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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quinta-feira, 23.05.19

Contos Tontos! - 36

Sentada na varanda num velhíssimo cadeirão e rodeada de uma profusão de vasos com flores de todas as cores e espécies, Guiomar olhava a rua de quase nenhum movimento. Era geralmente assim. Talvez ao fim de semana houvesse mais gente na rua, mas com pouca diferença. Ao longe o som estridente de um comboio que saía da estação ou de uma ambulância.

Vivia só, desde a morte do marido Gervásio, haveria dez anos. Os filhos haviam partido em busca de vidas próprias. Raramente falavam à mãe. Todavia diziam sempre:

“Se necessitar de alguma coisa ligue para este número de telefone…”

Guardava-os à vista mesmo ao lado do aparelho telefónico.

Entretanto todos os dias recebia a visita rápida das meninas da Misericórdia, que ali vinham entregar o que seria o seu almoço e jantar. E a elas devolvia invariavelmente uma flor que retirava de um dos seus vasos.

A roçar os 90 anos Guiomar olhava o mundo com serenidade. As pernas eram o seu pior problema e daí jamais sair de casa. Muito devagar saía do quarto para a sala e desta para a varanda. Ou o seu inverso. Tirando as meninas do meio-dia não falava com ninguém.

Assim quando se sentia mais só ligava para o filho, pois sabia que alguém lhe falaria. Pegava no papel com os números carregava nas teclas e aguardava. Do outro lado uma voz respondia-lhe:

- O número que pretende contactar não se encontra disponível. Por favor ligue mais tarde ou envie um SMS.

Um sorriso surgia então na face lavrada pelos anos.

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por José da Xã às 09:46

Quarta-feira, 15.05.19

Santa Ana

Assim que Mário começou a andar, com pouco mais de um ano, depressa ganhou a alcunha de Faísca tal a velocidade com que corria. O epíteto fora-lhe atribuído pelo avô João, velho arrais da traineira Santa Ana.

Muito cedo o miúdo iniciou o seu gosto pelo mar e pela pesca. Tanto o avô como o pai Bento lavravam diariamente o mar colhendo pescado que vendiam ao desbarato, mas que ainda assim dava para alimentar as bocas de casa.

Aos cinco anos o petiz já conhecia todos os peixes e as suas variantes. Mais tarde, mal saía da escola, o Faísca corria para o porto em busca da pequena traineira familiar.

Encontrava quase sempre pai e avô a remendar redes, num trabalho moroso e chato, porém necessário. Sentava-se ao lado deles e olhava a linha do horizonte onde os diferentes azuis se tocavam. E desejava, queria, sentia o mar anil a bailar dentro de si.

O pai percebia aquele olhar e antes que lhe desse alguma ideia, determinou:

- Filho meu nunca será pescador! Não é vida para ninguém!

Mário não percebia, mas com o decorrer dos anos entendeu. Demasiado bem…

O tio Justino desaparecera no mar havia um par de anos, assim como os dois filhos numa noite de malagueiro onde uma onda maldita pegou na embarcação e a adernou até se afundar.

No entanto Mário não temia o mar… sabia que este seria muito mais forte e teimoso que ele e deste modo só havia que respeitar.

Aos quinze anos e após muitas promessas em não deixar de estudar partiu pela primeira vez com a família para o mar. Em terra a mãe chorava agarrada ao xaile que já enxugara muitas lágrimas.

- Uma noite destas fico viúva, sem sogro e sem filho…

As outras mulheres amenizavam a desconfiança, mas ela temia, temia, temia…

Naquela estreia Mário trouxe para casa o cabaz repleto de cavalas, carapaus, plins, pargos e bicudas, que a mãe iria provavelmente secar ao sol. O pai e o avô admiraram-se com a sorte dessa noite. E comentaram:

- O Faísca trouxe-nos sorte! – afirmou o velho lobo do mar.

- Sorte de principiante – acrescentou Bento.

