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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desafio de escrita dos pássaros #2.3

Mote: manual para iniciar relacionamentos 

Pegou no aerograma amarrotado e conferiu a morada. Batia certo. Agora faltava o número 27. Desceu a rua ladeada por prédios de três pisos e um frondoso jardim onde cameleiras, carvalhos e eucaliptos conviviam em harmonia.

Achado o número procurou o andar seguindo as ideias do colega de armas, o Niza. Tocou no botão que dizia rés-do-chão e aguardou. O seu coração batia de excitação… Ninguém atendeu.

Insistiu. Nada.

Recuou dois passos e olhando para as janelas percebeu que as mais baixas pareciam fechadas.

- Ainda é cedo – calculou.

Sentou-se no degrau da escada e aguardou nem sabia bem o quê ou quem. Ao fim de um bom bocado apareceu uma idosa que ao aproximar-se da porta o cumprimentou:

- Bom dia!

- Bom dia minha senhora.

- Espera alguém?

O soldado desdobrou o aerograma e leu devagar:

- Cecília de Jesus…

- Não diga mais nada… sei muito bem quem é! Morava aqui em baixo no rés-do-chão, mas fugiu haverá aí seis meses com um miúdo que tinha idade para ser filho dela… Uma desavergonhada…

- Mas não está cá?

- Não! O senhor é familiar dela?

- Eu sou soldado… A dona era minha madrinha de guerra. Uma vez escreveu-me dizendo que quando chegasse à Metrópole viesse ter com ela que me arranjaria trabalho. E aqui estou…

- Ui mais um…

- Como?

- A Cecília teve por mau hábito arranjar muitos afilhados. Depois, tal como o senhor, vinham aqui ter com ela, ficavam dois ou três dias, ao fim dos quais ela aventava-os daqui para fora.

- Não percebi… - confessou genuinamente.

- Essa senhora tinha um manual para iniciar relacionamentos muito peculiar onde palavras como fidelidade e amor não existiam.

Sem perceber o que a idosa dissera, devolveu:

- Não sabe quando virá?

- Não imagino!

O veterano amarrotou o aerograma, enfiando-o no bolso e despediu-se da velhota:

- Muito obrigado, minha senhora.

Porém:

- Então o que irá fazer agora?

- Oh… vou até ao quartel até ser desmobilizado. Depois vou procurar trabalho.

- O que sabe fazer?

- Eu? – lembrou-se da Fajã largada havia anos no meio do mar azul - cavar umas batatas, apanhar uns inhames ou guardar umas cabecitas de gado.

- Lá na tropa não lhe ensinaram nada?

- Ensinaram... – um silêncio triste e negro abraçou o veterano.

Concluiu:

- Ensinaram-me a dar tiros… muitos tiros. E a matar!

Desafio de escrita dos pássaros #2.2

Mote: É que isso de médicos, nunca fiando

A sala enorme apresentava-se quase repleta. Sobrava um lugar aqui, outro acolá que rapidamente era preenchido por quem entrava. Do rouco altifalante saía de vez em quando um nome proferido por uma voz feminina. Automaticamente alguém se levantava para atravessar a porta de correr eléctrica.

Sentado no fundo da sala Elizário mirava tudo em seu redor. Quando alguém se sentava a seu lado e o cumprimentava devolvia sempre a saudação. Quem nada dissesse ele respeitava. Decididamente aquele era um mundo assaz estranho… Gente nova e menos jovem, sozinhos ou acompanhados, demasiados caíam naquele antro quase sem darem conta.

O ilhéu já habituado àqueles fortuitos convívios mudava todos os dias de sala de espera, não fosse alguém reconhecê-lo. A verdade é que desta forma o açoriano ganhava diariamente uma refeição grátis, oferecida pelas equipas de voluntários que, muito perto do meio dia, invadiam as salas de espera dos diferentes serviços.

Abordavam-no:

- Está para a consulta?

- Sim senhora! – mentia.

- Tem fome?

Tinha sempre…

- Sim.

- Então aqui tem. Bom apetite. – e passavam-lhe para a mão duas sandes, uma peça de fruta e uma bebida doce.

Assim que os voluntários saiam, o desamparado abandonava a sala e penetrava então na cidade já de barriga mais aconchegada. Era a hora de esmolar para a refeição da noite.

Naquela manhã sombria, Elizário optara pelo Serviço de consultas e tratamentos de Oncologia. Uma sala triste, que nem a enorme televisão acesa alegrava. A seu lado sentou-se uma idosa, meia dose de ossos e pouca carne. Carregava um ror de sacos que pousou no chão ao sentar.

