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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sentidos dos Dias - Planos e dúvidas VII

Pedro Rafael sonhava. Lavado em suor, virava-se na cama! O som das granadas a explodir era tão real. Tal como a terra que levantavam ao redor. Os gritos de camaradas e o destroçar dos nativos em aflição e terror, fazendo de tudo um pandemónio tornava-se insuportável. Não se via nada a certa altura com o pó. Apenas vultos. Nem se reconheciam se amigos, se dos outros. Muitos acabavam a cair num fogo cruzado... E a roupa pegada ao corpo! O cheiro do sangue e o tilintar das chapas identificadores no seu peito, enquanto corria também buscando abrigo.

E no meio de tudo uns olhos verdes! Um sorriso magnífico... E a pele dela nua, abraçada a si. Tão unidos, que não se saberia onde começava um e terminaria o outro. O perfume dela. Os lábios, a língua...E sem saber donde vinha, de repente, uma rajada de metralhadora que lha arrancaria dos braços, a qualquer momento. Cobrindo ambos de sangue e a ele de culpa.

Uma culpa que jamais poderia suportar. Ter contribuído para a morte dela por algum soldado inimigo, cheio de ódio que a marcasse como "colaboradora" dos brancos, militares. Suporiam alguns, que a olhavam de revês, que ela sendo africana vendo e sabendo algumas coisas que seriam, supostos segredos, lhos poderia transmitir... Como naquela maldita emboscada em que tinham ido por uma informação anónima de que ali, existia um paiol inimigo. E era verdade. Tinham escapado ambos graças a João. E foi entre morteiros e gritos, que Pedro Rafael se sentou na cama a arquejar com a cabeça a latejar!

Nunca lidara bem com o facto de Zuleica poder morrer por sua culpa. Sempre que a deixava sozinha para ir numa missão normal, em que regressava dali a horas, rezando a todos os santos para voltar mesmo... Repentinamente cumprir alguma ordem sigilosa, ou ainda por necessidade estratégica se deslocavam para mais longe em que ficava ausente por dias, a sua atenção ficava dividida. O coração subia-lhe para a boca. Nunca tivera intenção de amá-la assim! Quando a conheceu realmente gostara da simpatia. Da forma de falar. Achara-a um certo conforto. Faziam falta ali, pessoas e rostos amistosos. E de seguida, veio a graça, que lhe encontrava, quando ele falava e ela o ouvia falar do continente como se ele fosse o centro do mundo. Ela elucidava-o sobre Angola, as suas gentes e riam. Sabia-lhe tão bem rir por momentos e esquecer a guerra. E depois...Quando o envolvimento se adensou, continuou a jurar a si mesmo que não se envolveria, mas...Fora impossível! E não poderia nunca renegá-la. Não quando uma mulher se dá assim a um homem! De alma e coração. E ele já não sabia não se preocupar. Lidar bem com um desenlace fatal...Tal como não conseguia lidar com aquela certeza agora, de que o seu filho nascera.

Antes era uma suposição forte que já não lhe permitia descansar, uma vida inteira. Principalmente quando olhava os seus filhos com Helena... De tal forma que tivera de vir tirar a limpo aquela história. João fora um bom amigo de novo! Se não o tivesse encontrado demoraria muito mais e nunca estaria tão seguro. Combinaram que iria com ele a todo o lado que ele quisesse visitar, de todos por onde andaram no passado. Que o levaria até perto. Mas mesmo a ela? Isso...Não! Pedro teria de ir sozinho. E quanto ao filho?

Deus! Porquê tanto mistério quis saber? No fundo agora sentado na cama depois de ter bebido um copo de água e tomado um calmante, repara que João se esquivara. Sabia o quê? Nada! Mal se falara no rapaz e na mãe, o outro retraíra-se. Era como se fosse um assunto tabu. Mais! Algo que estava tão enraizado numa cortina de secretismo, que velho amigo mudava logo de tema. Mas tinham ficado de se encontrar de manhã e isso é que importava! Depois de comprarem algumas coisas necessárias para levar, fazer-se-iam à estrada. O amigo estava bem de vida. Não rico mas vivia folgadamente. Possuía um jipe que depois de bem carregado e atestado o depósito, com mais um ou dois bidões de reserva para os sítios mais inóspitos onde não havia combustível, não constituiria problema de maior que os atrasasse. E ligara ao anoitecer, depois de estarem juntos a confirmar. Acertara tudo com a mulher, a quem contara a história de Pedro e ela entendera os seus motivos. E foi já vestido e num nervoso desadequado à sua idade, que a madrugada o brindou. Mais uma hora e desceria para encontrar João no hall à sua espera, para fazer a viagem que sempre habitara a sua mente desde o dia que pusera o pé no cais, em Lisboa!

 

Verniz Negro

 

Sentidos dos dias - III Zuleica

Pedro voava sobre o Atlântico. Do mesmo que há tantos anos atrás, o Vera Cruz rasgava águas impiedosamente, com pressa de descarregar mais um contingente de tropas. Era como uma linha de montagem a fornecer peças continuadamente para engrenar a máquina de guerra. Mas não era só chumbo. Eram carne e sangue de muitos que já não regressavam. Mais uns quantos que vinham sem préstimo, naqueles corpos atacados pelas maleitas tropicais, a que não estavam habituados. Outros... A cabeça deixava de lhes funcionar a preceito e ainda mais, como ele ficavam obrigados a possuir uma sala de cinema privativa, cujo o lugar na primeira fila era sempre seu, rodeado de caras desfeitas e corpos em decomposição. A fita que passava no ecrã era sempre a mesma! Tiros, pó, gritos, desorientação, carros, lama, vegetação luxuriante. Palhotas, vultos emboscados, crianças, mulheres a correr e entre todos aqueles rostos um... Zuleica!

