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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Contos para a minha neta ler!

A menina e o burro

Naquela planície plana e a perder de vista nasceu certo dia um burrito. A sua mãe desde logo o protegeu, assim como os restantes animais do prado como os cavalos, éguas, vacas, bois, ovelhas e carneiros.

O pequeno asno rapidamente foi adoptado por todos o que fez dele um animal muito feliz.

Todavia à volta do prado havia uma cerca alta e robusta que limitava as fugas e ao mesmo tempo a entrada de outros animais.

Certo dia o jovem jumento abeirou-se da cerca. Do outro lado uma menina olhava o prado com um olhar iluminado ao qual acrescentou um sorriso infantil. Assim que percebeu o burrito estendeu a mão para uma festa ao animal.

De repente a mãe da menina surgiu a correr e tentou afastar a criança que começou a chorar. Porém no dia seguinte voltou a aparecer e todos os dias seguintes. Da menina e do burro nasceu assim uma forte amizade sem que ambos o percebessem.

O animal sempre que via a cachopita a aproximar-se da cerca corria para ela e a menina passou a trazer maçãs e favas para o burrito comer.

Brincavam como podiam, cada um do seu lado da cercadura… Mas ambos pareciam felizes.

Um dia e sob um descuido maternal a menina ficou a brincar até mais tarde. Caía sobre a planície uma penumbra estranha pronta para a chegada dos mais vorazes.

Foi nesse instante que uma loba esfomeada se aproximou lentamente da cerca onde brincava a criança e o burro. Dissimulada por entre a densa vegetação a loba olhava a criança com um apetite voraz.

De súbito do outro lado da cerca todos os animais do prado estavam juntos evitando que a menina fosse atacada pela fera. Mas a criança não percebia o perigo que se aproximava da orla da floresta.

Quando a loba tentou atacar os outros animais juntaram-se numa algazarra que despertou a atenção dos pais que correram apressados ao prado.

Assim que chegaram já nada podiam fazer… havia sido tarde demais! A menina sentada no chão afagava com doçura a loba esfomeada.

Uma longa noite!

Acordou repentinamente. Olhou o despertador que iluminava 2 e 13. Ergueu-se e recostou-se na cama. Estendeu a mão, acendeu a luz da mesa de cabeceira e pegou no cachimbo. De seguida a bolsa de plástico com as farripas castanhas do tabaco e por fim o calcador e restantes utensílios.

Com as pontas dos dedos indicador e polegar foi retirando farripas castanhas e foi carregando o fornilho negro. De seguido calcou o conteúdo. Voltou a encher até ficar repleto e bem calcado. Por fim pegou no picão e espetou-o até sentir o fim do fornilho.

Foi o momento de o acender. Pegou num fósforo e ateou-o. Com a chama viva aproximou-a da boca do fornilho, levou a boquilha aos lábios e aspirou. A chama entrou então por entre as farripas secas acendendo-as.

O fumo começou a subir e finalmente recostou-se ainda mais à cabeceira da cama. Ao seu lado na cama residiam um monte de folhas brancas de tamanho A4, uns blocos quadriculados, uma velha máquina de escrever e uma série de lápis e canetas. Na outra mesa de cabeceira dormiam alguns copos sujos e no chão algumas garrafas vazias de vinho.

Mirou aquela feira e enterrou-se no meio dos lençóis que havia muito não conheciam lavagem. Continuou a fumar. Assim que esvaziou o cachimbo levantou-se da cama e acendeu a luz do quarto. Pairava no ar um cheiro nauseabundo e pestilento onde o aroma adocicado do fumo do cachimbo se misturava com o cheiro de vinho azedo.

Tinha pouco mais de seis horas para acabar o seu livro. Assim fora o último acordo após demasiados adiamentos. Mas a preguiça…

De súbito escutou o telefone a tocar. Ouvia-o, mas desconhecia onde estava. Quando o encontrou olhou o aparelho e viu escrito o nome do seu editor.

Para logo a seguir soar uma sinatética de uma mensagem. Leu:

Estou à tua porta. Já percebi que estás acordado porque vi luz no quarto. Deixa-me entrar”. Aproximou-se da janela e deparou com uma figura magra que encostado a um poste de electricidade, lhe acenou.

Decorreram mais de dez minutos até que franqueou a porta.