Quase em suspiro saudou:

- Bom dia!

- Bom dia senhora! – respondeu naquele seu travo linguajar de ilhéu.

- É do Algarve? – calculou.

- Nã’ senhora!

- Da Madeira?

- Também não.

Finalmente ele esclareceu:

- Açoriano.

- Ahhhh!

A idosa debruçou-se sobre os sacos e retirou um naco de pão saloio rasgado ao meio por ovo. Iniciou a comer e entre dentadas, migalhas e gafanhotos, confessou:

- Levantei-me às quatro da manhã para estar aqui com a minha neta. Tem leucemia sabe, mas já está a ser tratada…

Elizário acenava com a cabeça que sim.

- O senhor também está em tratamentos?

- Nã’ senhora.

- Então vem ao médico?

- Nã’ senhora.

A mulher olhou-o de modo quase crítico. Ele acabou por arranjar uma meia desculpa:

- É que isso de médicos, nunca fiando!

Desafio de escrita dos pássaros #2.1

Mote: Acho que a coisa não vai correr bem

Sentado no peal de um prédio devoluto e que clandestinamente o albergava, Elizário mantinha a caixa de papelão no chão com uma simples moeda, sempre à espera que alguém se condoesse e deixasse uma redondinha, como ele gostava de lhe chamar.

Passara mais de meio século desde que partira da sua terra num velho navio de carga para vir cumprir o Serviço Militar Obrigatório para o Continente.

Saíra da Fajã de Santo Elói dois dias antes, pois a subida até ao cimo das Lagoas era obra dura e requeria persistência. Um naco de broa, um de inhame frito e uma botelha de vinho era tudo quanto carregava consigo quando trepou pela encosta íngreme por carreiros estreitos e perigosos enquanto olhava atrás de si o mar azul e infindável.

Certo dia perguntara ao Padre Josué o que havia depois do mar. O Padre teve dificuldade em responder a alguém que nunca soubera ler nem escrever quanto mais saber outras ciências.

Elizário não percebera a resposta, mas ali de cima via cada vez mais mar dando razão à sua ideia de que para lá do horizonte não existiria mais nada... senão mar.

Chegou à vila no dia seguinte e procurou no pequeno porto o navio que o levou. Embarcou para o fundo de um convés mal cheiroso e onde encontrou outros ilhéus.

- Viva boa tarde…

Acordado das suas tristes e longínquas memórias o açoriano não respondeu até que insistiram:

- Olá boa tarde... como se chama?

- Está falando comigo, senhor? - nunca perdera a forma delicada de falar da sua ilha.

- Estou sim. Como se chama?

À terceira lá veio o nome:

- Elizário, senhor!

- Não tem família?

- Nã' senhor!

Assentara praça num qualquer quartel e depressa partira para África ainda a tempo de apanhar o auge da guerra. Não a temeu. Pelo menos ali, tinha que comer, vestir, calçar e uma cama para dormir, em vez da enxerga pobre e peçonhenta que partilhava com um rancho de irmãos. E depois a morte sempre fora algo com a qual convivera toda a vida. Havia sido quatro irmãos, um tio, uma avó ou simplesmente muitos dos seus famintos companheiros que por entre inhames e milho corriam atrás de algum coelho descuidado.

Mas o seu maior receio fora mesmo o regresso à metrópole. Desse tempo padrasto guardou para sempre um pensamento: Acho que esta coisa não vai correr bem!

Desafio de escrita dos pássaros #17

Mote: Luz e sombra

A tela pictórica estendida à sua frente dava-lhe ares a qualquer coisa, mas não se lembrava bem do quê. E já ali estava há um par de horas a observá-la.

De quando em vez um visitante passava, olhava para o quadro e seguia. Outros, tal como ele, ficavam ali mais algum tempo. Sentavam-se ao lado de Malquíades, sorriam para este e raros eram os que partilhavam comentários, sempre em línguas diferentes.

O quadro fora pintado por Beatriz e encontrava-se em exposição numa das mais conceituadas galerias de arte de Barcelona, situada no bairro gótico quase paredes meias com o museu Picasso.

O movimento ao redor da galeria era imenso, essencialmente turistas que passavam, espreitavam, entravam e por fim ficavam espantados com a beleza das telas que a namorada de Malquíades pintara nos últimos anos.

Beatriz, já com uma evidente barriga de grávida, tentava explicar aos visitantes as razões de cada tela num inglês bem pronunciado. Por vezes surgia um ou outro que falava catalão, língua que a pintora também dominava. O problema parecia ser o francês ou o alemão…

Num pequeno intervalo Beatriz sentou-se ao lado do namorado encostou a cabeça a Malquíades e perguntou:

- Há quanto tempo estás aqui sentado?

- Não sei. Perdi a noção dos minutos.

- Gostas deste quadro? – apontando para a tela enorme.

O jornalista luso gostava especialmente daquela tela, mas continuava sem saber as verdadeiras razões da sua preferência. Respondeu à namorada:

- Este desenho é curioso, diferente…

Beatriz ficou em suspenso a aguardar as restantes ideias do namorado.

- A palete de cores com os respectivos contrastes, a profundidade do desenho, aquela silhueta baça…

- Tu davas um excelente crítico de arte – interrompeu Beatriz.

- Nem penses… Não tenho competências para tal…

E mudando rapidamente de assunto:

- Como está a nossa Eva? – e passou com doçura a mão bela barriga redonda da futura mãe.

- Está bem. E recomenda-se… Amanhã vou fazer outra ecografia.

- Vou contigo.

- Acho bem… Ah… ainda não te perguntei… Como foi andar de avião pela primeira vez?

Silêncio.

- Ui… já percebi que não correu bem!

- Correu, correu… Pensei que fosse pior!

Malquíades poisou o queixo nas mãos e perguntou:

- Mas o que será que me lembra este quadro?

Subitamente:

- Como é que se chama?

- “Luz e sombra”!

- Tem piada… este título é o último tema do “Desafio dos Pássaros”!

Desafio de escrita dos pássaros #16

Após alguns pequenos avanços e muitos recuos na vida, Malquíades conseguira finalmente assentar num trabalho onde, estranhamente, se sentia bem.

A sua primeira opção de emprego como jornalista não havia corrido de forma iluminada. Diversos conflitos com colegas e maioritariamente com o chefe da redacção, fizeram com que abandonasse o jornal mais cedo do que gostaria.

Saltitou de emprego em emprego (chegou mesmo a concorrer a Pai Natal!!!), até parar naquela agência onde a sua única função seria… escrever. Ao que constava figuras mais ou menos públicas tinham blogues, mas eram os outros que escreviam os supostos textos. Para Malquíades a situação era confortável desde que lhe pagassem. E pagavam… principescamente.

O pior mesmo ocorreu quando lhe encomendaram um texto sobre um tema quase filosófico. O tipo que solicitara o trabalho à agência era um pequeníssimo “bloguer” de nome bizarro e que se confundia com uma bebida. O tema versaria: “Sobre a vida adulta: Ainda não entendi o que é para fazer”.

- Que raio de tema escolheu este tipo… - pensou o escritor a soldo.

Perguntou quantos dias teria para escrever…

- Mais ou menos 15 dias, mas convém que escrevas quanto mais cedo melhor, porque recebe-se mais algum… – confidenciou o chefe.

Sentado à secretária na sua casa e enquanto afagava docemente o Aissú, o jornalista ficou muito tempo a matutar. De súbito, como era seu apanágio, virou-se para o portátil e começou furiosamente a escrever. Ao cabo de uns bons minutos parou, releu o que redigira sobre o tema encomendado e um sorriso meio traquina aflorou ao rosto.

Tocaram à campainha da rua.

- Quem será a esta hora? – perguntou, visivelmente desagradado.

Malquíades abriu a porta para surgir na sua frente… Beatriz. Linda como sempre.

- Bia? Mas… mas… Não estavas em Barcelona numa exposição?

- Estava sim – pondo-se em bicos dos pés espetou um ósculo no namorado.

Depois entrou e sentando-se no sofá, chamou-o:

- Anda, senta-te aqui ao pé de mim que tenho uma coisa para te dizer.

- Mau… que se passa?

- Estás preparado para me ouvires?

Nunca estava, mas mentiu:

- Sim… sim… estou…

- Estou grávida… Vais ser pai… - confessou com um sorriso luminoso.

Malquíades sentiu-se gelar. Um rol de emoções no coração… Pai? Iria ser pai? Mas ser pai era coisa de…

Olhou para o portátil e percebeu que tinha muita coisa para alterar no texto acabado de escrever.

Desafio de escrita dos pássaros #15

Mote: O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevistas na perspectiva do recrutador de recursos humanos: A Rena Rudolfo.