No dia seguinte o jovem apareceu cedo para ajudar a remendar as redes e colocar as alfais na embarcação. O pai olhou para ele e chamou-o. Afastaram-se o suficiente para o avô não escutar a conversa:

- Sei que gostas do mar, vê-se nesse teu olhar que já foi também o meu.

Mário baixou os olhos para o chão onde uma estrela do mar secava ao sol. Mas nada disse e aguardou que o pai continuasse:

- Eu não quero ficar sem um filho, quero que estudes, que aprendas outras coisas, que partas para a cidade e saibas mais que eu.

Mas o jovem queria mais, muito mais. Desejava viver as mesmas aventuras que durante longos serões ouvira contar ao seu avô e ao pai. Queria sentir a verdadeira força do mar, sentir o mesmo medo que assaltou tantas vezes o espírito dos seus antecessores. Todavia para isso não podia partir. Simplesmente não podia.

Certa noite, porém, a vida haveria de mudar. Quando a velha traineira largou do porto de pesca levantou-se um vento Norte, brando. O velho João sentiu a brisa e alvitrou:

- Hum cheira-me que vamos ter borrasca…

Os pescadores que o acompanhavam teimaram:

- Ó Mestre não há que ter medo!

Mas João conhecia bem demais o mar e a aliança que este fazia tantas vezes com Éolo e que originava uma dança estranha e demais perigosa. Deste modo retornou a terra mesmo contra vontade da tripulação que via um dia sem dinheiro.

Quando atracou o mar era já uma revolução. Deu a ordem:

- Amarrem-me bem a “menina” qu’isto vai ser duro.

E foi. Demasiado! De tal forma que durante a noite o mar galgou para lá do molhe de pedra e invadiu a estrada. As pequenas embarcações subiam e desciam e algumas batiam com força contra as paredes do porto. Santa Ana não escapou à fúria e pela manhã já serena, João constatou o pior.

Entrou em casa cabisbaixo e triste. O filho Bento acabava de comer um naco de pão quando viu o pai. E percebeu…

Assim como Mário que com o pai correram ao porto.

O cabo partira-se e a velha embarcação surgia meia afundada no meio do cais. Mário não evitou uma lágrima e logo ali prometeu:

- Pai vou estudar e ganhar dinheiro suficiente para comprar uma traineira nova.

Bento passou o braço pelos ombros do filho e exclamou:

- Ser pescador não é só partir para o mar. É saber parar. Como o teu avô fez ontem. Estás a escutar os gritos das mulheres?

Escutava-se ao longe uma gritaria feminina.

- Sim pai!

- Alguém que se julgava saber mais que o teu avô, partiu ontem para o mar e não deve ter regressado. Portanto é preciso parar…

- Mas pai que irão vocês fazer?

- Eu? Fácil… vou pescar! Tenho cana e linha. O teu avô vai recordar! Também precisa.

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por José da Xã às 11:36

Domingo, 12.05.19

A aposta

Era uma daquelas noites de invernia onde o frio obrigava a que todos permanecessem em casa ao redor de um fogo crepitante e acolhedor. Todos, todos não, que os homens preferiam o ambiente enublado, azedo e assaz barulhento da taberna do Tó Careca.

Ao redor das mesas grupos de homens jogavam às cartas ou ao dominó. Não sendo a dinheiro todavia quem perdesse um conjunto de dez jogos pagava uma rodada aos adversários. Ou era a sueca com as cartas muitos negras e claramente conhecidas de todos ou então â tranca uma espécie de canastra, jogo trazido para a aldeia por um antigo emigrante.

Por detrás do balcão o Tó ia servindo copos de tinto ou cortados. Sempre de forma lenta e pausada que os seus setenta anos e as varizes não o deixavam andar mais depressa.

Com o passar das horas o vinho tendia a fazer das suas e a alterar o discernimento e as conversas dos jogadores.

A certa altura o Augusto levanta-se da mesa e enquanto o parceiro embaralha mal as cartas, declara:

- Vou beber este copo pela alma do Ernesto que nos deixou na passada semana.

E de um trago despejou o copo sujo de vinho tinto. Os outros imitaram-no, mas a conversa da alma não ficou por ali. Mais por causa do vinho que da sensatez, o diálogo seguiu um rumo bem diferente e não tardaria a transformar-se numa discussão onde todos se envolveram. Finalmente Augusto declara do cimo da sua profunda embriaguez:

- Só tenho medo dos vivos não dos mortos!

A declaração dita qual sentença caiu no ambiente como pedra num charco, deixando todos em silêncio. Foi finalmente o próprio Tó que mais em tom de brincadeira que a sério propôs:

- Aposto que não és capaz de ir ao cemitério, à campa do Ernesto e espetar lá um pau. Se o fizeres pago uma rodada a todos…

Gerou-se um burburinho na sala com diversas opiniões.

- Está muito frio… já é tarde… o homem tem medo…

Como Augusto era casmurro e ainda por cima ébrio, levantou-se da cadeira e meio a cambalear dirigiu-se à porta e declarou:

- Já venho! Prepara os copos…

Da noite, quando abriu a porta, veio um ar glaciar acompanhado de um vento que parecia tudo gelar. Augusto vestiu o seu velho, surrado e seboso sobretudo, apertou os poucos botões da veste, levantou a gola e partiu para o cemitério.

A noite de forte luar deixava-o ver o caminho que ele no entanto conhecia de cor. Debaixo de uma oliveira recentemente podada encontrou um pau que lhe pareceu conveniente e foi ao encontro da campa do amigo, recentemente falecido.

Nem cães nem gatos enjaneirados se escutavam na aldeia, apenas os seus passos na noite. Pairava isso sim um cheiro forte a lenha queimada. Numa ou noutra janela irradiava uma luz mortiça, oriunda de alguma candeia de azeite.

Calcorreou os caminhos de terra batida onde os rodados das carroças se distinguiam até chegar ao velho portão do cemitério. Empurrou-o e este rangeu como se acordasse. Facilmente descobriu o monte de terra que cobria a urna de Ernesto. Aproximou-se devagar agarrou com determinação no pau e dobrando-se espetou-o com força na terra.

Porém quando se quis endireitar algo o prendeu. Fez força, muita força e nesse momento começou a tremer. A bebedeira passara como por milagre, mas nem mesmo assim conseguia sair do sítio. Algo o prendia àquele lugar. Num ápice tudo lhe veio à memória… Acima de tudo os receios dos quais sempre duvidara.

A Negra chamava-o e Augusto não parecia ter vontade suficiente para sair daquele chamamento. Sentiu-se sufocar, o coração batia agora de forma descompassada. Caiu finalmente por terra.

O sol já ia alto quando Valéria entrou no velho cemitério. De súbito reparou num corpo que jazia sobre uma campa. Primeiro gritou, mas por fim recompôs-se e devagar aproximou-se. Encontrou Augusto gelado e morto.

Sem saber o que fazer a mulher rodou à volta do cadáver e percebeu que o velho sobretudo estava preso ao pau que enterrara na campa.

Augusto morrera de susto! De si mesmo!

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por José da Xã às 23:52

Domingo, 10.03.19

Contos Tontos - 35

Na lareira ardia um fogo denso exalando um bafo quente, dando à biblioteca um ambiente acolhedor. Na frente do lume Américo lia um livro grosso. Geralmente optava por clássicos, já que ainda não se adaptara à nova forma de escrita.

Sentado num velho sofá de cabedal cuja cor há muito que havia desaparecido ia folheando o livro com a serenidade que os seus anos quase o obrigavam.

Enviuvara havia poucos meses, após uma luta inglória contra a doença da esposa. Optara por ficar na sua casa de sempre, repleta de recordações de mais de meio século de casamento.

Todavia naquela noite sentia-se mais triste e mais só que todas as outras. Especialmente porque os netos lhe haviam prometido visitá-lo nessa noite e até àquele momento nenhum aparecera.

Era tarde, assim o indicava o enorme relógio que num tique-taque longo desfiava minutos, horas, impaciências.

