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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quarta-feira, 24.10.18

Contos tontos - 34

Sentado na pequena sala vazia Edgar agarrou-se à bengala com ambas as mãos e em cima destas poisou a testa.

Por fim deixou que as lágrimas caíssem na carpete surrada e descolorida. Em silêncio.

À sua frente no caixão negro repousava o seu grande e único amor. Setenta anos de vida em comum. Cinco filhos, doze netos e muitos bisnetos, perdera-lhe o conto, e uma vida cheia de tanta… vida.

Mas naquele instante estava só. Sabia que em breve seria ele… do outro lado. E quando fosse tinha consciência que não teria ninguém a chorar por ele.

Sempre considerara os filhos como outras faces de si mesmo. Fossem as raparigas ou os rapazes. Ajudara-os sempre que lhe era solicitado. E amara-os muito.

Assim como Eugénia, a defunda, que abdicara de uma carreira como professora em prol dos gaiatos.

Todavia a solidão familiar invadira-lhes a vida a partir do momento que optaram por viverem num lar, tendo vendido todas as parcas coisas que tinham. Não deixariam nada a filhos e netos. Nem bens nem preocupações de nenhuma espécie.

Mas seria o mínimo, os filhos virem despedir-se da mãe.

Ergueu a cabeça e olhou um dos círios que iluminavam baçamente a sala. Naquela flamejar constante mas incerto Edgar sentiu que a sua vida fora um pouco como aquela vela.

A início pujante e forte, para no final se resumir a um coto e a uma luz mortiça que morria devagar

Tal e qual ele.

 

 

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por José da Xã às 13:38

Terça-feira, 09.10.18

Contos tontos - 33

Tinha horas de nascido quando ouviu pela primeira vez o som estridente de uma locomotiva a apitar, o que o fez chorar. No entanto dias depois já se habituara.

Os pais eram guardas de uma cancela onde com frequência passavam viaturas, pessoas e animais.

José Lúcio foi por ali vivendo e vendo os comboios a passar. Os primeiros a carvão com demasiado fumo e barulho ao que se seguiram as máquinas a diesel, também elas barulhentas. Aprendeu todos os horários e conhecia como ninguém os maquinistas que lhe acenavam com alegria.

O apeadeiro ficava a poucos quilómetros mas o jovem jamais por lá aparecera. Assim que o trem passava Zé punha-se no meio dos carris até ver desaparecer a última carruagem numa curva onde as linhas paralelas pareciam tocar-se.

Todas as noites, sempre que se deitava na cama malcheirosa com um rancho de irmãos, ficava a tentar adivinhar o que haveria para lá daquela curva. Algo que nunca perguntara a ninguém. Uns diziam que para um dos lados seria a capital Lisboa, o país, o mundo. E para o outro lado, o que haveria? Ninguém falava disso.

A escola era numa aldeia longínqua. Estivesse frio ou calor, chuva ou vento, José Lúcio punha-se sempre a caminho. No entanto, cedo percebeu que o conhecimento lhe daria vantagem. Mas ao mesmo tempo temia as respostas a tantas perguntas que invadiam o seu cérebro e que nunca formulara a ninguém.

Sempre que podia ajudava pai e mãe a subir e a descer a cancela e nunca vira nenhum acidente. Ainda bem pensava ele.

Mas todos os dias olhava a estrada de ferro que levava tanta gente…

Certa madrugada, já com 16 anos, pegou num bornal encheu-o com o que podia levar para comer e partiu linha fora à descoberta do que haveria para lá da curva…

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por José da Xã às 13:43

Quinta-feira, 20.09.18

Contos tontos - 32

Sentada à secretária com o portátil, Bárbara disparava mensagens por correio electrónico para todo o lado. Depois esperava algumas respostas que voltava a devolver com actualizações.

Frenética e imperturbável despachava serviço à velocidade da luz. As mensagens continuavam a cair e ela a responder… até que leu aquela.

“Sei que estás muito ocupada mas tens de comer não tens? Pago eu… Fico à espera!”

Viu o remetente mas não conheceu.

- Engano… - suspirou.

Depois pensou no que haveria de fazer. Responder ou enviar a mensagem para o lixo? Sorriu interiormente e optou por responder:

“Adoraria jantar!”

