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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quarta-feira, 08.07.15

Vi e sente!

Vi o teu crescer lento,

tão lento que nem parecias vivo.

Vi os medos por ti elevarem-se,

a dramas e tragédias sem razão.

 

Vi o ventre de tua mãe ficar redondo,

qual fruta verde e vermelha.

Vi a alegria dos teus movimentos,

como se fosses um irrequieto.

 

Vi a azáfama em teu redor

como se fosses o único no mundo.

Vi a tua forma franzina mas serena,

oferecendo finalmente calma e alegria.

 

Vicente! Isto tudo eu vi

e senti!

 

 

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por José da Xã às 23:15

Quarta-feira, 19.09.12

Sentidos dos dias - Paz XIX

Passara um mês desde que Helena reunira os filhos e lhes contara tudo. Desde que o mais novo se insurgira contra o pai, dizendo que ele tinha deveres para com a mãe! Para com todos eles. Não era assim sem mais nem menos que... "Aquilo era uma acção descabida. Uma traição!" Helena sorrira, a morrer por dentro. Exigira respeito, ao filho, para com o pai. Fez-lhe ver que no fundo, maior traição tinha sido ele ter-se obrigado a viver uma vida inteira que não queria, só por causa de todos eles. Fora um homem que desde o início podê-la-ia ter abandonado. Quando vira que não conseguia esquecer-se da outra e nunca o fizera. Assumira sempre o casamento, os filhos, pondo o seu próprio bem-estar para último. Honrando a família. Mas o certo é que existia outra família, que o "chamava" sem dizer palavra. Sem se fazer notar. Explicou como e o que achara de Zuleica, quando a conheceu. Era notório o amor que ambos ainda sentiam um pelo outro. Ela apenas fora vê-lo, porque o sabia mal e antes que ele morresse... Sem nada exigir. Calada, chorosa, curvada na seu orgulho de mulher. E Helena soube o que lhe doía. Custou-lhe a admiti-lo, todavia acabou por admirá-la!

O que importava, afinal? Que Pedro Rafael voltasse para Portugal, agora que tudo tinha sido posto à luz do dia. Continuasse a viver infeliz e uma mentira junto deles? Ou prefeririam como ela, abdicar do seu amor, mas que ele pudesse fazer também justiça. Àquela mulher! Aos filhos, que cresceram sempre sem o amor e amparo do pai? Caramba! De certeza que a nenhum dos seus descendentes, estava a ser exigido o sacrifício. O suportar da dor que ela, mãe deles e mulher de Pedro estava a viver. E ainda assim escolhera... Faria o que fosse preciso para que Pedro fosse feliz. Pelo respeito que sempre lhe dera. Anos seguidos de se ter anulado para criar os filhos. Ficar junto dela, porque assim tinha prometido nos votos do casamento... Mas, hoje? Convenhamos! Os filhos estavam criados. Cada um seguia a sua vida. Ela e ele, ficariam como todos os pais ficam quando os filhos vão à procura do seu mundo. De o conquistar. Engolindo o orgulho e as lágrimas, a voz a embargar-se Helena finalizou.

- Foi muito melhor assim. Ele fará sempre parte das nossas vidas. Vocês podem visitá-lo, conhecer os vossos irmãos. Eu? fico bem! Em paz com a minha consciência. Feliz por ele, que merece sem dúvida ser feliz, os últimos anos da sua vida!

Maria da Graça abraçara-se à mãe. O filho mais velho encolhera os ombros, resignado. O mais novo estava ainda revoltado.

- Mãezinha! Sempre foste uma grande mulher. Não sei se o que aconteceu contigo e o pai, a passar-se comigo,teria essa coragem. Essa tua maneira de ser. Pode parecer desprendimento, frieza. Mas sabemos tão bem que é apenas imensa dignidade. E por amares o pai. Adoro-te mãe! 

- A mãe é uma grande parva, isso sim! Qual é a mulher que entrega o homem à outra de "bandeja!" Tenha lá ele os filhos que tiver. Nós não temos nada a ver com isso. A mãe conheceu-o depois. Eu continuo a achar que...

- Não continuas a achar nada. Um dia quando tiveres os teus filhos vais querer o melhor para eles. Vocês sempre tiveram o melhor. Os outros lá longe, nunca tiveram nada. Gosto muito de ti meu filho, mas pelo amor que me possas ter, respeita a minha decisão. O teu pai!

