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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Léxico em estado puro!

Vovó, vovó

A gaiata chama.

Queres um popó

A avó oferece.

Tens de fazer um o-ó!

 

Mais tarde é o vovô

Que dá a boa papa.

Mas a menina tem cocó

Ou será somente xixi?

Calcula a titi.

 

Há um miau que é gato

E um ão, ão patudo.

Depois vem o pá de pato

E o piu-piu do passarinho

Falta a tuta de tartaruga.

 

Aprender a falar ou

a dizer o que se sente é duro,

já que as palavras simples

serão apenas sons

de um amante coração.

Mataram o Pai Natal! - 1

Em resposta a isto!

 

Olegário quase que dormitava em cima da secretária ao tentar ler alguns relatórios criminais todos para arquivo. Estava a meses da aposentação e solicitara por isso ao chefe Baptista que lhe dessem trabalhos de secretaria.

Estava cansado de prender criminosos de toda a espécie, que rapidamente eram libertados e não pretendia ser mais um herói morto. Preferia antes ser um cobarde vivo.

Naquela última Consoada que passaria de plantão esperava uma noite serena. Por isso trouxera um bom pedaço de leitão assado, uma botelha de vinho tinto oriunda da aldeia, muitas batatas fritas de pacote e um bolo-rei. Aguardava apenas que o pessoal saísse para ficar a sós com o seu repasto.

Os colegas foram saindo desejando-lhe um bom Natal ao qual o transmontano respondia com um aceno de mão por entre relatórios.

Quando olhou para o velho Cauny percebeu que eram horas de ir comer. Fechou o processo que tinha entre mãos quando um telefone tocou na sala.

- Deixa-o tocar… Será que não percebem que hoje é véspera de Natal?

O telefone teimava em não se calar. Olegário aproximou-se e acabou por atender:

- Brigada criminal, fala o inspector Olegário. Quem fala?

- Boa noite inspector, sou o agente Galante e necessito da vossa presença aqui junto à Avenida de Paris onde acabaram de assassinar o Pai Natal.

- Desculpa lá, mas isso não é uma brincadeira, pois não?

- Obviamente que não… Tenho aqui um morto estendido à minha frente.

- Logo hoje…

- Sim é verdade, logo hoje. E ainda por cima o Pai Natal…

- O Pai Natal ou um Pai Natal?

- Pois… isso não sei, mas está ali parada uma rena atrelada a um trenó.

- Você está a gozar comigo a uma hora destas?

- Nem pensar… Isto está aqui uma confusão. Só preciso saber se vêm para cá…

O inspector respirou fundo, olhou o saco de plástico com o farnel e acabou por dizer:

- Vou já para aí!

Deu meia volta, foi à secretária onde pegou na carteira e na arma, passou pelo armário das chaves dos carros sacou a única que lá estava e olhando para a matrícula comentou:

- Claro, claro… o chaço ficou cá!

Depois ligou para o chefe. Atenderam:

- Que se passa homem?

- Chefe fui chamado para tomar conta de uma ocorrência.

- Sabes o que é?

- Sei… um morto. E nem imagina quem?

- Ai quem foi? – a voz denunciava alguém assustado.

- O policia que me contactou diz que é o Pai Natal.

- Um Pai Natal? Esta noite há muitos... por aí!

- Não chefe, não está a perceber. Mataram o Pai Natal...

Um silêncio. Depois:

- Como é que sabes que é o verdadeiro.

- Porque a rena já comeu as flores todas que havia num canteiro.

Desligou a rir-se, desceu até à garagem onde procurou o único carro presente e penetrou na noite. O trânsito àquela hora era diminuto e num instante chegou ao local do possível crime. Muita gente a rodear o corpo que os poucos polícias não conseguiam controlar.

O inspector cortou por entre a multidão para finalmente chegar junto ao morto. Este encontrava-se deitado de bruços e tinha uma enorme mancha de sangue nas costas. Por fim virou-se para um agente e perguntou:

- O Galante quem é?

- Foi embora…

- Para onde?

- Para casa… creio eu!

- Com um crime entre mãos? Acho estranho…

- Disse que tinha de ir a casa avisar a família.

- Avisar a família de quê?

