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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Segunda-feira, 24.12.18

A consoada

Portázio Antunes sentou-se à cabeceira da comprida mesa, cruzou as mãos no regaço e aguardou em silêncio.

À sua frente espraiava-se um mar de cores vermelhas e douradas. De forma simétrica uma frota de pratos, talheres e copos fundeavam na longa mesa.

Ao fundo da sala um relógio de pé encostado à parede, batia compassadamente um monótono tiquetaque. Lentamente soou um gemido e arrancou o carrilhão das oito horas, tocando com suavidade as badaladas. Ao canto uma enorme árvore de Natal repleta de enfeite e luzes. Por baixo um pequeno presépio assente num tapete de musgo verde.

Ali perto uma algazarra aproximava-se. Eram os filhos e cônjuges que acompanhavam a mulher e que carregavam o repasto da consoada.

Todos sabiam que o homem que herdara o nome de um tetravô não gostava de atrasos na hora da refeição. E assim às oito horas todos chegaram e foram distribuindo os diversos tabuleiros, travessas e terrinas pelo mar vermelho.

- Vou chamar os miúdos – disse Aurélio, o filho mais velho.

O pai ordenou, peremptório:

- Fazes o favor de não os chamar…

- Pai…

- Não quero saber… Eles não sabem a que horas se come aqui?

- Ahhhh… Sim… mas…

- Meu filho… Tu e os teus irmãos viveram nesta casa e sempre cumpriram com estes preceitos. Porque terão eles de serem diferentes?

- São miúdos têm outros interesses… - justificou.

- Se cada um viver segundo a sua própria regra passamos a viver numa anarquia. Vamos então comer e que ninguém os chame. Eles já são suficientemente crescidos para terem alguma responsabilidade.

O silêncio que envolveu a sala de jantar durante a refeição quase se assemelhava a um glaciar. Devagar foram todos servindo e comendo.

As conversas eram parcas e aqui e ali um sorriso que mais sabia a falsidade tal era o ambiente triste daquela consoada.

Os pratos foram entrando e saindo e os miúdos sem virem. Justino o filho mais novo de quando em vez olhava a porta para perceber se as crianças surgiam. Mas nada.

Já estavam a começar as sobremesas quando um grande alarido veio das escadas e meia dúzia de crianças e jovens penetraram na sala.

Com admiração repararam que todos já haviam comido. Em silêncio foram ocupar os lugares vazios. E aguardaram.

A avó Doroteia levantou-se do lugar oposto ao do marido e exclamou antes que o velho Portázio dissesse alguma coisa.

- Meninos… vocês sabem que a principal regra desta casa é a hora da refeição. Ainda por cima esta noite que é de consoada, vocês aparecem muito tempo depois. O vosso avô proibiu os vossos pais de vos chamarem. Assim vocês têm duas opções: ou ficam aqui e não comem ou vão comer para a cozinha onde cada um se servirá como quiser. A escolha é vossa…

O decano olhou a mulher e percebeu que de uma forma inteligente ela conseguira dar uma lição sem que os miúdos ficassem sem refeição. Todavia Marta a neta mais velha ergueu-se da sua cadeira e exclamou:

- Não me parece justo avô!

Marta era uma jovem fora do vulgar. Adorava ler e escrever. Já lera os grandes clássicos da literatura e adorava poesia. Dizia que queria ser jornalista e fazia tudo por isso sendo a melhor aluna da escola. De forma geral toda a família olhava para a Marta com orgulho. Por isso quando a jovem falou todos se calaram.

O avô adorava aquela neta, talvez por ter sido a primeira, e aceitou o desafio que a jovem lhe lançava. Por isso respondeu:

- E o que é a justiça minha filha? Será justo que todos aqui trabalharam para se ter uma refeição e vocês assumam que tudo está garantido? Será justo que tenhas sabido a que horas devias aqui estar e não apareças só porque os teus interesses estão à frente das restantes pessoas? Será justo tudo isso?

Marta não se atemorizou. E ripostou:

- Avô… até podes ter razão… Mas custava alguma coisa ter-nos chamado à hora? Ou achas que estou sempre a olhar para o relógio? E a ideia da consoada em família? Preferes a nossa ausência como castigo para todos do que acederes à vontade dos nossos pais em chamar-nos… Uma família não é uma regra, uma lei, mas tão só um sentimento. Que tu avô queres quebrar.