Américo fora médico de renome. Deixara de exercer logo que a esposa adoecera, no entanto era amiúde interpelado por colegas, para tirar dúvidas. Questões que o médico nunca recusava responder.

Tocou no relógio as badaladas da meia-noite. Doze toques sonoros, lentos, pausados. Iniciara-se outro dia e Américo decidiu preparar-se para se deitar. Os netos haviam falhado a promessa e portanto nada mais o obrigava a ali ficar. Fechou o livro, ergeu-se e aproximou-se do lume para o ajeitar.

Depois voltou-se para a porta de saída e…

- PARABÉNS Avô!

Um coro feito pelos cinco netos e pelos dois filhos ecoou na casa!

Américo recuou com o impacto das vozes em uníssono. Esquecera-se por completo do seu aniversário.

Por fim abriu os braços para envolver a família. Todos o abraçaram num momento único. E ali ficou uns segundos que lhe pareceram horas. As lágrimas corriam pela face rasgada pelos muitos anos.

- Avô, estás a chorar? – perguntou-lhe a neta mais nova.

O velho médico aconchegou a neta ao peito e disse-lhe com a voz embargada:

- Estou…

- Nunca te vi chorar…

Em silêncio deu um longo beijo na neta enquanto olhava para o quadro pendurado na parede oposta com a figura bonita da esposa.

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por José da Xã às 19:46

Terça-feira, 19.02.19

Ivo, o terrível!

Ivo nasceu há muitos anos numa aldeia pobre. À sua volta uma enormidade de irmãos e irmãs que lutavam diariamente por uma migalha de pão duro e bolorento.

Entre os que morreram e os que se salvaram sobraram seis. Coincidentemente três rapazes e três raparigas.

O tempo de Ivo até à juventude foi de muita falta de comida e demasiado trabalho. Primeiro guardou as ovelhas mansas, depois as cabras irrequietas e por fim agarrou-se à enxada. Cedo começou também a trabalhar para os outros de forma a ganhar um tostão com o qual ia à taberna encher a barriga.

Certa tarde num bailarico na aldeia vizinha embeiçou-se por uma jovem e depressa procurou arranjar a sua vida. Ficou na terra da esposa após o casamento. E deste nasceram diversas crianças.

Ivo trabalhava afincadamente numa fábrica para pagar as despesas, para além de um pequeno naco de terra nas traseiras da casa velha e suja, donde extraía o sustento caseiro: couves, batatas, tomate, cebolas, para além de uns bicos.

Mas a mulher depressa se cansou da vida de mãe e pela calada da noite partiu sozinha para parte incerta. Ivo com as crianças nos braços teve de lutar ainda mais para os poder sustentar.

Todavia uma tarde escutou um alarido na rua e entre as vozes conheceu a da sua mulher. Apercebeu-se que ela passara à sua porta mas que não estava sozinha. Ivo aproximou-se do muro que dava para a rua mas nada lhe disse. Ela repetiu a façanha mais algumas vezes, até que um dia Ivo abriu o velho portão de madeira vindo ao seu encontro e disse:

- Voltas aqui a passar à minha porta com ele – e apontou com o queixo o amigo – e não me responsabilizo por aquilo que te possa acontecer.

Ela riu-se da ameaça e seguiu caminho. Para dias depois voltar a fazê-lo.

Ivo ouvia-a ao longe porque estava novamente no quintal a mondar as batatas. Sabia de antemão que o que fizesse a seguir iria ter gravíssimas consequências. Mas ainda assim havia avisado.

Entrou dentro de casa, foi à velha arca da mãe, única herança da antecessora a que tivera direito, pegou na caçadeira, carregou-a com diversos cartuchos e foi para a porta de casa.

A mulher vinha a pé, trazendo atrás de si um burro cinzento que carregava alguns produtos hortícolas nos seus alforges. Atrás o amigo caminhava no passo lento do jumento. Ela ria de forma estridente. Ele mandava-a rir baixo. Ao que ela respondeu:

- Posso rir como quiser, ninguém manda em mim. Nem tu!