E seguiu assim sem mais. O nome encontraria ele no endereço. Aguardou.

Novo mail.

“Sou um idiota. Convidei-a e nem me apresentei. Sou o Renato. E a que horas? Fico à espera.”

A devolução.

“Sou a Bárbara e às oito estarei pronta.”

Ficou a aguardar resposta provavelmente com um pedido de morada. A mensagem não chegou e ela continuou a despachar serviço. Por fim…

“Quer que a vá buscar a essa morada ou prefere outra?”

A brincadeira parecia ter tomado dimensões acima do esperado. Mas o desafio parecia ser assaz curioso tanto mais que não lhe havia dado o endereço. Respondeu:

“Aqui mesmo!”

Resposta pronta.

“Até logo!”

Embrenhou-se no trabalho até que a secretária bateu à porta e perguntou se podia sair.

- Que horas são Alzira?

- Faltam dez minutos para as oito.

Fechou de supetão a tampa do portátil, pegou no casaco e saiu com a colaboradora.

- Vamos depressa que tenho um encontro para um jantar…

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por José da Xã às 15:25

Quarta-feira, 19.09.18

Contos tontos - 31

Ele era um homem normal sem nenhuma característica que chamasse à atenção. Nem alto nem baixo, sem beleza superlativa, aparentava uma meia idade benéfica.

Ela era jovem, bonita, espampanante. Vestia-se sempre com pouca roupa o que levava a ser alvo dos olhares gulosos dos homens e raivosos das mulheres.

Entretanto a pastelaria “Flor da Avenida” era conhecida pelos seus saborosos croissants e pelo pão constantemente quente. Daí as manhãs serem assaz atarefadas.

Era costume ele comer o seu pão sentado à mesa acompanhado de galão quente e sempre, sempre com um livro onde embrenhava o seu pensamento. Daí jamais reparar no que se passava ao seu redor. Talvez por isso nunca havia reparado na jovem.

Quando ela entrou naquela manhã, todas as mesas estavam ocupadas. O único lugar vago era mesmo à frente dele. Delicadamente perguntou:

- Bom dia, este lugar está ocupado?

Ele como que acordado de um sonho levantou os olhos para ela e demorou a responder. Finalmente:

- Bom dia, não está não. Pode usá-lo!

Ela sentou-se.

Ele deixou de ler, ela deixou de aparecer.

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por José da Xã às 10:49

Quinta-feira, 13.09.18

Conto tontos - 30

Esmeraldo entrou na taberna suja e escura do Carlos e sentou-se no local mais negro.

Pelo caminho foi cumprimentando os presentes e dando algumas respostas:

- B’tarde pessoal!

- B’tarde Aldo – respondeu o compadre Joaquim enquanto batia com uma carta na mesa de pedra ganhando a vaza.

- Isso vai? – questionou o Adolfo, mais conhecido pelo Viramilho.

- Que remédio. Tem de ir – respondeu o recém-chegado.

Depois.

- Um traçadinho ó Carlitos!

- Branco ou tinto?

- Branquinho, que não gosto nada de sujar o estômago.

Veio o vinho para a mesa e Esmeraldo beberricou um dedal e encostou a cabeça à mão. A sala pequena, mal iluminada e a tresandar a vinho era agora palco de uma pequena zaragata assente em palavras por causa das cartas.

- Porque não vens ao trunfo, caneco? – questionava um enfurecido

- Porque estou seco, porra...– respondia o parceiro.

Entretanto um deles olha para Esmeraldo vê a tristeza estampada no rosto e pergunta-lhe:

- Ei homem, que se passa contigo?

O outro não ligou. Voava com os pensamentos, quiçá.

Aproximaram-se dele e finalmente acordou do marasmo:

- Então homem… que me contas?

- Nada… - desabafou.

- Nunca te vi assim… conta lá o que tens…

- Não há nada para contar…

Os outros largaram as cartas e arrastaram as cadeiras para perto de Esmeraldo. Apertaram com o homem.

- Desculpa lá, mas não pode ser. O que se passa, amigo?

Esmeraldo pegou no copo e bebeu o resto de um trago e fez o gesto para se levantar. Todavia os amigos não deixaram. Até que Ludovino se lembrou de algo.