Era uma bonita jovem mulata, cuja pele era bastante clara em relação aos demais habitantes. Senhora de belos, expressivos e enormes olhos verdes, com sorriso tão branco que lembrava neve no meio daquele clima abrasador. Uma mulher diferente. Instruída, com pensamento próprio sobre o diferendo. Curvas generosas, carne... Firme! Que não fazia questão de mostrar em demasia, mas o que estava à vista... Foi nesta altura que Pedro Rafael acordou. Nem sabia como, pegara no sono, mas detestava aviões. Ficara-lhe da maldita guerra quando do céu vinha a chuva da morte e na terra se abriam crateras do tamanho de uma casa. A mulher que ia ao lado dele olhou-o desconfiada quando estremeceu e despertou, depois limitou-se a sorrir e a dizer:

- Não gosta de voar?

Ele sorriu de volta e respondeu com muito poucas palavras para abortar logo ali a possível “familiaridade” que viesse a nascer.

- Não é das minhas coisas preferidas, não senhor!

Ela ainda ficou um pouco à espera de mais, mas Pedro Rafael fixou os olhos no filme que estava a dar sem nada ver. O beijo dos actores voltara a recordar-lhe os seus próprios beijos. Os daquela mulher com quem vivera uma eternidade, que jamais voltaria. Conhecera-a num dia de mercado em que as tropas, algumas numa rápida folga, outras em revista, deambulavam por ali ou pelos bares. Muitos enrolados em negras e encharcados de Whisky barato. Tantos foram os bastardos que por lá ficaram. Isto fazia o seu estômago revolver-se. Tratar-se um ser humano como gado para se fazer dele refúgio de frustração. Mas ele, não o tinha feito? Não seria também por isso que lá ia? Tirar a limpo a humilhante história do filho. Da sua degradante actuação perante ela? A ser verdade tê-la-ia tratado como lixo, e jamais lho merecera. Devia-lhe muito. O ter continuado são e inteiro. Devia-lhe... tudo!

O dia estava muito quente, o suor escorria-lhe em bica. Havia os cheiros activos da criação, peixe, frutas, legumes e especiarias. O colorido da terra, mais o explodir de cores das bancadas e dos vestidos, com lenços da mulheres atados na cabeça. Ouvia-se o choro das crianças que carregavam nas costas, enquanto mais dormiam. E a discussão sobre preços e qualidade ou frescura do produto. No fundo e em tempo de paz seria aprazível, estar ali. Porém, não havia paz, ou sossego. Acabava-se a olhar nos olhos dum simples pescador que vendia, como se ele fosse o nosso inimigo. Pronto a empunhar uma arma e desfazer-nos por inteiro. Aconteceu quando se refrescava numa torneira aberta, perto onde os putos chapinhavam e brincavam entre si. Viu-a! Falava com outra rapariga mais escura, despreocupadamente, olhando para ela enquanto explicava qualquer coisa, e sem querer chocara com ele, que atabalhoado se desfez em desculpas. A primeira coisa que o arrasou foram os olhos verdes e o contraste da pele. Seguidamente o ar de surpresa, coberto de receio e desconfiança. E o outro! Inquisidor. Como podia ela achá-lo tão indesejável na sua presença? Nunca o vira, sabia quem ou como era? Que estava ali sem vontade. Obrigado como tantos. Porém aquele olhar duro  foi pior que a tal rajada. Era como um insulto. Como se lhe desse uma ordem para se ir embora. Aquela terra não era sua. Contrariamente ao que os olhos expressavam, a boca linda e carnuda, abriu-se num sorriso breve e desvalorizou o encontrão violento. Pedro ficou tão atarantado, preso nela que tinha de fazer algo. O que fez foi convidá-las para um refresco ali. Ela não quis aceitar. Pareceu na defensiva, mas a outra convenceu-a. Beberam-no em pé, sorvidos de cocos. A Pedro pareceu-lhe que jamais bebera coisa mais gostosa na sua vida e a imagem daquele dia nunca se desvaneceria da sua mente.

Esteve dias sem a ver. A guerra voltou a pedir a sua concentração, o seu melhor desempenho. Por vezes a improvisação que nem sabia possuir e então... Foi o destino. Num dia em que tinham sido destacados para inspeccionar uma aldeia sob suspeita, encontrou-a de novo. Morava ali pelo visto. A conversa entre os dois chegou a dar-se, mas breve. Não morreram ambos nesse dia por um triz. Rapidez de um colega que mais tarde lá ficou radicado e os avisou, do click da granada. Depois? Depois foi novamente o inferno. Ele só teve tempo de agarrar nela e proteger-se dando-lhe uma estrita ordem para que não o abandonasse. Ao fim do dia todos exaustos, mas passado o pior e capturados os cabecilhas do ataque, neutralizada a aldeia, ela iria com eles... Entre os reféns! Não houvera palavra sua que adiantasse, para a defender. Contudo chegados ao aquartelamento alguém discerniu, por intervenção de muitos outros, que a rapariga estava inocente e com Pedro. Não fazia parte dos rebeldes. Teria sido assim que começara o quebrar do gelo dela para com ele? Demorou muito para a ter nos braços mas quando aconteceu... O seu devaneio foi interrompido pela voz da hospedeira. Uma ordem para apertarem os cintos e da proximidade da pista. Pedro tornou-se um vulcão em actividade. No seu interior nada era pacífico. Até o sangue rivalizava com os miolos e entrara em ebulição.

 

Verniz Negro

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