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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Starry Night de Vincent van Gogh

Resposta ao desafio da Fátima

 

Olhou o original e considerou que era um belíssimo quadro, mas estranho, difícil, quiçá um tanto duro.

No entanto a sua aposta seria igualá-lo, custasse o que custasse. Sabia de antemão que seriam necessários muitos dias e provavelmente imensas noites sem dormir para o terminar.

Alguém muito próximo e a quem contara a sua nova aventura, avisou-o:

- Isso é uma enormíssima loucura. Jamais o conseguirás acabar!

Porém Manuel era um homem abnegado, corajoso e tenaz. E tinha um lema na sua vida: o difícil está feito, o muito difícil é para logo, o impossível demora mais umas horas!

Na verdade, o tempo era algo que tinha de sobra e assim, abordando radicais desafios, fazia com que aquele fugisse num ápice.

Foram dias, noites, semanas numa luta constante. Fazia-o muito devagar como quisesse saborear cada momento, cada segundo. Depois os cuidados que tinha...

Enquanto ia desfiando lentamente o desenho, tentou ao mesmo tempo perceber que emoções terá o pintor holandês pretendido despoletar com um céu de estrelas envoltas num amarelo cintilante, a Lua luminosa, um povoado meio desaparecido e acima de tudo aquelas labaredas negras que cresciam para o céu. Ou seria um arbusto?

Certo, certo é que até um dos filhos, quando apareceu em casa e perante aquele salsifré só soube observar:

- Pai que ideia foi essa de escolher este quadro?

- Este ou outro, não interessa. O que realmente conta é fazê-lo, nada mais! - respondeu-lhe Manuel naquele seu ar bonacheirão.

Abanando a cabeça em desacordo o rapaz acabou por sair levando consigo a pergunta:

- Para quê aquilo? Não entendo!

Eram 4 horas e 5 minutos da madrugada de uma quinta feira quando Manuel finalmente colocou a última recorte no puzzle de 10.000 peças com o desenho do quadro "Starry Night" de Van Gogh.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em Flor,  ConchaCristina AveiroGorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

Um objecto quotidiano – V

Resposta ao desafio da Ana

Sentado à secretária no enorme anfiteatro, Alcides aguardava a vinda dos alunos. Um a um foram chegando pela porta de lado e foi cumprimentado:

- Bom dia!

Cumprimento que todos respondiam de igual forma.

Olhou o relógio e percebeu que faltavam ainda dois minutos para a hora do início da aula. Foi folheando uns compêndios que estavam espalhados na secretária, abria uma página depois tirava anotações para, de súbito, se levantar aproximando-se do estrado de madeira para principiar a aula.

Porém faltavam 30 segundos, quiçá o suficiente para chegaram mais discentes. Olhou o relógio e deixou que este fizesse correr lentamente o tempo. Assim que chegou à hora certa retirou-o do pulso, agitou-o nas mãos e depois principiou:

- Bom dia mais uma vez.

- Bom dia senhor engenheiro – responderam em uníssono os alunos espalhados pela plateia.

- O que tenho aqui na minha mão é um aparelho que mede o tempo. Chama-se relógio, mas vocês já sabem. O que talvez não saibam é que é um objecto quotidiano, certo?

Silêncio sepulcral. Para logo a seguir um braço levantar-se e alguém perguntou:

- Engenheiro o que quer dizer quotidiano?

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 7

Havia muito que a noite caíra sobre a cidade. Valdemar olhou o relógio e finalmente pôs-se a caminho do bar onde Arcizete fora vista pela última vez. Podia ser que o anão por lá aparecesse… Porém não o queria assustar com a sua presença.

Percorreu o caminho longo sempre a pé deixando que o fresco da noite o animasse. Entrou no bar e dirigiu-se ao balcão. Aqui chegado percebeu a presença de três personagens atípicas ao local. O primeiro era um padre pois reparou no cabeção que sobressaía do pescoço do clérigo, o segundo parecia um apresentador de televisão, mas nem sabia se era mesmo ele e o terceiro era um homem completamente bêbado e que tentava negar olimpicamente o seu ébrio estado.