- Olha lá a tua Dores já teve a criança. Era por estes dias não era?

O outro levantou o olhar para o inquiridor e respondeu:

- Já teve já! Foi esta manhã.

- E estás triste por isso?

- Mais ou menos…

- Já são quantos Esmeraldo? - perguntou Raul.

- Cinco… - e proferiu o número de uma forma amorfa.

- Ena cinco. Grande fábrica… Tão novo e já cinco crianças.

- Má fábrica – desabafou então.

- Olha… má porquê? - avançou Viramilho.

- O homem está tonto – disse Ludovino.

- Pois é… só faço loiça rachada.

Os outros olharam entre si até que Joaquim afirmou:

- Já percebi… outra rapariga, não é? E querias um rapaz?

Esmeraldo abanou a cabeça em confirmação e enterrou a cabeça nas mãos. Os outros voltaram então para a mesa e recomeçaram a jogar.

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por José da Xã às 15:14

Domingo, 02.09.18

Contos tontos - 29

Fechou a porta devagar, não fosse algum vizinho acordar, guardou as chaves e olhou o relógio.

- Cinco e meia… Ai que já perdi o autocarro.

A madrugada estava fria. Os candeeiros de rua alumiavam o caminho em cones amarelos. Assim que dobrou a esquina que dava para a enorme praça viu o autocarro parado.

Apressou o passo tanto quanto os seus setenta anos, as pernas gordas e cobertas de v«grossas varizes a deixavam. Já para não falar dos dois sacos pesados que carregava no fim de cada braço.

Chegou à porta do transporte ofegante.

- Bom dia André. Desculpa este atraso…

- Bom dia D. Alzira. Não há problema. Agora sente-se que preciso sair.

André era um jovem motorista, nascido na cidade de Praia em Cabo Verde e que preferia fazer sempre o turno da madrugada.

Pôs o autocarro a trabalhar, fechou as portas e seguiu viagem. Duzentos metros à frente voltou a parar. Desta vez entrou mais gente.

- Bom dia D. Alxira – cumprimentavam uns.

- Bom dia, bom dia – respondia a senhora.

Ao fim de quatro paragens o transporte estava quase cheio e a algazarra era enorme.

Um telemóvel começou a tocar uma música pimba de mau gosto. Alguns passageiros olharam entre si até que um disse:

- D. Alzira o seu telefone está a tocar.

- Ah obrigada… Nem reparei.

Pegou no aparelho que já conhecera melhores dias, carregou no botão e gritou:

- ‘ Tou… quem fala?

Uma voz feminina veio à linha.

- Bom dia. É a D. Alzira?

- Sou e vossemecê quem é?

- Sou a Agente da polícia Ana Morais e pergunto-lhe se conhece o senhor Juvenal Pires?

- Juvenal? É o meu home’…

- É para comunicar que o senhor Juvenal vai, neste momento, para o hospital de S. José.

- Oh… deixá-lo ir. Pode ser que agora se cure- disse num ar de alívio.

- Bom mas o seu marido teve um acidente, morreu e vai a caminho da morgue.

Alzira ficou a matutar por breves segundos e depois respondeu:

- Ó menina esse patife do meu marido faz tudo para não vir para casa. Agora até manda dizer que morreu!

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por José da Xã às 00:42

Segunda-feira, 19.03.18

Contos Tontos - 28

Sentada no velho cadeirão, percorria as paredes repletas de quadros e relógios tentando esconder o olhar nalgum objecto ou lembrança.

A sua relação com ele nunca fora assim algo de fantástico. E nos últimos tempos dir-se-ia que era deveras truculenta sem felicidade nem alegria. Restavam, todavia, algumas memórias. Poucas…

A nova surgira no telemóvel de forma fria, mesmo telegráfica. Nem reconhecera o número. Tentara devolver a mensagem com uma chamada mas ninguém atendera.

Sempre tivera a mania de ter solução para tudo. Olvidara, no entanto, qualquer coisa. Ergueu-se e percorreu a casa sem destino incapaz de conseguir lidar com a situação tentando não chorar.

O velho relógio na cozinha bateu duas vezes e ela deu então conta que os filhos estariam a chegar da escola.

