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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Para Sempre…

Nota: este texto foi escrito para um trabalho de mestrado. A Isabel Carvalho, mentora da história, pediu-me ajuda. E acabámos por escrever este conto. Tem alguma terminologia técnica, essencial ao trabalho, mas tem outrossim muito de real. Curiosamente convivi muito de perto com um colega, entretanto falecido, que tinha esta doença. E é realmente tenebroso a forma como o ser humano pode cair ao mais fundo da incapacidade e degradação física.

Aproveito para desta forma homenagear quem ajuda estes doentes e os seus familiares. Quem nunca viu estes enfermos, não imagina o que um ser humano pode sofrer.




Levar as mãos a cabeça era a única coisa que conseguia. Entretanto não se lembrava de mais nenhuma palavra de conforto. Estava tudo tão confuso e vê-la chorar de desespero era insuportável…

Eduardo e Sara eram um casal haviam-se conhecido na adolescência. Foi empatia à primeira vista e a amizade que os unia foi criando laços cada vez mais fortes até que o inevitável aconteceu: apaixonaram-se um pelo outro. Passaram a andar quase sempre juntos na escola que ambos frequentavam. Todavia quando chegaram à Faculdade cada um seguiu o seu próprio caminho.

Ele formara-se em Gestão e encontrava-se presentemente numa multinacional de renome internacional e que facturava números com diversos zeros… Exibia de uma aparência jovem mas já com algumas brancas a mostrarem a sua rebeldia, um ar sério e responsável em qualquer decisão, ideia ou ordem que implementava. Quase sempre bem-sucedido nas suas opções ganhara por isso o respeito e admiração de chefias e colegas. Outra das suas características era a sua permanente disponibilidade de ajudar de quem dele necessitasse.

Sara era uma profissional e competente médica no Serviço de Urgência, sempre com uma palavra amiga para oferecer aos doentes e familiares nos momentos mais complicados. A humanidade e o carinho que oferecia aos outros, era claramente difícil de encontrar em outro médico do mesmo Serviço. Raramente saía exactamente no final do seu turno, pois, sentia que tinha de ver se os pacientes, que tinha atendido antes de sair, estavam bem.

Porém nessa noite era diferente e tinha de se despachar… ia jantar com o namorado no seu restaurante preferido. Eduardo gostava de mimá-la com aqueles singelos gestos mas que a deixavam feliz.

O jovem gestor, que até à data tinha sido um jovem bastante calmo, estava naquela noite particularmente nervoso e agitado. Tinha tomado a maior decisão de todas… pedir Sara para ser sua mulher para o resto da sua vida. Vestiu assim o melhor fato e pediu a Sara que saísse a horas para puderem aproveitar a noite. Tinha tudo planeado ao pormenor: as flores, o jantar, o anel e surpresa da vida dela. Escolhera também a sobremesa favorita de Sara, um fantástico bolo de chocolate, em que a cereja iria ser substituída por um anel que ele próprio escolhera e comprara. A princípio pareceu-lhe essa ideia um tanto pirosa mas com o tempo aceitou que aquela noite teria de ser especial… muito especial

Sara conseguiu sair a horas do serviço e correu para casa para se preparar. Vestiu o seu melhor vestido e à hora combinada desceu para se encontrar com Eduardo. Ele estava a sua espera à porta de entrada e assim que a viu ficou deslumbrado. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita como aquela e naquele momento apercebeu-se que tinha tomado a decisão correcta de a escolher para passar o resto da sua vida ao seu lado.

Já no restaurante o ambiente era acolhedor, com música ambiente e cada mesa preparada ao pormenor. Eduardo estava nervoso mas tentava não transparecer, enquanto Sara por sua vez contava as suas aventuras nas urgências e como salvara uma senhora da morte certa. Adorava partilhar o seu dia.

