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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Aquela cor!

Descanso a cabeça

Numa doce almofada

Insuflada

De ínclita esperança.

Cubro-me

Com cobertores de alegria,

Lençóis alvos,

E frescos de risos.

 

Sopro por fim

Na vela que a alma

Pobre, ainda vai mantendo

Quente e acesa.

 

É a vez de a noite,

Semear um silêncio,

Prenhe de fantasmas

E lícitas dúvidas.

Para acordar suado

De vontades e sonhos,

Miríades de luzes

E mansas realidades.

 

Mas há sempre

Um sol por detrás

Da montanha inerte

Que trás vida e cor!

 

É um novo dia,

Que somo

A tantos outros

Já lavrados

Nas minhas mãos.

Ora não busco fortuna

Nem lágrimas salgadas.

Nem dores ou fulgores.

 

Apenas percebo

Que no céu imenso,

Há uma outra cor

Que não sei distinguir!

Desafio do conto

Clareana.jpg

Um desafio de escrita foi lançado pela Ana (só podia!!!) que a Amor Líquido fez seguir. Depois veio a bii yue que após ter continuado lançou a bola para mim.

E eu escrevi o que está no fim a negro...

 

Era uma vez uma jovem mulher, de seu nome Clariana, que pastoreava gansos. Ela era o primeiro ser vivo que os gansos reconheciam, desde tenro berço, e eram lhe totalmente fiéis. Aprendera com o avô todos os segredos desta mestria.

Clariana era a mais velha de três irmãos, todos eles filhos de Izabel e João Bernardo. Uma família de origens humildes que ocupava os seus dias na tranquilidade do campo, entre a lavoura do trigo, da batata, e a agropecuária. Izabel ocupava-se de todos os assuntos relacionados com a atividade económica do que produziam, contando com a ajuda de Clariana no terreno, junto dos animais, e Juca, a forma carinhosa como o pai era tratado, debruçava-se sobre a contabilidade da família. Os gémeos Tiago e Guilherme eram ainda pequenos, pelo que o seu maior contributo era a alegria constante que ofereciam àquela herdade. Construída em 1950, tinha sido herdada pela filha do avô Eurico.

A vida era pacata, a rotina de vida campestre pouco variava até um dia, que Clariana estava a alimentar os seus gansos e vê um vulto a esconder-se por entre as árvores. Com o coração a bater de medo, mas com a sua faceta corajosa a vir ao de cima, começa a caminhar devagar e numa tentativa de fazer barulho. O vento fazia com que as folhas batessem umas nas outras, os gansos grasnavam baixinho. O vulto parecia estático e Clariana tentava movimentar-se silenciosamente, sentia o suor frio a escorrer pela sua pele, o seu corpo tremia com o medo e adrenalina. Estava bastante perto do vulto quando os gansos começam a grasnar alto e entram em luta uns com os outros, com o susto ela manda um grito, olha na direção dos gansos e quando volta o seu olhar para as árvores não podia acreditar no que via.

Uma velha muito velha, baixa, de faces lavradas pelos anos e quiçá pelas demasiadas intempéries, olhava com curiosidade para a pastora. Nas mãos, magras e engelhadas, balançava um cajado preto da sujidade e assaz puído do uso.

Trajava uma roupa suja, aqui e ali deveras esfarrapada. O cabelo cinza encontrava-se escondido por debaixo de um lenço, também ele viúvo de cor e lavagens. No entanto os olhos pequenos e escuros permaneciam muito atentos ao que se passava em seu redor.

Entre o susto e o espanto Clariana encheu o peito de ar e enfrentou a anciã:

- Quem é vossemecê?

A idosa pareceu querer sorrir, mas a única coisa que conseguiu mostrar foi uma boca desdentada. Aproximou-se e passou os dedos sujos pelo cabelo bonito da jovem. Depois pela face. Esta desviou-se para trás alguns passos.

Curioso é que os gansos, sempre tão barulhentos, haviam-se silenciado por completo.

- Diga lá quem é vossemecê? – insistiu em tom peremptório, sem denunciar qualquer receio.

Novo sorriso da idosa que mais parecia um esgar… Por fim endireitou-se, abriu os braços e aproximou-se novamente da miúda, como se a quisesse envolver nos seus trapos rotos e nojentos.

 Disse então numa voz rouca e cavernosa:

(continua...)

Nota:

é a minha hora de passar o testemunho. Desta vez peço muito encarecidamente à Zé do  blogue Liberdade aos 42  que a faça seguir.