Val foi abordado por umas das “drag” que serviam bebidas e pediu uma cerveja. Para logo a seguir ser abordado pela outra empregada de balcão:

- Por cá outra vez inspector?

- Boa noite… é verdade!

- Espero que não seja uma rusga…

- Oh não… para isso serve o meu colega Arcílio…

- O gordo?

Valdemar ergueu os olhos e devolveu:

- Conhece-o?

- Claro que conheço… Vem cá muitas vezes… Desde que foi a rusga…

O jovem inspector fixou o espelho â sua frente e perguntou:

- Há quanto tempo que não aparece?

- Oh faz muito tempo… Acho até que o vi naquele dia em que a Arcizete saiu com o anão.

- Viu-o nessa noite?

- Quase de certeza… - para depois se aproximar do ouvido do inspector e concluir – ele era muito… chegado à Arcizete…

- Chegado? Chegado como?

- Não me diga que tenho de fazer um desenho.

De súbito Val abstraiu-se do local onde estava e reviu todo o processo. Depois pagou a bebida e saiu do bar regressando a casa. No caminho ligou a Aquiles, o seu chefe.

- Val? – respondeu uma voz sonolenta – que se passa?

- Desculpe chefe acordá-lo, mas preciso saber quem descobriu o corpo da Arcizete?

- A uma hora destas?

- Sim chefe… Pode ter sido um de nós a matá-la.

Após uma pausa:

- Acho que foi o Arcílio que me ligou a dizer que necessitava alguém da brigada…

- Tem a certeza chefe?

- A certeza!

- Obrigado, pode ir dormir!

Correu para casa, afastou os papéis da secretária e começou a escrever alguns apontamentos. Depois deitou-se feliz e dormiu, pela primeira vez ao fim de muitos meses, em paz.

No dia seguinte chegou à secretária e começou a escrever relatórios antigos. Até que Aquiles entrou na sala e vendo Valdemar por detrás de Himalaias de papéis:

- Então?

- Foi o Arcílio… Ele é canhoto, lembro-me quando acendeu o cigarro, apagou todos os registos do Octávio e da Arcizete já que também é polícia, tinha uma relação amorosa com a vítima e acima de tudo a história dos fogões.

- Quais fogões?

- Os que eu vi na casa da vítima…

Sem perceber Aquiles avançou:

- Vamos lá então detê-lo!

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 6

Acordou estremunhado e quase doente. Na boca um sabor horrível a fel e a cabeça doía-lhe valentemente. A noite fora horrível. Primeiro pelas insónias e mais tarde pelos pesadelos.

Fora uma noite de sobe e desce de emoções, sonhos e demais imbecilidades, que o haviam deixado daquela forma… aturdido e sem reacção.

Tentou lembrar-se ao pormenor do que sonhara, mas só lhe vinha à ideia a imagem do Bill Gates envolvido com a tal de Xana Toc Toc, que acompanhada dos seus polichinelos haviam inventado uma qualquer teoria de conspiração contra uma empresa de industria alimentar.

Uma confusão diabólica… um sem números de factos sem qualquer lógica e sentido. Disparates completos.

Val sentou-se na beira da cama, passou as mãos pelo cabelo desalinhado, olhou a cómoda onde residia parte do processo da morte de Arcizete e suspirou. Um crime que lhe tomava o tempo, o sono, a vida… e sem qualquer contrapartida que se visse.

Ergueu-se do leito disposto a pegar mais uma vez no caso. Já havia perdido o conto das vezes que repetia aquela acção. Leu papéis, relatórios, viu fotografias, reviu as suas anotações e não conseguia encontrar um simples elo de ligação. Nada, rigorosamente nada! E desfiava em voz alta:

- Arcizete Trelica, antes Octávio Baltazar esfaqueada de madrugada por alguém canhoto. Casa revolvida, estranhei existirem dois fogões. Era uma bodybuilder e usava o Tinder para encontros fortuitos. Frequentava um bar recente onde se realizavam os encontros. O último com um anão que queria que ela o fizesse também musculado… Chamado a depor o anão apresentou alibi para a hora do crime.