- Desculpa a hora, mas não posso deixar que um talento como o teu seja desperdiçado. Achas que falta muito para acabar o livro?

O escritor de cachimbo vazio na mão, sentou-se na beira da cama e devolveu:

- Falta-me o fim… Serão no máximo três folhas, mas são mais importantes que o resto do livro.

- Porra homem acaba isso caneco. Mesmo que não fique bem agora ainda podes corrigir antes da publicação…

De súbito ocorreu uma ideia ao editor. Agora passá-la ao escritor é que seria mais difícil. A cabeça fervilhava e poderia ser uma ideia brilhante, mas o autor teria de concordar.

- Escuta… tive uma ideia.

- Sobre?

- O final do teu livro…

- Como assim?

- Entrega-o sem fim…

- Tu estás louco! – ergueu-se da cama e aproximou-se uma vez mais da janela.

- Posso estar, mas pode ser uma ideia genial… Pensa nisso agora.

- Não posso porque o título do livro está neste final apoteótico.

- Mas isso é fácil… Basta mudares o nome do livro…

O escritor aproximou-se do editor e ameaçou-o de forma ríspida:

- Nem penses, nunca na vida! Isto não é “A história interminável”…

- Eu sei companheiro, eu sei! Então termina a porcaria do livro – respondeu o editor já visivelmente irritado.

Saiu batendo com a porta.

Eram 3 horas de uma madrugada!

Quatro horas mais tarde a máquina de escrever, finalmente, calou-se!

Prova de amor!

Com os pés descalços enfiados no manso caudal do ribeiro, ela perguntou-lhe:

- Amas-me?

Ele gostava dela, mas amá-la? Sabia lá o que isso queria dizer… Todavia:

- Claro que sim… Duvidas? – arriscou.

- Eu não duvido que te ame – respondeu ela agitando os pés alvos na água, originando que a areia do fundo saísse do seu permanente repouso.

- Então?

- Duvido é que saibas o que é o amor…

Seria que ela lia a sua mente? Ou ele falara em tom alto? A verdade…

- Porque dizes isso?

- Oh… conheço-te… E sei o que passaste quando eras miúdo… com os teus pais.

- Isso não quer dizer nada – desculpou-se.

Tirou os pés da água fria, limpou-os à borda do vestido, calçou os sapatos e dando a mão ao namorado, acrescentou:

- Quero uma prova de que me amas…

- Como assim? – assustou-se

- Se me amas fazes tudo por mim, certo?

- Sim… sim…

Ela não gostou da gaguez dele, parou e enfrentou-o:

- Ficaste gago de repente?

- Não… Mas eu também te conheço e nem imagino o que me vais pedir para fazer…

- Fácil, vai ser muito fácil…

Ele temia… temia que ela o colocasse numa posição pouco confortável. Mas seguiu-a normalmente.

A tarde trazia uma aragem cálida com cheiro a milho acabado de ceifar. Um ou outro cirro escondia a espaços o sol quente. Chegados à aldeia encaminharam-se para casa dela.

- Vamos a tua casa?

- Vamos…

O pai dela não era o cúmulo da simpatia não obstante saber e autorizar o namoro. No entanto era conhecido pela sua teimosia e raramente perdia uma demanda.

- Agora que estamos a chegar quero que convenças o meu pai a termos um cão.

- Como…

- É o que te disse… convence o meu pai a eu poder ter um cão e fico convencida que me amas.

A proeza parecia bem maior que a princípio parecia, já que o jovem conhecia sobremaneira o espírito do pai da namorada. Um primeiro suspiro seguido de um sopro denunciou-o.

- Já sopras?

- Deixa-me com os meus botões. E o que tenho de dizer?

- Diz o que quiseres. Só quero que ele diga sim. Compra-o… faz o que entenderes.

Ela esboçou um sorriso malicioso.

Já em casa após os cumprimentos sempre frios dos antecessores da jovem, o rapaz pegou no braço do eventual futuro sogro e pediu:

- Caríssimo, necessito falar consigo algo muito importante…

- Não me vai pedir dinheiro emprestado, pois não?

- Obviamente que não. Mas se fosse esse seria o menor dos seus problemas.

O outro olhou-o e ficou intrigado! Por fim:

- A sua filha quer que eu lhe dê uma prova de que a amo.

- E não ama?

- Oiça… posso continuar?

Perante o silêncio, prosseguiu:

- Então a prova passa por eu o convencer a autorizá-la a ter um cão…

- Nem pensar! Ela que desista da ideia… - gritou furioso.

- Calma, calma. Estou de acordo consigo… Mas eu tenho de superar esta prova. E o senhor vai-me ajudar…

- Já disse que não quero cá cão nenhum. Fim de conversa!

- Mas deixe-me explicar. O amigo ainda não percebeu que eu também não quero um animal na minha vida? Ela é que quer…

O mais velho ficou pensativo…

- É fácil… Chegamos ali os dois e comunicamos que o amigo autoriza um cão cá em casa…

- Mas…

- Calma homem, calma – interrompeu o jovem – Ela vai cair aos seus braços toda contente, mas é aí que você mata a jogada.

- Não percebo…

- O meu caro vai dizer que autoriza desde que o animal fique sempre em sua casa, mesmo quando ela se casar e sair do lar.

- Mas eu não quero isso.

- Pois não, eu sei… Mas se colocar essa condição ela irá recusar. Mas você autorizou o cão que nunca virá e eu ganho a confiança dela.

O pai olhou-o de soslaio e tentou rebobinar a história.

- Então eu chego ali e digo que você me convenceu a que a minha filha traga um cão cá para casa desde que ele nunca mais saia de cá. É isso?

- Perfeito!

- E se ela aceita?

- Creia-me que ela não aceita esta condição.

- Você está muito confiante.

- Estou.

- Convenceu-me… Então vamos lá…

Entraram ambos na sala em amena cavaqueira e a jovem tentou ler nos olhos do namorado a resposta. Mas não conseguiu. Por fim o pai principiou a falar.

- Aqui o teu rapaz sabe-a toda…

- Então paizinho…

- Convenceu-me a que tragas para cá um cão. Algo que nunca autorizei.

A jovem deu um grito de alegria e correu para o pai a abaraçá-lo.

- Ai… obrigada… a ambos!

- Porém há uma condição que imponho…

- Oh bem me parecia que fora fácil demais…

- O animal ficará sempre em nossa casa mesmo que um dia saias de cá!

A jovem ficou petrificada. Tal como namorado previu aquela não era a vontade dela. Olhou para o jovem e depois para o pai e finalmente a mãe. Rodou nos calcanhares para não mostrar uma lágrima que fazia caminho pela face lisa e bonita. Os homens entretanto esboçaram um breve sorriso de vitória e o pai piscou mesmo o olho ao futuro genro.

De repente a filha devolveu:

- Está bem… de acordo. Assim quando for para a minha casa arranjo outro cão!

Ivo, o terrível!

Ivo nasceu há muitos anos numa aldeia pobre. À sua volta uma enormidade de irmãos e irmãs que lutavam diariamente por uma migalha de pão duro e bolorento.

Entre os que morreram e os que se salvaram sobraram seis. Coincidentemente três rapazes e três raparigas.

O tempo de Ivo até à juventude foi de muita falta de comida e demasiado trabalho. Primeiro guardou as ovelhas mansas, depois as cabras irrequietas e por fim agarrou-se à enxada. Cedo começou também a trabalhar para os outros de forma a ganhar um tostão com o qual ia à taberna encher a barriga.

Certa tarde num bailarico na aldeia vizinha embeiçou-se por uma jovem e depressa procurou arranjar a sua vida. Ficou na terra da esposa após o casamento. E deste nasceram diversas crianças.

Ivo trabalhava afincadamente numa fábrica para pagar as despesas, para além de um pequeno naco de terra nas traseiras da casa velha e suja, donde extraía o sustento caseiro: couves, batatas, tomate, cebolas, para além de uns bicos.

Mas a mulher depressa se cansou da vida de mãe e pela calada da noite partiu sozinha para parte incerta. Ivo com as crianças nos braços teve de lutar ainda mais para os poder sustentar.

Todavia uma tarde escutou um alarido na rua e entre as vozes conheceu a da sua mulher. Apercebeu-se que ela passara à sua porta mas que não estava sozinha. Ivo aproximou-se do muro que dava para a rua mas nada lhe disse. Ela repetiu a façanha mais algumas vezes, até que um dia Ivo abriu o velho portão de madeira vindo ao seu encontro e disse:

- Voltas aqui a passar à minha porta com ele – e apontou com o queixo o amigo – e não me responsabilizo por aquilo que te possa acontecer.

