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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Os Felícios! #6

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Maria Felícia entra em casa toda despachada e dirigi-se para o quarto. A mãe Felícia giranda pela cozinha numa costumada azáfama a preparar o jantar.

Felício há muito que está em casa. Um tipo amarrotara-lhe o táxi com vontade e agora seriam uns dias sem fazer "a ponta d'um corno" e o seguro a pagar. Para enorme enfado da mulher que gostava de estar, por vezes, sozinha e não ter que aturar as parvoíces do marido.

Entretanto Mário Felício chega a casa lentamente como se carregasse todos as tristezas do mundo na sua mala de entregador de comida. O pai repara no filho e envia-lhe uma mensagem via, o tão conhecido, uotessape:

"Que se passa, pá?"

Sem resposta!

"Mene estou a falar contigo... Porque não me respondes?"

Finalmente:

"Deixa-me em paz".

No momento seguinte lê:

"O jantar está pronto!"

Era a mae!

Felício já com algum esforço, devido acima de tudo à gordura que carrega, ergueu-se do surrado sofá e dirige-se para a cozinha donde exala um belíssimo aroma a comida. Depois chega Maria Felícia radiante! Finalmente o filho com uma cara de macambúzio. O ambiente parece pesado para uns e leves para outros. Mas ninguém quer falar.

Foi a vez de Felício como chefe da família lançar as questões:

"Mas o que se passa aqui hoje? Uns parecem umas estátuas outros palhaços..."

Nem uma resposta! Felícia defende os filhos!

"Deixa os miúdos... Como chegaste cedo a casa pensas que os outros também não fizeram nada! Calão!"

A primeira resposta veio de Mário:

"Eh pá... não se preocupem... Levei com os pés da namorada".

"Que lhe fizeste?" - pergunta a mãe com vivo interesse. 

"Nada, mãe... não fiz nada!"

"Se calhar foi por isso"! - escreve o pai e coloca muitas gargalhadas!

"És um imbecil, pai!" - diz Maria Felícia.

Irado com o epíteto Felício sente o sangue a subir à cabeça para no momento seguinte estar estendido no chão em paragem cardio-respiratória. Todos numa reacção normal se aproximam de sopetão do patriarca para logo este recuperar os sentidos sem qualquer ajuda, De forma inusual pergunta de viva voz:

"Quantos há?"

Ninguém respondeu... e todos olharam-se entre si. Aquela pergunta não fazia sentido ainda por cima... falada! Foi Maria Felícia que acabou por lhe perguntar:

"Estás bem. paizinho?"

O homem já recomposto e sentado novamente à mesa respondeu através do telemóvel:

"Eu sempre estive bem! O que se passa com vocês?"

Os Felícios! #5

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Estava Felício confortavelmente recostado à cabeceira da vetusta cama de ferro, herança de uma tia-avó que nunca conhecera, a tentar fazer o que restava das palavras cruzadas de um pasquim, quando olhou para a televisão na qual Felícia ficava vidrada e percebeu que alguém falava num enorme incêndio em Alguidares-de-Baixo.
Pegou no telemóvel e enviou uma mensagem à mulher deitada a seu lado:

"Olha essa é a terra do meu trisavô!"

"E eu ralada", Felícia ainda não esquecera o tal dia de praia que não... fora!

"E se fossemos lá à festa? Nunca lá fui... Bom nem sei onde é!" - escreveu.

"Quero lá saber. Vai sozinho"!

No dia seguinte Felício lançou mais uma vez a ideia da noite anterior, via uotessape, envolvendo desta vez os filhos.

"Pessoal bora a uma festa na aldeia com música pimba e tudo?"

As respostas não tardaram a chegar de Mário Felício e Maria Felícia.

"Que aldeia mene?" pergunta o filho.

"Cena marada pai. Bora lá!" enviou a mensagem para logo a seguir voltar a enviar outra.

"Onde é?"

"Alguidares-de-baixo"!

"Isso é adonde?"

