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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desafio de escrita dos pássaros #3.0 - Tema 1

Mote: Foi o que ouvi

Valdemar acordou repentinamente com o toque insistente do telemóvel! Estremunhado da noite mal dormida e demasiado bebida, pegou no aparelho, viu o nome, fez um gesto de enfado, mas atendeu:

- Estou… - responde com voz sonolenta.

- Bom dia Val! Acordei-te?

- Não… estou já no gabinete! – e após um breve silêncio - Claro que me acordaste.

- Temos pena, mas tens de te despachar que houve um homicídio.

- Logo a esta hora… - suspirou profundo - Está bem, está bem, dá-me a morada que vou já para lá.

O inspector Valdemar era um daqueles jovens agentes, assaz competente, mas muito boémio e que raramente andava de carro. Preferia os transportes públicos ou até mesmo andar a pé. Por isso e após ter recolhido a morada colocou-se a caminho.

Ao entrar na rua onde ocorrera o crime apercebeu-se do ajuntamento, normal nestas ocasiões, e aproximou-se lentamente tricotando entre a multidão como se não fosse nada com ele. Muitos carros da polícia, muitos agentes, ambulância, tudo para lá das fitas azuis e brancas. A costumada confusão e parafernália.

O agente Valdemar era conhecido pelas suas técnicas muito peculiares de dedução e resolução de crimes. Considerava a opinião pública, por mais básica que fosse, uma chave essencial nas suas investigações e nunca achava despiciente o que lhe diziam, mesmo que meramente opinativo. Todavia fazia-o sempre sobre a capa do anonimato.

Do lado de fora da zona proibida a estranhos, as pessoas juntavam-se, falavam e comentavam, sem contudo saber concretamente o que acontecera:

- Dizem que se atirou do telhado…- palpitava um.

- Coitada – respondia uma velha mulher.

- Droga, isso foi droga – deitou-se adivinhar outra idosa embrulhada num xaile negro. Depois acrescentou – Um primo do meu falecido marido fez o mesmo… Só desgraças.

Entretanto alguém assumiu:

- Foi uma navalhada no pescoço. A minha irmã acabou por me dizer agora por telefone. Ela mora lá no prédio.

Alguns dos mirones acabaram então por desistir da curiosidade quando escutaram as actualizações. Já não tinha qualquer piada...

O polícia anónimo ouvia, mas escusava-se a falar. Entretanto chegou perto de uma mulher mirone que não se envolvera na conversa anterior e quase em surdina perguntou-lhe:

- Bom dia, o que aconteceu ali, sabe?

- Bom dia… Ui uma desgraça…

E sem esperar nova pergunta continuou:

- Parece que mataram alguém. Dizem que foi por causa da droga.

- Ai sim?

- Foi o que eu ouvi.

- Ah, obrigado! Tenha um bom dia.

E passou por debaixo da fita mostrando a identificação a outro polícia, enquanto a mulher curiosa com quem acabara de falar, abria a boca num espanto desmedido.

Quem conta um conto acrescenta um ponto...

Título Sugerido: Odeio Pessoas!

(continuação de um desafio que advém daqui)

Mas esta gente julga qu’isto é um infantário, ou quê? É por isto que odeio pessoas… Safa…

Quer’se dizer: não caso eu com nenhuma tipa, não tenho filhos para não ter chatices e quem me moa o bestunto e vem esta gentinha armada em mosca morta fazer desta casa um berçário… C’um caneco. Não é que eu seja nhurra, mas as pessoas irritam-me a sério. Um destes dias apareceu-me aqui um gabirú todo gingão, argola na ponta do focinho e armado ao pingarelho a perguntar se lhe dava trabalho. Eu dava-lhe era com uma cachaporra no lombo para me desamparar a loja.

O dinheiro que faço ao fim do dia mal dá para pagar a porra da luz e o marmanjo a querer trabalho. Só a mim… Porque não vão marrar com um comboio? Larguem-me a labita, canudo!

Ainda os que mais me irritam são aqueles que vêm aqui pedem um café e um copo de água como se esta fosse à borla. Um copo aqui outro ali são litros que gasto por dia sem poder receber. Depois são os grandes defensores da Natureza… Uma treta…

Para rematar toda esta minha vidinha pacata apareceram-me aí, há dias, uns sacanas da ASAE…

A última cor! #2

A secretária muito bonita, mas pouco vestida e profundamente maquilhada atendeu o telefone e após ter respondido quase em surdina levantou-se do lugar e aproximou-se do jovem:

- Quer fazer a fineza de me acompanhar.

- Ah sim, com todo o gosto!