As palavras ditas de forma quase rude pela jovem, tiveram o condão de amansar o ancião. O velho Antunes respirou fundo e quando ia para falar Marta antecipou-se:

- Eu avô, vou comer na cozinha! Preferes estar só… fica só!

Virou as costas e saiu. Os primos e irmãos seguiram-na em silêncio.

Na enorme sala todos perceberam de duas lágrimas que o Portázio nem evitou nem escondeu.

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por José da Xã às 08:09

Quarta-feira, 21.11.18

Em bico dos pés

Havia umas semanas que Emídio andava arredio. A mulher Eugénia até comentara com a comadre Clarinda o mais recente estado do marido:

- Não sei o que se passa com o meu home’… desde há uns tempos que anda estranho…

- Algo que o preocupa… - desculpava a comadre.

- Humm... Espero que não seja um rabo de saia como aconteceu ao meu padrinho Jacinto. Embeiçou-se por uma galdéria qualquer lá da vila e largou tudo para ir atrás dela. Quando se viu sem cheta veio com o rabinho entre as pernas ter com a minha madrinha…

- Ah ele foi isso? É que me haviam dito que ele fora para Lisboa por causa de um nascido…

- Foi nada… o parvalhão. Mas espero que o meu Emídio não se meta numa dessas… Ele que se livre…

- Ó mulher o teu marido é boa pessoa. Não te faria isso com toda a certeza.

- Pois comadre… até pode ser, mas que anda cismado, isso anda. E não sei com o quê.

- Alguma dívida… talvez – avançou a outra tentando saber mais.

- De certeza que não. Tivemos aí uns dinheiros com a venda dos bezerros que deu para pagar à loja e ainda sobrou qualquer coisita.

A determinada altura Eugénia percebeu que falara demais tendo em conta a língua de trapo que costumava ser a comadre e fugiu do tema:

- Diga-me uma coisa comadre Clarinda, já nasceram os pintos da sua cocó?

O tema preferido da comadre era os seus bicos e assim rapidamente se mudou de assunto. A tagarelice versou capoeiras durante muito tempo.

Entretanto do outro lado da aldeia Emídio escardava umas oliveiras velhas, quase tão velhas quanto o tempo, como afirmou uma vez o seu pai Jerónimo. Aproximava-se o tempo da colheita mas o mato que crescera ao redor dos pés das oliveiras teria de ser cortado antecipadamente. Munido de uma enxada rasa e um alferce o homem ia cortando os rebentos e o mato. Na sua cabeça muitas ideias, muitos pensamentos todos eles poucos cristãos.

- Tenho de falar com o padre Abílio por causa desta cisma. Ele deve-me poder ajudar.

Mas o padre nem sempre estava disponível e Emídio foi adiando a conversa. O silêncio era o seu refúgio o que levou a esposa a perceber que algo não estava bem. Após diversas tentativas para descobrir o problema, Eugénia deixou de fazer perguntas e passou a aceitar a nova postura do esposo.

Do casamento não nascera qualquer filho o que fazia que Emídio se sentisse diminuído em relação aos demais aldeões. Muitos sobrinhos era certo, mas filhos, filhos… nem um!

A determinada altura a mulher pensou que seria isso. E tentou trazer ao de cima essa conversa avançando com uma proposta:

- Ó home’ será que andas assim por não termos filhos? Sabes que isso resolve-se depressa. A tua irmã tem uma ranchada deles e de certeza que não se importaria que tomássemos conta de um. Seria menos uma boca…

Mas o aldeão negou. Uma e outra vez! E Eugénia aceitou. Contrafeita.

Naquele sábado o homem levantou-se cedo. Como sempre. O gado requer sempre muita atenção e cuidado. Mas aquele dia deveria ser especial… A ideia que o atormentava havia tempo ganhara forma e Emídio iria dar vazão ao seu pensamento e vontade.

Ordenhou as ovelhas, deixou o tarro repleto em casa como era seu hábito, largou as vacas e a burra prenha no lameiro e partiu para o barracão onde normalmente guardava a palha. Este era um edifício velho mas rijo. O telhado alto assentava numa madeira ainda sem caruncho. Mais abaixo as traves, outrora grossos eucaliptos suportavam um soalho também ele de madeira. Emídio subiu com a ajuda de uma escada e atou uma ponta do cordame à volta da viga.

Depois em baixo foi buscar um banco velho colocou-se em cima deste, mediu o comprimento do cabo e na ponta fez um laço de correr. Por fim o último acto e colocou a laçada à volta do seu pescoço.

Olhou o céu, benzeu-se enquanto rezava um Padre-Nosso. Terminou com uma frase:

- Desculpai-me Senhor…

Com os pés fez tombar o banco para um dos lados. O corpo caiu com peso e Emídio sentiu num instante o laço apertar-lhe o pescoço e a respiração a ficar dificultada. O fim aproximava-se e com ele toda uma angústia vivida nas últimos meses, semanas.

Mas o destino é por vezes amargo, outras doce e quando Emídio esticou os pés estes… tocaram o chão. O suficiente para o laço não apertar mais com a força do seu peso.

E assim ficou até Eugénia o descobrir, após muitas horas de busca!

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por José da Xã às 23:09

Quarta-feira, 24.10.18

Contos tontos - 34

Sentado na pequena sala vazia Edgar agarrou-se à bengala com ambas as mãos e em cima destas poisou a testa.

Por fim deixou que as lágrimas caíssem na carpete surrada e descolorida. Em silêncio.

À sua frente no caixão negro repousava o seu grande e único amor. Setenta anos de vida em comum. Cinco filhos, doze netos e muitos bisnetos, perdera-lhe o conto, e uma vida cheia de tanta… vida.

Mas naquele instante estava só. Sabia que em breve seria ele… do outro lado. E quando fosse tinha consciência que não teria ninguém a chorar por ele.

Sempre considerara os filhos como outras faces de si mesmo. Fossem as raparigas ou os rapazes. Ajudara-os sempre que lhe era solicitado. E amara-os muito.

Assim como Eugénia, a defunda, que abdicara de uma carreira como professora em prol dos gaiatos.

Todavia a solidão familiar invadira-lhes a vida a partir do momento que optaram por viverem num lar, tendo vendido todas as parcas coisas que tinham. Não deixariam nada a filhos e netos. Nem bens nem preocupações de nenhuma espécie.

Mas seria o mínimo, os filhos virem despedir-se da mãe.

Ergueu a cabeça e olhou um dos círios que iluminavam baçamente a sala. Naquela flamejar constante mas incerto Edgar sentiu que a sua vida fora um pouco como aquela vela.

A início pujante e forte, para no final se resumir a um coto e a uma luz mortiça que morria devagar

Tal e qual ele.

 

 

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por José da Xã às 13:38

Terça-feira, 09.10.18

Contos tontos - 33

Tinha horas de nascido quando ouviu pela primeira vez o som estridente de uma locomotiva a apitar, o que o fez chorar. No entanto dias depois já se habituara.

Os pais eram guardas de uma cancela onde com frequência passavam viaturas, pessoas e animais.

José Lúcio foi por ali vivendo e vendo os comboios a passar. Os primeiros a carvão com demasiado fumo e barulho ao que se seguiram as máquinas a diesel, também elas barulhentas. Aprendeu todos os horários e conhecia como ninguém os maquinistas que lhe acenavam com alegria.

O apeadeiro ficava a poucos quilómetros mas o jovem jamais por lá aparecera. Assim que o trem passava Zé punha-se no meio dos carris até ver desaparecer a última carruagem numa curva onde as linhas paralelas pareciam tocar-se.

Todas as noites, sempre que se deitava na cama malcheirosa com um rancho de irmãos, ficava a tentar adivinhar o que haveria para lá daquela curva. Algo que nunca perguntara a ninguém. Uns diziam que para um dos lados seria a capital Lisboa, o país, o mundo. E para o outro lado, o que haveria? Ninguém falava disso.

A escola era numa aldeia longínqua. Estivesse frio ou calor, chuva ou vento, José Lúcio punha-se sempre a caminho. No entanto, cedo percebeu que o conhecimento lhe daria vantagem. Mas ao mesmo tempo temia as respostas a tantas perguntas que invadiam o seu cérebro e que nunca formulara a ninguém.

Sempre que podia ajudava pai e mãe a subir e a descer a cancela e nunca vira nenhum acidente. Ainda bem pensava ele.

Mas todos os dias olhava a estrada de ferro que levava tanta gente…

Certa madrugada, já com 16 anos, pegou num bornal encheu-o com o que podia levar para comer e partiu linha fora à descoberta do que haveria para lá da curva…

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por José da Xã às 13:43

Quinta-feira, 20.09.18

Contos tontos - 32

Sentada à secretária com o portátil, Bárbara disparava mensagens por correio electrónico para todo o lado. Depois esperava algumas respostas que voltava a devolver com actualizações.

Frenética e imperturbável despachava serviço à velocidade da luz. As mensagens continuavam a cair e ela a responder… até que leu aquela.

“Sei que estás muito ocupada mas tens de comer não tens? Pago eu… Fico à espera!”

Viu o remetente mas não conheceu.

- Engano… - suspirou.

Depois pensou no que haveria de fazer. Responder ou enviar a mensagem para o lixo? Sorriu interiormente e optou por responder:

“Adoraria jantar!”

E seguiu assim sem mais. O nome encontraria ele no endereço. Aguardou.

Novo mail.

“Sou um idiota. Convidei-a e nem me apresentei. Sou o Renato. E a que horas? Fico à espera.”

A devolução.

“Sou a Bárbara e às oito estarei pronta.”

Ficou a aguardar resposta provavelmente com um pedido de morada. A mensagem não chegou e ela continuou a despachar serviço. Por fim…

“Quer que a vá buscar a essa morada ou prefere outra?”

A brincadeira parecia ter tomado dimensões acima do esperado. Mas o desafio parecia ser assaz curioso tanto mais que não lhe havia dado o endereço. Respondeu:

“Aqui mesmo!”

Resposta pronta.

“Até logo!”

Embrenhou-se no trabalho até que a secretária bateu à porta e perguntou se podia sair.

- Que horas são Alzira?

- Faltam dez minutos para as oito.

Fechou de supetão a tampa do portátil, pegou no casaco e saiu com a colaboradora.

- Vamos depressa que tenho um encontro para um jantar…

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por José da Xã às 15:25

Quarta-feira, 19.09.18

Contos tontos - 31

Ele era um homem normal sem nenhuma característica que chamasse à atenção. Nem alto nem baixo, sem beleza superlativa, aparentava uma meia idade benéfica.

Ela era jovem, bonita, espampanante. Vestia-se sempre com pouca roupa o que levava a ser alvo dos olhares gulosos dos homens e raivosos das mulheres.

Entretanto a pastelaria “Flor da Avenida” era conhecida pelos seus saborosos croissants e pelo pão constantemente quente. Daí as manhãs serem assaz atarefadas.

Era costume ele comer o seu pão sentado à mesa acompanhado de galão quente e sempre, sempre com um livro onde embrenhava o seu pensamento. Daí jamais reparar no que se passava ao seu redor. Talvez por isso nunca havia reparado na jovem.

Quando ela entrou naquela manhã, todas as mesas estavam ocupadas. O único lugar vago era mesmo à frente dele. Delicadamente perguntou:

- Bom dia, este lugar está ocupado?

Ele como que acordado de um sonho levantou os olhos para ela e demorou a responder. Finalmente:

- Bom dia, não está não. Pode usá-lo!

Ela sentou-se.

Ele deixou de ler, ela deixou de aparecer.

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por José da Xã às 10:49

Quinta-feira, 13.09.18

Conto tontos - 30

Esmeraldo entrou na taberna suja e escura do Carlos e sentou-se no local mais negro.

Pelo caminho foi cumprimentando os presentes e dando algumas respostas:

- B’tarde pessoal!

- B’tarde Aldo – respondeu o compadre Joaquim enquanto batia com uma carta na mesa de pedra ganhando a vaza.

- Isso vai? – questionou o Adolfo, mais conhecido pelo Viramilho.

- Que remédio. Tem de ir – respondeu o recém-chegado.