- De que o Pai Natal havia sido morto e portanto … nada de prendas este ano.

O inspector abanou a cabeça em negação para perguntar:

- Este veio como, sabes?

O outro polícia apontou para um animal corpolento com o queixo que calmamente ratava um pouco de erva num canteiro. Olegário aproximou-se da rena, fez-lhe uma festa e finalmente perguntou:

- Que sabes tu disto?

(continua...)

"Sobreiro" de Malhoa

Resposta ao desafio da Fátima

Entrou na loja devagar. Uma espécie de sino muito agudo tocou, para logo aparecer o dono do estabelecimento que ao ver o cliente logo saudou:

- Ora viva, boa tarde como está? – e estendeu o punho para o cumprimento pandémico.

O cliente respondeu também com o seu punho direito respondendo:

- Vamos andando!

- Que tal a estante, ficou bem?

- Ah optimamente!

- Já agora o tal quadro?

- Esse é que ainda não está montado. Nem sei se alguma vez será… pendurado!

A conversa parecia boa, mas o antiquário percebeu que aquele cliente tinha alguma coisa na ideia. Portanto valeria a pena investigar:

- Então o que o trás por cá? Não me diga que é por causa da cómoda?

- Ai não, não… desta vez ando em busca de uma moldura para um quadro que a minha mulher está a desenhar.

- Temos cá muitas… algumas são bem antigas e verdadeiras pechinchas…

- Ok então vamos lá vê-las…

O lojista virou costas e o cliente segui-o. De súbito este pára e fica a mirar um relógio em cima de uma cómoda. O outro reparou e voltou para trás. Depois foi dizendo:

- Um relógio de aniversário… esse!

- De que marca: Kundo ou Schatz?

Mais uma vez o antiquário ficou surpreso.

- Um Schatz! Creio que dos finais dos anos 40.

O cliente baixou-se e ficou a olhá-lo atentamente. Depois tentou procurar algo mais que o identificasse.

- Posso rodá-lo!

- Claro… ele nem trabalha!

O outro virou-o. Ligou a lanterna do telemóvel e após atenta inspeção disse:

- Hum, tem razão é um Schatz, está lá o símbolo dos elefantes, mas depois não diz mais nada. É estranho para ser dessa data que disse…

- Sinceramente de relógios percebo pouco. Mas venha lá ver as molduras… É que por coincidência chegaram ontem umas de um espólio que comprei… Ei-las…

O cliente aproximou-se e foi retirando uma a uma. A maioria delas envolviam telas com gravuras coladas, de papel banal e sem qualidade. Outras nada traziam ou apenas desenhos que eram réplicas de má qualidade de outras gravuras. Até que pareceu ver uma moldura que lhe agradou. Envolvia esta uma réplica de uma aguarela.

- Olha, olha o que temos aqui…

O antiquário aproximou-se e não percebendo o que o cliente pretendia dizer, foi avançando:

- Que tem essa gravura?

O cliente pegou na moldura e colocou em cima de uma mesa. Depois esclareceu:

- O original desta tela encontra-se em Vila Viçosa e faz parte do património da Casa de Bragança. Chama-se “Sobreiro”, mas é mais conhecido nos meios artísticos como “O Sobreiro da discórdia”.

- Então porquê?

- Porque a assinatura é do Rei D. Carlos I… mas os especialistas dizem que foi Malhoa que o pintou…

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em FlorCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

"40 anos" de Fátima Mano

- Mããããããiiiiiiiii ó mãããããããiiiii!

Isabel apareceu em tom aflito no quarto do filho, tentando secar as mãos a um pano.

- Que se passa Zé? Que gritaria é essa?

- Desculpa mãe, mas estou aqui com um problema e não consigo antever uma boa solução.

- Então qual é o problema?

- A professora Fátima entregou-nos este quadro para escrevermos um texto sobre ele… O que nos vier à cabeça…

A mãe olhou com interesse a pintura de Fátima Mano para finalmente dizer...

- Não vejo onde estará o problema. Olha… descreves o que vês…

- Achas isso fácil, mãe?

- Então não é? – depois arriscou – e o que escreveram os teus colegas?