Ela riu-se da ameaça e seguiu caminho. Para dias depois voltar a fazê-lo.

Ivo ouvia-a ao longe porque estava novamente no quintal a mondar as batatas. Sabia de antemão que o que fizesse a seguir iria ter gravíssimas consequências. Mas ainda assim havia avisado.

Entrou dentro de casa, foi à velha arca da mãe, única herança da antecessora a que tivera direito, pegou na caçadeira, carregou-a com diversos cartuchos e foi para a porta de casa.

A mulher vinha a pé, trazendo atrás de si um burro cinzento que carregava alguns produtos hortícolas nos seus alforges. Atrás o amigo caminhava no passo lento do jumento. Ela ria de forma estridente. Ele mandava-a rir baixo. Ao que ela respondeu:

- Posso rir como quiser, ninguém manda em mim. Nem tu!

De repente a mulher dá de caras com o antigo marido que de arma em riste vai sorrindo num esgar amargo. Ela enfrenta-o e largando o burro chega-se perto do ainda marido e diz:

- Vá dispara, se és homem dispara!

Ao primeiro cartucho ela recuou uns bons metros com o peito crivado de chumbo. Com o segundo já por terra finou-se.

O amigo aproximou-se a correr para a tentar ajudar ou quiçá salvar mas foi o seguinte a levar com chumbo.

Quem ouviu os tiros e os gritos veio à rua. Aproximaram-se de Ivo e iniciaram a disparatar com o agora assassino.

Ele, incrivelmente calmo, entregou a arma a alguém e afirmou:

- Chamem a Guarda e uma ambulância.

Preso e condenado Ivo regressaria à sua aldeia muitos anos mais tarde.

Ninguém o condenou, ninguém se afastou dele como tivesse peçonha. Curiosamente nem mesmo as mulheres.

Um dia por detrás de umas cervejas Ivo acabaria por confessar:

- Nada vale a morte de outra pessoa. Nada!

Os outros ao seu redor nada disseram, apenas olharam entre si e regressaram aos seus copos de cerveja!

O relógio

Devagar, muito devagar entrou no escritório que era acima de tudo a sua biblioteca, o seu refúgio, tal era quantidade de livros espalhados pela pequena divisão.

Tricotou por entre as resmas de livros e sentou-se finalmente à secretária, também ela repleta de publicações. Ao centro destacava-se, contudo, uma velha máquina de escrever.

Da janela entrava um sol acolhedor que parecia aquecer a pequena sala. Numa parede de lado dormia um velho relógio, herança do pai e que já fora do avô. Olhou-o e percebeu que estava parado… havia muitos anos! Desabafou:

- Então companheiro… há quanto tempo que ninguém te dá corda, hem!

Depois virou-se para a sua “Hermes 2000” e devagar foi carregando o carro com uma nova folha de papel. Rodou o rolo lentamente e acertou a folha, como sempre o fizera. Ao contrário de todos os outros escritores que conhecia, ainda não se adaptara às novas tecnologias. Daí a sua velha companheira.

Na verdade a sua editora através de carta solicitara que escrevesse algo para a época do Natal desse ano.

- Um conto de Natal? Mas eles estarão mais senis que eu? – questionou na altura.

Voltou a pegar na missiva que recebera, releu e suspirou. Um suspiro profundo que saiu naturalmente, tal parecia vir a ser o frete.

Não obstante a sua já provecta idade ainda assim mantinha a escrita como modo de vida. O sucesso das suas obras residia num passado já longínquo, mas aquele ainda lhe trazia alguns proveitos pecuniários. O suficiente para ir sobrevivendo.

Agora estranhamente surgira este invulgar pedido. Escrever um conto de Natal…

Ele que havia trinta anos não comemorava a quadra. Desde que os seus filhos haviam partido de casa sem nunca mais darem sinal de vida. Depois seguira-se a Laurinda…
Desta jamais fizera luto. Achara que não seria necessário. O amor pela mulher morava ainda no seu coração e não nas vestes negras…

- Mas vou escrever sobre o quê?

Olhou novamente o relógio de parede e perguntou-lhe:

- Companheiro silencioso… que me dizes? Tens alguma ideia?