De repente a mulher dá de caras com o antigo marido que de arma em riste vai sorrindo num esgar amargo. Ela enfrenta-o e largando o burro chega-se perto do ainda marido e diz:

- Vá dispara, se és homem dispara!

Ao primeiro cartucho ela recuou uns bons metros com o peito crivado de chumbo. Com o segundo já por terra finou-se.

O amigo aproximou-se a correr para a tentar ajudar ou quiçá salvar mas foi o seguinte a levar com chumbo.

Quem ouviu os tiros e os gritos veio à rua. Aproximaram-se de Ivo e iniciaram a disparatar com o agora assassino.

Ele, incrivelmente calmo, entregou a arma a alguém e afirmou:

- Chamem a Guarda e uma ambulância.

Preso e condenado Ivo regressaria à sua aldeia muitos anos mais tarde.

Ninguém o condenou, ninguém se afastou dele como tivesse peçonha. Curiosamente nem mesmo as mulheres.

Um dia por detrás de umas cervejas Ivo acabaria por confessar:

- Nada vale a morte de outra pessoa. Nada!

Os outros ao seu redor nada disseram, apenas olharam entre si e regressaram aos seus copos de cerveja!

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por José da Xã às 14:06

Segunda-feira, 24.12.18

A consoada

Portázio Antunes sentou-se à cabeceira da comprida mesa, cruzou as mãos no regaço e aguardou em silêncio.

À sua frente espraiava-se um mar de cores vermelhas e douradas. De forma simétrica uma frota de pratos, talheres e copos fundeavam na longa mesa.

Ao fundo da sala um relógio de pé encostado à parede, batia compassadamente um monótono tiquetaque. Lentamente soou um gemido e arrancou o carrilhão das oito horas, tocando com suavidade as badaladas. Ao canto uma enorme árvore de Natal repleta de enfeite e luzes. Por baixo um pequeno presépio assente num tapete de musgo verde.

Ali perto uma algazarra aproximava-se. Eram os filhos e cônjuges que acompanhavam a mulher e que carregavam o repasto da consoada.

Todos sabiam que o homem que herdara o nome de um tetravô não gostava de atrasos na hora da refeição. E assim às oito horas todos chegaram e foram distribuindo os diversos tabuleiros, travessas e terrinas pelo mar vermelho.

- Vou chamar os miúdos – disse Aurélio, o filho mais velho.

O pai ordenou, peremptório:

- Fazes o favor de não os chamar…

- Pai…

- Não quero saber… Eles não sabem a que horas se come aqui?

- Ahhhh… Sim… mas…

- Meu filho… Tu e os teus irmãos viveram nesta casa e sempre cumpriram com estes preceitos. Porque terão eles de serem diferentes?

- São miúdos têm outros interesses… - justificou.

- Se cada um viver segundo a sua própria regra passamos a viver numa anarquia. Vamos então comer e que ninguém os chame. Eles já são suficientemente crescidos para terem alguma responsabilidade.

O silêncio que envolveu a sala de jantar durante a refeição quase se assemelhava a um glaciar. Devagar foram todos servindo e comendo.

As conversas eram parcas e aqui e ali um sorriso que mais sabia a falsidade tal era o ambiente triste daquela consoada.

Os pratos foram entrando e saindo e os miúdos sem virem. Justino o filho mais novo de quando em vez olhava a porta para perceber se as crianças surgiam. Mas nada.

Já estavam a começar as sobremesas quando um grande alarido veio das escadas e meia dúzia de crianças e jovens penetraram na sala.

Com admiração repararam que todos já haviam comido. Em silêncio foram ocupar os lugares vazios. E aguardaram.

A avó Doroteia levantou-se do lugar oposto ao do marido e exclamou antes que o velho Portázio dissesse alguma coisa.