O jovem fez um gesto de enfado perante a questão materna para finalmente responder:

- Oh… cada um diz sua coisa. Por exemplo a Ana de Deus viu o quadro de uma forma, a Ana Mestre de uma completamente diferente. O João-Afonso escreveu uma coisa ainda mais estranha, a Olga pior ainda…

- Que mal é que isso tem? Cada um vê as coisas de uma maneira muito própria. Então a Célia, a Maria Araújo, a Luísa, por exemplo?
- Essas escrevem tão bem que nunca percebo o que querem dizer…

- Então a culpa é tua que lês e escreves pouco… Eu bem que te aviso.

- Vá lá mãe… não sejas chata… pareces a Mia e a Cristina.

- Porquê?

- Porque elas estão sempre a dizer isso… que leio pouco… Então a Charneca em Flor

- Quem? Essa não conheço.

- Também não conheces a bii yue ou a Peixe Frito também minhas colegas e bem fixes por sinal.

- E os outros não são?

- São mas…

- Mas o quê? Escreve mas é esse texto que estou quase a acabar o jantar.

- Bem fizeram a Sam e o setepartidas.

- Que fizeram eles?

- Não posso dizer… é confidencial!

Caçador matreiro!

O fim de tarde trouxera a triste nova à aldeia:

- Morreu o Zé Descalço.

- Eia pah… que pena. - para logo seguir a pergunta fatal - que idade teria?

- Para mais de oitenta anos.

Foi conversa durante o resto da tarde e toda a noite. Os homens que entravam na taberna do Charrua, logo perguntavam:

- Sabem quem é que morreu?

Todos respondiam que sim e retornavam aos copos de vinho quase azedo ou de cerveja quase quente, aos jogos de sueca ou ao velho dominó. No meio da algazarra alguém comentou:

- O Zé Quim era um tipo tramado… sabia-a toda…

As cabeças já meio turvas concordavam, mas foi o Fidalgo que aceitando o repto lançado e naquele seu jeito de contador de trovas e mentiras acrescentou:

- Dizem que até enganou um juiz.

- Não acredito – devolveu um

- Foi, foi verdade – confirmou outro.

- Como assim? – ouviu-se alguém perguntar.

Então o Fidalgo rapou de uma cadeira, rodou-a 180 graus e sentou-se de frente para as costas da dita. Tirou a boina suja e surrada, sacudiu-a como se fosse fazer um discurso. Pigarreou para finalmente continuar:

- Sabem que ele caçava sempre sozinho.

- Isso por que os grupos de caçadores não gostavam dele – acrescentaram.

- Certo e por isso andava por aí sem que ninguém soubesse, mas trazia para casa caça com fartura.

- Era costume afoitar-se para as reservas…

- Ora um destes dias foi apanhado com duma lebre, dentro de uma dessas reservas – continuou Fidalgo.

- Ui isso é um sarilho dos grandes…

- Pois é e a venatória que o apanhou deu-lhe ordem para baixar a arma e confiscou tudo. Depois levaram-no no carro para a esquadra para prestar declarações.

- Xiiii… uma arma tão boa que ele tinha…

- O pah cala-te… deixa-o o homem falar.

- Bom, confessou ele que no carro da autoridade os foi avisando para o deixarem sair porque de outra forma eles iriam sair envergonhados. Ao que a venatória não ligou. Passado uns dias apresentou-se no tribunal para ser ouvido por um juiz que logo lhe perguntou o que tinha acontecido.

O relator bebeu mais um pouco de cerveja. Era agora a hora do teatro e o Fidalgo adorava a arte de Talma. Por isso arriscou imitar o falecido Zé descalço:

- Saiba senhor doutor juiz que tenho prevaricado muita vez. É verdade, não o nego. Mas logo naquele dia em que nada fizera de mal é que fui apanhado. Eu andava fora da reserva à caça quando avistei uma lebre e ferrei-lhe um tiro, mas a velhaca fugiu ferida e mandei o canito procurá-la. Só que a magana escondeu-se no lado de dentro da reserva e quando o canito ladrou eu fui lá buscá-la. E foi aí que me apanharam!