A noite desenvolvia-se serena e animada e o jantar tinha sido bastante agradável, a conversa fluía e tinha chegado o momento. Eduardo pediu em surdina ao empregado que trouxesse o bolo e que colocasse a música que tocava no dia em que começaram a namorar, enquanto Sara fora à casa de banho.

Tinha chegado o momento que Eduardo tanto tinha esperado. Quando Sara se sentou à mesa apercebeu-se que estava a dar a música que lhe trazia uma recordação especial e a sua sobremesa tinha um brilho especial. Eduardo ajoelhou-se ao lado de Sara e depois de lhe disser que ela era a mulher da vida dele, pediu se ela queria dividir a sua vida com ele para sempre.

Sara emocionou-se e tudo o que tinha imaginado estava a acontecer. Só faltava dar a resposta mas algo estava errado. Começou a sentir os braços dormentes, a querer articular as palavras e a ver Eduardo coberto por uma névoa. Desmaiou nesse instante.

Não deixaram Eduardo entrar para acompanhar Sara quando esta deu entrada nas urgências. O rapaz sentia-se perdido, ninguém lhe dava notícias e a espera era desesperante.

Sara acordara deitada numa maca no SO que conhecia tão bem. Fazia parte do seu dia-a-dia, onde salvara vidas e perdera outras e por alguma razão que lhe estava a passar ao lado era a vez dela estar ali. Sentou-se na marquesa e viu o colega João chegar junto dela.

- Que se passa João? Porque estou aqui?

A mão robusta mas tranquilizadora do colega empurra-a para a marquesa, com a voz calma foi dizendo:

- Foi o Eduardo que te trouxe de ambulância. Pelo que parece desmaiaste em pleno restaurante.

- Desmaiei? Acreditas que não me lembro de nada…

- Acredito mas agora descansa… Uma bateria de análises já foram pedidas e só estamos à espera do Fitas, sabes quem é, não sabes?

Se sabia… Fitas era a alcunha de um maqueiro a quem ela muitas vezes pedia favores para os seus doentes. Agora era a sua vez de "cair" nas mãos dele.

Era quase madrugada quando finalmente João veio em busca de Eduardo comunicar-lhe os resultados dos exames entretanto feitos por Sara.

- É melhor sentar-se que as notícias não são boas.

Eduardo sabia pelas histórias que Sara contava, que aquela frase não podia significar boa coisa.

- A Sara teve um surto de esclerose múltipla. Diagnosticámos uma esclerose múltipla secundária progressiva. Tivemos confirmação do diagnóstico através da Ressonância Magnética, Punção Lombar e pelos potenciais evocados. Não existe qualquer dúvida.

O mundo de Eduardo desmoronou. Já ouvira falar da doença, até na boca da própria namorada… e apercebera-se que era uma enfermidade degenerativa muito dada a surtos cada vez mais frequentes e obviamente mais limitativos… Apeteceu-lhe chorar. Mas se gostava de Sara - e como gostava! - não podia dar parte fraco. Respirou fundo, olhou o colega da mulher e perguntou:

- Posso vê-la?

- Agora não… Desculpe, mas a Sara está a descansar. Mas amanhã pela manhã já pode vê-la e até levá-la para casa.

- Já amanhã?

- Sim… Isto foi só um surto…

Eduardo estendeu a mão ao médico e abandonou as urgências em passo rápido. João por seu lado tremia só de pensar no futuro daquele casal. Mentira no que respeitava a Sara, que acordada na maca aguardava impacientemente pelo colega João.

Quando o viu já próximo de si respirou fundo. Sem mais demoras, atirou:

- E…?

- E o quê?

- João por favor…

O médico deu-lhe então a notícia da forma mais suave que sabia. A cara de incredulidade da médica foi algo que o marcou durante muito tempo. Porém naquele instante não existia nada, que ele ou alguém pudessem fazer.