Serenamente lembrou-se do interrogatório e até daquela noite em que o conheceu. Um tipo bizarro que falava a sorrir como se estivesse sempre a gozar com os outros. Havia definitivamente nele algo estranho, para além do seu pequeno tamanho… uma espécie de maleita latente como se fosse uma borbulha prestes a rebentar.

- Hummmm… este tipo não é de fiar – disse Val para os seus poucos botões.

De súbito ocorreu-lhe uma ideia. Procurou nos papéis relidos tantas vezes e percebeu batendo com a mão nos papéis.

- O sacaninha é canhoto!

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 5

Valdemar não dormia descansado havia algumas semanas. Tudo por causa do crime da Arcizete que ele ainda não conseguira avançar. O próprio chefe assumira já que “não valia a pena perder mais tempo com esse crime…”

Mas para o jovem e irreverente agente aquela assumpção seria sinónimo de assumir a derrota na investigação, algo que nunca lhe acontecera. Daí as insónias.

Faltava-lhe, todavia, ainda um local para investigar. Se bem que aceitasse a opção de cada um, o seu estatuto marialva sobrepunha-se à função de investigador e recusava visitar os bares alternativos. Mas provavelmente estaria lá a resolução do misterioso crime.

Certa noite, cansado de papéis e relatórios acabou por procurar esses bares. Conhecia alguns do tempo da brigada de Costumes e deste modo dirigiu-se a diversos. Foi entrando e saindo sem nada encontrar até que entrou num que lhe pareceu ser recente.

A música enchia a sala enorme e no meio da pista muitos pares a dançarem. Aproximou-se do balcão onde duas “drag queens” serviam bebidas.

Uma delas aproximou-se de Valdemar, mas este antes que ela dissesse alguma coisa, armou-se do distintivo policial e perguntou:

- Boa noite. Conheces uma miúda chamada Arcizete? – e mostrou-lhe uma fotografia

A barista olhou para a outra e fez-lhe um sinal para se aproximar. Sem que Val percebesse o que diziam elas trocaram palavras olhando para ele. Por fim uma respondeu num tom meio grave:

- Sei quem é, mas faz tempo que não a vejo aqui.

- Não admira, pois os mortos não têm o hábito de andarem na vida nocturna…

Ambas levaram as mãos à boca assumindo um espanto e uma devolveu:

- Quando é que morreu?

- Há umas semanas. Foi esfaqueada na rua. Sabes de alguma coisa que possa ajudar a apanhar quem a matou?

As baristas olharam-se e por fim uma afirmou:

- A última vez que a vi aqui tinha marcado um encontro com um tipo.

- E viste-o?

- Vi-o e quase não vi… era anão!

- Anão?

- Sim… mas ela gostou logo dele… tiveram uma longa conversa…

- Ouviste o que disseram?

- Oh… sim… O que se diz nestas alturas... Parvoíces!

- Mas eu quero saber o que disseram… se te lembrares. Pode ser relevante para a investigação.

A “drag queen” baixou o tom de voz, aproximou-se de Val e confidenciou:

- Arcizete era uma “bodybuilder” e o anão queria que ela o ajudasse.

O agente ficou a matutar naquela declaração e por fim questionou:

- Mas estaremos a falar da mesma pessoa? É que aquela que morreu não tinha nada esse aspecto… musculada.

- Viu-a despida?

- Ahhhh, pois… não… não vi! Mas quanto ao anão… voltou a vê-lo por aqui?

- Sim vem aí de vez em quando à procura dela.

Valdemar virou costas ao balcão quando percebeu que do lado contrário da pista de dança um anão estava feliz ao colo de uma jovem.

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 4

Arcílio leu na porta envidraçada: Brigada de homicídios. Sorriu e ignorou a frase seguinte: proibida a entrada a pessoas estranhas à Brigada.

A sala era enorme assim como a confusão. Agentes ao telefone, outros a interrogarem eventuais suspeitos e mais alguns a olharem para os velhos monitores em busca de uma qualquer informação. Devagar atravessou diversas secretárias e procurou Val no meio daquela amálgama de gente. Não o encontrando dirigiu-se a um agente que pareceu mais livre:

- Bom dia, sou o agente Arcílio e preciso falar com o agente Valdemar por causa de um crime. Sabe onde é a secretária dele?