"Lá para trás do sol posto" responde Mário Felício e acrescenta uns sorrisos.

'Parvo" responde Maria Felícia e avança um diabo!

"Loira!" devolve o irmão e mais sorrisos!

Dois dias depois Felício entra radiante em casa, descalça os sapatos malcheirosos deixando-os na entrada, vai ao frigorífico onde surripia uma cerveja e senta-se no velho e afundado sofá que já merecia reforma. Liga a televisão e bebe um gole generoso da garrafa.

Quando escuta os filhos chegarem pega no telemóvel e envia nova mensagem:

"Já sei onde é a aldeia. Fica para lá de Vale de Lençóis, a uns quilómetros de Alface-a-Velha!"

Maria que está no quarto ainda de volta da roupa que há-de vestir para a naite, devolve:

"Já sabes quem são os artistas?"

"Os melhores da praça" responde o pai.

"Mas quem?" pergunta Mário Felício.

"O Joy de Setúbal, o Moni das furgonetas, o João Bacalhoa e o maior dos maiores o Didi Gravatas"

"Ena tantos... e dos bons" afirma Mário Felício.

"Fixe velho. Bora lá..."

De súbito os três recebem uma mensagem da mãe:

"Só em sonhos... Isso foi o cartaz de antes da pandemia"

Acrescentou:

"O Joy está preso por fazer pleibeque, o Moni fugiu para a estranja por causa dos impostos, o Bacalhoa morreu este ano de enfarte e o Didi Gravatas está num lar depois de um AVC".

Terminou escrevendo:

"Mas ide, ide e não vindes tão depressa!"

Os Felícios! #4

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Chegaram à praia era quase meio-dia não obstante terem saído do Bairro das Mouras pelas 8 da manhã. O problema fora realmente o trânsito naquele Domingo especialmente para passar a ponte.

Como bom táxista que está convencido que é, Felício foi tentando fugir ao tráfego automóvel. Só que numa dessas fugas foi apanhado por uma Operação-Stop montada numa rotunda. Resultado... quase duas horas para convencer o polícia de que era um condutor profissional, recebendo ainda assim, em troca, uma multa de 125 paus por conduzir com demasiadas gramas de álcool no sangue. Não tivesse a família bebido também um gole daquele medronho "algarvie" e provavelmente a coima teria sido muito pior.

Quando entraram na areia a praia estava repleta. Maria Felícia descalça-se e enfia-se na areia a ferver. Mas dá um salto e volta para trás. De pé sem saberem para onde ir Felício arranca então decidido a inventar um lugar, nem que seja a um metro da água. A família segue-o enfim.

Sem preceito ou cuidado as quatro alminhas vão tricotando por entre chapéus de Sol, igloos manhosos, geleiras espampanantes e toalhas de praia "meide ine errepêcê". Já para não falar dos putos que armadilham o caminho com buracos na areia.

Mário Felício acabou por cair num destes quando olhava para as sedutoras curvas de uma jovem mulata estendida na toalha, esparramando-se ao comprido no chão fino e salpicando toda a gente ao redor com areia. Um vendedor de "Bolas de Berlim" feitas na Caparica é atingido por uma nuvem e só tem tempo de tapar os bolos do cesto já que o da mão ficou bem polvilhado, mas não de açúcar.

A maioria dos presentes ri-se alarvemente do espalhanço, mas Mário bufa de raiva e dá um calduço com força num dos putos, que fica a chorar. Felícia, por sua vez, carrega uma enorme cesta equilibrando-a numa velha e suja rodilha que colocou no cocuruto do seu corpo redondo e caminha devagar atrás do marido, que transporta o chapéu de sol, o saco com as toalhas e um jornal desportivo.

Ao longe Felício repara que há alguém a sair e quase que corre para o local. Porém aí chegado não percebe espaço algum e fica muito desapontado. Por fim chega-se perto da beira-mar e espeta com força o chapéu na areia molhada e senta-se. Os restantes imitam-no.