Relembro que a história deverá ter, no máximo, 200 palavras, e não te esqueças de usar a tag desafio do conto, para ser mais simples encontrarmo-nos. IMPORTANTE: copia o texto TODO, para o teu postal.

Intempérie!

Sopra um vento feroz,

Traz fogo, fúria e raiva,

De solidão e ausência,

Um mundo agitado.

 

Sopra uma brisa branda,

Traz cheiros e sons,

De ondas e mar,

De brilhos e alegrias.

 

Sopra um sopro mui leve,

Traz a simples esperança,

De sol, luz, sonhos,

Uma mão estendida.

 

De quase nada!

 

Contos Tontos - 38

Sentado num cadeirão fundo Domingos olhava, com profunda tristeza, para a esposa deitada na cama repleta de tubos, máscaras, monitores e boiões que penetravam no corpo da doente.

A espaços curtos vinha um enfermeiro ver como estavam todas as funções, acertava algo e despedia-se da visita:

- Verá que vai recuperar depressa…

- Obrigado…

Parecia ter sido há breves minutos aquele episódio da entrada no seu gabinete como candidata à Direcção dos Recursos Humanos.

A porta abriu-se e deixou passar uma jovem alta, loira, muito bem vestida e extremamente bonita. Domingos fixou os olhos naquela figura e o coração pareceu rebentar.

- Não pode ser… ela! Mas… mas… é tão parecida… - pensou.

Estendeu a mão num cumprimento.

- Domingos Jerónimo, muito prazer. Faça o favor de se sentar.

- Diana Tremês, muito gosto!

A mão dela, delgada e fria, mostrava ainda assim uma firmeza incomum nas mulheres que ele conhecera. A entrevista correu bem e Domingos logo considerou que a pessoa tinha o perfil ideal para chefiar os seus projectos.

Na despedida foi a vez da candidata assumir:

- Desculpe dizê-lo mas a sua cara não me é totalmente estranha.

- Oh… talvez nos tenhamos encontrado por aí… numa qualquer conferência…

- Não... a minha ideia é muito mais antiga… Mas peço desculpa…

Quando a jovem abriu a porta Domingos chamou:

- Oiça Diana…

Ela estancou e fechou a porta.

- Faça favor…

- Eu sei quem é… - e olhando para a paisagem que se espraiava à sua frente da enorme janela, continuou – És a Diana, “A blondie”, como te chamávamos na escola.

Diana abriu a boca num espanto e acrescentou:

- E tu eras o Domingos mais conhecido pelo “gargalhadas”.

- Sim… – devolveu corando.

- Como o mundo se torna pequeno. E és tu o dono desta empresa?

- Sou… criei-a há uns anos.

- Fico feliz por ti… Mas não quero influenciar a tua escolha por causa do nosso passado escolar.

O jovem riu-se… Mal sabia ela a paixão que ele tivera por ela. Ele e muitos outros. Por fim puxou do seu tom mais sério e disse:

- Certamente. O nosso passado não terá influencia… Até porque tenho outros candidatos a concurso.

Ela aproximou-se da porta, abriu-a e declarou:

- Lembro-me que os miúdos gozavam muito contigo por causa dos teus risos e gargalhadas… Mas sabes… nunca mais ouvi ninguém a rir com tanta satisfação como tu.

A porta fechou-se atrás dela.

Não retirou a marca donde iniciara a leitura pois sabia que teria de reler aquelas páginas, mas fechou o livro. Ergueu-se da cadeira, aproximou-se da cama e espanto… a mulher estava acordada.

Pegou na mão devagar onde estava um cateter apertou-a devagar e sorriu. Ela tentou sorrir por debaixo da máscara de oxigénio. Depois com a mão livre retirou o acessório médico e declarou em tom rouca, mas serena:

- Vou ter tantas saudades desse teu riso e das tuas gargalhadas…

Recolocou a máscara e fechou os olhos.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

Toni, o americano!

Quando acompanhou os pais para os Estados Unidos, Antonino teria por volta dos 5 anos de idade.

A vida na aldeia sabia a pouco para a ideia de Gabriel e da Alberta. Queriam algo mais para ambos e essencialmente para o filho único.

Uma carta convincente do compadre Asdrúbal convencera-os a emigrarem. Vendido o azeite de duas temporadas, mais o milho e o feijão da colheita do ano, ao que se juntou uns patacos postos de lado pela esposa com a venda dos ovos, houve dinheiro para as passagens.

Durante mais de quatro décadas esta família manteve-se assim em terras do tio Sam trabalhando e conseguindo o sucesso desejado.

Com a grave doença de Gabriel, entretanto aparecida este, ciente do seu estado, pediu para morrer na aldeia que o vira nascer, pedido que foi rapidamente cumprido pela mulher e filho. 

Adivinhava o aldeão, já que poucas semanas após a chegada, morreu devagar, qual círio sem pavio, na velha casa e cama onde nascera e vivera antes de emigrar.

Ficou a viúva e o orfão Antonino que nunca casara, pois sempre preferira a vida de pinga-amor a ser um homem de uma só mulher. 

A mãe carregava consigo em silêncio a tristeza de nunca ser avó, mas deixara ao filho a liberdade de opção da sua própria vida.

Toni não obstante o seu longínquo afastamento da terra mãe continuava a falar a língua lusa se bem que com acentuado sotaque norte-americano. Empresário de sucesso, havia deixado a gestão dos negócios a um seu sócio, também ele português.

Enquanto o pai Gabriel foi vivo e capaz de andar Antonino aproveitou a sua companhia para conhecer melhor a aldeia, as fazendas e as alfaias, algumas delas tomadas pelo caruncho e imprestáveis. O povoado era muito pequeno quase ínfimo. Habituado à grandeza de um continente, o filho considerava tudo demasiado apertado. As casas, ruas, carros. No entanto sentia que todos eram genuínos e bons amigos.

Certo dia o "americano" nome com que os aldeões o baptizaram entrou na taberna, local que nunca visitara desde que chegara dos Estados Unidos.

- Boa tarde! - cumprimentou.

Os clientes assustaram-se com aquela entrada inesperada, mas foram respondendo:

- Boa tarde!

O ambiente na taberna era pesado. Uma nuvem de fumo dos cigarros pairava por cima das cabeças. As mesas todas cobertas de um plástico aos quadrados azuis e brancos, exibiam manchas redondas dos fundos dos copos. Alguns homens de cotovelos encostados ao balcão ouviam as conversas, puxando de vez em quando de uma fumaça do cigarro, enquanto beberricavam cerveja da garrafa.

Outros num alarido quase infernal discutiam o resultado de mais um jogo de sueca. Havia também quem dormitasse no fundo da sala.

- Uma Coca-cola se fizer favor - pediu Antonino - com gelo e uma rodela de limão também.

Após um breve interregno, acrescentou:

- Se puder ser...

Álvaro o taberneiro foi a uma porta por detrás do balcão e passado brevíssimo tempo trouxe uma tigela com diversas rodelas de limão. Depois foi ao congelador, retirou gelo de um saco e colocou-o finalmente num copo alto. Empurrou-o para a frente do americano conjuntamente com a garrafa do refrigerante.

Antonino agradeceu, escolheu uma das rodelas e colocou-a no copo. Finalmente despejou o líquido castanho. Este espumou mas não vazou do recipidente. Bebeu devagar.

Depois virou-se para a restante sala e dirigiu-se aos jogadores de cartas, de copo na mão. Enquanto um tentava embaralhar as ditas para nova rodada, os outros olharam para a visita.

- O que estão a jogar?

- Sueca - respondeu um dos jogadores - conhece?

- Não... Como se joga?

- Sente-se aí, dou-lhe umas indicações e o resto é ver...

Duas horas mais tarde era Antonino que estava sentado na mesa enquanto um dos jogadores saíra para ir ver uma vaca que estava para parir. E parecia estar a sair-se bem...

Enquanto jogava o aldeão e emigrante revia a sua vida num país completamente diferente. E tomava consciência que os dias vividos no outro lado do Atlântico haviam sido um ror de... nada.

Chegou tarde a casa. Tão tarde que a mãe domia já! Olhou o relógio, calculou a diferença horária, pegou no telemóvel e ligou.

- Hi Toni! - atendeu uma voz masculina.

- Hi Max. Precisamos falar!

- Ok, go on...

- Quero vender o negócio aí!

- What? You're fucking crazy...

- Não regresso aí tão depressa quanto pensava.

- Why?

- Porquê? - seguiu-se um silêncio - Porque com a morte do meu pai tenho que resolver aqui umas coisas.

A mentira surgira-lhe assim de repente e parecia ser credível. Continuou:

- Tudo aqui demora muito tempo a resolver e ainda por cima aí neva... vou então aproveitar as férias...

- Mas não tens necessidade de vender o negócio... Eu tomo conta dele até chegares.

- Hummm... I don't know...

- Fica aí o tempo que quiseres e depois regressas... eu sei que não deve ter sido fácil perderes o teu pai.

- Ok... Depois digo alguma coisa. Toma bem conta da coisa...

- Ok Tony. Take care!

No dia seguinte Antonino levantou-se cedo e partiu para dar uma volta à aldeia. Chovia uma água baça, mole, triste. Mas nada o demoveu. Chapéu de chuva e botins partiu em busca nem sabia bem do quê.

Durante horas percorreu alguns dos locais que o pai havia referenciado quando chegara, mas que devido à doença jamais pudera mostrar. Todavia foi encontrando cada lugar: o penedo do milhafre, a pia funda, o algar escuro, a lagoa do ladrão...

A água continuava a cair e Tony mesmo de chapéu encontrava-se já completamente encharcado. Os carreiros escorregadios eram feitos devagar. Depois aquele cheiro a terra molhada que entrava pelas narinas e o deixavam encantado.

Rapidamente o aldeão se habituou à vida do campo. Olhava a charneca a perder de vista e via aquilo repleto de searas.

Mas era somente um sonho, uma ideia "sem trambelhos" como diria a mãe. Mas o curioso é que crescia em si um gosto diferente pelo chão, pela natureza. Finalmente aquele melro que todas as manhãs se habituara a vir comer as migalhas que Toni deixava na pedra da janela.

Entrou o Verão na aldeia. E logo no início da estação decorriam as festas no povoado. O povo era pouco e por isso todos ajudavam. O americano também.

No fim de semana da festa o povo das redondezas acorreu à aldeia numa frequência que Toni estranhou:

- É sempre assim?

- Sempre... As nossas festas são as melhores aqui das redondeza. É pena não haver mais cachopas... Isso é que era!

O americano ria... já que durante muitos anos habituara-se a outro tipo de festas e de danças. Mas estas tinham o condão de serem genuinamente alegres.

Na última noite Toni sentara-se à mesa no arraial festivo enquanto esperava as bifanas que encomendara.

- Posso?

Toni olhou para o interlocutor e não conhecendo da aldeia ainda assim aceitou a companhia.

- Boa noite... sei que não me conhece. mas eu sou ali do Vale da Lenha que é aqui mesmo ao lado.

De mão estendida Toni não deixou de cumprimentar o outro e apresentou-se:

- Antonino Gouveia... mas todos me conhecem por Toni.

- Herlander Calçada... muito prazer.

- Mas posso ajudá-lo?

- Talvez...

- Como?

- Tenho umas terras para vender e pensei que talvez estivesse interessado.

Chegou o frango, as batatas e a cerveja:

- Sirva-se senhor Calçada.

- Não muito obrigado. Acabei de jantar com a minha mulher e as minhas filhas que estão ali ao fundo. Mas não faça cerimónia, coma, coma.

- Mas estava a dizer...

- Que tenho uma fazenda pegada com a sua e pensei que a quisesse comprar...

E sem deixar que o interlocutor dissesse algo continou:

- Já viu o naco de terra com que ficaria?

Desconhecia o vendedor que Toni era dono de uma das maiores empresas de imobiliário do seu estado. Portanto comprar e vender não era coisa com segredos. Todavia fazia tempo que não entrava numa negociação. Era assim uma espécie de regresso ao passado.

Ora desse tempo guardava duas máximas: nunca se mostrar interessado e esperar que fosse o vendedor a pedir dinheiro. Tudo o resto seria um jogo... Por isso deixou o vendedor falar sem contudo mostrar muito interesse no negócio.

- Que me diz?

- Senhor Calçada... não digo nada, sabe? Primeiro porque não me interessa comprar aquilo que quer vender, segundo... mesmo que fosse um bom negócio eu nunca o saberia porque não imagino quanto valem as coisas aqui. Compreende?

O vendedor tirou uma caneta do bolso da camisa e escreveu um número na toalha de papel.

- Este é o valor que pretendo. Pergunte e depois diga-me alguma coisa...

- E se não disser?

- Bom - levantou-se e devolveu estendendo a mão numa despedida - se nada disser assumo que não quer a fazenda e venderei a outro.

- Com certeza, faz muito bem. Mas obrigado por se ter lembrado de mim.