A jovem assistente seguiu na frente e abriu a porta do gabinete deixando que o outro entrasse.

- Faça favor.

O jovem agradeceu e passando pela frente da esbelta secretária, penetrou no gabinete que já conhecia. Ao fundo o editor de pé olhava pela janela. Dando conta da visita virou-se repentinamente estendendo a mão para um cumprimento:

- Ora viva caríssimo, o que o trás por cá?

- Não sei se se recorda do que me pediu para fazer antes de publicar o dito livro das cores…

- Muito bem…

Sem mais diálogo o jovem escritor entregou ao editor um envelope fechado. Acrescentou:

- Aqui está… Espero que seja a cor que calculava… e que esteja do seu agrado!

- O quê? Você já escreveu o conto sobre uma tal cor que faltava?

- Correcto.

- Então deixe-me ler… - e foi abrindo o envelope donde retirou as folhas impressas.

Depois sentou-se no enorme cadeirão de pau-santo e ficou a ler o texto. Entretanto vendo o jovem de pé, convidou:

- Sente-se.

O escritor agradeceu sentando-se e ao invés da primeira vez, embrenhou-se na leitura de um livro que trouxera enquanto aguardava a resposta do editor. Tinha consciência que o texto era muito diferente de todos os outros, todavia interiormente temia que as coisas não corressem como calculara.

Passados alguns minutos percebeu alguma agitação no seu oponente. Ergueu o olhar no mesmo instante que o editor se levantou do robusto cadeirão e dando uma palmada forte na secretária deixou que uma gargalhada inundasse o amplo gabinete.

- Ahahahahahahahahah! Era isto, era isto que eu esperava de si!

- Ai sim – respondeu com um pouco de ironia, o jovem.

O editor voltou a rir com gosto. Contudo havia algo que lhe mordia a curiosidade.

- Explique-me lá como soube que era esta a cor que eu queria.

- Simplesmente porque o senhor não queria cor nenhuma, mas unicamente saber como sairia eu deste desafio.

- Você para além de ser bom escritor é espeeeeeeerto. Parabéns pelo texto e vamos seguir para a publicação do livro.

- Fico deveras contente por ter gostado.

- Mas posso fazer uma derradeira questão? – insistiu o editor.

- Faça favor…

- Como é que raio se lembrou da “cordeburroquandofoge”?

Foi a vez do jovem rir com gosto!

Triste evidência!

Entrou em casa em silêncio. Descarregou a mala pesada no corredor, descalçou os sapatos substiutuindo-os por uns chanatos puídos e rotos, despiu o casado pendurando-o no bengaleiro e finalmente entrou na cozinha. A mulher cercada de tachos e panelas a fumegar sorriu quando o viu chegar:

- Olá amor... - e mirando-o, continuou - que tens? Vens com cara de caso...

O marido aproximou-se dela osculou-a na cabeça enquanto respondia:

- Boa noite querida. Não tenho nada... é só cansaço.

Dirigiu-se à mesa onde já residiam apenas dois pratos e perguntou:

- Os miúdos?

- Estão na faculdade até tarde. Têm frequências amanhã, creio.

- Precisamos falar.

- Ai home? O que se passa? Eu bem vi que não estavas bem - e puxando de uma cadeira sentou-se em frente do marido.

Este enfiou a cabeça entre as mãos e mantinha-se em silêncio.

- Ai marido, diz-me tudo. Seja bom ou mau... Estamos cá para resolver as coisas. Como sempre fizemos.

- Desta vez não sei... 

- Ai... não me digas que foste despedido?

- Não... mulher. Nisso está óptimo... É outra coisa.

- Tu não me deixes neste estado que ainda me dá um fanico.

- Sabes como engordei nesta pandemia.

- Pois sei... não tens roupa nenhuma que te sirva...

- Ora já viste a minha vida?

- Ai home' que não percebo o teu problema... Não me digas que apanhaste o bicho? - e sem deixar cair a fala - eu bem que te avisei, mas tu nunca acreditas em mim.

- Não mulher pára! Não é nada disso.

- Então é o quê!

- Já viste se o Sporting ganhar o campeonato não tenho roupa que me sirva para ir para a rua comemorar?

A última cor!

Fixava atentamente o seu antagonista. Do outro lado da secretária ele conseguia ver a velocidade com que os olhos cruzavam as páginas.
As folhas deslizavam na mão de forma célere para no momento seguinte pararem. Ergueu o olhar para perceber a avidez de uma resposta no outro olhar.
- Então o que me diz?
Tentou perceber antecipadamente através da troca de olhares alguma ideia, mas não conseguiu. Por fim o outro largou os papéis em cima da secretária poisou as enormes mãos por cima, dobrou-se sobre o móvel aproximando-se e finalmente:
- Eh pá que coisa gira que você aqui me trouxe...
- A sério?
O outro levantou os polegares e continuou:
- A ideia é fantástica, tem aqui textos fabulosos e eu estou pronto a apostar na edição deste livro.
Nem queria acreditar.
- Está mesmo a falar a sério?
- Oiça... o meu tempo é escasso. Preferia estar agora num campo de golfe a dar uma tacadas que estar aqui. Portanto eu não perco tempo. Gostei desta sua ideia...
- Minha e não só minha - interrompeu.
- Seja de quem for... Quero publicar isto, mas necessito de mais um texto.
- Mais um?
- Sim, mais um!
- Sobre o quê se posso saber...
- Falta aqui uma cor...
- Acredito que faltará mais que uma... - disse a sorrir convicto que era uma brincadeira.
- Pois também sei que há muitas, mas há uma específica que gostaria de ver aqui retratada.
Por aquela não esperava. Coçou a cabeça e avançou de forma trémula com medo da resposta.
- E de que cor está a falar?
- Pois esse será o seu próximo desafio... tentar adivinhar qual a cor que aqui falta!
- Ena c'um caneco... por esta não esperava eu!
- Puxe pela imaginação. Quando o tiver escrito ligue-me que eu o receberei com todo o gosto. Gostei de o conhecer. Até um destes dias.
Estendeu a mão como despedida. O escritor aceitou, rodou nos sapatos e saiu mais triste que se tivessem recusado a publicação do livro.
- Que cor será que falta? – desceu então as escadas em passo lento enquanto a cabeça fervilhava!

 

Texto escrito fora do âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" . Neste exercício não entramFátima, a Concha, a A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa De Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, a Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado, a Marquesa de Marvila e a Olga Cardoso Pinto.

Desafio da abelha... (versão de Abril!!)

Mote: conta a história que esta foto te inspira.

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- Boa tarde, faça favor de dizer.

- Boa tarde... tenho consulta com o Dr. Ataíde.

- Sim senhora. E qual o seu nome?

- Almerinda Peres.

- Ah aqui está... é só aguardar aí na sala se fizer favor. O senhor doutor já a chama.

- Obrigado.

Na sala vazia havia uma pequena mesa onde se espalhavam revistas cor-de-rosa antigas com outras recentes, um jornal diário e um desportivo. Todavia não lhe apeteceu ler. Ficou a mirar o consultório e a sua decoração.

- Dona Almerinda Peres – chamaram.

Acordada da sua letargia, ergueu-se e deu de caras com um jovem médico de máscara azul-bebé a tapar-lhe a face.

- Boa tarde, faça favor de entrar - e apontou a porta do gabinete.

A doente passou na frente do médico, aspirou o aroma agradável do perfume e pensou:

Tenho de lhe perguntar o nome da colónia.

A consulta correu bem até que a determinada altura a cliente perguntou:

- Então diga-me tudo doutor…

- Bem para já só tenho uma coisa para lhe dizer…

- É grave?

- A Dona Almerinda é que avaliará…

- Não tenha rodeios, diga de uma vez.

- Falta-lhe a máscara na cara!

Desafio das Cartas do Correio

Caríssimo leitor,

Esta missiva que ora se espraia é dirigida a ti. Verdade...

Todavia e em primeiro lugar espero que esta te vá encontrar confinado, mas não covidado (desculpa a brincadeira do trocadilho!) e de óptima saúde. Segundo lembrei-me de te escrever porque tu mereces-me todo o respeito e admiração.

Respeito porque alguém que se maça a vir a este blogie para ler uns textos que aqui vou depositando é alguém com coragem. Admiração porque simplesmente admiro os corajosos.

Há sempre uma questão que me fica a pairar nos lábios quando vou às estatísticas da plataforma SAPO e vejo umas dezenas de visitas e que é a seguinte: O que te leva, amigo leitor, a vir aqui ler e quantas vezes comentar?

Que o faças uma vez ainda admito e aceito. Mas regressares a este espaço parece uma atitude, quiçá, um tanto masoquista, não achas? Mas quem sou para te julgar...

Tenho consciência que uns textos até têm alguma graça, não no aspecto humorístico obviamente, mas tão-somente no seu conteúdo. Mas há outros que roçam alguma pobreza, diria quase franciscana.

Fica então a tal questão em aberto, para ti leitor que continuas teimosamente a vir aqui, e para a qual gostaria de uma resposta assertiva, mas acima de tudo sincera.