Maria Felícia vai devorando com os olhos as carnes humanas, especialmente masculinas, que atravessam na sua frente. O mesmo se passa com Mário Felício e com Felício, chefe do clã. Só Felícia vai estendendo as toalhas sobre a areia encharcada, aprontando o almoço.

No minuto seguinte a mãe e esposa percebe que está sozinha, já que os três foram à água. Uma carrinha do ISN em alta velocidade e de sirene bem estridente atravessa junto à beira-mar fazendo saltar areia para todo o lado. A mulher barafusta com as autoridades para depois enviar uma mensagem: vamos comer?

Maria Felícia responde: vou mais tarde acabei de conhecer o Joca!

Mário Felício devolve: conheci agora uma Miraldina, vou mais logo!

Felício diz: já almoçar?

Furibunda Felícia pega na toalha de praia e foge do local indo para o carro. A maré continua a subir e é nessa altura que o táxista percebe a sua garrafa de tinto a boiar aos seus pés, já meio vazia!

Às duas da tarde estão todos de regresso a casa, sem almoço e sem praia, onde chegam cinco horas mais tarde, tudo devido a um acidente na Ponte.

Felícia, amofinada, deita-se logo.

Felício vai poder finalmente ler o jornal!

Maria Felícia nem quer saber pois está de converseta via uotessape com o tal de Joca.

Por fim Mário Felício pediu amizade à mulata no feicebuque! Está à espera de resposta!

Os Felícios! #3

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Episódio 2

Pairava sobre a urbe, naquele Verão inclemente, uma canícula que tudo tisnava. As pessoas fugiam da rua evitando o calor abafado, procurando naturalmente os locais mais frescos. Na precedente semana a chuva caíra a rodos tal qual as invernias. Agora aquele Estio… quase de um dia para o outro!

Felício estava sentado no táxi à sombra de uma vetusta árvore no Príncipe Real ouvindo um posto de rádio que só dava música do toni das “caminetes” e de outras cantores de qualidade duvidosa. Enquanto aguardava algum cliente mais imbecil por andar com aquele calor na rua, enviou mensagens à família via uotessape: sábado praia quem vai?

Durante três dias ninguém respondeu ao táxista. Também não insistiu. Admirou-se, todavia, com a mulher Felícia que andava sempre desejosa de enfiar o traseiro na água do mar. O fim de semana aproximava-se e nem uma mensagem. Até que na sexta feira à noite com todos sentados à mesa (uma raridade) Mário Felício comunica: amanhã folga. Bora ah praia?

O pai responde: imbecil perguntei isso na segunda e ninguém ligou patavina.

A mãe ajuda: eu sozinha também namapetece! Mas se formos todos até faço um arrozito de galinha…

Faltava a resposta de Maria Felícia altamente dedicada a enviar umas parvoíces no feicebuque. Finalmente percebeu a questão e respondeu: zanguei-me com a minha namorada. também posso ir.

Só Felício estava varado! Sem as devidas respostas a tempo combinara uma ida à pesca com uns amigos, para os lados de Peniche e não lhe apetecia estar a mudar a coisa. Respondeu: agora não contem comigo… vou pra fora! Desenvencilhem-se...

Não houve mais respostas de ninguém. Dava a ideia de que a praia… já era. Entretanto a canícula viera para ficar! As noites eram verdadeiros paraísos tropicais, originando que tanto Maria como Mário saíram logo após o jantar para beberem uns copos com os amigos. No entanto cada um seguira para seu lado, só regressando ambos altas horas da madrugada e quase ao mesmo tempo.

Daí terem-se admirado com o movimento inusitado em casa às seis da manhã! Quando entraram deram de caras com um pai hiper-super-maldisposto. A casa estava uma revolução e a mãe Felícia chorava na cozinha.

Mário pegou no telemóvel quase sem bateria e enviou uma mensagem ao pai:

O que se passa?”

“Não tens nada com isso, desempecilha daqui e vai “masé” dormir! Que o teu mal é sono.”