Quando olhou os números percebeu que em absoluto o valor parecia baixo, mas não conhecia o negócio.

Por isso no dia seguinte logo pela manhã dirigiu-se à sorte em venda e percebeu que o terreno parecia melhor do que julgava... Então por aquele preço...

Três dias mais tarde ambos encontraram-se pore mero acaso numa feira. Calçada aproximou-se e dando-lhe uma pujante palmada nas costas, cumprimentou Toni:

- Bom dia vizinho... Como está?

- Já estive melhor - passando a mão pela omoplata.

- E a  Pia funda? Sim ou não?

O momento parecia ideal para compra já que havia testemunhas. Assim:

- Continua por aquele valor que me disse?

- Claro!

- Está comprado! Amanhã leve os pápeis a minha casa para fazermos a escritura.

O outro nem percebera que acabara de perder a fazenda:

- Temos negócio?

- Já lhe disse que sim. Amanhã terá metado do dinheiro...

Calçada estendeu a mão e mesmo ali selaram o compromisso. Ambos queriam seguir destinos diferentes, no entanto Toni insistiu:

- Os papéis amanhã lé em casa!

- Certíssimo.

No dia seguinte Toni levantou-se muito cedo e voltou ao terreno que comprara na manhã anterior. Depois regressou a casa para encontrar a filha do vendedor com os papéis do pai. 

Era uma jovem bonita, simples e educada. Longos cabelos de um castanho quase cor de mel e uma voz doce e serena.

- É o senhor Antonino?

- Toni é mais fácil - respondeu com sorriso.

Os olhares de ambos cruzaram-se algures e num ápice se prenderam.  A jovem após a resposta simples tentou sorrir, mas o melhor que conseguiu foi baixar o olhar até ao chão. Educadamente Toni convidou-a a entrar em casa.

Já era quase noite quando a jovem saiu.

À porta para as despedidas estavam a D. Alberta e o noivo.

Casariam meses depois e ao primogénito deram-lhe o nome de Gabriel.

Desafio de escrita dos pássaros # 2.extra

Elizário entrou em casa dos amigos de forma lenta. O enfarte tinha-o quase colocado no lado de lá. Todavia resistira com estoicismo e muita vontade de viver.

E depois aqueles meninos… tão bons, tão amigos… Não os queria perder por nada deste mundo.

- Para onde quer ir? Para o quarto ou prefere sentar-se aqui na sala?

O florentino endireitou-se e devolveu:

- Estive doente, mas já não estou… Portanto vou para o quintal.

- Nem pense… o Elizário não está ainda em condições de andar nessas vidas.

- Ai sim? E quem vai tratar da horta? Deve estar bonita e jeitosa, cheia de erva e mato.

A amiga grávida acrescentou:

- Deixe-se disso… ainda ganhamos o suficiente para comprar os legumes na frutaria… Agora repouse.

Vencido mas não convencido o ilhéu preferiu a sala onde a televisão foi ligada. As notícias só falavam do novo vírus que alastrava a uma velocidade alarmante.

Assim e farto de médicos e hospitais Elizário desligou a televisão, dirigiu-se ao seu quarto e de lá trouxe um livro. Aproveitou para abrir a janela e perceber, com alguma tristeza, que o quintal estava atapetado de mato verde e viçoso.

Foi à mesa que os três acabaram por falar mais:

- Que grande susto que nos pregou… Estava a ver que a Maria Pilar ficava sem o avô…

- Pilar? Quem é?

- Há-de ser ou melhor vai ser uma menina… - e afagou o ventre já redondo, sorrindo.

- Oh… como é que sabe isso?

- Agora há exames e testes desde o início da gravidez. E fica-se logo a saber se o sexo da criança.

Elizário não queria crer.

- Isso é verdade?

- Claro que é! Até conseguimos ver e escutar o coração a bater…

O açoriano regressou à comida. Mas algo atentava o seu espírito sempre tão curioso. No entanto temia fazer a pergunta.

- Que se passa? Está aí com uma cara de caso…

- Oh não é nada!

- Vá lá deixe-se disso. O Elizário é parte integrante desta família. Portanto pode dizer o que o aflige!

O velho combatente poisou os talheres, beberricou o sumo de laranja à sua frente e finalmente ganhou coragem:

- Explique a um burro como eu como os médicos conseguem ver uma criança na barriga da mãe e não conseguem cura para este vírus?

