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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Do baú... #4

Escrever!

Neste momento escrever tornou-se quase um vício. Custa-me estar sem passar para o papel branco (por enquanto) aquilo que sinto. E como sinto.

Durante muitos anos achei que escrever era uma arte menor. Artistas, artistas eram os pintores, os músicos, os escultores. Porém fui apercebendo que este meu conceito traía com veêmencia a minha vontade. E assim quando um dia em Trás-os-Montes ouvi uma referência, achei que esse era o momento para recomeçar a escrever.

Com maior ou menor qualidade, tanto se me dá. Certo é que desde esse dia em que decidi reiniciar a escrever, mais de 30 histórias sairam deste pobre coração. Para além de outras colaborações contínuas.

Reconheço todavia que ainda não era bem isto que gostaria de um dia publicar. Alimento a ideia de escrever um romance, não daqules de fazer chorar as pedras das calçadas, mas um livro onde me revisse como um todo. A ideia surge-me como uma luz de farol. Mas não permanece o suficiente para iluminar o meu espírito vadio. Aguardo assim serenamente que essa luz surja para ficar e me guiar, não no caminho do sucesso, que esse é esporádico e volátil, mas no trilho da alegria e do prazer de fazer algo que se gosta realmente.

 

Amadora, 2000

Do baú... #3

Aos meus filhos

 

Quarenta noites de vigília,

Para o amanhecer mais tardio.

Quarenta dias de sonho,

Desmaiados num mar bravio.

 

Quarenta ladrões fugindo

Da natureza, sua mãe, também

Quarenta cestos empunhados

Gritando loas a ninguém.

 

Quatro abraços num só,

Parte de um mundo novo.

Quatro esperanças renascidas

Num grito que é do povo.

 

Quatro flores desabrochando

Em pétalas sempre luminosas

Quatro nós bem apertados

Em lindas casacas sedosas.

 

Um momento só…

Chega para se ser feliz.

 

Amadora 26/02/1999

Do baú... #2

Foram anos, semanas, dias,

Virados para o poente da vida

Onde noites bem quentes e frias

Criaram uma guerreira desta vida

 

Quantas lágrimas caíram...

Nessas mãos arrebatadoras!

Quantos gritos se calaram...

Entre vontades ameaçadoras

 

Ser poeta não é quem escreve

Mas aquele que nunca mente.

Pois o único amor que não trave

O desejo, a força e a paixão que sente.

Do baú... #1

Introdução:

Durante muitos e muitos anos foi rabiscando uns textos em blocos, cadernos ou até alguns foram escritos à máquina de escrever. Hoje comecei a recuperar alguns desses textos. A maioria são pedaços tristes, mal escritos e a requererem revisão. Mas prefiro deixá-los assim (quase) como o original. Chamarei a esta rubrica "Do baú..." e inicio com um pequeno e pobre poema que já não me lembrava de ter escrito mas que agora faz todo o sentido.

 

Sementes

à Maria, mãe dos meus filhos

 

Ontem entre a tarde e a noite

Lançaram-se as sementes à terra

No solo fértil, gracioso e generoso

E as dúvidas fecundaram certezas

 

Hoje as flores são já árvores

Ainda de tronco frágil e inquietante

Procuram protecção nos teus ramos

Acham vendavais nos ventos

 

Amanhã serão frondosos pinheiros

De frescas sombras e odores perfumantes

Um dia cairão novas sementes à terra

E tu serenamente verás novas flores.

 

Amadora 1990

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