Na manhã seguinte Eduardo levou Sara para sua casa. Fizeram a meia dúzia de quilómetros em profundo silêncio como se ainda não tivessem consciencializado do que estava a acontecer. Sara continuava com a sensação de falta de força no corpo e só queria dormir para que o pesadelo acabasse. Não poderia ter esclerose múltipla, era impossível. Lidou com tanta gente doente na sua carreira que nem nela própria reconhecia os sintomas.

Sentado na borda da cama onde Sara passara a maior parte dos últimos dez anos, Eduardo chorava com uma criança. Pairava no quarto um cheiro a medicamentos que ele já não suportava. Cadeira de rodas, canadianas e outros apetrechos espalhavam-se pelo resto da casa. Entretanto tinha a perfeita consciência que Sara jamais regressaria aquela casa… E isso era o que mais lhe doía.

Eduardo fazia tudo o que podia por Sara. Primeiro, e logo a seguir ao primeiro surto arranjou de tratar dos papéis para se casarem. E numa tarde de sábado Sara e Eduardo casaram-se numa cerimónia civil, breve e pouco concorrida. Depois levou-a numa viagem até Barcelona, cidade que Sara sempre falara que gostaria de conhecer. Quando regressaram da lua-de-mel, Sara parecia ter renascido e a doença parecia ter sido debelada. Todavia os surtos que haviam atacado anteriormente Sara começaram a surgir com mais frequência, dois meses após o casamento. Primeiro o cansaço permanente, depois a dificuldade cada vez mais evidente em se deslocar. Perdera ao longo do tempo a capacidade de cuidar dela própria. Cada pequeno esforço era como se toda a sua energia fosse consumida. Pentear o cabelo, lavar os dentes e comer era algo que demorava uma eternidade. Não lhe apetecia depender de Eduardo mas acabara por acontecer. Este ajudava-a nos pequenos gestos que ela não conseguia e por vezes realizava-os por ela quando não existia mais energia. Sara despediu-se do Hospital por já não conseguir estar nas suas plenas capacidades. A primeira decisão complicada que Sara teve de tomar e completamente consciente foi que Eduardo, não poderia nem conseguiria cuidar dela sozinho durante o decorrer da evolução da doença. Falou com Eduardo que apesar de revoltado e não compreender a decisão da mulher, aceitou.

Marcaram uma visita com uma assistente social responsável do serviço de apoio domiciliário da zona de residência. Era demasiado estranha aquela situação para Sara. Normalmente era ela que encaminhava os doentes para os serviços, mas desta vez era ela que ia usufruir do tempo e do cuidado de outros sem ser o marido.

O contracto feito com a assistente social é que iria usufruir da ajuda das ajudantes familiares e da Fisioterapia quando achasse que chegara o momento em que Eduardo necessitasse de ajuda. Tentou conter as lágrimas mas não conseguiu. Não ter controlo sobre o seu próprio corpo era algo que nunca imaginaria, e ter alguém a ver o seu intimo sem ser o seu companheiro de uma vida era extremamente desconfortável. Mas iria demorar muito tempo pensou.

Na noite de consoada desse mesmo ano, Sara sentiu de repente que o chão fugia debaixo dos pés, sentindo a força a fugir-lhe do corpo e a visão a ficar com uma névoa de novo. Num instante estava estendida no chão. As pernas tremiam em espasmos violentos e Eduardo num salto assentou as suas mãos nas pernas da esposa e conseguiu pará-los. Aprendera o truque com a Fisioterapeuta. Depois ergueu-a e levou-a para o hospital.

No caminho ligou ao Prof. Vital, médico especializado em esclerose múltipla e comunicou-lhe o caso:

- Professor, desculpe incomodá-lo a esta hora, mas a Sara teve outro surto.

- Meu Deus, já? A doença está a evoluir muito depressa… Leve-a para o hospital que eu vou já lá ter.

- Não vale a pena maçar-se… Eu só necessito que ela tome os corticosteróides… que eu não tenho em casa.

- Mas eu preciso vê-la. Até já!