Os jovens olharam-se e sem saberem responder embrulharam os ombros.

Contos tontos - 37

Acordou ao sentir a chave na porta. Abriu um olho e viu marcado no relógio da mesa de cabeceira: 3:20.

- Cada vez chega mais tarde. E mais bêbado... - pensou.

Porém ao invés da sua previsão, o homem entrou quase em silêncio, não acendeu qualquer luz, o que contrariava os seus antigos gestos, descalçou-se, despiu-se e meteu-se na banheira.

Já no quarto com o pijama vestido aproximou-se da mulher que fingia dormir, deu-lhe um leve beijo na cara e sussurrou:

- Desculpa. Sempre te amei e continuarei a amar-te.

Ela estremeceu, mas continuou a fingir.

Não sentiu o costumado cheiro a alcool, nem a tabaco e muito menos a perfume barato de alguma meretriz. Estranhou-o...

Ele deitou-se finalmente, puxou a roupa para se tapar e fez por adormecer.

Eram sete da manhã quando o despertador tocou. Ela mal dormira o resto da noite. Admirara-se daquela atitude e acima de tudo das palavras.

O despertador tocava e não parava. Chegou junto do marido e abanou-o com força na cama. Este virou-se, mas foi o empurrão dela não a vontade dele.

Estava morto!

Sorte de principiante!

Naquele canto da taberna, Armandino e Izidoro falavam em surdina. Combinavam “umas coisas”, disseram eles ao Adérito quando este se tentou intrometer.

- A noite está fechada com nuvens, não há Lua… calha mesmo bem… - afirmava um.

- Então e o Lambranca? – duvidava o outro.

- Não te rales que hoje é sábado o dia da tosga da semana.

- Mas mesmo assim tenho medo!

- Não tenhas, Izidoro… Está tudo controlado. Amanhã tens laranjas na mesa e das boas!

- E se alguém desconfia? – insistia – Não quero chatices com o senhor José Joaquim que foi padrinho do meu pai…

- Ninguém vai saber! Daqui a nada cada um sai e encontramo-nos ao pé da oliveira velha. Quando chegares tosse, se me ouvires tossir entramos juntos pelo portal. Temos é de desviar aquela cancela de madeira. De acordo?

Izidoro puxou uma fumaça do cigarro, beberricou o resto do vinho quase azedo e confirmou com a cabeça.

Era a primeira aventura para roubar as laranjas do velho Joaquim. Todavia o problema mesmo era o seu capataz Lambranca, homem de espírito irascível, velhaco e pouco condescendente com quem roubava o patrão.

Conta-se, sem qualquer confirmação, que o Jesuíno desaparecera às mãos do capataz, só porque armara umas laçadas para tentar apanhar um javali na fazenda do outro. Mas ninguém tinha certeza de nada.

Perto da hora combinada Izidoro paga a sua despesa e sai. Encaminha-se para casa em busca de um saco. Por sua vez Armandino fica mais uns minutos, não fosse a malta desconfiar da saída simultânea.

Depois também ele abandonou o tasco despedindo-se de todos.

- Já vais? Olha que ainda é cedo…

- Tens razão Adelino, mas sinto que estou a chocar alguma. Vou até à deita a ver se isto passa.

- Ó Armandino, arrefinfa-lhe um bagacito com mel antes de te deitares - Sugeriu um.

- Um bagacito sim mas quente… - referiu outro.

Num ápice instalou-se a confusão na taberna. Momento ideal para Armandino sair dali.

Entrou na noite fria, já que soprava uma brisa cortante. Virou no sentido de casa, mas assim que saiu do alcance da vista da taberna virou por um carreiro estreito. Valia-lhe conhecer bem o caminho já que a lua continuava sem aparecer em toda a sua plenitude. Caminhou uns bons minutos até chegar perto do lugar combinado com Izidoro. Assim que chegou aguardou que o parceiro tossisse. Escutou finalmente o sinal, respondeu com a sua tosse e rapidamente se encontraram perto do portal fechado.

Evitando fazer barulho retiraram as tábuas e finalmente entraram na fazenda. Devagar aproximaram-se da laranjeira carregada de frutos grandes e maduros.

O chão apresentava-se repleto de fruta que caira e que ninguém apanhara. Um desperdício comentavam muitos. Depois calmamente começaram a apanhá-las. Quase em surdina Armandino sugeriu:

- Vou tentar subir e filar as lá de cima. São maiores e mais saborosas. Tu fica atento não vá alguém aparecer.