Termino com a assumpção de que não escrevo uma carta vai para muitos anos e só espero que esta chegue ao destino.

Sem mais subscrevo-me com votos de uma Santa Páscoa,

José

 

Resposta ao desafio proposto pela Célia do blogue Raios de Sol.

Desafio da abelha... versão Primavera!

Mote: era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava.

 

A porta abriu-se deixando que a equipa médica entrasse. Ao fundo o Director clínico. Os súbditos de Hipócrates espalharam-se pelas cadeiras para finalmente iniciarem a reunião.

- Então que caso clínico é esse que me querem mostrar?

Um dos médicos levantou-se da cadeira:

- Caro colega temos um caso bizarro e estranho com uma doente que esteve em coma durante algum tempo e quando acordou não falava…

- Perfeitamente natural… Queria o quê… que fizesse um discurso à nação, colega?

- Pois ela não fala… mas…

- Mas o quê Doutor? Desembuche…

- Nem sei como lhe dizer… caro Director…

Do fundo da sala uma jovem médica ergueu-se da cadeira e declarou:

- A doente mia…

Um silêncio. O Director ergueu-se devagar, saiu da cadeira e começou a passar a mão pela face. Depois:

- Ele está aí! Outra vez! Como pode ser possível?

Ninguém falava. O silêncio era quase tumular. Por fim esclareceu:

- Ao invés do que pensam este não é caso único.

- Ohhhhhh – responderam em uníssono.

- Já há uns anos tivemos um caso assim.

- E tem cura? - perguntou alguém.

- Tem. Eliminem os gatos da respiração dela. Verão que deixará de miar!

Amarelo

Em velocidade quase moderada o carro negociava as curvas com suavidade, para no momento seguinte:

- Pela Auto-estrada ou pela Nacional? – perguntou ele quando reparou na placa de saída.

- Pela estrada Nacional… Daqui não dá para ver as mimosas… Como não temos pressa podemos ir por dentro…

- Tudo bem! – respondeu o condutor.

Quando entraram na encosta cortada pela estrada quase estreita, ela exclamou perante a imensidão de mimosas de amarelo floridas.

- Ai que coisa mais linda… que beleza… Não gostas?

Ele evitou dizer alguma coisa que a pudesse desiludir. Ela, todavia, insistiu:

- Tu não gostas desta paisagem?

Pronto tinha de ser…

- Eh pá, sinceramente o amarelo não é a minha cor preferida…

- Ohhhhh. Como podes tu dizer isso?

Após um breve silencio, ela continuou:

- Então também não gostas do amarelo do Sol quando torras horas na praia? E que dizer dos girassóis que plantaste no quintal?

- Ei, ei, ei… não é a mesma coisa…

- Pois não… isso sei eu. Então os prados repletos de tremocilha… que falavas do teu tempo de miúdo na aldeia?

De súbito nasceu-lhe uma ideia para terminar a contenda:

- Pronto assumo que posso em alguns casos gostar de amarelo…

- Ora vês… porque não assumir? Que coisa… és um nhurra teimoso!

Ela riu por perceber a vitória na bravata e avançou:

- Vá diz que gostas da cor e em quê...

- Pois… gosto muito de amarelo numa imperial bem fresquinha e nuns tremoços bem cozidos.

 

 

Texto escrito no âmbito do desafio da "caixa de lápis de cor" da  Fátima,. Entram também a Concha, A 3ª Face, a Maria Araújo, a Peixe Frito, a Isabel, a Luísa de Sousa, a Maria, a Ana D., a Célia, a Charneca Em Flor,, a Miss Lollipop, a Ana Mestre, Ana de Deus, a Cristina Aveiro, a bii yue, o João-Afonso Machado e a Marquesa de Marvila 

Quatro quadras coloridas

Corre por aí à boca cheia

Outro desafio de escrita.

Está pouco mais de meia

A montra de escrita catita.

 

O mote é sempre o mesmo

Com uma caixa lápis de cor

São textos bons e a esmo

Falam de tudo, até de amor.

 

Há quem lute arduamente

Para escrever com fervor

Sou eu, sou eu somente

Pois cada lápis é um terror.

 

São dezanove os artistas

Que dão vida ao desafio.

Faltam cinco ametistas

Para nos encher de brio.

 

Dedico estas quadras a: 

FátimaConcha, A 3ª FaceMaria Araújo, Peixe FritoIsabelLuísa De SousaMaria, Ana D., CéliaCharneca Em FlorMiss Lollipop, Ana MestreAna de DeusCristina Aveirobii yue, João-Afonso Machado, Marquesa de Marvila.