Alguns dos presentes riam-se da esperteza do velhote. O Fidalgo continuava:

- O juiz virou-se para os agentes responsáveis pela detenção e perguntou-lhes se o tinham visto disparar dentro da reserva, ao que responderam que não e que apenas o tinham apanhado dentro da reserva com a peça de caça.

- Pronto, safou-se - sentenciaram.

- É que se safou mesmo. Levou logo a arma e tudo… para casa.

Um ror de gargalhadas e palmas.

- Grande Zé Descalço – declarou um outro idoso que conhecia bem a matreirice do Zé Quim.

- Mas não se safou da Negra!

Todos olharam para quem proferira a última frase e reconheceram o João Descalço, um dos nove filhos do defunto que acabara de chegar.

Starry Night de Vincent van Gogh

Resposta ao desafio da Fátima

 

Olhou o original e considerou que era um belíssimo quadro, mas estranho, difícil, quiçá um tanto duro.

No entanto a sua aposta seria igualá-lo, custasse o que custasse. Sabia de antemão que seriam necessários muitos dias e provavelmente imensas noites sem dormir para o terminar.

Alguém muito próximo e a quem contara a sua nova aventura, avisou-o:

- Isso é uma enormíssima loucura. Jamais o conseguirás acabar!

Porém Manuel era um homem abnegado, corajoso e tenaz. E tinha um lema na sua vida: o difícil está feito, o muito difícil é para logo, o impossível demora mais umas horas!

Na verdade, o tempo era algo que tinha de sobra e assim, abordando radicais desafios, fazia com que aquele fugisse num ápice.

Foram dias, noites, semanas numa luta constante. Fazia-o muito devagar como quisesse saborear cada momento, cada segundo. Depois os cuidados que tinha...

Enquanto ia desfiando lentamente o desenho, tentou ao mesmo tempo perceber que emoções terá o pintor holandês pretendido despoletar com um céu de estrelas envoltas num amarelo cintilante, a Lua luminosa, um povoado meio desaparecido e acima de tudo aquelas labaredas negras que cresciam para o céu. Ou seria um arbusto?

Certo, certo é que até um dos filhos, quando apareceu em casa e perante aquele salsifré só soube observar:

- Pai que ideia foi essa de escolher este quadro?

- Este ou outro, não interessa. O que realmente conta é fazê-lo, nada mais! - respondeu-lhe Manuel naquele seu ar bonacheirão.

Abanando a cabeça em desacordo o rapaz acabou por sair levando consigo a pergunta:

- Para quê aquilo? Não entendo!

Eram 4 horas e 5 minutos da madrugada de uma quinta feira quando Manuel finalmente colocou a última recorte no puzzle de 10.000 peças com o desenho do quadro "Starry Night" de Van Gogh.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em Flor,  ConchaCristina AveiroGorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

Um objecto quotidiano – V

Resposta ao desafio da Ana

Sentado à secretária no enorme anfiteatro, Alcides aguardava a vinda dos alunos. Um a um foram chegando pela porta de lado e foi cumprimentado:

- Bom dia!

Cumprimento que todos respondiam de igual forma.

Olhou o relógio e percebeu que faltavam ainda dois minutos para a hora do início da aula. Foi folheando uns compêndios que estavam espalhados na secretária, abria uma página depois tirava anotações para, de súbito, se levantar aproximando-se do estrado de madeira para principiar a aula.

Porém faltavam 30 segundos, quiçá o suficiente para chegaram mais discentes. Olhou o relógio e deixou que este fizesse correr lentamente o tempo. Assim que chegou à hora certa retirou-o do pulso, agitou-o nas mãos e depois principiou:

- Bom dia mais uma vez.

- Bom dia senhor engenheiro – responderam em uníssono os alunos espalhados pela plateia.

- O que tenho aqui na minha mão é um aparelho que mede o tempo. Chama-se relógio, mas vocês já sabem. O que talvez não saibam é que é um objecto quotidiano, certo?

Silêncio sepulcral. Para logo a seguir um braço levantar-se e alguém perguntou:

- Engenheiro o que quer dizer quotidiano?

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 7

Havia muito que a noite caíra sobre a cidade. Valdemar olhou o relógio e finalmente pôs-se a caminho do bar onde Arcizete fora vista pela última vez. Podia ser que o anão por lá aparecesse… Porém não o queria assustar com a sua presença.