- Meninos… vocês sabem que a principal regra desta casa é a hora da refeição. Ainda por cima esta noite que é de consoada, vocês aparecem muito tempo depois. O vosso avô proibiu os vossos pais de vos chamarem. Assim vocês têm duas opções: ou ficam aqui e não comem ou vão comer para a cozinha onde cada um se servirá como quiser. A escolha é vossa…

O decano olhou a mulher e percebeu que de uma forma inteligente ela conseguira dar uma lição sem que os miúdos ficassem sem refeição. Todavia Marta a neta mais velha ergueu-se da sua cadeira e exclamou:

- Não me parece justo avô!

Marta era uma jovem fora do vulgar. Adorava ler e escrever. Já lera os grandes clássicos da literatura e adorava poesia. Dizia que queria ser jornalista e fazia tudo por isso sendo a melhor aluna da escola. De forma geral toda a família olhava para a Marta com orgulho. Por isso quando a jovem falou todos se calaram.

O avô adorava aquela neta, talvez por ter sido a primeira, e aceitou o desafio que a jovem lhe lançava. Por isso respondeu:

- E o que é a justiça minha filha? Será justo que todos aqui trabalharam para se ter uma refeição e vocês assumam que tudo está garantido? Será justo que tenhas sabido a que horas devias aqui estar e não apareças só porque os teus interesses estão à frente das restantes pessoas? Será justo tudo isso?

Marta não se atemorizou. E ripostou:

- Avô… até podes ter razão… Mas custava alguma coisa ter-nos chamado à hora? Ou achas que estou sempre a olhar para o relógio? E a ideia da consoada em família? Preferes a nossa ausência como castigo para todos do que acederes à vontade dos nossos pais em chamar-nos… Uma família não é uma regra, uma lei, mas tão só um sentimento. Que tu avô queres quebrar.

As palavras ditas de forma quase rude pela jovem, tiveram o condão de amansar o ancião. O velho Antunes respirou fundo e quando ia para falar Marta antecipou-se:

- Eu avô, vou comer na cozinha! Preferes estar só… fica só!

Virou as costas e saiu. Os primos e irmãos seguiram-na em silêncio.

Na enorme sala todos perceberam de duas lágrimas que o Portázio nem evitou nem escondeu.

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por José da Xã às 08:09

Quarta-feira, 21.11.18

Em bico dos pés

Havia umas semanas que Emídio andava arredio. A mulher Eugénia até comentara com a comadre Clarinda o mais recente estado do marido:

- Não sei o que se passa com o meu home’… desde há uns tempos que anda estranho…

- Algo que o preocupa… - desculpava a comadre.

- Humm... Espero que não seja um rabo de saia como aconteceu ao meu padrinho Jacinto. Embeiçou-se por uma galdéria qualquer lá da vila e largou tudo para ir atrás dela. Quando se viu sem cheta veio com o rabinho entre as pernas ter com a minha madrinha…

- Ah ele foi isso? É que me haviam dito que ele fora para Lisboa por causa de um nascido…

- Foi nada… o parvalhão. Mas espero que o meu Emídio não se meta numa dessas… Ele que se livre…

- Ó mulher o teu marido é boa pessoa. Não te faria isso com toda a certeza.

- Pois comadre… até pode ser, mas que anda cismado, isso anda. E não sei com o quê.

- Alguma dívida… talvez – avançou a outra tentando saber mais.

- De certeza que não. Tivemos aí uns dinheiros com a venda dos bezerros que deu para pagar à loja e ainda sobrou qualquer coisita.

A determinada altura Eugénia percebeu que falara demais tendo em conta a língua de trapo que costumava ser a comadre e fugiu do tema:

- Diga-me uma coisa comadre Clarinda, já nasceram os pintos da sua cocó?

O tema preferido da comadre era os seus bicos e assim rapidamente se mudou de assunto. A tagarelice versou capoeiras durante muito tempo.

Entretanto do outro lado da aldeia Emídio escardava umas oliveiras velhas, quase tão velhas quanto o tempo, como afirmou uma vez o seu pai Jerónimo. Aproximava-se o tempo da colheita mas o mato que crescera ao redor dos pés das oliveiras teria de ser cortado antecipadamente. Munido de uma enxada rasa e um alferce o homem ia cortando os rebentos e o mato. Na sua cabeça muitas ideias, muitos pensamentos todos eles poucos cristãos.