O outro não tirou os olhos dos papeis apontou para a parte de trás e devolveu:

- O maior monte de papéis que vir é a secretária dele.

- Obrigado.

Passou o olhar rápido pelo resto da sala e logo percebeu qual queria o lugar. Deambulou por entre outras secretárias até que chegou junto da de Val. Por detrás da fortaleza de pastas e processos, encontrou o agente mergulhado em papéis, folheando-os para a frente e para trás comparando, passando a mão pelo cabelo.

- Bom dia Valdemar.

O agente assustou-se dando um salto na cadeira, mas vendo o colega obeso, respondeu:

- Bom Arcílio… Que te trás por cá? Não me vens dar nada, com toda a certeza…

- Precisamos falar sobre a morte da Arcizete.

- Oh pá… tu deixa-me… que esse crime tira-me do sério.

- Porquê? Não avançaste nada?

- Sim e não!

- Explica lá isso…

- Caramba que um destes dias quase que conseguia, mas depois…

Arcílio puxou de uma cadeira para se sentar, mas primeiro teve de tirar um saco de plástico que continha uma tesoura que estava no tampo, colocando-o na secretária respectiva.

- Apanhei um tipo que esteve preso durante uns anos por crimes semelhantes, mas no dia do crime estava no hospital com covid.

- Entretanto não conseguiste mais nada, certo?

- Certo…

- Não fiques aborrecido porque tenho uma boa notícia para ti…

O outro endireitou-se e avançou:

- Conta!

- O Bar Trapas já tem aquele whisky que tanto gostas. O Alcides, é que me mandou dar-te este recado.

Valdemar enterrou-se na cadeira desiludido. Depois ergueu o olhar furioso para Arcílio e retorquiu:

- Tu não podes ser outro… Eu aqui de voltas há semanas com um crime de sangue e tu só preocupado com os copos. Tu vives neste mundo?

Irado, pegou no processo e encostando-o para o lado, aterrou com a cabeça no tampo da secretária e tapou aquela com as mãos entrelaçando os dedos. Depois saiu dessa posição e perguntou finalmente ao colega:

- Sabes se é o whisky de 15 ou 20 anos?

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 3

Mote:  Não aguento mais contigo! - afirmou, enquanto o atirava para longe.

Havia longas horas que Valdemar não tirava os olhos do velho monitor que lhe ocupava metade da secretária. Esta também parecia quase nem existir tal era o profusão de processos que se alastravam por cima do tampo, uns em cima dos outros, em torres de papel pouco equilibradas, não obstante haver um recado permanente e preso num dossier escrito em letras garrafais por ele próprio e que dizia: amanhã dia de arquivo.

Porém todas as manhãs o inspector quando chegava lia o papel e exclamava para si a sorrir: ah é só amanhã. E assim continuava a bagunça. Alguns colegas brincavam com ele por causa daquela desorganização, essencialmente pedindo-lhe informações de crimes resolvidos, mas que poderiam estar relacionados com outros mais recentes, no intuito único de o verem vasculhar no meio de tanta celulose. No entanto Val rapidamente sacava do fundo das resmas do tal processo, deixando os colegas quase sempre muito desconfortáveis.

Mas naquele serão não eram processos para relatar e arquivar que Valdemar buscava, mas tão-somente algo que lhe desse uma indicação, que lançasse alguma luz sobre o crime que tinha entre mãos.

- Que caneco… mas este tipo ou tipa não tem qualquer informação nesta base de dados… nem uma multa de estacionamento… Nada! – desabafou quase zangado.

Sentiu bater no seu ombro e deu um salto na cadeira. Adormecera sem dar por isso a olhar para aquele monstro informático.

- Bom dia Val… ficaste aqui a noite toda ou vieste directamente da borga? – perguntou-lhe o chefe acabado de chegar à Brigada.

Valdemar sentiu-se levemente ofendido, mas nada devolveu ao chefe, a não ser:

- Bom dia Aquiles, fiquei aqui à procura de algo sobre o assassínio de há um mês… e nada! É desesperante…

- Val… vai para casa! E se não conseguires resolver não serás o único. O que falta no arquivo são casos por resolver…

- Ó chefe parece que não me conhece. Eu quando pego numa coisa não a largo até esmiuçar a situação. Mas esta… tem dado água pela barba.