A voz do Professor denotava enorme preocupação. A noite estava fria, o trânsito reduzido, a velocidade exagerada. Chegou sem mácula às urgências onde relatou o caso da esposa. Apareceu o Fitas que reconhecendo a médica amiga dizendo:

- Doutor, deixa-a comigo… Eu sei para onde ela deve ir…

- Mas o Professor Vital vem cá ter, agora…

- Eu sei… eu sei… - e empurrando a maca fê-la desaparecer por detrás das portas automáticas.

A ambulância partiu devagar levando consigo dez anos de tormentos e angústias. Eduardo já não conseguia lidar com a doença e acima de tudo sentia-se impotente para melhorar a qualidade de vida de Sara. A cara linda que a mulher sempre tivera até surgir a doença era agora rasgada por rugas de sofrimento. O olhar tantas vezes expressivo tornara-se vago, distante. As mãos tremiam-lhe de tal maneira que nem conseguia comer pela sua própria mão. Era Eduardo que pacientemente lhe colocava a comida na boca, devagar mas sempre com um sorriso externo nos lábios…

Eduardo adormeceu na sala de espera das urgências. Quando acordou doía-lhe o pescoço e sentiu os pés gelados. Levantou-se devagar. Bateu com os pés no chão para activar a circulação e tentou saber da mulher. De súbito reparou que ela vinha a sair pelo seu pé, devagar amparada ao Professor Vital. O marido correu para Sara e beijando-a só soube dizer:

- Feliz Natal, meu amor!

Sara olhou envergonhada para o médico e foi dizendo lentamente:

- Este homem envergonha-me em qualquer lado… Já viram isto?

E conseguiu sorrir. Deu o outro braço ao marido, encostou-a cabeça e foi dizendo:

- Temos um longo caminho para partilhar…

Eduardo não percebeu! Assumiu que ela se estaria a referir ao casamento e com um sorriso rasgado, confirmou:

- Claro! Foi para isso que casámos!

Já no carro ajudaram ambos Sara a sentar-se no lugar do pendura. Quando fechou a porta o Professor chamou Eduardo e perguntou-lhe:

- Está preparado? Está preparado para o pior que vem aí? A Sara tem de tomar injecções  semanais de Interferões. É o Eduardo que as vai dar? Vai pedir ajuda? Eduardo tem de recorrer à ajuda. Chegou o momento.     

O gestor entendeu o alcance da conversa e sem mais delongas respondeu afirmativamente que cuidaria do assunto. Todavia acrescentou:

- Creio que ninguém, nem mesmo o senhor, está preparado para esta doença…

O silêncio instalou-se entre os dois homens. E com um abraço que selou aquela amizade disse:

- Obrigado Professor Vital por tudo o que tem feito por nós.

Durante vários meses Sara foi tendo altos e baixos… Mas foi sempre perdendo capacidades. Tinha chegado a altura de pedirem ajuda ao apoio domiciliário. No contracto que tinham pedido, acrescentaram a visita semanal da enfermeira para aplicação das injecções. Como Sara passava mais tempo sentada pediu para verificar se não apareciam ulceras de pressão. A fisioterapeuta aparecia em sua casa 3 vezes por semana, para tentar reduzir as alterações articulares, e sobretudo a espasticidade que se estava a instalar. As dores eram algo que era difícil começar a suportar. A presença das ajudantes familiares era o que mais lhe custava todos os dias, era o pior momento do dia. Apesar de tentarem ter cuidado e demonstrarem carinho, para ela a invasão do seu próprio espaço e corpo era horrível. Não aceitava bem que a higiene fosse feita por uma pessoa estranha e que o seu corpo desnudado fosse mostrado enquanto tentava realizar conversa de circunstância. Odiava aquela situação mas Eduardo não podia estar com ela a todas as horas do dia.    