Afastou-se da secretária de forma a poder abrir e vasculhar a gaveta. Após alguns minutos encontrou o que pretendia. Ergueu-se devagar e procurou um banco no meio de tanto livro, atirou alguns ao chão, até o encontrar. Finalmente subiu para ele e abrindo a portinhola de vidro enfiou a chave no buraco respectivo e rodou. Um som característico fez-se ouvir e ele deu 12 meias voltas até que a chave não rodou mais. Seguiu-se o outro buraco e repetiu as voltas e os gestos. Finalmente pegou no pêndulo e fê-lo balancear.

Escutou um tic-tac compassado e nivelado. Desceu do banco e sorriu…

Voltou à sua secretária e começou a bater as teclas. Puxou o rolo para cima para reler o que acabara de escrever e repetiu em voz alta:

- Um conto de Natal, o relógio…

De súbito uma voz grave, mas calma disse atrás dele:

- Como podes gostar tanto de relógios se nunca os pões a trabalhar?

Ele reconheceu a voz. Uma lágrima correu pela face mas não se voltou. Continuou a bater nas teclas da sua máquina de escrever, todavia desta vez ia repetindo em voz alta o que escrevia:

- Fizeste-me falta meu filho. Sabes do teu irmão?

Outra voz soou:

- Estou aqui meu pai!

O escritor continuou a escrever:

- Este ano o espírito de Natal tem a voz dos meus filhos.

O relógio bateu finalmente as horas, pela primeira vez em trinta anos.

Contos Tontos - 14

Adormecia sempre a pensar nela. Acordava todas as manhãs após ter sonhado com ela. Parecia quase uma doença viral.

Morava meia dúzia de portas abaixo, na mesma rua. Já a vira diversas vezes entrar e sair da moradia. Mas nunca lhe falara… Nem um sorriso, nem uma saudação. Nada!

No seu critério ela era de uma beleza impossível. Ninguém podia ser tão belo assim. Também não percebia se a amava platonicamente ou se aquilo não passava de uma imbecilidade.

Naquela tarde regressou a casa mais cedo do que o costume. Apanhou o comboio e sentou-se. Pegou no livro que sempre carregava e retomou a leitura deixada pela manhã. A marca ajudava-o a achar o reinício.

Sentiu que alguém se sentara no lugar defronte de si. Mas não levantou os olhos para ver quem era. Quando esporadicamente o fez sentiu um choque… era ela.

Assim tão perto ainda parecia mais bela que ao longe. Sentiu as faces ruborizarem e baixou o olhar para a leitura, que nunca mais mudou de página…

Todo o seu corpo tremia num frémito estranho. E destilava calor e frio ao mesmo tempo e em doses paquidérmicas. O comboio parou por fim na sua estação e ele deixou que ela saísse primeiro. Mas ela não saíu e ele teve de correr para se apear antes que o comboio partisse.

Entre o desiludido e o triste viu-a afastar-se no transporte e com ela partiram também todos os seus sonhos tanto tempo alinhavados e cosidos à sua alma.

Nessa noite não sonhou com ela. Curara-se finalmente da "tal" doença?

Perfume de Natal

O telefone de secretária com demasiados botões tocou. Ataíde foi repentinamente despertado da concentração que depositava nuns documentos, ergueu o olhar e carregou no botão de alta-voz:

- Diga Lucinda…

- Senhor engenheiro… são sete horas, é véspera de Natal e ainda tenho de ir fazer o jantar de consoada…

O patrão percebeu e avançou:

- Desculpe por a ter demorado tanto. Está dispensada… Até depois de amanhã!

Um silêncio profundo foi-lhe devolvido. Por fim chamou:

- Lucinda!

- Estou aqui senhor engenheiro.

- Ainda está aí? Vá-se embora… e… Feliz Natal!

- Obrigado senhor engenheiro. Um Santo Natal também para o senhor!

A chamada interna desligou-se e Ataíde pode regressar à leitura. Porém a interrupção tirara-lhe o foco nos papéis e percebeu que era tempo de fechar o escritório. Reviu os mails e acabou por desligar o portátil. Depois pegou na mala preta, encheu-a de documentação, apagou a luz e saiu.

O trânsito àquela noite tendia a diminuir. Alguns retardatários corriam para casa onde a ceia certamente os aguardava.