Ali em frente do mar, onde muitas vezes passeara de mãos dadas com Pedro, Helena era verdadeira consigo mesma. Quando viera embora desejara com todas as forças que Pedro a seguisse. Nas primeiras semanas ainda teve esperança. Mas, deixara as cartas. Nelas ilibava-os de culpas. Explicava o que queria e compreendia que a felicidade também lhes assistia, aos dois, agora. Aquela felicidade que mesmo em sobressalto tivera sempre. O certo é que Pedro telefonara. Estava recomposto, calmo. Perguntara-lhe se tinha a certeza. Mordeu os lábios e disfarçou o desgosto ao telefone. Mais algumas palavras, em que bastantes delas foram de elogio. Como a amaria, para sempre. Nunca esqueceria que aquele amor que ela lhe votava era tão enorme, que lhe permitia ter aquele altruísmo... E ponto final. Era assim que tinha de encarar a sua vida com ele. No fundo sentia-se em paz. Mais ou menos bem. A dor passaria. Afinal se ele tivesse morrido seria muito pior. Zuleica merecia ser feliz. Os filhos terem a oportunidade de conhecerem o homem bom, que o pai era, apenas vítima das circunstâncias... Pudessem todos os que lá deixaram filhos e sofrimento, colmatá-lo. As ondas banhavam-lhe os pés. Os olhos procuravam o horizonte. Para lá daquela linha longíqua, estava Pedro! O amor da sua vida. Sorriu tristemente. Sussurrou baixinho: "Sê feliz, meu amor. Sempre e em cada dia da tua vida!" Inverteu caminho, limpou bem os pés com a mão e calçou-se. Andou mais um pouco e viu a camioneta que a levaria a casa. Fez sinal e entrou. Subiu as escadas e meteu a chave na porta. Foi brindada por um coro de gargalhadas. As traquinices do costume.

- Mãe! Importas-te de ficar com eles esta semana. Eu a e Lígia queríamos, descansar um bocado. Tipo uma segunda Lua de Mel? Quem sabe não dê uma salto a Angola... - O filho mais velho riu-se com ar cúmplice. - Foi a Graça, que teve a ideia digo-te já!

- Oh, meu filho, claro que fico. Os meus netos são a minha maior riqueza, para além dos meus rebentos. E o casmurro do teu irmão? 

- Acreditas que a tua filha o convenceu também a ir. Aquele "miúda" é de fibra. Faz-nos andar todos na linha.

- Fico tão feliz. Finalmente tudo parecer estar a compor-se. Ele ter começado a perdoar o pai... É muito bom! Quanto à Maria da Graça...

- Tem a quem sair.

- Ah, sim! A quem?

- A ti, mãe! És uma mulher extraordinária. Os teus filhos só podem achar exemplo e inspiração em ti, mãe.

Entre abraços e lágrimas Helena sentia-se grata. Pelos filhos, netos e por Pedro ter estado na sua vida. Ter originado com ela, esta parte da sua felicidade. Sim! Ela também se sentia uma mulher feliz.

 

Fim

 

Verniz Negro

 

Ao meu grande amigo José da Xã!

 

 

Esta foi a última de algumas histórias que "entrançámos", juntos, por agora... Quem sabe um dia não surjam mais. É altura de paramos um bocadinho. Viver com mais calma outros compromissos. A vida em si. Mas nunca se pára uma amizade, pois não José? Podem-se afastar as pessoas. Pode não haver todos os dias, ou semanas aquela partilha, cumplicidade, mas a presença essa está sempre connosco. Dentro do coração e no pensamento. Agradeço-te até hoje a amizade... Que espero se vá fortificando. Durando para sempre, porque vou estar sempre aqui para ti, assim precises de mim. Me queiras por perto!

 

Obrigado, amigo! Foram semana divertidas de muita "inspiração forçada", outras vezes não. Quando por exemplo, nos saíam as ideias mal acabávamos de escrever o capítulo anterior. Para ti desejo o melhor. Todo o sucesso do mundo. Mais uma vez foi giro. Muito giro. E vamo-nos "vendo" por aí! Beijo enorme. Bons escritos!

 

Verniz Negro/Fátima Soares

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por José da Xã às 13:59

Domingo, 02.09.12

Sentido dos dias – Leituras XXIV

Meticulosamente foi arrumando as roupas na mala. Helena escolhera-as e colocara-as em cima a cama para que o marido a arrumasse. Sempre fora assim… metódico.

Helena da porta do quarto olhou o marido e achou-o envelhecido. O cabelo branco rareava já e as rugas cortavam-lhe a face qual regos de arado em terra fecunda. Depois aquela respiração sempre funda e lenta. Aquele coração não iria resistir a tantas emoções que o esperariam em Angola.