Eduardo foi gerindo a sua vida em função da doença da mulher. Optou por mudar de funções dentro da empresa de forma a ter mais disponibilidade e passou a viver mais para a esposa. Mimava-a sempre que podia e Sara gostava daquela forma muito simples mas muito genuína de Eduardo a amar. Até que um dia Sara deixou de conhecer o marido. Foi por pouco tempo mas aconteceu.

Nem sabia por onde começar a arrumar as coisas. A certeza do não regresso a casa por parte da mulher fazia-o sentir-se ainda mais triste. Lembrou-se então duma tarde…

O sol primaveril batia na varanda. Sara estava sentada na cadeira de rodas e tentava com dificuldade virar uma folha de um livro que andava a ler. A mão não parava de tremer e já não tinha preensão fina para realizar tal gesto. Reparou que Eduardo a olhava com ternura e vontade imensa de a ajudar e já com dificuldade chamou-o:

- Eduardo.. - a voz era arrastada e quase cavernosa.

- Diz meu amor.

- Prometes-me uma coisa?

- Não sei se posso… Mas prometo, seja o que for prometo…

- Quando eu não conseguir andar leva-me daqui… - respirou fundo, como se adivinhasse o futuro - e põe-me num local onde alguém trate de mim.

- Mas eu trato… sempre.

- Eu acredito… Mas prometes?

As lágrimas rolaram cara abaixo. Eduardo enxugou-as com as costas da mão e disse:

- Claro, tu sabes que faço tudo por ti.

Sara chorava quando saiu de casa deitada na maca, pela última vez. Eduardo segurava a cabeça com se tentasse evitar que esta estoirasse. E nem a acompanhou à rua. Tudo fora previamente combinado entre ambos.

Eduardo dirigiu-se a uma unidade especializada de cuidados de longa duração. Tinha sido recomendada pelo médico que os ajudara neste processo, e a mulher tinha deixado expresso que queria que fosse aquela a unidade onde fossem prestados os seus últimos cuidados. Fora a decisão mais difícil de todas e sabia perfeitamente o que aquilo significava. Sara passava o seu tempo entre a cadeira de rodas com apoio de cabeça e a cama articulada que tinham pedido emprestada às ajudas técnicas. A espasticidade estava completamente instalada, as articulações mantinham-se na mesma posição de suposto conforto durante os anos, os tremores da cabeça e mãos eram constantes e Sara já não tinha controlo do seu sistema urinário e intestinal. Começara a utilizar fralda e uma algalia, quase cinco anos depois de pedir ajuda do apoio domiciliário. O seu corpo foi entrando em degradação e sabia que não existia mais nada a fazer. Eduardo visitava-a todos os dias e tinha o privilégio de por vezes fazer-lhe companhia de noite. Já não reconhecia a mulher mas o amor por ela era exactamente igual ao primeiro dia em que se conheceram. Mantinha-se forte ao lado da mulher mas quando saia do lado dela e voltava para casa sozinho, chorava até perder as forças e adormecer. Não queria perder Sara mas não o desespero também dele era incontrolável.

Sara faleceu dois meses depois, serenamente como uma vela a quem se acaba o pavio. 

O Sentido dos dias – Partida adiada XVIII

Os anos passaram com a velocidade natural da vida. Quando deu por si Pedro Rafael acariciava as cãs. Ainda se lembrava do seu casamento com Helena e dessa primeira noite e ora mirava os filhos já crescidos a requererem liberdade. Durante todo esse tempo muita coisa acontecera. As guerras indesejáveis com Helena por causa duma história de amor mal resolvida e que ainda o marcava, o azar e sorte de um negócio pouco rentável, um livro começado e ainda não terminado, um destino ainda por encontrar.

Certa noite Pedro deitou-se mais cedo. Colocou as mãos a fazer de almofada mirando o tecto do quarto e numa declaração quase dita de supetão, anunciou:

- Helena, vou a Angola…

A mulher soergueu-se da cama e sem surpresa perguntou:

- E isso é para breve?