Do escritório até à garagem onde costumava estacionar o carro, Ataíde caminhou devagar e foi pensando na sua vida. Empresário de sucesso ainda assim não era feliz. A mulher trocara-o havia uns anos por outro. Os três filhos viviam cada um seu lado, sendo que a mais nova ficara com a mãe. Deste modo regressaria a uma casa vazia.

Pairavam no ar diferentes aromas… a Natal. Fosse da pastelaria quase encerrada ou das casas particulares a verdade é que dançava no ar frio da noite um perfume…

O engenheiro encheu o peito de ar tentando absorver toda a áurea daquela noite mágica para tanta gente. Mas o perfume acordou algo dentro de si. Sentiu um arrepio… Não era do frio mas algo diferente, estranho, invulgar e que lhe atormentava o coração.

- Bolas, cheira-me a quê?

Parou e rodou para perceber que cheiro era e donde vinha. Mas o vento sempre desigual ora trazia o cheiro de um lado ora de outro… Poisou a mala no chão, fechou os olhos e procurou no fundo de si mesmo aquele odor.

Devagar foi recuando no tempo… Até que chegou à mocidade vivida numa aldeia do planalto transmontano. Lembrou-se dos antigos Natais passados com os avós e os tios e uma troupe de irmãos e primos irrequietos. Continuou a recuar…. Até que encontrou quiçá uma referência. Lembrou-se daquele Natal em casa dos compadres dos pais com os amigos Adelino e Ilídio dois gémeos quase inseparáveis.

Sorriu! Lembrava-se tão bem dessa noite… E das brincadeiras… Do lume enorme e quente, das alheiras assadas e do botelo cozido acompanhado de cascas. Decerto havia ali por perto um transmontano a comer provavelmente o mesmo.

Nesse mesmo instante teve uma ideia... estúpida ou talvez não. Pegou no telemóvel e buscou um número. Encontrando-o ligou. Atenderam:

- Está João boa noite! Desculpa a hora tardia mas responde-se a uma questão: o meu avião tem combustível?

- Claro! Está sempre pronto a sair!

- Tem? Ok… Prepara-o que vou para aí agora!

- A esta hora? Não se esqueça que hoje é véspera de Natal… tenho gente à minha espera.

- Não me interessa nada… Assim que eu levantar podes sair.

Apressou o passo até ao carro de alta cilindrada adquirido um mês antes. Já na estrada enquanto tentava fugir ao trânsito tricotando por entre os carros, ligou aos filhos. Nem um nem outro o atenderam. Já calculava… Faltava a mais nova... Ligou:

- Boa noite papá!

- Boa noite Maria. Como estás?

- Estou bem… E tu?

- Também estou bem!

A pergunta era obrigatória. Por isso Ataíde atirou:

- Então onde vais passar o Natal?

Um silêncio. O empresário pensou ter perdido a chamada. Teimou:

- Estás aí Maria?

Finalmente a resposta:

- Estou sim papá. E quanto ao Natal estou… com uns amigos. Muito longe… - respondeu a medo.

- Não estás com a tua mãe?

- Não! Ela partiu ontem para o Brasil… com o novo namorado!

- Hum entendo! Pronto… era só para te desejar uma boa consoada!

- Obrigado papá. Feliz Natal!

A chamada desligou-se para logo a seguir tocar. Era o filho mais velho:

- Boa noite Renato… estás bom?

- Estou… e o pai?

- Vou indo… Era só para te desejar uma boa consoada…

- Obrigado pai… Olhe está aqui também comigo o Vasco…

Ataíde nem reagiu. Sabia que o filho mais novo não se dava com ele e por isso apenas observou:

- Deseja-lhe também um bom Natal.

E desligou. O aeródromo aproximava-se a passos largos. Demorara menos tempo do que julgara a chegar e assim poderia dispensar o amigo mais cedo que o previsto.

- João, assim que eu levantar podes ir.

Deu-lhe um abraço e espetou-lhe com uma nota verde na mão.

- É para comprares champanhe para o teu jantar! Obrigado!

Saltou para dentro da sua aeronave que já não conduzia havia algum tempo e tratou de preparar tudo para a partida. Assim que teve ordem levantou vôo.

Entretanto enquanto aguardava pela autorização para penetrar no espaço, ligou uma vez mais:

- És tú Lúcio? Daqui Ataíde… Estás bom?