Depois.

- Um traçadinho ó Carlitos!

- Branco ou tinto?

- Branquinho, que não gosto nada de sujar o estômago.

Veio o vinho para a mesa e Esmeraldo beberricou um dedal e encostou a cabeça à mão. A sala pequena, mal iluminada e a tresandar a vinho era agora palco de uma pequena zaragata assente em palavras por causa das cartas.

- Porque não vens ao trunfo, caneco? – questionava um enfurecido

- Porque estou seco, porra...– respondia o parceiro.

Entretanto um deles olha para Esmeraldo vê a tristeza estampada no rosto e pergunta-lhe:

- Ei homem, que se passa contigo?

O outro não ligou. Voava com os pensamentos, quiçá.

Aproximaram-se dele e finalmente acordou do marasmo:

- Então homem… que me contas?

- Nada… - desabafou.

- Nunca te vi assim… conta lá o que tens…

- Não há nada para contar…

Os outros largaram as cartas e arrastaram as cadeiras para perto de Esmeraldo. Apertaram com o homem.

- Desculpa lá, mas não pode ser. O que se passa, amigo?

Esmeraldo pegou no copo e bebeu o resto de um trago e fez o gesto para se levantar. Todavia os amigos não deixaram. Até que Ludovino se lembrou de algo.

- Olha lá a tua Dores já teve a criança. Era por estes dias não era?

O outro levantou o olhar para o inquiridor e respondeu:

- Já teve já! Foi esta manhã.

- E estás triste por isso?

- Mais ou menos…

- Já são quantos Esmeraldo? - perguntou Raul.

- Cinco… - e proferiu o número de uma forma amorfa.

- Ena cinco. Grande fábrica… Tão novo e já cinco crianças.

- Má fábrica – desabafou então.

- Olha… má porquê? - avançou Viramilho.

- O homem está tonto – disse Ludovino.

- Pois é… só faço loiça rachada.

Os outros olharam entre si até que Joaquim afirmou:

- Já percebi… outra rapariga, não é? E querias um rapaz?

Esmeraldo abanou a cabeça em confirmação e enterrou a cabeça nas mãos. Os outros voltaram então para a mesa e recomeçaram a jogar.

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por José da Xã às 15:14

Domingo, 02.09.18

Contos tontos - 29

Fechou a porta devagar, não fosse algum vizinho acordar, guardou as chaves e olhou o relógio.

- Cinco e meia… Ai que já perdi o autocarro.

A madrugada estava fria. Os candeeiros de rua alumiavam o caminho em cones amarelos. Assim que dobrou a esquina que dava para a enorme praça viu o autocarro parado.

Apressou o passo tanto quanto os seus setenta anos, as pernas gordas e cobertas de v«grossas varizes a deixavam. Já para não falar dos dois sacos pesados que carregava no fim de cada braço.

Chegou à porta do transporte ofegante.

- Bom dia André. Desculpa este atraso…

- Bom dia D. Alzira. Não há problema. Agora sente-se que preciso sair.

André era um jovem motorista, nascido na cidade de Praia em Cabo Verde e que preferia fazer sempre o turno da madrugada.

Pôs o autocarro a trabalhar, fechou as portas e seguiu viagem. Duzentos metros à frente voltou a parar. Desta vez entrou mais gente.

- Bom dia D. Alxira – cumprimentavam uns.

- Bom dia, bom dia – respondia a senhora.

Ao fim de quatro paragens o transporte estava quase cheio e a algazarra era enorme.

Um telemóvel começou a tocar uma música pimba de mau gosto. Alguns passageiros olharam entre si até que um disse:

- D. Alzira o seu telefone está a tocar.

- Ah obrigada… Nem reparei.

Pegou no aparelho que já conhecera melhores dias, carregou no botão e gritou:

- ‘ Tou… quem fala?

Uma voz feminina veio à linha.

- Bom dia. É a D. Alzira?

- Sou e vossemecê quem é?

- Sou a Agente da polícia Ana Morais e pergunto-lhe se conhece o senhor Juvenal Pires?

- Juvenal? É o meu home’…

- É para comunicar que o senhor Juvenal vai, neste momento, para o hospital de S. José.