Pedro Rafael admirou-se pela forma fria como Helena aceitou a sua vontade. Serenamente  como se fosse a coisa mais normal na vida de ambos, o marido perguntou:

- Queres vir comigo?

Helena esboçou um sorriso e com toda a calma do mundo declarou:

- Creio que já falámos disto diversas vezes. Não quero ir, nem nunca irei a Angola.

- Como queiras… Mas eu tenho de ir, entendes?

Helena não entendia. Aliás, a referência àquele país africano era quase sempre símbolo de desavença conjugal. Só que desta vez estava já cansada e nem se preocupou em dizer fosse o que fosse. Virou-se na cama dando-lhe as costas ao marido numa atitude que Pedro embrenhado nos seus pensamentos nem reparou.

A decisão de partir para África transformou o livreiro. Tornou-se mais afável e mais aberto. Às refeições passou a falar de uma forma mais aberta, rindo e brincando com os filhos. Helena por sua vez sentia-se mais apreensiva. Sabia do passado do marido e daquela história de amor que durante todo o casamento pairara como uma nuvem negra ameaçando tempestade.

Uma tarde ao almoço Pedro agarrou a mulher pela cintura e puxando-a para si, obrigou-a a sentar-se nas suas pernas. Jamais durante o seu casamento Helena fora abordada pelo marido daquela forma. Ainda assim tentou esquivar-se, dizendo:

- Larga-me homem… olha que caio!

Ele riu-se e atirou:

- Se caíres, cais nos meus braços…

Nesse mesmo instante Pedro sentiu um aperto no coração. Faltava-lhe o ar e a dor cresceu. Helena depressa percebeu que o marido tinha algo diferente e perguntou:

- Que tens, homem? Estás tão pálido…

Mas ele não respondeu. De mão no coração Pedro sentia a vida a fugir. Num momento de breve lucidez pediu:

- Chama o 112…

O INEM chegou rápido levando o alfarrabista para o hospital. Após uma bateria de exames foi-lhe diagnosticado um pequeno enfarte. Esforços e outras emoções teriam de ser controladas. E entre elas a viagem a Angola.

Pedro nem queria acreditar. Agora que tinha quase tudo preparado para partir, surgira-lhe aquele entrave. Mas não esmoreceu. Com a mesma coragem com que enfrentara muitas vezes o inimigo invisível por entre a floresta selvagem e o capim ressequido pelo sol quente dos trópicos, Pedro atirou-se a uma nova vida onde não cabia o álcool nem o tabaco. Foram por isso tempos muito difíceis, regressando aquele seu ar melancólico e taciturno.

Recomeçou a escrever o seu livro. Devagar, ao sabor das lembranças e das memórias ia alinhavando textos e mais textos. Porém nem a mulher nem os filhos tinham direito a ler os testemunhos que Pedro ia calmamente desenvolvendo. Sempre que alguém se aproximava lá escondia Pedro por entre a pasta já velha e surrada os seus escritos. A doença obrigara-o a alguma calma e serenidade. Era a Maria da Graça a filha mais velha que tomava agora conta da velha livraria. Também ela adorava refugiar-se naquele espólio. E lia muito do que por lá encontrava. E sonhava tal e qual o pai…

Uma tarde estando já melhor, Pedro regressou à livraria. Encontrou-a sem clientes mas com uma lojista atenta. Por detrás de uma resma de livros que tentava em vão arrumar, Maria da Graça dera conta da entrada de alguém e perguntou:

- Boa tarde deseja alguma coisa?

Quando reparou no pai riu-se e foi acrescentando:

- Que tal um banquinho para se sentar?

Ao que o pai respondeu:

- Olha minha menina aprende que os livros também falam…

Lembrou-se então de Alberto. E riu-se. A filha imitou-o. Pegou então num livro ao acaso e leu o título:

- Bom livro este…

- Como se chama?

 - “Africa Minha”

 

José da Xã

 

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