 

Coçou os apêndices corníferos que saiam da cabeça com as patas da frente e releu as respostas às simples questões formuladas. A candidatura “on-line” que exibia no seu computador fê-lo rir. Provavelmente para muitos esta ficaria logo excluída. Todavia Rudolfo apreciara a forma desempoeirada como o candidato respondera às perguntas.

Tem noção de qual será o seu futuro trabalho?

Hoje não sei, mas logo saberei.

Como se relaciona com as outras pessoas?

Não me relaciono. Os outros é que se relacionam comigo!

Acredita no Natal?

Acredito no que vocês quiserem.

Sabe o que é o espirito de Natal?

Sei… chama-se cartão de crédito.

Sabe quem é o Pai Natal?

Um tipo que se vendeu a uma empresa de bebidas que muitos bebem e poucos gostam.

Qual a razão que o levou a concorrer?

Estou no desemprego e necessito comprar ração para o Aissú, o meu canito.

Voltou a rir com gosto…

Chamou a “Corredora” uma rena que em tempos também guiara o Pai Natal por esses céus fora, mas que agora resumia a sua vida a ser secretária de Rudolfo.

- Diz…

- Chama este tipo cá… quero entrevistá-lo – e mostrou-lhe no computador a foto de Malquíades.

- É para já!

Passados alguns minutos a secretária bateu e entrou no gabinete. Foi avançando:

- O candidato perguntou se a entrevista poderia ser por Skype?

- Cá para mim… sem problema.

- Então marco para que horas?

- Sei lá… tenho aqui tantas candidaturas para ler… - Novamente as patas nas hastes – pergunta se às 5 será boa hora para ele.

- Marco então para as 5. Se ele não puder venho cá avisar então da nova hora.

- Boa.

À hora prevista Rudolfo ligou para um número e aguardou que atendessem. Tocou uma, duas e à terceira alguém atendeu. Malquíades surgiu no ecrán numa imagem meio difusa.

Rudolfo sem tempo a perder foi direito ao assunto:

- Sou o Rudolfo com a responsabilidade dos Recursos Humanos e estou aqui para o entrevistar. Tem alguma questão que pretenda fazer primeiro, antes de começarmos?

O director percebeu, mesmo à distância, o desconforto do entrevistado, mas aguardou que o jornalista dissesse algo mais. Finalmente ouviu:

- Desculpe poderia tirar a máscara? Não sei se já percebeu, mas o Carnaval ainda vem muito longe.

- Esta é a minha cara!

- Upps, então creio que a sua esposa não se tem portado bem, ultimamente!

Desafio de escrita dos pássaros #14

Mote: Não nasci para isto

Quando Malquíades entrou no restaurante encontrou Andrelino acompanhado por dois tipos que não conhecia. O amigo mal o viu ergueu-se e veio ao seu encontro de braços abertos:

- Ena homem, como estás? Faz tempo que não nos vemos…

- Viva parceiro…

Aproximaram-se da mesa:

- Adérito Candeias e Adail Marques.

- Boa tarde, muito prazer, Malquíades…

Andrelino não deixou que o amigo terminasse as apresentações:

- Senta-te aí.

Chamou o empregado e comunicou:

- Traga uma garrafa de água.

Deu uma palmada nas costas e atirou:

- Desculpa este convite para almoçar quase intempestivo, mas necessitamos da tua ajuda.

- Se eu puder…

- Claro que podes… Estes cavalheiros estão ligados à política como assessores. Todavia não conseguem manter uma relação próxima e pacífica com a imprensa, que como sabes está sempre ávida de notícias.

O jornalista mantinha-se em silêncio enquanto beberricava a água. O amigo continuou:

- Perguntaram-me então se conhecia alguém no meio jornalístico que os pudesse ajudar. E claro lembrei-me de ti…

Um dos convidados chegou-se à frente no diálogo:

- Muitas notícias que lemos carecem de veracidade. Outras são obras de verdadeiros zoilos que a única coisa que pretendem é denegrir a imagem de um político.

Malquíades passou a mão pelo cabelo, percebendo aonde pretendiam chegar. No entanto continuou a escutar as propostas.

- Deste modo gostaríamos que nos acompanhasse como assessor de imprensa… - convidou o outro.

O escritor olhou para ambos à sua frente e devolveu:

- Portanto o que vocês querem é uma censura encapotada.

Um deles veio a terreiro.

- Censura? Nem pensar. Estamos num país livre e democrático.