- Tenho de falar com o padre Abílio por causa desta cisma. Ele deve-me poder ajudar.

Mas o padre nem sempre estava disponível e Emídio foi adiando a conversa. O silêncio era o seu refúgio o que levou a esposa a perceber que algo não estava bem. Após diversas tentativas para descobrir o problema, Eugénia deixou de fazer perguntas e passou a aceitar a nova postura do esposo.

Do casamento não nascera qualquer filho o que fazia que Emídio se sentisse diminuído em relação aos demais aldeões. Muitos sobrinhos era certo, mas filhos, filhos… nem um!

A determinada altura a mulher pensou que seria isso. E tentou trazer ao de cima essa conversa avançando com uma proposta:

- Ó home’ será que andas assim por não termos filhos? Sabes que isso resolve-se depressa. A tua irmã tem uma ranchada deles e de certeza que não se importaria que tomássemos conta de um. Seria menos uma boca…

Mas o aldeão negou. Uma e outra vez! E Eugénia aceitou. Contrafeita.

Naquele sábado o homem levantou-se cedo. Como sempre. O gado requer sempre muita atenção e cuidado. Mas aquele dia deveria ser especial… A ideia que o atormentava havia tempo ganhara forma e Emídio iria dar vazão ao seu pensamento e vontade.

Ordenhou as ovelhas, deixou o tarro repleto em casa como era seu hábito, largou as vacas e a burra prenha no lameiro e partiu para o barracão onde normalmente guardava a palha. Este era um edifício velho mas rijo. O telhado alto assentava numa madeira ainda sem caruncho. Mais abaixo as traves, outrora grossos eucaliptos suportavam um soalho também ele de madeira. Emídio subiu com a ajuda de uma escada e atou uma ponta do cordame à volta da viga.

Depois em baixo foi buscar um banco velho colocou-se em cima deste, mediu o comprimento do cabo e na ponta fez um laço de correr. Por fim o último acto e colocou a laçada à volta do seu pescoço.

Olhou o céu, benzeu-se enquanto rezava um Padre-Nosso. Terminou com uma frase:

- Desculpai-me Senhor…

Com os pés fez tombar o banco para um dos lados. O corpo caiu com peso e Emídio sentiu num instante o laço apertar-lhe o pescoço e a respiração a ficar dificultada. O fim aproximava-se e com ele toda uma angústia vivida nas últimos meses, semanas.

Mas o destino é por vezes amargo, outras doce e quando Emídio esticou os pés estes… tocaram o chão. O suficiente para o laço não apertar mais com a força do seu peso.

E assim ficou até Eugénia o descobrir, após muitas horas de busca!

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por José da Xã às 23:09

Quarta-feira, 24.10.18

Contos tontos - 34

Sentado na pequena sala vazia Edgar agarrou-se à bengala com ambas as mãos e em cima destas poisou a testa.

Por fim deixou que as lágrimas caíssem na carpete surrada e descolorida. Em silêncio.

À sua frente no caixão negro repousava o seu grande e único amor. Setenta anos de vida em comum. Cinco filhos, doze netos e muitos bisnetos, perdera-lhe o conto, e uma vida cheia de tanta… vida.

Mas naquele instante estava só. Sabia que em breve seria ele… do outro lado. E quando fosse tinha consciência que não teria ninguém a chorar por ele.

Sempre considerara os filhos como outras faces de si mesmo. Fossem as raparigas ou os rapazes. Ajudara-os sempre que lhe era solicitado. E amara-os muito.

Assim como Eugénia, a defunta, que abdicara de uma carreira como professora em prol dos gaiatos.

Todavia a solidão familiar invadira-lhes a vida a partir do momento que optaram por viverem num lar, tendo vendido todas as parcas coisas que tinham. Não deixariam nada a filhos e netos. Nem bens nem preocupações de nenhuma espécie.

Mas seria o mínimo, os filhos virem despedir-se da mãe.