“Isso é que não vou… quero saber porque a mãe está a chorar na cozinha”.

A filha Maria Felícia, entretanto, chegara-se perto da mãe e acariciava-a. Depois pegou no telemóvel e perguntou também ao pai: “que fizeste à mãe?

Não fiz nada! Ela que me desapareceu com a minha bóia talismã da pesca.”

Qual… aquela que está no teu porta-chaves no carro?” – perguntou o Mário Felício.

Felício pára, senta-se no meio da tralha que desarrumou e acaba por dizer:

- Fónix!

Três quadras ao Santo António!

Ó meu bom santo lisboeta

António de teu rico nome

Avia-me aí uma lambreta*

Antes que morra à fome.

 

Brincamos hoje quase todos

Aos bons santos populares

Sob uns resistentes toldos

Há que dar aos molares.

 

Todos os anos tem sido uso

Escrever parvoíce a preceito

Quiçá algo em mor desuso,

Não quero saber. Está feito.

 

* lambreta - cerveja em copo pequeno

O herdeiro!

O vetusto elevador subiu lentamente com um ronco os três andares até que deu um solavanco antes de parar. Orlando fez correr as duas portas de lagarta e saiu para o patamar.

À sua frente a porta que sempre fora de acesso restrito. Unicamente os clientes do pai advogado entravam por ali evitando com isso o acesso à casa. À direita a entrada principal, duas meias portas que só se abriam, ambas, quando entrava algum móvel novo e da qual de aproximou devagar.

Defronte da entrada, de chave empunhada temia ou duvidava, nem sabia bem! Temia encontrar uma casa feita em fanicos e duvidava dos seus sentimentos perante o que iria provavelmente reviver. Vinte anos bem medidos o afastavam daquela, que fora durante muitos anos, a sua residência permanente.

Encheu os pulmões de um ar velho e soprou antes de abrir a porta. Finalmente muniu-se de coragem e introduziu a chave na fechadura, tentando rodar. Mas aquela quase nem se moveu. Recordou então aquele truque que o tio um dia lhe ensinara:

- Quando for assim rodas como se fosse para fechar e depois rodas para abrir!

Para a frente como se fosse trancar para logo rodar para abrir. A lingueta cedeu, deu duas voltas e mais o trinco. A porta abriu e um corredor escancarou-se na sua frente. Um odor pestilento entre humidade, bafio e provavelmente ratos derramou-se pelo patamar.

Orlando pegou num lenço e com ele tapou nariz, boca e finalmente deu os primeiros passos para dentro de um andar onde vivera perto de trinta anos.

Ainda sabia onde se encontrava o interruptor da luz, mas este não fez acender candeeiro nenhum.

- Pois… os mortos não pagam contas…

Devagar penetrou no andar. Era um daqueles apartamentos antigos e imensos com inúmeras divisões, algumas enormes outras mais pequenas, mas quase todas ligadas entre si. Ao meio um corredor para onde desembocavam também os quartos e salas. Assim que se entrava havia à direita um pequeno corredor que dava para a cozinha e a outro corredor que dava acesso à casa de banho e outras divisões.

Ligou a lanterna do telemóvel para ter alguma luz. A primeira coisa que viu foi uma enorme ratazana que calmamente ratava o que restava da passadeira que tapara em tempos o chão do corredor de madeira. Bateu com o pé e o roedor desapareceu do longo espaço. Este apresentava ainda as mesmas velhas mesas de encostar em meia lua e todas elas encimadas por espelhos. No tecto umas lanternas de vidro. Ao fundo uma velha credência onde ainda repousava um velho telefone de baquelite.

Lentamente penetrou mais no corredor e abriu a primeira porta à sua esquerda. Era uma pequena sala de estar atafulhada de mobília. Duas senhorinhas aos cantos, quadros velhos de imagens de pintores clássicos, uma mesa com um bonito tampo em pedra negra e um candeeiro de porcelana também com muitos anos.