- Certo…

Estavam naquele despautério há algum tempo quando a Izidoro pareceu escutar passos. Armandino também ouviu. Este virou-se para o parceiro tentando fazer-lhe sinal de silêncio não obstante a escuridão da noite.

Os passos surgiam mais próximos. No instante seguinte pararam, para logo recomeçarem. Entretanto izidoro aproveitou uma aragem mais forte e fugiu da laranjeira, escondendo-se por detrás de um arbusto. Por seu lado Armandino ficara quieto em cima da árvore até perceber o que iria acontecer. Ambos temiam o Lambranca e daí a quietude.

A noite mantinha-se fechada num bréu incomum prevendo uma madrugada de chuva. Enquanto Izidoro se aninhava cada vez mais, o outro vulto entrara também no cerrado e caminhava lentamente e quase em silêncio. Sem saber passou à frente de Izidoro no preciso momento que duas nuvens se desentenderam e deixaram passar um pouco da luz lunar. Foi o suficiente para o furtivo perceber que a visita era nem mais nem menos que o João Rebola outro conhecido amigo do alheio.

Não sendo o temível Lambranca, ainda assim Izidoro manteve-se no escuro.

João longe de imaginar que não era o único à caça de laranjas aproximou-se pé ante pé da frondosa árvore. Chegou ao tronco por onde Armandino subira, estendeu a mão em busca de um ramo e… encontrou uma bota velha e rôta.

Um momento surreal: João engole um berro e sai do local a correr temendo que o outro seja o capataz. Armandino por sua vez e sem pensar atira-se da árvore abaixo e foge em direcção a casa, deixando nos picos da laranjeira parte da roupa e da sua própria carne.

Entretanto e passado os primeiros momentos Izidoro sai do seu esconderijo, pega no saco das laranjas que sempre estivera a seu lado, salta o muro, recompõe as tábuas e segue devagar para casa.

Promete a si mesmo não voltar à aventura das laranjas... nem de algo que não seja seu!

Muito mais tarde Armandino diria dele:

-  Escapou sem nada porque teve a sorte de principiante.

A missa do Galo!

Pequeno conto de Natal dedicado à Isabel que escreve aqui!

 

Um choro forte que alastrou a toda a sala foi o primeiro sinal de vida.

O corpo ínfimo, frágil, ensanguentado surgiu nas mãos enluvadas do médico que logo o entregou à enfermeira que o limpou.

Aquele era um choro repleto de vida. André não evitou por isso que as lágrimas caíssem pela face jovem. Era uma sensação estranha ser pai… Tão estranha que nem sabia explicar o que sentia naquele preciso instante.

Ana descansava agora com o filho em cima do seu peito. Também ela chorou… de felicidade, alegria e acima de tudo de responsabilidade. A vida do casal sairia agora de uma nefelibata para um mundo mais assente e com mais ralações.

Já em casa ambos revezavam-se nos permanentes cuidados do inocente João, acabadinho de vir ao mundo. Até que Ana abordou o marido:

- Não comunicas à tua família o nascimento do Joãozinho?

Nenhuma resposta. Insistiu:

- Ouviste o que eu perguntei?

- Ouvi…

- Que vais fazer então?

- Nada!

- Os teus pais e as tuas irmãs deveriam ficar felizes em saber que há mais um elemento na família.

Rudemente devolveu:

- Tu e o menino é que são a minha única família.

Ana sabia da demanda que afastara o marido dos antecessores. Uma história bizarra com estranhas bravatas e palavras violentas que haviam originado a expulsão intempestiva de André de casa onde fora criado. Depois as cunhadas Lúcia e Júlia que nunca haviam defendido o irmão. Uma espécie de tragédia familiar sem qualquer sentido e que trucidara uma relação familiar.

Muito longe Alberto e Lucília viviam sós. Desde a aposentação de ambos que haviam optado por abandonar a cidade recolhendo-se na aldeia longínqua e pacata. Sem relações com os três filhos, o casal dedicava-se à horta e aos cinco canitos que lhes preenchiam os dias.

O Natal deixara de existir naquele lar. “Não faz qualquer sentido” dizia Lucília à cunhada Alcina. “Não tenho qualquer família a não ser vocês” assumia o velho Alberto ao irmão Fernando.

Por isso na velha casa, herança dos pais, morava uma tristeza cava, polvilhada de amargura. Eram duas almas sós que, naturalmente, evitavam falar do passado mais ou menos breve. Falando era como se mexessem num vespeiro.