Malquíades olhou em seu redor, baixou o tom de voz como se quisesse esconder alguma palavra e por fim disse:

- Nenhum de nós aqui nesta mesa sabe o que foi viver em ditadura.

Após alguns breves segundos em que o silêncio reinou foi a vez de Andrelino regressar à conversa:

- Isto não é censura, mas unicamente controlar a forma como dão as notícias. Um exemplo: conheces aquele Desafio dos Pássaros?

- Sim…

- Como já deves ter notado cada um escreve algo diferente sobre o mesmo tema. Na política também é assim…

Três pares de olhos espectantes incidiram sobre o jovem, mas este declarou sem rodeios:

- Peço imensa desculpa, mas não contem comigo para tal função!  Definitivamente não nasci para isto!

Serenamente pegou no casaco e abandonou o restaurante.

Desafio de escrita dos pássaros #13

Mote: Reescreve o final dum filme

A confusão estava instalada na enorme sala de reuniões do jornal. O chefe da redacção, Pigmélio Antunes, coadjuvado por um dos editores, o Filinto Brandão, lançara no início da reunião um tema para a mesa que se tornaria palco de terríveis bravatas.

A ideia de um desafio no sentido de se reescrever o final de um filme até tivera estranha aderência. O pior viera depois quando uns consideraram que o filme deveria ser o mesmo enquanto outros desejavam um livre critério.

Enquanto as ideias eram bramidas em vez de civicamente discutidas, Malquíades olhava aquele espectáculo quase degradante, mantendo-se em silêncio no canto da imensa mesa.

Quando o chefe percebeu que perdera o controlo da discussão gritou de forma a fazer-se ouvir:

- Ó pessoal vamos ter calma, sim? Aqui o Malquíades ainda não expressou a sua ideia e eu gostaria de saber o que ele pensa deste tema.

As hostes acalmaram após o berro do chefe e todos poisaram o olhar no jornalista. Malquíades sentia-se mal naquela posição onde era o centro das atenções. No entanto também tinha uma visão e seria interessante proferi-la. Recostou-se na cadeira, abriu o seu velho caderno de apontamentos onde rabiscara umas ideias e disse então:

- Ao invés de vós considero este exercício uma verdadeira perda de tempo e de recursos.

Um burburinho atravessou a sala. Continuou:

- Como sabem os filmes são geralmente simétricos o que equivale dizer que para se reescrever o final de um filme, teria de reescrever também o seu início e provavelmente o meio…

Algumas cabeças acenaram que sim, outras que não, mas o silêncio de todos imperou. O jovem continuou:

- Percebo qual a ideia subjacente, todavia creio que haverá outras formas da redacção testar a qualidade da escrita e das ideias dos restantes redactores.

O editor entrou em defesa do exercício:

- Isto não é um teste à escrita de todos vós. Longe disso e nem faria qualquer sentido.

- Ah não?

- Não… é simplesmente um teste aos nossos leitores.

- Pior que seres incompetente é seres parvo!

Um silêncio cavo penetrou na sala. Uma mosca ouvir-se-ia a voar. O editor levantou-se da mesa irado, pegou nalguns papéis e saiu célere da sala. Outros redactores também afrontados seguiram-no. No fim Pigmélio observou:

- Não havia necessidade desta quezília. A ideia foi unicamente minha…

- Então o parvo és tu! – declarou Malquíades.

E abandonou também a sala.

Desafio de escrita dos pássaros #12

Mote: Aqueles pássaros não se calam

(Texto dedicado à Magda pelo seu aniversãrio!)

Enquanto Beatriz devorava as “Viagens” da Magda Pais confortavelmente recostada num sofá e tendo a seus pés um Aissú atento e amigo, Malquíades sentado à secretária ia desfiando textos para o jornal.

Os dedos fugiam céleres por entre as teclas do portátil. Parava, relia, revia, modificava e continuava. De vez em quando passava as mãos pelo cabelo, sinal que dúvidas lhe haviam assaltado o espirito. Depois, numa quase ferocidade, voltava a escrever.

Era uma daquelas brandas tardes primaveris, sem nuvens e onde o sol quente invadia o lar através de uma janela e da qual se podia ver o pomar de laranjeiras, qual “orangery” no Palácio de Schönbrunn, em Viena. Uma paisagem bucólica carregada de beleza, paz e serenidade. Tal como ambos adoravam.