Ergueu a cabeça e olhou um dos círios que iluminavam baçamente a sala. Naquela flamejar constante mas incerto Edgar sentiu que a sua vida fora um pouco como aquela vela.

A início pujante e forte, para no final se resumir a um coto e a uma luz mortiça que morria devagar

Tal e qual ele.

 

 

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por José da Xã às 13:38

Terça-feira, 09.10.18

Contos tontos - 33

Tinha horas de nascido quando ouviu pela primeira vez o som estridente de uma locomotiva a apitar, o que o fez chorar. No entanto dias depois já se habituara.

Os pais eram guardas de uma cancela onde com frequência passavam viaturas, pessoas e animais.

José Lúcio foi por ali vivendo e vendo os comboios a passar. Os primeiros a carvão com demasiado fumo e barulho ao que se seguiram as máquinas a diesel, também elas barulhentas. Aprendeu todos os horários e conhecia como ninguém os maquinistas que lhe acenavam com alegria.

O apeadeiro ficava a poucos quilómetros mas o jovem jamais por lá aparecera. Assim que o trem passava Zé punha-se no meio dos carris até ver desaparecer a última carruagem numa curva onde as linhas paralelas pareciam tocar-se.

Todas as noites, sempre que se deitava na cama malcheirosa com um rancho de irmãos, ficava a tentar adivinhar o que haveria para lá daquela curva. Algo que nunca perguntara a ninguém. Uns diziam que para um dos lados seria a capital Lisboa, o país, o mundo. E para o outro lado, o que haveria? Ninguém falava disso.

A escola era numa aldeia longínqua. Estivesse frio ou calor, chuva ou vento, José Lúcio punha-se sempre a caminho. No entanto, cedo percebeu que o conhecimento lhe daria vantagem. Mas ao mesmo tempo temia as respostas a tantas perguntas que invadiam o seu cérebro e que nunca formulara a ninguém.

Sempre que podia ajudava pai e mãe a subir e a descer a cancela e nunca vira nenhum acidente. Ainda bem pensava ele.

Mas todos os dias olhava a estrada de ferro que levava tanta gente…

Certa madrugada, já com 16 anos, pegou num bornal encheu-o com o que podia levar para comer e partiu linha fora à descoberta do que haveria para lá da curva…

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por José da Xã às 13:43

Quinta-feira, 20.09.18

Contos tontos - 32

Sentada à secretária com o portátil, Bárbara disparava mensagens por correio electrónico para todo o lado. Depois esperava algumas respostas que voltava a devolver com actualizações.

Frenética e imperturbável despachava serviço à velocidade da luz. As mensagens continuavam a cair e ela a responder… até que leu aquela.

“Sei que estás muito ocupada mas tens de comer não tens? Pago eu… Fico à espera!”

Viu o remetente mas não conheceu.

- Engano… - suspirou.

Depois pensou no que haveria de fazer. Responder ou enviar a mensagem para o lixo? Sorriu interiormente e optou por responder:

“Adoraria jantar!”

E seguiu assim sem mais. O nome encontraria ele no endereço. Aguardou.

Novo mail.

“Sou um idiota. Convidei-a e nem me apresentei. Sou o Renato. E a que horas? Fico à espera.”

A devolução.

“Sou a Bárbara e às oito estarei pronta.”

Ficou a aguardar resposta provavelmente com um pedido de morada. A mensagem não chegou e ela continuou a despachar serviço. Por fim…

“Quer que a vá buscar a essa morada ou prefere outra?”

A brincadeira parecia ter tomado dimensões acima do esperado. Mas o desafio parecia ser assaz curioso tanto mais que não lhe havia dado o endereço. Respondeu:

“Aqui mesmo!”

Resposta pronta.

“Até logo!”

Embrenhou-se no trabalho até que a secretária bateu à porta e perguntou se podia sair.

- Que horas são Alzira?

- Faltam dez minutos para as oito.

Fechou de supetão a tampa do portátil, pegou no casaco e saiu com a colaboradora.

- Vamos depressa que tenho um encontro para um jantar…

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por José da Xã às 15:25


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