Percorreu o caminho longo sempre a pé deixando que o fresco da noite o animasse. Entrou no bar e dirigiu-se ao balcão. Aqui chegado percebeu a presença de três personagens atípicas ao local. O primeiro era um padre pois reparou no cabeção que sobressaía do pescoço do clérigo, o segundo parecia um apresentador de televisão, mas nem sabia se era mesmo ele e o terceiro era um homem completamente bêbado e que tentava negar olimpicamente o seu ébrio estado.

Val foi abordado por umas das “drag” que serviam bebidas e pediu uma cerveja. Para logo a seguir ser abordado pela outra empregada de balcão:

- Por cá outra vez inspector?

- Boa noite… é verdade!

- Espero que não seja uma rusga…

- Oh não… para isso serve o meu colega Arcílio…

- O gordo?

Valdemar ergueu os olhos e devolveu:

- Conhece-o?

- Claro que conheço… Vem cá muitas vezes… Desde que foi a rusga…

O jovem inspector fixou o espelho â sua frente e perguntou:

- Há quanto tempo que não aparece?

- Oh faz muito tempo… Acho até que o vi naquele dia em que a Arcizete saiu com o anão.

- Viu-o nessa noite?

- Quase de certeza… - para depois se aproximar do ouvido do inspector e concluir – ele era muito… chegado à Arcizete…

- Chegado? Chegado como?

- Não me diga que tenho de fazer um desenho.

De súbito Val abstraiu-se do local onde estava e reviu todo o processo. Depois pagou a bebida e saiu do bar regressando a casa. No caminho ligou a Aquiles, o seu chefe.

- Val? – respondeu uma voz sonolenta – que se passa?

- Desculpe chefe acordá-lo, mas preciso saber quem descobriu o corpo da Arcizete?

- A uma hora destas?

- Sim chefe… Pode ter sido um de nós a matá-la.

Após uma pausa:

- Acho que foi o Arcílio que me ligou a dizer que necessitava alguém da brigada…

- Tem a certeza chefe?

- A certeza!

- Obrigado, pode ir dormir!

Correu para casa, afastou os papéis da secretária e começou a escrever alguns apontamentos. Depois deitou-se feliz e dormiu, pela primeira vez ao fim de muitos meses, em paz.

No dia seguinte chegou à secretária e começou a escrever relatórios antigos. Até que Aquiles entrou na sala e vendo Valdemar por detrás de Himalaias de papéis:

- Então?

- Foi o Arcílio… Ele é canhoto, lembro-me quando acendeu o cigarro, apagou todos os registos do Octávio e da Arcizete já que também é polícia, tinha uma relação amorosa com a vítima e acima de tudo a história dos fogões.

- Quais fogões?

- Os que eu vi na casa da vítima…

Sem perceber Aquiles avançou:

- Vamos lá então detê-lo!

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 6

Acordou estremunhado e quase doente. Na boca um sabor horrível a fel e a cabeça doía-lhe valentemente. A noite fora horrível. Primeiro pelas insónias e mais tarde pelos pesadelos.

Fora uma noite de sobe e desce de emoções, sonhos e demais imbecilidades, que o haviam deixado daquela forma… aturdido e sem reacção.

Tentou lembrar-se ao pormenor do que sonhara, mas só lhe vinha à ideia a imagem do Bill Gates envolvido com a tal de Xana Toc Toc, que acompanhada dos seus polichinelos haviam inventado uma qualquer teoria de conspiração contra uma empresa de industria alimentar.

Uma confusão diabólica… um sem números de factos sem qualquer lógica e sentido. Disparates completos.

Val sentou-se na beira da cama, passou as mãos pelo cabelo desalinhado, olhou a cómoda onde residia parte do processo da morte de Arcizete e suspirou. Um crime que lhe tomava o tempo, o sono, a vida… e sem qualquer contrapartida que se visse.