Beatriz fechou o livro, ergueu-se do sofá devagar e quase em silêncio, aproximou-se do namorado, envolveu-o naquele costumado abraço quente, beijou os cabelos desalinhados e quase em surdina perguntou:

- Queres um chá?

- Sim.

Entretanto o canito abriu um olho, espetou uma orelha para perceber onde iria a amiga, mas depressa regressou à sua sesta quando deu conta que a menina se dirigia para a cozinha. Se fosse a rua… Talvez mais tarde!

Duas chávenas fumegantes deram à sala um ar perfumado. Beatriz poisou uma ao lado de Malquíades e levou a outra consigo. Recuperou o livro e foi beberricando a infusão enquanto lia.

A tarde adormecia já no horizonte trazendo cores mescladas e dando à véspera um sabor morno. Beatriz saiu do seu lugar carregando o livro, aproximou-se da janela e encostada a esta foi recebendo o sol em cheio, continuando a ler.

Todavia, faltava ao momento uma musicalidade exterior que as janelas fechadas não permitiam. Portanto abriu uma para deixar que o ar da tarde penetrasse na sala tépida.

Da fora veio então um som característico de fim de dia… Um vento manso sibilava por entre a folhagem nova e viçosa enquanto bandos de pardais, pintassilgos, piscos, melros concorriam entre todos pela conquista do melhor poleiro para a noite que se avizinhava.

Disse Beatriz:

- Tenho pena que os quadros que pinto não possam ter som... ficava tão bem este aqui…

Malquíades encolheu os ombros num gesto de paciência e continuou a escrever. Por fim levantou-se, encostou-se à namorada observando a paisagem e exclamou:

- Definitivamente aqueles pássaros não se calam…

- Estes aqui? – perguntou admirada com o desabafo.

- Não miúda… os outros!

Desafio de escrita dos pássaros #11

Mote: Um dia na tua família… do ponto de vista do teu animal de estimação

A luz da manhã incidiu nos seus olhos ainda fechados, acordando-o. Dormira bem! Espreguiçou-se e saiu da cama de forma calma. Voltou a espreguiçar-se…

Entrou no corredor e reparou numa roupa estranhamente espalhada pelo chão: umas calças de ganga aqui, uma blusa acolá, cuecas mais à frente, meias… e finalmente um soutien!

Pensou:

- Mas quem é esta que está cá hoje? Cada noite é uma diferente, pobre homem. Desde que a Beatriz se zangou com ele por causa daquela tal Constança…

Preocupado acabou por voltar atrás e foi-se novamente deitar. Enroscou-se e adormeceu.

Já ia alto o Sol quando ouviu chamar:

- Aissú, Aissú acorda… vamos à rua dar uma volta.

Abandonou novamente a sua cama devagar, aproximou-se de Malquíades e recebeu uma longa e saborosa festa. Finalmente a rua onde pode aliviar-se e rever a cadela do segundo andar, uma cocker que ele tanto adorava. E ela a ele!

Malquíades sempre fora de poucas palavras, mas de muitos afectos. Tardes inteiras deitados no sofá com o seu amigo a ler e ele a dormitar, numa modorra contagiante.

Regressaram ambos a casa.

- Vá companheiro… deixa-me arrumar esta roupa espalhada que à tarde tenho de sair…

Nova festa por baixo do seu focinho. Aissú devolveu-lhe uma lambedela em compensação. Era assim a amizade entre ambos… repleta de troca de mimos.

Voltou para o seu costumado lugar no sofá, quando não estava a dormir e aguardou que Malquíades o brindasse com aquele biscoito que ele tanto adorava.

Chegara àquele lar havia pouco tempo, mas a relação entre ambos assumira-se profunda e sem exigências. Havia ainda coisas para perceber e habituar-se, que compreendia essencialmente horários. Mas com o tempo Aissú acreditava conseguir lidar com facilidade com Malquíades. O único problema seriam aquelas meninas que todos os dias, ou melhor noites, surgiam na casa. Algumas temiam-no, é certo, mas também havia razão para tal porque ele nunca lhes mostrava grande simpatia e um rosnar era o sinal.

Sempre gostara de Beatriz… Mas esta deixara de aparecer… e ele tinha pena.

Um barulho confuso veio de dentro da casa, provavelmente do quarto onde uma amiga colorida dormia ainda… Não se moveu. Apenas abriu um olho e esticou uma orelha para se certificar.

De repente apareceu na sala envolta num roupão de Malquíades e com uma caixa repleta de biscoitos:

- Bom dia Aissú!

O cão ladrou de alegria:

- Beatriz!

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