Aproximou-se da janela e fez correr os cortinados com cuidado. A luz do dia entrou na pequena sala tornando-se mais acolhedora e dando a perceber a decadência do espaço. Por fim a vidraça… segurou no fecho e rodou-o. Este parecia perro, mas com um pequeno esforço acedeu.

O ar frio daquela manhã entrou na divisão e substituiu o odor pestilento da humidade. Rodou nos calcanhares e ficou na dúvida para que lado ir. Quase sem perceber esboçou um sorriso pelas recordações que aquele apartamento lhe trazia. Tanta correria, tanto grito das empregadas a quem atentava os dias... até que começou a atentar as noites!

Decidiu caminhar por entre móveis, abrindo janelas e reposteiros bafientos e velhos. A luz cinzenta foi invadindo o apartamento dando um pouco de cor a um lugar agora triste e abandonado.

Foi deambulando por entre salas e quartos, camas e sofás até chegar à enorme sala das refeições. Também aqui deixou que a luz plúmbea alegrasse minimamente o recinto. Na parede principal aquela cristaleira enorme recheada de loiça velha como a vida e que fora herança de um tio avô de origem inglesa, exposta por detrás de uns vidro baços.

No tecto o lustre imenso havia perdido o seu brilhantismo de outras noites tal era a quantidade de pó que carregava. No topo um piano vertical Erard em madeira e que a sua mãe adorava tocar. Na mesa no centro da sala destacava-se uma enorme terrina antiga em prata. A acompanhar dois valentes candelabros também de prata mas sem velas. As cadeiras de pau-santo rodeavam a mesa e davam um aspecto organizado. A sala tinha duas janelas altas pelas quais se acedia a um estreito varandim. Entre elas outro móvel onde eram guardados os talheres. Aproximou-se abriu uma das gavetas e logo apareceram facas, garfos, colheres e demais ferramentas todas enegrecidas pela patine.

Nas paredes algumas fotografias que sabiam ser de gente da família, que ele jamais conhecera. Noutro canto um velhíssimo gramofone muito semelhante ao que vira na casa de Gaudi em Barcelona… assim como alguns discos entalados entre o aparelho e a parede.

Abriu uma das gavetas da cristaleira e encontrou toalhas em linho e muitos guardanapos também do mesmo tecido. Pegou num e com perícia bateu com ele no acento de uma cadeira. Uma nuvem de pó envolveu o ar, mas ainda assim suficiente para se sentar. Olhou ao redor e parecia estar numa daquelas divisões de casas senhoriais do século XVIII e XIX.

Era tempo de pensar no que fazer a tudo aquilo. Lembrou-se de um velho amigo que provavelmente o ajudaria a desfazer-se da tralha. Procurou no telemóvel o número e quando o achou ligou-lhe:

- Viva Orlando, há quanto tempo!

- Bom dia Noé! Desculpa a hora quase madrugadora…

- Estás tonto… Pensas que é com o corpo na cama que ganho a vida?

- Imagino que não…

- Conta-me… estás ainda em Barcelona?

- Estou… mas hoje estou por cá!

- Ena, boa… temos de ir almoçar…

- Proponho-te algo melhor… Tu ainda andas no negócio das velharias e antiguidades?

. Ando porquê? Tens algo em mente para comprar.

- Não… Tenho para vender.

- Para vender? Mas o que tens?

- O recheio duma casa!

- Ui… isso pode ser interessante. De quem é a casa?

- Bom… - suspendeu o diálogo – agora é minha! Mas foi dos meus pais!

- Qual? Aquele apartamento enorme…

Nem o deixou terminar:

- Esse mesmo. Está cheio que nem um ovo…

- Ok. Espera aí que tenho de ver umas coisas…  mas posso adiar para mais tarde. Olha vou já para aí. Ainda é no terceiro andar?

- É mesmo… tens boa memória. Mas não toques à campainha porque eu vou deixar a porta encostada…

- Fixe meu, vou já para aí!