Alberto alternava os seus dias entre a horta viçosa e o pomar colorido de laranjas, taranjas, tangeridas ou dióspiros vermelhos. Só que a memória nunca desaparecia e muitas vezes, enquanto mondava as favas acabadinhas de nascer, deixava que as lágrimas caíssem pela face rasgadas por rugas de infelicidade.

Escondia portanto a sua amargura com o próprio afastamento da sociedade aldeã. Era raro vê-lo numa festa fosse ela pagã ou religiosa e muito menos no café. Ora, sempre que tinha de sair do povoado fazia-o pela calada da madrugada não fosse encontrar alguém.

Era véspera de Natal. A manhã clara e fria convertera-se numa tarde cinzenta e chuvosa. Uma nortada agreste descia da serra e gelava corpos e casas. Pelo fim da tarde Lucília perguntou ao marido:

- Hoje vamos à missa do Galo?

- À missa? Tu raramente vais à missa e hoje queres ir? O que te aconteceu, mulher?

- Nada homem…  Mas tenho o coração apertado de tanta tristeza que sinto que hoje far-me-ia bem ir à missa – confessou.

- Quem te proíbe? Vai!

- Também poderias vir…

- Não vou. Prefiro ficar em casa.

Lucília não disse mais nada. Eram perto das onze da noite quando saiu de casa para a igreja. O marido ficara já deitado a ler pela enésima vez “A Cidade e as Serras” quando a mulher se despediu.

Alcançou a igreja quase repleta e sentou-se logo atrás num dos poucos lugares vazios que encontrou. Havia muito tempo que não entrava ali. O silêncio daquele local sagrado pareceu esmagá-la.

Pensou em regressar, mas à sua volta sentaram-se mais pessoas que lhe foram sorrindo. Ela devolvia o cumprimento quase sem perceber.

Um conjunto de vozes iniciou a cantar. Os fiéis levantaram-se e o padre rodeado por uma série de acólitos aproximou-se do altar.

Lucília sentiu de súbito um toque de lado. Era o marido… Sem dizer nada encostou-se mais de forma a que Alberto se sentasse a seu lado.

Assistiram à missa como se fossem o mais normal casal da aldeia.

No final da cerimónia o pároco convidou, como era hábito, os fiéis presentes para que se aproximassem do presépio e beijassem a figura do menino. As pessoas juntaram-se então no meio da igreja e foram andando ao encontro do altar.

Lucília caminhava devagar. Seguia-a Alberto… contrariado! Passo a passo num calcorrear pesado como carregassem uma pesada cruz em cima dos seus próprios ombros.

Quando perceberam estavam ambos perante um presépio… vivo, feito de gente viva. De um lado André como se fosse José, do outro Ana qual Maria e no meio deitado num berço adaptado o menino…  João.

Contos Tontos! - 36

Sentada na varanda num velhíssimo cadeirão e rodeada de uma profusão de vasos com flores de todas as cores e espécies, Guiomar olhava a rua de quase nenhum movimento. Era geralmente assim. Talvez ao fim de semana houvesse mais gente na rua, mas com pouca diferença. Ao longe o som estridente de um comboio que saía da estação ou de uma ambulância.

Vivia só, desde a morte do marido Gervásio, haveria dez anos. Os filhos haviam partido em busca de vidas próprias. Raramente falavam à mãe. Todavia diziam sempre:

“Se necessitar de alguma coisa ligue para este número de telefone…”

Guardava-os à vista mesmo ao lado do aparelho telefónico.

Entretanto todos os dias recebia a visita rápida das meninas da Misericórdia, que ali vinham entregar o que seria o seu almoço e jantar. E a elas devolvia invariavelmente uma flor que retirava de um dos seus vasos.

A roçar os 90 anos Guiomar olhava o mundo com serenidade. As pernas eram o seu pior problema e daí jamais sair de casa. Muito devagar saía do quarto para a sala e desta para a varanda. Ou o seu inverso. Tirando as meninas do meio-dia não falava com ninguém.

Assim quando se sentia mais só ligava para o filho, pois sabia que alguém lhe falaria. Pegava no papel com os números carregava nas teclas e aguardava. Do outro lado uma voz respondia-lhe:

- O número que pretende contactar não se encontra disponível. Por favor ligue mais tarde ou envie um SMS.

Um sorriso surgia então na face lavrada pelos anos.

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