- Ouve… aceita um conselho… vais para casa, dormes umas boas horas, comes devidamente e quando estiveres recomposto regressas. Estás a perder tempo sem ganhar conhecimento. Vá pira-te daqui!

- Mas chefe…

- Em vez de conselho passa a ser uma ordem! Desaparece daqui! Chispa!

Valdemar ergueu-se da sua secretária devagar pegou na capa do processo pouco volumoso e…

- Não aguento mais contigo! - afirmou, enquanto o atirava para longe.

As folhas soltas voaram então pela sala e por cima de uma série de secretárias obrigando-o, antes de regressar a casa, a reunir toda a papelada.

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 2

Mote: afinal havia outro... fogão

Atravessou a rua pejada de viaturas da polícia e outras descaracterizadas que cortavam totalmente o trânsito da rua, serpenteando por entre elas até chegar ao passeio contrário onde surgiu um corpo já tapado com um pano branco. A seu lado reconheceu um velho inspector, mas de outra brigada. Assaz gordo Arcílio tinha quase todos os vícios: fumador, jogador, preguiçoso e lambão.

- Bom dia Arcílio, que fazes aqui? – e estendeu-lhe o punho para um cumprimento.

- Olha o Val… Acordaste cedo hoje! – e deu uma risada.

- Pois acordei… Ou melhor acordaram-me… Já te perguntei o que fazes aqui. Isto é um homicídio não uma rusga.

O outro saca de um cigarro, acende-o com o isqueiro voltando as costas contra o vento e tapando com a mão. Depois devolve:

- Isso pensas tu… Já viste a vítima?

- Ainda não… Deixa-me espreitar…

Levantou o lençol, olhou demoradamente e depois anunciou:

- Uma jovem entre 30 a 35 anos, conhecia quem a matou e quem o fez era canhoto.

- O problema reside aí…

- Onde?

- No sexo…

Valdemar não entendeu:

- Agora não percebi…

- Há três anos essa Arcizete que está aí morta chamava-se Octávio…

- Ok. Isso quer dizer o quê? Alguém a matou…

- Pois…

Valdemar percebeu, mas não deu seguimento à conversa. Perguntou:

- Sabes onde morava a vítima?

- No terceiro andar desse prédio aí – e apontou com o queixo.

- Vamos lá?

- Nem penses… Nunca mais chegaria lá acima!

O jovem inspector riu e dirigiu-se ao velho e degradado edifício. Assim que entrou subiu ao nariz um cheiro a bafio. A cada degrau que pisava este rangia sob o seu peso. Valdemar temia que o passo seguinte fosse desfazer a velha e carunchosa escada de madeira. No cimo do prédio o patamar era mal iluminado por uma pequena janela redonda que havia muito tempo que não via limpeza. À esquerda encontrou a porta aberta de um apartamento e um polícia do lado de dentro a guardar. Identificou-se e penetrou num local ínfimo onde reinava a confusão. Parecia que alguém havia entrado ali em busca de qualquer coisa. Tentando não tocar em nada Valdemar foi escolhendo os sítios para colocar os pés com todo o cuidado. Andou pela sala, entrou numa divisão onde mal cabia a cama, seguiu-se a casa de banho também ela demasiado acolhedora, para terminar na cozinha.

Abriu armários, vasculhou alguns e quando deu por terminada a pesquisa regressou ao patamar para voltar à rua. Nesse mesmo instante Arcílio acabava de chegar ao piso tentando respirar. Valdemar aguardou que o colega recuperasse o fôlego para começar a descer.

- Já vais?

- Já!

- Alguma novidade?

- Humm, nada de interessante.

- Vou só dar uma espreitadela.

- Ok, vou indo!

Ainda antes de começar a descida Valdemar declarou:

- Olha Arcílio afinal havia outro… fogão! – e principiou a descer as escadas.

O obeso inspector coçou a cabeça e sem entender patavina encolheu os ombros e penetrou no apartamento.