Ainda não havia decorrido meia hora quando Orlando começou a ouvir passos no corredor. Deixou-se ficar naquele que fora o seu quarto durante tantos anos.

- Oi Orlando, onde estás?

- Do lado contrário à entrada. No meu antigo quarto!

Noé entrou e olhou em redor e foi dizendo:

- Xiiii, já não me lembrava como isto era…

Aproximaram-se ambos e deram um forte abraço. Orlando convidou:

- Eh pá senta-te que temos de falar sobre tudo o que aqui está - e fez um gesto largo a indicar toda a casa.

- Então vamos lá ver o que há de interessante…

Ergueram-se ambos e Orlando levou-o logo à sala de jantar onde sabia que encontraria as melhores coisas. Aí entrado Noé assobiou:

- Eh pá! Tens aqui coisas muito valiosas…

Orlando continuou no mesmo sentido de tudo vender:

- Como costumas fazer? Peça a peça ou tudo por atacado?

O amigo entretinha-se a abrir a cristeleira para ver as loiças. Depois foi ao móvel dos talheres para logo a seguir abrir a tampa do piano e premiu algumas teclas. Logo saiu um som límpido que fez com que o antiquário fizesse um jeito de aprovação. Só depois de muito pesquisar é que respondeu ao amigo.

- Desculpa não te ter respondido mas estava vidrado nestas coisas… Há aqui muita coisa boa…

- Tens interesse nas coisas?

- Se tenho companheiro. Mas contigo não faço o que costumo…

- Então?

- Queres libertar-te de tudo?

- Claro Noé! Repara… vivo em Barcelona onde sou professor numa Universidade e não estou para levar esta tralha para lá!

- Normalmente quando me contactam ofereço um valor apetitoso, mas muito abaixo da realidade e levo tudo. Na maioria das vezes em duas ou três peças faço o dinheiro investido… Depois tudo o que vender é lucro.

- Não quero saber… Levas tudo isto e pagas-me o que achares justo?

- Mas tu não queres nada daqui?

- Nada!

- Nem o piano? Este vale uma pipa de massa. Ainda por cima a tocar…

- Escuta Noé… Não preciso de nada disto… Leva, vendes e depois dás-me o dinheiro!

- Deixa-me ver o resto da casa.

- Está à vontade…

Noé percorreu todas as divisões, chegando a abrir mais janelas. Orlando ficou na sala a ver o movimento na rua de braços cruzados enquanto de vez em quando escutava um assobio. Finalmente Noé voltou à sala e perante o que vira insistiu:

- Caneco… há aqui muita coisa fantástica.

- Calculo, mas percebo pouco disso!

- Já agora só um pormenor… tu és o único herdeiro, certo?

- O único… ainda não fiz a habilitação de herdeiros, mas como sabes não tenho irmãos e os meus tios nunca tiveram filhos.

- Ok… mas trata disso… Se ficar com isto não quero ter problemas com o fisco ou a justiça.

- Claro… farei tudo como deve ser!

- Quem foi o último a morrer?

- O meu tio Domingos!

- E tudo isto era de quem antes?

- Ora… dos meus avós e depois do meu pai e do meu tio que sempre aqui viveram.

- Ok! Posso comprar tudo isto, mas só depois das coisas legalmente tratadas!

- Muito bem! Esta tarde vou tentar tratar disso. Queres ver mais alguma coisa?

- Não, não… já vi tudo. Vamos embora?

- Vamos!

Percorreram devagar todas as divisões tendo o cuidado de fecharem todas as janelas e encaminharam-se para a saída. Estava Orlando a fechar a porta quando o elevador parou no andar. Admirados ambos aguardaram quem estava a chegar.

Do elevador saiu uma mulher mais arranjada que bonita e que perante os dois cavalheiros perguntou num sotaque bem brasileiro:

- Oi, bom djia!

- Bom dia – devolveram ambos quase em uníssono.

- Chamo-me Cleide e sou a viúva do Domingos! Esta é a casa dele?