Ergueu-se do leito disposto a pegar mais uma vez no caso. Já havia perdido o conto das vezes que repetia aquela acção. Leu papéis, relatórios, viu fotografias, reviu as suas anotações e não conseguia encontrar um simples elo de ligação. Nada, rigorosamente nada! E desfiava em voz alta:

- Arcizete Trelica, antes Octávio Baltazar esfaqueada de madrugada por alguém canhoto. Casa revolvida, estranhei existirem dois fogões. Era uma bodybuilder e usava o Tinder para encontros fortuitos. Frequentava um bar recente onde se realizavam os encontros. O último com um anão que queria que ela o fizesse também musculado… Chamado a depor o anão apresentou alibi para a hora do crime.

Serenamente lembrou-se do interrogatório e até daquela noite em que o conheceu. Um tipo bizarro que falava a sorrir como se estivesse sempre a gozar com os outros. Havia definitivamente nele algo estranho, para além do seu pequeno tamanho… uma espécie de maleita latente como se fosse uma borbulha prestes a rebentar.

- Hummmm… este tipo não é de fiar – disse Val para os seus poucos botões.

De súbito ocorreu-lhe uma ideia. Procurou nos papéis relidos tantas vezes e percebeu batendo com a mão nos papéis.

- O sacaninha é canhoto!

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 5

Valdemar não dormia descansado havia algumas semanas. Tudo por causa do crime da Arcizete que ele ainda não conseguira avançar. O próprio chefe assumira já que “não valia a pena perder mais tempo com esse crime…”

Mas para o jovem e irreverente agente aquela assumpção seria sinónimo de assumir a derrota na investigação, algo que nunca lhe acontecera. Daí as insónias.

Faltava-lhe, todavia, ainda um local para investigar. Se bem que aceitasse a opção de cada um, o seu estatuto marialva sobrepunha-se à função de investigador e recusava visitar os bares alternativos. Mas provavelmente estaria lá a resolução do misterioso crime.

Certa noite, cansado de papéis e relatórios acabou por procurar esses bares. Conhecia alguns do tempo da brigada de Costumes e deste modo dirigiu-se a diversos. Foi entrando e saindo sem nada encontrar até que entrou num que lhe pareceu ser recente.

A música enchia a sala enorme e no meio da pista muitos pares a dançarem. Aproximou-se do balcão onde duas “drag queens” serviam bebidas.

Uma delas aproximou-se de Valdemar, mas este antes que ela dissesse alguma coisa, armou-se do distintivo policial e perguntou:

- Boa noite. Conheces uma miúda chamada Arcizete? – e mostrou-lhe uma fotografia

A barista olhou para a outra e fez-lhe um sinal para se aproximar. Sem que Val percebesse o que diziam elas trocaram palavras olhando para ele. Por fim uma respondeu num tom meio grave:

- Sei quem é, mas faz tempo que não a vejo aqui.

- Não admira, pois os mortos não têm o hábito de andarem na vida nocturna…

Ambas levaram as mãos à boca assumindo um espanto e uma devolveu:

- Quando é que morreu?

- Há umas semanas. Foi esfaqueada na rua. Sabes de alguma coisa que possa ajudar a apanhar quem a matou?

As baristas olharam-se e por fim uma afirmou:

- A última vez que a vi aqui tinha marcado um encontro com um tipo.

- E viste-o?

- Vi-o e quase não vi… era anão!

- Anão?

- Sim… mas ela gostou logo dele… tiveram uma longa conversa…

- Ouviste o que disseram?

- Oh… sim… O que se diz nestas alturas... Parvoíces!

- Mas eu quero saber o que disseram… se te lembrares. Pode ser relevante para a investigação.

A “drag queen” baixou o tom de voz, aproximou-se de Val e confidenciou:

- Arcizete era uma “bodybuilder” e o anão queria que ela o ajudasse.

O agente ficou a matutar naquela declaração e por fim questionou:

- Mas estaremos a falar da mesma pessoa? É que aquela que morreu não tinha nada esse aspecto… musculada.

- Viu-a despida?

- Ahhhh, pois… não… não vi! Mas quanto ao anão… voltou a vê-lo por aqui?

- Sim vem aí de vez em quando à procura dela.

Valdemar virou costas ao balcão quando percebeu que do lado contrário da pista de dança um anão estava feliz ao colo de uma jovem.