Ela que nunca tivera fé, que jamais acreditara em qualquer divindade que fosse, percebia agora a falta que lhe fazia uma crença. A mãe bem que tentara que a filha seguisse outro caminho, mas ela sempre considerara a relação com um Deus uma profunda parvoíce.

Acordou do marasmo com o toque de campainha. Os filhos!

Abriu-lhes a porta recebeu os casacos encharcados e comunicou:

- Meninos, parem se fizerem favor. Sentem-se na sala que tenho de vos contar uma coisa.

Adveio-lhe um aperto na garganta. Por fim disse:

- Tenho uma notícia triste para vos dar.

Um silêncio cresceu, todavia as crianças aguardavam.

- O Papá… o vosso papá… - as lágrimas começaram a cair – já não está entre nós…

- Porquê – perguntou o mais novo sem entender.

- Porque o papá… morreu num acidente.

As lágrimas continuaram a cair ininterruptamente. Então o mais velho levantou-se pegou na mão da mãe e disse:

- Não te preocupes mamã… O papá está agora no Céu.

Ela ergueu os olhos inchados para o infante e perguntou:

- Quem te disse?

- A avó diz que todas as pessoas boas vão para o Céu. E o papá era bom não era?

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por José da Xã às 14:04

Quarta-feira, 20.12.17

O Pai Natal

Assim que percebeu pelas frinchas o primeiro raio de sol, saiu do seu costumado buraco.

Estava frio, muito frio. Os velhos e surrados cobertores ou o que restava deles e que usava para se tapar, eram claramente insuficientes para as noites gélidas da cidade.

Havia alguns anos que dormia na rua. Não imaginava quantos, pois os dias passavam por si como os parasitas que lhe cobriam o corpo sujo. Nem se recordava da última vez que tomara banho.

À noite era costume aparecerem umas pessoas que distribuíam comida e agasalhos e até medicamentos, quando se justificava. Mas ele nessa altura fugia sempre para longe onde ninguém o visse. Assim que partiam regressava ao seu nicho.

Durante muitos anos ele fora o grande mestre, o senhor de todos os conhecimentos e por isso respeitado. Depois, um dia passou de imprescindível a supérfluo. Despedido e sem coragem para voltar para casa refugiou-se, nesse fim de tarde, na bebida e mais tarde num vão de um prédio semi abandonado. Ele e outros!

Arrumou o caixote tapando as suas parcas tralhas que fora acumulando e partiu em busca de algo para comer. Jamais mendigara e por isso socorria-se dos caixotes do lixo onde havia sempre qualquer coisa que dava para ele aproveitar.

O movimento da cidade naquela manhã avolumava-se. Chegou perto de um contentor negro, abriu a tampa mas nem chegou a espreitar pois sentiu uma mão nas costas. Deu um salto súbito, para logo reconhecer um companheiro de infortúnio:

- Olá Chingalim – cumprimentou o recém-chegado.

- Viva Ginga.

Os nomes verdadeiros haviam desaparecido.

- Achas que há aqui alguma coisa que se coma?

- Costuma haver… - e reabriu a tampa, donde retirou diversas caixas, para comunicar:

- Olha temos almoço... Repara…

O Ginga olhou, meteu a mão e acrescentou:

- Ena tivemos sorte… Deve ser desta época do Natal…

Dentro das caixas grossos nacos de pizza intactos e outros acepipes que alguém aventara fora. Sentados no chão ao lado do caixote ambos foram consolando o estômago.

Após o repasto Chingalim despediu-se do colega e partiu. Procurava algo proveitoso, especialmente roupas. Palmilhou, durante todo o dia, quilómetros e chafurdou em dezenas de caixotes.

A maioria dos transeuntes fugiam dele com nojo do seu aspecto e do seu cheiro. Todavia Deolindo – o seu nome verdadeiro – já estava habituado. Também em tempos fora assim.

Um vento glaciar soprava agora com invulgar força obrigando-o a regressar ao seu abrigo de papel não fosse o vento levá-lo. Enfiou-se dentro da caixa que fora de um frigorífico e embrulhou-se na pouca roupa que tinha à mão, alguma dela encontrada nessa tarde.

Naquele instante e no abrigo partilhado com diversos sem-abrigo só estava ele e assim ficou durante muito tempo. Enrolou-se nos trapos tentando aquecer-se e aproveitou para viajar até um passado já longínquo.