- Ataíde? Que se passa?

- O aeródromo já está fechado?

- Já, porquê?

- Porque vou para aí no meu avião… e preciso de aterrar.

- Mas não podes…

- Deixa-me as luzes ligadas da pista.

- Não posso…

- Ouve… daqui a duas horas estou aí… Faz-me esse favor…

- Sabes que hoje é véspera de Natal… E tenho cá a família que veio da França…

- Imagino, mas tenho de chegar aí ainda hoje. Vá… deixa-me aterrar aí…

Um silêncio fez Ataíde temer o pior. Lúcio veio finalmente à linha.

- Ok… Vem lá. Mas ficas-me a dever uma.

- Fico de bom grado. Só mais uma coisa… Arranja-me também um táxi…

- Mais nada? Uma guincha, um escrinho…

Ataíde acabou por rir. Havia tempo que não ouvia aquelas expressões.

- Não, não é preciso mais nada.

Já no ar o empresário reviu uma vez mais toda a sua vida. Um casamento com três filhos mas quase sempre ausente. Uma mulher que o traíra e os filhos distantes. Era estupidamente rico em bens e dinheiro porém pobre em calor humano. Por isso aquele perfume despertara em si sensações que não sentia havia muito tempo.

Naquele fim de tarde, início de noite, decidira não ficar sozinho… Nem que para isso tivesse que fazer muitos quilómetros. Regressar às origens provavelmente nem seria mau. O problema era perceber como seria acolhido… Havia anos que não via o irmão Telmo. Nem a irmã Lurdes. Só o Carlos é que lhe aparecia no escritório apenas para lhe pedir dinheiro emprestado, que ele nunca recusava.

Quando viu as luzes da pista o coração quase saltou. Olhou o relógio e percebeu que se demorara mais do que seria de esperar. Aterrou com a suavidade de um perito e parou a aeronave logo que pode. Correu para a saída onde Lúcio o esperava. Um abraço selou o agradecimento:

- Estás na mesma rapaz… Não te fazes velho – disse Ataíde.

O outro riu-se e mostrou então uma boca quase sem dentes.

- Obrigado. Vai-te lá embora… que tens o táxi à espera.

Nova nota quase caiu na mão do amigo mas este recusou.

- Nem penses…

- Obrigado!

No táxi começou a medir as consequências daquela sua repentina viagem. E se não estivesse ninguém  casa? Ou visse má vontade em recebê-lo. Nem uma garrafinha de vinho… para amostra, ele trouxera. O trânsito àquela hora era pouco mas o carro andava devagar devido ao gelo na estrada. Estava realmente muito frio. Meia hora depois chegou ao destino. Pagou ao condutor e agradeceu. Finalmente na aldeia.

Pairava no ar um forte aroma a lenha queimada, misturada com os restantes perfumes da época. Ao longe ouviu gargalhar ao mesmo tempo que um cão ladrou. Olhou o enorme portão da casa do irmão e que fora do seu avô e tentou empurrá-lo. Percebeu que estava fechado. Lembrou-se então do truque e meteu a mão por dentro e levantou o engate de ferro. O portão ferrugento mas pesado gemeu e abriu-se.

Um gato parecia espiá-lo em cima do muro de pedra mas alguém ouvira o ranger e veio à rua ao cimo da enorme varanda:

- Quem está aí?

Ataíde conheceu a voz da cunhada e disse então baixinho:

- Júlia, sou eu o Ataíde.

Júlia acendeu a luz do pátio e colocou a mão na boca. Desceu as escadas para cumprimentar o cunhado e foi dizendo:

- Tu aqui? Eras a última pessoa que esperava ver hoje. Mas preciso de te dizer uma coisa antes de entrares em casa…

- Não digas nada… por favor. Quero aparecer de surpresa ao meu irmão. Sei que el ficará contente em me ver…

Júlia cumpriu o pedido e seguiu atrás de Ataíde. Este subiu as escadas e penetrou na casa ampla. Cheirava ao tal perfume… Caminhou devagar e finalmente entrou na enorme sala onde à volta da mesa se sentava muita gente. O silêncio abarcou os convivas. O transmontano reconheceu então muitas pessoas, especialmente os três filhos.

Duas lágrimas rolaram pela face. O perfume do Natal que ele teimosamente viera tão longe procurar tinha finalmente um nome.