Os Felícios! #2

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Foram todos à bola naquela tarde: Felícia, Felício, Maria Felícia e Mário Felício.

Todos de telemóvel em punho. Só podiam!

Passaram os primeiros seguranças mostrando os écrans! Entraram seguidamente no edifício, mas aqui foi necessário mostrar outra vez o equipamento onde estavam os bilhetes de entrada.

Após diversas tentativas lá conseguiram todos passar as cancelas e principiaram a subir a extensa escada.

Muitos adeptos aos gritos e a cantar enquanto escalavam andares. A família subia calmamente com os olhos pregados nos monitores do telemóvel. Finalmente no cimo respiraram fundo e penetraram na larga porta que daria acesso às bancadas.

Mário Felício escreve entretanto no uotessape : vou à cb!

Maria Felícia, a irmã: fazer?

Mário: regar as flores, estúpida!

Maria: imbecil!

Felício entra na conversa: calem-se os dois faxavor e tu menino vai à cb!

Felícia mais comedida escreve: ó homem deixa lá os miúdos!

Procuram os lugares, sobem mais escadas, atravessam metade da bancada e finalmente sentam-se.

O estádio ainda tem poucos espectadores… Felício redige: isto hoje não enche!

Mário já sentado devolve: quero lá saber! E fixa-se num jogo que tem no telemóvel!

Principia o desafio no relvado! As vozes dos adeptos soam pelo estádio numa algazarra fantástica. Agitam-se cachecóis, ecoam cânticos de incentivo à equipa, assobia-se o adversário, maltrata-se a família do árbitro até à décima geração!

Felícia via telemóvel: isto é sempre assim?

Felício: claro!

Mário grita sozinho: Gooooooolo!

Maria: onde?

Mário devolve: aqui no meu jogo.

Maria: não estás a ver a bola no relvado?

Mário: não consigo ver neste ecran tão pequeno!

A multidão entretanto berra em uníssono:

- GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO!

Há quem dê saltos e abraços. E festeje alegremente o golo conseguido. Felício nem percebe o que está a acontecer pois tem os olhos pregados no ecran do telemóvel. 
Assim como os restantes elementos da família!

O jogo desenvolve-se de forma emotiva no relvado. De súbito Felício salta do lugar e por fim grita:

- GOOOOOOLO!

Ao redor daquela estranha família ninguém percebe o porquê daquele grito. Quiçá o vizinho da fila de trás, que acabou de rever o golo no telemóvel de Felício, consiga perceber!

Hoje convido eu! #29

A desafiarem-me!

Conhecemo-nos nestas andanças da blogosfera há muito pouco tempo. A Mafalda Carmona (tadita!) foi logo arregimentada para este desafio. Tem no Cotovia e Companhia o seu blogue de grande qualidade e do qual fiquei fiel leitor. Apresentou-me o seguinte tema: Museu a voar!

Tudo isto para dizer que este exercício foi aquele que mais me deixou a cabeça "em água"! Nem recordo quantas versões escrevi. Para de súbito quase num momento de inspiração escrever o texto infra. 

 

A amizade entre Guilherme e Joicelindo, mais conhecido por Jóy, era daquelas cinematográficas portanto… improváveis.

Naquela manhã de Setembro aquando de um intervalo entre aulas Guilherme foi repentinamente cercado por um grupo de rapazes, mais ou menos da idade dele, donde se destacava Jóy. As armas brancas surgiram nas mãos de alguns dos jovens, mas ao invés do que seria de esperar Guilherme manteve a calma e conseguiu ajustar um cerrado diálogo.

- Dá-me o teu casaco? Já!

- Este? Mas é velho… Se quiseres mesmo um destes trago-te um amanhã para o teu número…

Desarmados com a reacção calma de Gui, ficaram a olhar uns para os outros, sem saberem bem o que fazer. O jovem corajoso acabou por acrescentar:

- Está bem de ver que criei nas vossas cabeças uma dúvida. Isso é bom!