Pedro pegava na roupa e lentamente dispunha-a na mala. Depois buscava outra e repetia o gesto. Olhou para a porta e reparou que a mulher o observava com carinho mas também com alguma contida raiva. Ela sabia o que ele iria fazer a África, mas era impossível evitar a viagem…

Do meio de alguma tralha para arrumar Pedro Rafael recolheu uma velha sebenta. As folhas amarelas, o cheiro que ele tão bem conhecia de papel velho, as recordações ali escritas havia tantos anos… Sentou-se então na borda da cama e abriu o caderno. Na primeira página uma data e um local. Depois as descrições.

Começou a ler devagar, como sempre fazia, um diário com mais de quarenta anos. Pedro nem reparou nos erros ortográficos que ele próprio escrevera. Só lia… e sentia como se tudo surgisse na sua mente uma vez mais… Os camaradas de guerra, as patrulhas furtivas, os tiroteios por vezes quase incessantes, os corpos estropiados, os gritos lancinantes dos feridos, o cheiro de carne humana queimada. Mais á frente novos ataques descritos quase ao pormenor jornalístico. E por fim…

Durante páginas e páginas leu um conjunto de sentimentos sinceros e quiçá ingénuos. Folheando as páginas uma a uma Pedro lembrava-se como se fosse naquele instante o momento em que escrevera aqueles textos. Nas tendas os camaradas quando o viam de caneta em punho logo brincavam:

- Aí está o nosso cronista…

- Ainda ganhas um Nobel com esses textos – observava em tom meio a sério meio a brincar o tenente que comandava o batalhão já muito dizimado.

Aquelas noites de luar intenso e calor profundo davam-lhe serenidade interior. Não paz… que esta era palavra proibida em tempo de guerra. E depois haviam os cheiros daquela terra, os aromas das frutas maduras que misturadas com a selva próxima originavam sensações inebriantes.

As lágrimas começaram a cair, pela face marcada, sem que desse por isso. Havia muitos anos que evitava a leitura daquela e de outras sebentas, porque se conhecia e sabia de antemão as reacções que a sua alma e o seu coração iriam sofrer. Mas um dia teria de ser… E agora a poucas horas de embarcar para uma terra donde saíra, havia mais de quarenta anos tinha que ter a coragem de enfrentar o seu passado.

Fora no passado que a sua vida sofrera um enorme revés, fora no passado que Pedro amara sofregamente, fora no passado que quisera deixar suas lembranças. Mas estas nunca por lá ficaram. Viajaram no tempo consigo, permanentemente.

Não havia dia nenhum que o alfarrabista não se lembrasse de Zuleica. Dos momentos felizes que com ela passara, dos desejos sonhados a dois, das promessas jamais cumpridas. Era tempo de refazer o passado. Não que ele vivesse muito mais tempo para o poder gozar, mas acima de tudo poder partir em paz consigo mesmo.

João surgiu à porta do quarto sem que Pedro notasse. O filho mais novo, contra a vontade do pai inscrevera-se anos antes na Escola Naval e hoje era já um oficial. Vendo o pai embrenhado na leitura das sebentas, pensou em não o maçar… Porém o pai partiria no dia seguinte e…  Podia ser a última vez!

Devagar sentou-se ao lado de Pedro, passou-lhe o braço por cima do ombro e despediu-se:

- Pai venho despedir-me…

- Obrigado João… Também não vão ser muitos dia… Espero regressar muito em breve.

- Eu sei pai, eu sei… Mas ainda assim…

E calou-se. Pedir um abraço ao pai era algo que nunca passara pelo seu pensamento. Todavia ambos eram homens e não obstante a forma sempre discreta com que o pai mimava os filhos, João sentiu vontade de pelo menos naquele instante sentir o pai mais próximo de si.

Finalmente arriscou:

- Dê-me um abraço… meu pai!

Pedro ergueu-se devagar, abriu os braços e recebeu neles o corpo atlético do filho. Foi a primeira vez que Pedro abraçou o seu benjamim… E de súbito as palavras saíram como se fosse outro a pronunciá-las:

- Que Deus te abençoe meu filho! E obrigado…

O militar afastou-se do antecessor admirado, não com a bênção mas com o agradecimento. E sem pejos perguntou:

- Agradeces-me porquê pai?

Pedro esboçou um sorriso. Era raro nele, muito raro. Finalmente respondeu:

- Porque nunca o fiz, nem a ti nem aos teus irmãos… Agradeço-te apenas o amor que me tens e à tua mãe.