O Natal… como podia esquecer as festas lá de casa com tanta gente, tanta comida, tanta alegria? Hoje estava só e a família residia lá longe na memória e nas recordações. Sentiu dentro do caixote o vento frio de fim de tarde e encolheu-se ainda mais.

Depois escutou vozes que seriam certamente dos seus companheiros de infortúnio que regressavam.

Retornou às suas lembranças e não conseguiu evitar que uma lágrima caísse pela face e se embrenhasse na longuíssima barba branca.

Os primeiros tempos de rua haviam sido duros. As saudades dos filhos e da mulher pareciam não parar de aumentar. Que seria deles? Crescidos… adultos.

Serenamente preso às memórias acabou por adormecer.

Acordou quando sentiu a caixa abanar de forma incomum. Estava gelado e acabou por sair do seu covil, quando deu de caras com uma quantidade de gente de diversas idades, todos vestidos com aqueles conhecidos casacos de voluntários.

- Boa noite – cumprimentou uma voz feminina.

- B’noite – respondeu a medo.

- Tem frio?

Acenou que sim com a cabeça. E logo caiu no seu colo um par de cobertores novos.

- Tem fome?

Acenou que não. Mas outrém depositou-lhe na mão uma embalagem de plástico com sopa quente.

- Aproveite que está quentinha…

Deolindo escutou as indicações e levantou os olhos para a voz. Os seus olhares cruzaram-se por breves instantes. Depois o sem-abrigo fixou-se no chão frio da lage.

- Oiça lá não quer ir com a gente tomar um banho? – perguntou outra voz.

Acenou que não.

- Como se chama? – retornou a primeira voz.

- Chingalim – respondeu em surdina.

- Isso não é nome… é alcunha. Vá diga-me o seu nome verdadeiro…

A mesma voz feminina parecia querer acordar alguns fantasmas. Mas foi respondendo:

- Não me lembro!

- Vá faça um esforço… Diga lá como se chama.

- Deolindo…

A figura que o interpelara recuou. E afastou-se dando lugar a outros voluntários. Entretanto Chingalim aproveitou para se embrulhar nos novos abafos. Só que alguém o destapou e pediu:

- Importa-se de se colocar de pé se fizer favor.

A forma autoritária fez com que Deolindo levantasse o olhar percebendo que fora um polícia que dera a ordem. Amedrontado tentou afastar-se, mas alguém se colocou à frente impedindo a sua eventual fuga.

De súbito um menino aproximou-se e exclamou com uma voz saborosa de criança:

- Xiii… o senhor parece o Pai Natal.

Alguém por detrás comentou:

- Pois parece o Pai Natal, mas é só o teu avô!

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por José da Xã às 22:12

Sexta-feira, 01.09.17

Contos Tontos - 27

Sentado na areia macia, perscrutava o horizonte. Naquela linha dois tons quase negros tocavam-se: o do firmamento de nuvens plúmbeas que ameaçavam borrasca e do mar sem o sol para o pratear.

No extenso areal não havia ninguém. Talvez a um quilómetro alguém corresse ou passeasse os seus cães. Tirando isso... ninguém.

O vento soprava frio naquele fim de tarde. Puxou para cima o casaco e com os dedos foi riscando a areia húmida. Os sulcos ficavam visíveis e provavelmente só na próxima maré desapareceriam de todo. Ou quiçá a chuva...

Voltou a olhar o mar... As ondas cresciam em altura e volume, para depois se transformarem em espuma e virem morrer mansamente no areal liso.

Continuou a riscar o chão sem perceber bem o que estava a escrever. Sem levantar os olhos percebia a força das ondas a bater na areia do fundo. Uma atrás da outra.

Esboçou um sorriso. O seu passado parecia o mar: por vezes ruidoso, duro, assassino, para no dia seguinte se tornar silencioso, manso e dócil.

Sentiu um arrepio atravessar o seu corpo. Seria frio?

Entretanto os dedos não paravam na areia de fazer sulcos.

De súbito soou um trovão. E como se tivesse acordado de um sonho, levantou-se de um salto. Já de pé olhou o que escrevera. Leu em voz alta:

- "O amor não é um bem, é uma conquista"

Escrevera mesmo aquilo?