- Oh… deixá-lo ir. Pode ser que agora se cure- disse num ar de alívio.

- Bom mas o seu marido teve um acidente, morreu e vai a caminho da morgue.

Alzira ficou a matutar por breves segundos e depois respondeu:

- Ó menina esse patife do meu marido faz tudo para não vir para casa. Agora até manda dizer que morreu!

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por José da Xã às 00:42

Segunda-feira, 19.03.18

Contos Tontos - 28

Sentada no velho cadeirão, percorria as paredes repletas de quadros e relógios tentando esconder o olhar nalgum objecto ou lembrança.

A sua relação com ele nunca fora assim algo de fantástico. E nos últimos tempos dir-se-ia que era deveras truculenta sem felicidade nem alegria. Restavam, todavia, algumas memórias. Poucas…

A nova surgira no telemóvel de forma fria, mesmo telegráfica. Nem reconhecera o número. Tentara devolver a mensagem com uma chamada mas ninguém atendera.

Sempre tivera a mania de ter solução para tudo. Olvidara, no entanto, qualquer coisa. Ergueu-se e percorreu a casa sem destino incapaz de conseguir lidar com a situação tentando não chorar.

O velho relógio na cozinha bateu duas vezes e ela deu então conta que os filhos estariam a chegar da escola.

Ela que nunca tivera fé, que jamais acreditara em qualquer divindade que fosse, percebia agora a falta que lhe fazia uma crença. A mãe bem que tentara que a filha seguisse outro caminho, mas ela sempre considerara a relação com um Deus uma profunda parvoíce.

Acordou do marasmo com o toque de campainha. Os filhos!

Abriu-lhes a porta recebeu os casacos encharcados e comunicou:

- Meninos, parem se fizerem favor. Sentem-se na sala que tenho de vos contar uma coisa.

Adveio-lhe um aperto na garganta. Por fim disse:

- Tenho uma notícia triste para vos dar.

Um silêncio cresceu, todavia as crianças aguardavam.

- O Papá… o vosso papá… - as lágrimas começaram a cair – já não está entre nós…

- Porquê – perguntou o mais novo sem entender.

- Porque o papá… morreu num acidente.

As lágrimas continuaram a cair ininterruptamente. Então o mais velho levantou-se pegou na mão da mãe e disse:

- Não te preocupes mamã… O papá está agora no Céu.

Ela ergueu os olhos inchados para o infante e perguntou:

- Quem te disse?

- A avó diz que todas as pessoas boas vão para o Céu. E o papá era bom não era?

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por José da Xã às 14:04

Quarta-feira, 20.12.17

O Pai Natal

Assim que percebeu pelas frinchas o primeiro raio de sol, saiu do seu costumado buraco.

Estava frio, muito frio. Os velhos e surrados cobertores ou o que restava deles e que usava para se tapar, eram claramente insuficientes para as noites gélidas da cidade.

Havia alguns anos que dormia na rua. Não imaginava quantos, pois os dias passavam por si como os parasitas que lhe cobriam o corpo sujo. Nem se recordava da última vez que tomara banho.

À noite era costume aparecerem umas pessoas que distribuíam comida e agasalhos e até medicamentos, quando se justificava. Mas ele nessa altura fugia sempre para longe onde ninguém o visse. Assim que partiam regressava ao seu nicho.

Durante muitos anos ele fora o grande mestre, o senhor de todos os conhecimentos e por isso respeitado. Depois, um dia passou de imprescindível a supérfluo. Despedido e sem coragem para voltar para casa refugiou-se, nesse fim de tarde, na bebida e mais tarde num vão de um prédio semi abandonado. Ele e outros!

Arrumou o caixote tapando as suas parcas tralhas que fora acumulando e partiu em busca de algo para comer. Jamais mendigara e por isso socorria-se dos caixotes do lixo onde havia sempre qualquer coisa que dava para ele aproveitar.

O movimento da cidade naquela manhã avolumava-se. Chegou perto de um contentor negro, abriu a tampa mas nem chegou a espreitar pois sentiu uma mão nas costas. Deu um salto súbito, para logo reconhecer um companheiro de infortúnio:

- Olá Chingalim – cumprimentou o recém-chegado.