-Pai… esta conversa parece uma despedida muito dramática…

- Meu filho, a vida foi, é e será sempre um drama… 

 

José da Xã

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por José da Xã às 02:05

Terça-feira, 29.05.12

Trilhos privados - XXI Ceia

O velho Fiat Uno cinzento e muito mal estimado, estava parado a algumas dezenas de metros da moradia de Célia. Discretamente, Francisco José Torres mais conhecido por Zeca pelos amigos e família, aguardava um sinal no seu telemóvel da irmã Genoveva, governanta daquela casa em Sintra. De vez em quando, conseguia ver a única pessoa que era realmente da sua família.

Zeca tinha 52 anos e trabalhava na polícia Judiciária para mais de 25 anos. De estatura mediana, o agente era muito competente sendo responsável pela solução de alguns dos maiores crimes. Principalmente o caso do “Assassino Nu” que matara o chefe Arcílio, havia vários anos.

Mas Francisco debaixo de aquele seu ar bonacheirão e quase redondo sabia também ser simpático e alegre. Tinha um tique que herdara do tempo de tropa mas no fundo era um pândego e homem sempre muito bem disposto. Para tudo tinha uma piada ou pelo menos uma história. Confidenciava muitas vezes que tomara esta postura desde que lera o livro “O Valente Soldado Cheivk”. Um exímio personagem em escapar a casos mais problemáticos. Todavia Zeca não tinha ainda assim essa sorte e à sua porta batiam sempre as piores coisas. Por isso ria sempre que podia. Adorava comer mas bebia pouco. Às vezes em dias de muito calor lá beberricava uma cerveja.

Mas o polícia tinha um grande senão. Chamava-se Deolinda Veiga, jornalista de profissão e tinha com Francisco uma amizade demasiado colorida.

O aparelho vibrou. E Zeca leu no visor: mana!

Saiu do carro, fechou a porta sem a trancar e encaminhou-se para o portão que ficava por detrás da casa. Aqui escapuliu-se para dentro do terreno da casa e entrando pela porta do jardim chegou à cozinha onde em cima da mesa já fumegava uma enorme caneca de chá. Em frente, num prato raso uma quantidade larga de biscoitos que Francisco foi então comendo e saboreando com prazer. A irmã chegou entretanto vindo de dentro da casa com um tabuleiro vazio.

- Boa noite Zeca.

O irmão levantou-se e deu a face para a mana beijar. Após os cumprimentos voltou a sentar-se e continuou a comer. As bolachas derretiam debaixo de um som seco, quase parecia um cabra a comer favas. Genoveva não aprecia aquela forma pouco civilizada de comer do irmão e chamou-o à atenção:

- Olha lá, não sabes comer de outra maneira? Pareces um animal…

Zeca parou mas em vez de ficar ofendido, riu-se:

- Mas eu sou um animal… racional.

- Pois, pois deixa-te de brincadeiras e porta-te como deve ser, se fazes favor – repreendeu a irmã.

Zeca soubera dos últimos trágicos acontecimentos e foi assim adiantando:

- O velho lá morreu…

- Não era velho, estava muito doente…

- Oh… velhos somos quase todos…

- Isso dizes tu. Mas eu não estou!

O agente nem deu seguimento à última frase da irmã. Explorou outras ideias.

- Ontem estava aí um chinês com um ar estranho…

- Tu estiveste cá… no funeral?

- Sim mas à distância…

- Mas porquê?

- Eu não gosto de misturas…. Mas estava a dizer-te que estava aí um chinês, no funeral…

- Ah sim lembro-me… Acho que é um professor da Célia…

- Hum… Cheira-me… – e mexeu no nariz.

- Mas cheira-te a quê?

- Não sei… Havia no tipo algo que não me agradou.

- Tu e as tuas teorias da conspiração…

- Chama-lhe teorias, chama! E como está a viúva?

- Mal muito mal, parece uma boneca. Não tem vontade própria, uma miséria…

- Agora têm de tratar da papelada: Finanças, notário, bancos…

- Isso tem de ser a menina a fazer ou andar para a frente com as coisas…

- Se elas precisarem de alguma ajuda avisa… Tenho por aí amigos…

- Eu sei Zeca, eu sei! Ma deixa lá passar uns dias…

A conversa continuou por muito tempo. Francisco nunca tinha pressa, quando começava a conversar e foi Genoveva que o incitou a ir embora. Já na rua quando ia a caminho do carro passou por ele uma viatura com um tipo ao volante. Zeca não ligou e nem se preocupou a pensar quem seria.

Quando entrou no carro, tocou novamente o telefone. Era do serviço:

- Boa noite Zeca!

- Olá Patrocínio, diz.

- Tens de ir para o Estoril…

- Ao casino? – e riu-se.

 - Não ao Hotel Palace… Um chinês apareceu morto.

Por seria que ele não se sentia espantado?

 

José da Xã

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por José da Xã às 11:15


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