A chuva principiou a cair e depressa as palavras desapareceram..

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por José da Xã às 00:02

Quinta-feira, 10.08.17

Crónicas de Lisboa I - Aeroporto (versão 2017)

Aeroporto. De Lisboa. Centro preferencial de chegadas e partidas de um país carregado de história e de estórias. Um país pequeno, de mentes pequenas e espíritos ainda mais ínfimos. Só a hospitalidade parece ser realmente grande. É o que dizem!

Naquela ampla sala de espera há um oceano de cabeças atentas aos que chegam. Da porta larga não param de sair passageiros. Pequenos serviços são oferecidos a quem está à espera, minimizando o tempo passado. No centro um quadro electrónico vai mostrando os voos que vão aterrando. Uns a horas, outros com atraso.

Quem espera não imagina de onde vem tanto viajante. Eles são altos e louros, escuros ou claros gordos ou magros. Carregam às costas as mochilas de uma vida. Por sua vez os regressados conseguem descobrir no meio daquela multidão alguém conhecido e vão acenando de sorriso alargado. Por fim juntam-se aos familiares e amigos distribuindo abraços, lágrimas, beijos repenicados, as saudades tanto tempo sentidas e naquele preciso instante explodidas em torrentes de emoções.

Na enorme nave nem se percebe o movimento cá fora na pista. Constantemente há aviões a aterrar e a descolar num movimento quase louco e onde os carros de apoio, que se movimentam quais formigas incansáveis, atravessam o alcatrão negro a grande velocidade, tentando chegar a todo o lado.

A porta continua a expelir gente. Alguns não parecem turistas. São meros utilizadores de avião como usassem outro transporte qualquer. Puxam uma pequena mala, atravessam o mar de gente e saem sem que ninguém os receba.

Entretanto no piso superior há quem espreite, através da varanda, para aquele espécie de mar humano… São os passageiros das partidas que gastam os últimos momentos na cidade que Wim Wenders idolatra. Partem repletos de memórias e recordações. Abalam, quiçá, para nunca mais voltarem. Se vão uns, outros vêm em busca de sol, praia, alegria e de um país que sabe receber.

O corrupio das partidas espalha-se pelos inúmeros guichets. Pequenos quiosques vão fornecendo últimos serviços aos que partem. Há quem carregue malas e sacos, há quem só se carregue a si mesmo.

Se uns partem outros ficam presos, naquele preciso instante, às saudades. As crianças traquinas e quase sempre menos agarradas às emoções que os adultos, aproveitam os enormes tapetes rolantes e escadarias para irem brincando. Os que têm bagagem aproximam-se dos balcões depositando as malas e os sacos. Os outros passam naturalmente pela rigorosa segurança, após fiscalização competente.

Num país com tantos imigrantes as partidas têm sempre aquele sabor amargo da tristeza ao invés das chegadas que são verdadeiro mel.

- Diz alguma coisa quando chegares… Tem juízo por lá… Dá lá saudades à família, diz que os queremos ver cá…

Consente-se, aceita-se para nunca mais se lembrar dos recados.

Porém há também quem parta para férias, para aquele país único, longínquo que ninguém sabia que existia mas que tem aquela praia… Há quem abale à aventura de uma profissão nova ou de um sonho bizarro. Somos todos tão sonhadores…

Chegam finalmente na semana seguinte, de cores acobreadas pelo sol, à enorme sala onde tanta gente espera outra tanta gente. Ou regressam no ano seguinte. Ou dez, vinte anos passados. Há os que nunca mais retornam.

- Ai homem que estás tão magro… Ricas cores… isso é que foi apanhar sol… Já nem te conhecia… há quantos anos saíste de Portugal?

As respostas perdem-se no ar pois ninguém ouve e ninguém responde. É sempre assim.

Curioso é que naquele estranho mar de cabeças atentas e oriundas sabe-se lá de onde, há gente de todas as classes e credos. Que local tão profundamente estranho para o povo se misturar com quem não se sente… povo. Sinceramente, por vezes é difícil perceber quem é quem.

Mas isso que importa, o Aeroporto é e será sempre um Mundo em ponto pequeno.

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por José da Xã às 08:11


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