- Viva Ginga.

Os nomes verdadeiros haviam desaparecido.

- Achas que há aqui alguma coisa que se coma?

- Costuma haver… - e reabriu a tampa, donde retirou diversas caixas, para comunicar:

- Olha temos almoço... Repara…

O Ginga olhou, meteu a mão e acrescentou:

- Ena tivemos sorte… Deve ser desta época do Natal…

Dentro das caixas grossos nacos de pizza intactos e outros acepipes que alguém aventara fora. Sentados no chão ao lado do caixote ambos foram consolando o estômago.

Após o repasto Chingalim despediu-se do colega e partiu. Procurava algo proveitoso, especialmente roupas. Palmilhou, durante todo o dia, quilómetros e chafurdou em dezenas de caixotes.

A maioria dos transeuntes fugiam dele com nojo do seu aspecto e do seu cheiro. Todavia Deolindo – o seu nome verdadeiro – já estava habituado. Também em tempos fora assim.

Um vento glaciar soprava agora com invulgar força obrigando-o a regressar ao seu abrigo de papel não fosse o vento levá-lo. Enfiou-se dentro da caixa que fora de um frigorífico e embrulhou-se na pouca roupa que tinha à mão, alguma dela encontrada nessa tarde.

Naquele instante e no abrigo partilhado com diversos sem-abrigo só estava ele e assim ficou durante muito tempo. Enrolou-se nos trapos tentando aquecer-se e aproveitou para viajar até um passado já longínquo.

O Natal… como podia esquecer as festas lá de casa com tanta gente, tanta comida, tanta alegria? Hoje estava só e a família residia lá longe na memória e nas recordações. Sentiu dentro do caixote o vento frio de fim de tarde e encolheu-se ainda mais.

Depois escutou vozes que seriam certamente dos seus companheiros de infortúnio que regressavam.

Retornou às suas lembranças e não conseguiu evitar que uma lágrima caísse pela face e se embrenhasse na longuíssima barba branca.

Os primeiros tempos de rua haviam sido duros. As saudades dos filhos e da mulher pareciam não parar de aumentar. Que seria deles? Crescidos… adultos.

Serenamente preso às memórias acabou por adormecer.

Acordou quando sentiu a caixa abanar de forma incomum. Estava gelado e acabou por sair do seu covil, quando deu de caras com uma quantidade de gente de diversas idades, todos vestidos com aqueles conhecidos casacos de voluntários.

- Boa noite – cumprimentou uma voz feminina.

- B’noite – respondeu a medo.

- Tem frio?

Acenou que sim com a cabeça. E logo caiu no seu colo um par de cobertores novos.

- Tem fome?

Acenou que não. Mas outrém depositou-lhe na mão uma embalagem de plástico com sopa quente.

- Aproveite que está quentinha…

Deolindo escutou as indicações e levantou os olhos para a voz. Os seus olhares cruzaram-se por breves instantes. Depois o sem-abrigo fixou-se no chão frio da lage.

- Oiça lá não quer ir com a gente tomar um banho? – perguntou outra voz.

Acenou que não.

- Como se chama? – retornou a primeira voz.

- Chingalim – respondeu em surdina.

- Isso não é nome… é alcunha. Vá diga-me o seu nome verdadeiro…

A mesma voz feminina parecia querer acordar alguns fantasmas. Mas foi respondendo:

- Não me lembro!

- Vá faça um esforço… Diga lá como se chama.

- Deolindo…

A figura que o interpelara recuou. E afastou-se dando lugar a outros voluntários. Entretanto Chingalim aproveitou para se embrulhar nos novos abafos. Só que alguém o destapou e pediu:

- Importa-se de se colocar de pé se fizer favor.

A forma autoritária fez com que Deolindo levantasse o olhar percebendo que fora um polícia que dera a ordem. Amedrontado tentou afastar-se, mas alguém se colocou à frente impedindo a sua eventual fuga.

De súbito um menino aproximou-se e exclamou com uma voz saborosa de criança:

- Xiii… o senhor parece o Pai Natal.

Alguém por detrás comentou:

- Pois parece o Pai Natal, mas é só o teu avô!

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por José da Xã às 22:12


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