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 1

Mote: Foi o que ouvi

Valdemar acordou repentinamente com o toque insistente do telemóvel! Estremunhado da noite mal dormida e demasiado bebida, pegou no aparelho, viu o nome, fez um gesto de enfado, mas atendeu:

- Estou… - responde com voz sonolenta.

- Bom dia Val! Acordei-te?

- Não… estou já no gabinete! – e após um breve silêncio - Claro que me acordaste.

- Temos pena, mas tens de te despachar que houve um homicídio.

- Logo a esta hora… - suspirou profundo - Está bem, está bem, dá-me a morada que vou já para lá.

O inspector Valdemar era um daqueles jovens agentes, assaz competente, mas muito boémio e que raramente andava de carro. Preferia os transportes públicos ou até mesmo andar a pé. Por isso e após ter recolhido a morada colocou-se a caminho.

Ao entrar na rua onde ocorrera o crime apercebeu-se do ajuntamento, normal nestas ocasiões, e aproximou-se lentamente tricotando entre a multidão como se não fosse nada com ele. Muitos carros da polícia, muitos agentes, ambulância, tudo para lá das fitas azuis e brancas. A costumada confusão e parafernália.

O agente Valdemar era conhecido pelas suas técnicas muito peculiares de dedução e resolução de crimes. Considerava a opinião pública, por mais básica que fosse, uma chave essencial nas suas investigações e nunca achava despiciente o que lhe diziam, mesmo que meramente opinativo. Todavia fazia-o sempre sobre a capa do anonimato.

Do lado de fora da zona proibida a estranhos, as pessoas juntavam-se, falavam e comentavam, sem contudo saber concretamente o que acontecera:

- Dizem que se atirou do telhado…- palpitava um.

- Coitada – respondia uma velha mulher.

- Droga, isso foi droga – deitou-se adivinhar outra idosa embrulhada num xaile negro. Depois acrescentou – Um primo do meu falecido marido fez o mesmo… Só desgraças.

Entretanto alguém assumiu:

- Foi uma navalhada no pescoço. A minha irmã acabou por me dizer agora por telefone. Ela mora lá no prédio.

Alguns dos mirones acabaram então por desistir da curiosidade quando escutaram as actualizações. Já não tinha qualquer piada...

O polícia anónimo ouvia, mas escusava-se a falar. Entretanto chegou perto de uma mulher mirone que não se envolvera na conversa anterior e quase em surdina perguntou-lhe:

- Bom dia, o que aconteceu ali, sabe?

- Bom dia… Ui uma desgraça…

E sem esperar nova pergunta continuou:

- Parece que mataram alguém. Dizem que foi por causa da droga.

- Ai sim?

- Foi o que eu ouvi.

- Ah, obrigado! Tenha um bom dia.

E passou por debaixo da fita mostrando a identificação a outro polícia, enquanto a mulher curiosa com quem acabara de falar, abria a boca num espanto desmedido.

Quem conta um conto acrescenta um ponto...

Título Sugerido: Odeio Pessoas!

(continuação de um desafio que advém daqui)

Mas esta gente julga qu’isto é um infantário, ou quê? É por isto que odeio pessoas… Safa…

Quer’se dizer: não caso eu com nenhuma tipa, não tenho filhos para não ter chatices e quem me moa o bestunto e vem esta gentinha armada em mosca morta fazer desta casa um berçário… C’um caneco. Não é que eu seja nhurra, mas as pessoas irritam-me a sério. Um destes dias apareceu-me aqui um gabirú todo gingão, argola na ponta do focinho e armado ao pingarelho a perguntar se lhe dava trabalho. Eu dava-lhe era com uma cachaporra no lombo para me desamparar a loja.

O dinheiro que faço ao fim do dia mal dá para pagar a porra da luz e o marmanjo a querer trabalho. Só a mim… Porque não vão marrar com um comboio? Larguem-me a labita, canudo!

Ainda os que mais me irritam são aqueles que vêm aqui pedem um café e um copo de água como se esta fosse à borla. Um copo aqui outro ali são litros que gasto por dia sem poder receber. Depois são os grandes defensores da Natureza… Uma treta…

Para rematar toda esta minha vidinha pacata apareceram-me aí, há dias, uns sacanas da ASAE…