Mas houve alguém que tentou chegar-se a Guilherme, mas este com uma palmada rápida defendeu-se, ficando com a arma branca na mão. Depois virou o cabo para o agressor e devolveu-a.

- Vês, ficaste sem arma, não me tocaste e ainda passaste uma vergonha na frente de todos eles.

Foi naquele instante que Guilherme rompeu do grupo e colocou a mochila às costas sem dizer nem mais uma palavra. No dia seguinte mal entrou na escola e vendo Jóy ao longe rodeado da sua troupe aproximou-se dele e atirou-lhe com um saco dizendo:

- Tens aí dentro um casaco igual ao meu. Novo!

Foi a partir deste episódio que iniciou uma amizade entre Jóy e Guilherme.

Joicelindo nascera no seio de uma família cabo-verdiana com muitos irmãos e irmãs, primos e avós. Tudo num andar pequeno num dos bairros mais problemáticos da zona, onde a polícia só entrava com escolta especial!

Guilherme era o inverso. Filho de uma família estupidamente abastada pedira ao pai para entrar na escola pública em vez do colégio privado. Desejava sentir o ambiente de uma escola normal! Fizeram-lhe a vontade colocando-o numa escola conhecida por diversos problemas de disciplina.

Assim que pode sair da escola Jóy foi trabalhar, primeiro como entregador de refeições, mas após um acidente, mudou de ramo e entrou numa grande superfície como arrumador de produtos. Entretanto Gui seguira os estudos e no dia em que finalizou o curso foi comemorar.

Os colegas chamaram-no para uma série de eventos, mas Guilherme tinha outra coisa em mente. Ligou para o amigo:

- Comé’ meu? Qué feito?

- Viva Jóy estás a trabalhar?

- Não! Saí há “bué da tempo”!

- Já jantaste?

- Yep! “Puquê” meu?

- Queria saber se quererias ir comigo comer umas francesinhas?

- Ui, “mene”! Tou nessa!

- Então eu vou-te buscar em frente à loja da ti’Branca, sabes qual é?

- Oh se sei… as “jolas” que lá bebemos – riu-se.

- Ok! Espera lá por mim! E vê se vais arranjado?

- Queres que leve aquele casaco?

- Eheheheheeh! Brincalhão!

Meia hora depois Guilherme rodava devagar, quando o amigo lhe perguntou:

- Onde vamos “mene”?

- Vais comigo, vais bem!

Era noite cerrada, mas Jóy percebeu logo onde se encontrava!

- Onde vamos?

- Tu és chato, safa!

Entraram num edifício e após muitas portas e demasiados seguranças encontraram-se novamente na rua, mas por pouco tempo.

- Sobe – ordenou Guilherme.

Jóy subiu as escadas e entrou. Virou à direita e perante o espectáculo que via só assobiou. Guilherme seguia-o com um sorriso nos lábios. Sentaram-se ambos em dois sofás tão brancos como a neve e foi-lhes servido uma bebida fresca por uma jovem muito bonita. Jóy virou-se para Guilherme e perguntou:

- Esta é uma das francesinhas?

- Tás parvo Jóy! Esta menina é uma empregada!

O jacto particular fez-se à pista e elevou-se no ar com suavidade. Quando pode o cabo-verdiano levantou-se e começou a olhar ao seu redor. Nas pareces havia muitos quadros, a maioria velhos. Uns jarrões chineses seguravam-se dentro de vitrines e no topo um relógio Hermle.

Jocelindo olhava aquilo espantado e perguntou:

- Isto é teu?

- É!

- Parece um museu a voar!

Guilherme riu-se do dito e beberricou a sua bebida. Jóy finalmente perguntou:

- Vamos para França?

- França?

- Às francesinhas?

- Não meu amigo… vamos ao Porto! É lá que se comem as melhores francesinhas!

- Ah! - respondeu Jocelindo desiludido mas sem tirar o olho da esbelta empregada, a quem sorrateiramente piscou o olho, recebendo de volta um brilhante sorriso!