Contos tontos! - 12

Nas suas memórias, mesmo as mais remotas sempre vira pai e mãe em constantes zaragatas. E quase tudo servia para discussão. Quando o tema não passava pela sua mera existência era o regresso tardio a casa do pai ou o cheiro nauseabundo a perfume barato da mãe.

Demasiadas vezes o usavam como arma de arremesso contra o outro. O jovem sentia-se nessas alturas somente uma pena que voava ao sabor do vento. Quando a discussão amainava, lá vinha o aconchego do pai ou da mãe tentando devolver alguma serenidade, que ele depressa percebia jamais existir.

Adaíl habituou-se por isso a resguardar-se no seu quarto onde, longe das discussões, ouvia Reimmstein em doses cavalares. Apreciava Sepultura ou Korn mas aquela banda alemã preenchia-lhe na plenitude os seus vazios. E amansava a sua raiva!

Mas pouco a pouco na sua mente foi crescendo uma idiea. Parecia idiota e sem sentido, mas foi a serenidade que o ajudou a tudo preparar. Até ao mais ínfimo pormenor!

Um dia pela calada da noite, o jovem Adaíl de dezasseis anos, partiu sozinho de casa sem deixar rasto nem recado. Quando de manhã os pais descobrissem a sua ausência, já estaria provavelmente muito longe de casa.

Ainda viu os pais uma última vez na televisão antes de embarcar. E riu-se das declarações dos antecessores que de um modo choroso afirmavam peremptoriamente que não percebiam a razão da fuga...

Adaíl jamais regressou a casa!

 

Contos tontos! - 9

Foi desfiando folhas atrás de folhas. Cadernos e mais cadernos... Dezenas deles!

Lia alguns textos e perguntava-se como nunca dera por nada. Poesias, contos, pequenas crónicas do quotidiano. Tudo manuscrito naquela letra redonda e professoral.Páginas e páginas onde alguém desfiara as mágoas de uma vida.

Partira subitamente levando consigo esse segredo. Que nunca desvendou... Descoberto numa velha mala de viagem já em desuso, Óscar não conseguiu evitar as lágrimas.

Bateram à porta. Apressadamente limpou a face a um lenço e respondeu:

- Entre.

A porta abriu-se e surgiu uma menina de olhar triste. Aproximou-se devagar e perguntou:

- Que estás a fazer avô?

Quase sem perceber que a criança seria demasiado nova para escutar um desabafo disse:

- Porque será que a tua mãe me escondeu isto de mim? Ela escrevia tão bem...

Uma outra voz respondeu então pela neta:

- Porque tu nunca tiveste tempo para ti... Como querias ter tempo para os outros?

Contos tontos! - 8

O trânsito impedia que os carros andassem com fluídez. Parou no sinal vermelho. À sua frente, na passadeira, muita gente a atravessar a larga avenida. Entre a amálgama de pessoas reparou num homem que em passo decidido cruzava a estrada. Conheceu o seu passo, a postura...

Abriu a janela e chamou:

- João... João...

O homem parou, olhou ao redor e preparava-se para seguir quando ela apitou. Ele voltou para trás e espreitou para dentro do  carro.

- É comigo?

O sinal passara a verde. Ela ligou os 4 piscas e respondeu:

- Claro João... Não te lembras de mim?

- Desculpe mas deve ser engano...

- Impossível João não te lembrares de mim. Sou a Clara... Andámos juntos na escola... no Liceu...

O homem olhou para trás com receio dos carros que ultrapassavam a viatura imobilizada e respondeu:

- Lamento mas não a conheço.

Ela voltou ao ataque:

- Pergunta à tua irmã se não se lembra de mim?

Ele enfiou mais a cabeça dentro do carro e esclareceu:

- Minha senhora, lamento comunicar-lhe que sou filho único!

As últimas palavras foram ditas com tanta certeza que ela acabou por pedir desculpa e partir.

O homem atravessou finalmente a avenida e por fim ligou o telemóvel.

- Estou Alice? Nem imaginas quem vi agora? A Clara...

- Quem? A tua paixão de juventude?

- Essa mesmo.

- E que queria ela?

- Que eu me lembrasse dela...

- E lembraste-te?

- Não. Sou muito selectivo nas minhas recordações.