velho telefone algures na mesa, escondido sob arráteis de papéis. O aparelho calou-se. O inspector suspirou para logo a seguir:
- Valdemar! – soou em toda a sala.
O inspector ergueu-se por detrás de um monitor do tempo jurássico e respondeu:
- Diga chefe!
- Porque não atendes a porra do telefone?
- Já lá ía…
- Vem ao meu gabinete, rápido!
O jovem inspector detestava aquele tom de voz e preparou-se para algo que certamente não iria gostar. Entrou no aquário de vidro e alumínio, fechou a porta devagar e aguardou:
- Preciso de ti para um caso…
- Mas o chef…
- Eu sei, eu sei… mas este caso precisa de ti! - interrompeu.
- Fónix Aquiles assim nunca mais despacho aquela papelada.
- Pega nas perninhas e vais a esta morada… Esperam-te lá. Se quiseres um carro leva-te, sempre chegas mais depressa.
Valdemar olhou a morada, arregalou os olhos e exclamou:
- Olha esta rua é duas acima da minha. Vou na minha bicicleta.
- Vai, desanda daqui.
No fundo o inspector estava feliz. Odiava papéis e sair daquela sala era uma alegria. Todavia não o poderia confessar ao chefe. Desceu as escadas e saiu até à rua. Tirou a chave do cadeado do bolso, destrancou-o e saltou para o selim da sua bicicleta. Num ápice chegou ao destino.
Como previa uma multidão rodeava o círculo que a polícia fizera com fitas azuis e brancas. Do outro lado da rua carros de Bombeiros, uma ambulância do INEM e diversas viaturas da Polícia. Foi passando devagar por entre os mirones puxando a sua duas rodas até que se aproximou do limite. Como de costume perguntou:
- O que se passou?
O olheiro do lado colocou a mão na garganta e num tom de voz esquisito respondeu:
- Apanharam um tipo a fumar dentro do prédio…
Valdemar ergueu o sobrolho e quase riu. Depois levantou a cinta e passou. Atrás de si escutou:
- Olhe que não pode passar…
Valdemar cumprimentou o primeiro polícia com um aperto de mão:
- Estás bom Gomes?
- Inspector… bom dia! Voltaste à Terra? Ainda por cima de bicicleta…
- Não gozes, pá, não gozes! Estava fartinho dos papéis. Ainda vou ter de agradecer ao criminoso. Sabes do que se trata?
- Um tipo que está morto há semanas e ninguém deu por falta…
- Obrigado!
Em passo decidido Valdemar aproximou-se do prédio onde à porta diversas pessoas trocavam impressões.
- Bom dia – de cartão identificou-se, para completar – sou o inspector Valdemar e algum dos senhores mora neste prédio.
Um homem alto, de cabelos alvos e voz firme avançou, respondendo:
- Moramos todos. Fui eu que chamei os Bombeiros devido ao mau cheiro…
- Muito bem. Em que andar está o corpo?
- No segundo esquerdo.
- Obrigado! E enquanto o corpo não for levado não devem entrar. Desculpem o incómodo, mas tem de ser assim.
O idoso morador ainda acrescentou:
- Diga isso à D. Efigénia que está acamada há três anos!
Valdemar percebeu que gozava dele e voltando para trás encostou o dedo no peito do idoso e perguntou:
- Como é que sei que não foi o senhor que o matou?
O velho engoliu em seco, arrepiou caminho e num ápice percebeu que falara demais e devolveu:
- Desculpe senhor inspector!
- Assim que me despachar eu aviso.
Um bombeiro vinha a sair de máscara na cara. Valdemar interpelou-o:
- Tem alguma máscara para mim?
- Não, acabaram-se… Mas olhe que vai precisar… aquilo não está fácil!
Valdemar abanou a cabeça contrariado e aproximou-me de uma patrulha.
- Tem uma máscara que me dê?
O agente olhou-o, mas não o conhecendo, perguntou:
- Para que quer a máscara?
Valdemar quase que espumava de raiva e mostrou o cartão de inspector:
Eram três e vinte e cinco da madrugada quando um grito soou em toda a casa. Bom na casa, no prédio e nos edifícios contíguos. Houve quem afirmasse que o senhor Cassildo, um brasileiro bem pachola que vivia duas ruas abaixo, também ouvira o grito.
Felícia levanta-se de um salto ao escutar o berro da filha e corre para o quarto. Entra sem bater e encontra Maria Felícia já sentada na cama com as pernas em vê e uma mancha de água que se alastrava lentamente pelos lençóis.
- Está na hora, filha – disse para a rapariga. Depois dirigiu-se ao guarda-fato e retirou de lá um enorme saco que havia preparado para aquele momento.
À entrada do quarto surgiu também Felício que estremunhado perguntava:
- Que se passa? É preciso alguma coisa?
- A tua filha está pronta para dar à luz. Se queres ser útil arranja-me um táxi.
- Táxi a esta hora? Onde vou arranjar um agora?
Felícia responde em tom áspero:
- Que tal o teu? Achas que consegues chegar ao hospital?
O futuro avô dá uma palmada na testa e devolve:
- Tens razão. Vou já buscá-lo.
Antes de sair avisou:
- Quando estiver à porta toco a campainha.
- Tocas nada homem! Acordas toda a gente… Sabes que horas são… Bem bastou já o grito estridente que a tua filha deu. Eu vou descendo com ela devagar. Dará tempo.
Já no carro e quiçá por defeito de profissão, Felício pergunta:
- Para que hospital vamos?
- O que for mais perto… isso pergunta-se?
Todavia o primeiro hospital não aceitou a parturiente por não ter essa especialidade e de lá correram para outro que aceitaram a futura mãe. Nas urgências o médico de serviço perguntou de forma inocente à futura avó:
- O pai da criança?
Encavacada com a questão Felícia acabou por responder, mentindo:
- Está... está em viagem… mas eu fico com ela!
- Não é preciso! Está bem entregue. Vá para casa qu’isto pode demorar. Depois diremos alguma coisa.
- Eu fico aqui à espera.
- Olhe que pode demorar… - insistiu no aviso, o médico.
- Não importa… - naquele momento a porta automática fechou-se à sua frente e a filha desapareceu noutro mundo.
Sentou-se na sala de espera onde já estava Felício dormitando e deu-lhe a mão nervosa. Depois olhou-o e sorriu.
- Vamos ser avós, já viste?
- E de um catraio… - assumiu o táxista.
- Lá estás tu com essa teimosia… Que coisa a tua…
O tempo passou devagar. Encostados um ao outro os velhos Felícios dormitavam quando escutaram:
- Acompanhante de Maria Felícia…
A avó acorda assarapantada, mas levanta-se num ápice e dirige-se à pessoa que a chamara:
- Estou aqui… há novidades, senhor Doutor?
- Há sim! E boas!
- Ai Deus Nosso Senhor me ajude… e a ela também – agradeceu Felícia enquanto se persignava.
- Olhe que bem precisam…
- Ai… mas porque diz isso?
- Porque tem ali dois netos fantásticos. Ou melhor um neto e uma neta!
Felício que se aproximara abraçou a mulher e escutando as derradeiras palavras afirmou vaidoso:
- Eu não disse… amanhã vou preencher a proposta de sócio do Feliciano.
- Então e a Felicidade Maria?
- Vai ser sócia também!
Nesse momento entrou Mário Felício na sala de espera com ar esbaforido e vendo os pais, já nem usa o uotessape e questiona:
- Há novidades, há novidades?
Responde o agora avô:
- És um bi tio!
- Sou o quê?
Avança a mãe:
- A tua irmã teve gêmeos!
- Dois?
- Sim dois... E já chegam, não? - devolve Felícia!
- Então já sei quem é o pai das crianças...
- Quem é, quem é? - Perguntam em uníssono os pais.
- O Cabé que tem uma irmã gêmea... - naquele preciso instante a voz de Mário Felício foi perdendo fulgor, para finalmente acrescentar - que é a minha namorada e também está grávida.
- Ai... - suspira a mãe arregalando os olhos para o marido.
Felício no alto do seu clubismo afirma todo contente:
- Amanhã já vou buscar quatro propostas para sócios.
A certeza do aumento da família, cada vez mais visível no ventre arredondado de Maria Felícia, transformou totalmente o ambiente caseiro dos Felícios.
De lado ficaram definitivamente os telemóveis e o respectivo uotessape. Apenas Mário Felício ainda o usou durante umas semanas numa tentativa de falar com alguém de casa, mas como não obteve qualquer resposta acabou por desistir. Também se tornou curiosa a sua relação com a irmã, tantas vezes comparsa de festas e saídas nocturnas e agora sentia-a como ela fosse… uma estranha.
Na verdade Mário Felício não sabia ou não queria saber da gravidez da irmã e fazia todos os possíveis para se desencontrar dela.
Ao invés, o futuro avô Felício parecia andar nas nuvens. Na praça onde normalmente costumava parar o táxi pela manhã, já todos sabiam da novidade natalícia. Alguns ousavam chegar mais longe através de brincadeiras parvas e dichotes a que Felício respondia, por vezes a rir e outras com maus modos. Apostava todavia que a futura criança seria um rapaz e às dúvidas apresentadas pelos seus colegas, respondia invariavelmente:
- Lá em casa quem mando sou eu. Se digo que vai ser um rapaz… é um rapaz, mai'nada! Assim que ele nascer faço-o logo sócio do meu clube…
Houve mesmo quem lançasse uma ideia entre o machismo e o imbecil:
- E se for uma cachopa Felício? Também a fazes sócia do teu clube?
Resposta pronta:
- Obviamente! Antes do meu que do teu…
Entretanto Felícia aceitara mais uns trabalhitos de forma a “apouchar” mais uns euros para poder comprar coisas para a criança. Havia muito tempo que a roupa pequena dos filhos fora entregue a uma prima, mãe de uma ranchada de catraios.
Com o dinheiro ganho já comprara um berço, um marsúpio, um fraldário, uma banheira e algumas roupas. Todavia a filha parecia ainda não estar ainda bem consciente do seu estado e daí gastar mais dinheiro em vestimentas para esconder a gravidez do que em utilidades para a futura criança.
Certa noite, à mesa, a mãe sente que tem de fazer uma pergunta à filha. Teme, todavia, a sua reacção já que Maria Felícia tem um feitio… meio esturrado! Respira fundo e finalmente propõe-se a questionar:
- Filha, posso saber uma coisa?
A futura parturiente rabisca qualquer coisa num guardanapo usado com um lápis que apanhou algures e responde quase por instinto:
- Diz lá mãe…
Um silêncio entrou na cozinha de odores vários e finalmente:
- Quem é o pai dessa criança?
Maria Felícia ergue-se devagar da desengonçada cadeira e dirige-se em passo lento para o corredor parecendo fugir a dar uma resposta. Por fim devolve:
- Nem eu sei… mãe. Aquela noite foi… absolutamente inesquecível! Como podes ver - e apontou para o ventre dilatado.
A mãe leva a mão à boca estupefacta com a resposta e desabafa:
- Santo Deus… que família mais destrambelhada esta!