Não acreditei quando me disseram que estive assim tão perto de um humano, não acreditei mesmo! Se não fosse uma mana a afiançar-me ficaria com a ideia de que andavam a zombar de mim.
Na verdade, esta manhã acordei com o gostoso calor do sol, que por entre muitas pedras lá conseguiu penetrar e aquecer-me. Hummmm, tããããããão bom aquele calorzinho!
O problema é que me deu a fome. Uma fome danada, daquelas em que apetece tudo comer. Bom saí da minha toca de Verão – no Inverno costumo ficar numa muito longe do frio – vim até à superfície, mas com todos os cuidados que anda por aí muita malandragem.
Apanhei uma mosca logo ali, depois mais um gafanhoto pequeno, mas bem perto da saída avisaram-me que havia um lugar repleto de comida. Porém para lá chegar teria de atravessar um conjunto de pedras cinzentas e já quentes pelo Sol da manhã.
Anda eu em busca do lugar quando de súbito dou com aquele bicho enorme, que se encontrava ali mesmo à minha frente, muito quietinho, quase parecia eu quando me preparo para atacar. Parei e ali fiquei sempre muito atenta ao que o humano fazia. Sei lá o que aquele bicho poderia atentar numa lagartixa tão pequena como eu. Se fosse como alguns dos meus primos… Ah pois é… há pra’í um local onde há milhares de familiares meus. E pelo que sei enormes, com ninguém a incomodá-los…
Não sei nem imagino o tempo que ali ficámos tão sossegadas, mas eu, como já disse, estive sempre muito atenta.
De repente escutei no campo um barulho estranho e o humano saiu do lugar. E eu também… é que posso perder o rabo, mas não pretendo perder a vida. Fugi dali rapidamente e entrei no meu covil já meio quente.
Daqui mais um pouco volto para apanhar Sol e mais comida. No entanto espero que o bicho humano regresse. Digam o que disserem gostei de estar ali a partilharmos ambos o Sol do meio da manhã.
Já passou muito tempo. Entretanto comi mais umas mosquitas, mas a figura humana desapareceu definitivamente. Não sei se não gosta de Sol ou se foi outra coisa qualquer…
Ah tenho uma novidade… A mestra da família disse-me há pouco que também viu o humano e contou-me várias novidades sobre o humano. É uma fêmea ainda muito jovem e que provavelmente viria acompanhada por outro humano mais velho, E é destes que devemos ter mais cuidado.
Amanhã se a fêmea pequena voltar a aparecer vou subir para cima dela, isso será certo. Ensinaram-me que eles deitam um calor muito acolhedor e eu gosto de coisas quentinhas.
Mas não percebo porque o tal bicho homem nos quer fazer mal. Eu não lhes faço mal nenhum e nem quero comer a comida deles. Aquilo cheira mal…
Enfim aguardemos pois que o humano fêmea aqui volte, certamente que ficaremos boas amigas.
Leotilde acordou cedo ainda o Sol não despontara por detrás da serra. Andou pela casa a arrumar as parcas roupas que a filha, Gabriela, deixara espalhadas e quando o astro-rei surgiu foi acordar a miúda.
- Gabi, querida! Acorda sim? A mãe precisa de ir trabalhar e tu tens de ir comigo.
A menina virou-se na cama sem vontade de acordar. A mãe insistiu:
- Vá lá amor… Acorda! – e agitou-a tão devagar que quase parecia um embalo.
Gabriela abriu um olho para finalmente se levantar. Na ínfima casa de banho tratou da sua higiene para depois seguir para a cozinha onde se vestiu. Aqui a mãe tratava de lhe preparar o pequeno almoço e uma bucha para ambas comerem ao meio-dia.
Enquanto terminavam o pequeno-almoço a filha perguntou:
- Onde vamos mãe?
- Combinei que iria hoje cavar a terra do senhor Florentino.
- E é longe daqui?
- Um bocadinho. mas eu levo-te ao colo.
- Não preciso mãe… eu gosto de andar nas terras! Gosto de ver os bichinhos…
- Eu sei querida e fico muito contente por gostares de tratar bem a Natureza. Mas agora despacha-te que tenho de passar por casa do patrão buscar uma enxada.
Após uma longa caminhada Leotilde largou a pesada alfaia na terra e comunicou:
- Pronto chegámos! Deixa o farnel pendurado nessa oliveira e a infusa sob aquela carrasqueira - e apontou ambos os lugares à filha – enquanto cavo isto podes ir brincar e procurar os teus bichos. Mas não vás para muito longe…
- Sim mãe!
A cachopita pendurou o saco de pano num pequeno galho partido no pé da oliveira e foi esconder a infusa repleta de água fresca no imo mais fresco da viçosa carrasqueira. Depois foi brincar.
Por entre pedras e arbustos a pequena Gabi tentava encontrar os seus bichos. Ali um monte de terra denunciava uma entrada para uma toca de formigas laboriosas e irrequietas. Mais à frente um coelho correu fugindo apressado. Entretanto no ar esvoaçavam muitos pássaros, especialmente cartaxos, pardais, melros e um ou outro pisco. Olhando o céu anilado e cortado pelos vôos das aves, Gabriela sentia-se também uma ave. Não voando é certo, mas sentia também aquela liberdade. O curioso é que os passaritos preferiam a presença da mãe à dela. Procurou-a de enxada na mão ferindo a terra vermelha e seca.
- Mãe porque é que os pássaros gostam mais de ti do que de mim?
Leotilde poisou a alfaia e descansou. Passou o braço pela testa para depois devolver à filha:
- Eles não gostam mais de mim que de ti… Mas como estou a cavar faço vir ao de cima alguns bichinhos especialmente minhocas que os passaritos levam para os ninhos para dar de comer aos filhos…
- Ahhh! – e virando as costas à mãe foi em busca de mais natureza.
O calor principiava a apertar e Gabi já cansada sentou-se num pequeno penedo à sombra de um frondoso medronheiro. Depois com uns pauzitos e demais folhas que foi recolhendo construíu uma pequena casa como se os pássaros ou outros animais lá quisessem ficar.
Estava nesta azáfama quando percebeu a aproximação de uma lagartixa. Pequena, ligeira e desconfiada, o réptil parecia procurar o calor emanado pelo Sol. Subiu a um conjunto de pedras cinzentas e sentindo aquelas já saborosamente quentes parou. E ali ficou longos minutos a observar e a ser atentamente observada pela menina curiosa.
Gabriela nem se mexia. Encantada com a nova companhia ali ficou longuíssimos minutos em modo estátua, evitando com isso que a lagartixa fugisse. Mas a mãe haveria de estragar tudo.
- Gabi querida, onde estás?
Tapada por uns arbustos a mãe não a veria e daí a menina tentou sair do lugar lentamente. Todavia a lagartixa ao mais pequeno gesto da menina desapareceu no meio da vegetação que crescia espontaneamente. Finalmente respondeu:
- Estou aqui, mãe. Estou a ir!
Já perto da Leotilde, esta perguntou:
- O que estavas a fazer, querida?
- A tentar fazer amizade com uma lagartixa! Tão bonita. Chamei-lhe Clotilde!
A antecessora deu uma sonora risada para logo avançar: