João percebe movimento no corredor. Estremunhado imagina ser um sonho, para no instante seguinte escutar conversas em surdina.
Devagar acorda a mulher e faz-lhe um sinal de silêncio e pede para se levantar. Depois ambos escondem-se atrás da porta do quarto. No corredor continua um diálogo em tom muito baixo mas que ainda assim o pai consegue escutar:
- Vai tu Santiago és o mais velho...
- Não posso, vai o Simão que é o mais novo!
- Não quero, tenho medo!
- Pronto vou eu - avançou Salvador.
O rapaz do meio entra no quarto meio escuro, todavia encontra a cama vazia. Recua e nem sequer repara nos pais escondidos.
- Não estão cá!
Os miúdos olham-se e temem o pior. Simão palpita:
- Foi o Pai Natal que os levou?
- Deixa-te de ideias parvas miúdo. O Pai Natal não existe, pá!
- Existe sim... eu já o vi!
- Viste nada, os pais levantaram-se mais cedo e devem ter ido para baixo.
Os três rapazes de 12, 9 e 5 anos descem as escadas e aparecem na cozinha. Mas pelo caminho reparam que tudo está ainda em silêncio devido à hora madrugadora. Voltam para cima.
É neste vai vem que acabam por encontrar os pais. A mãe estende os braços para os filhos e eles caiem-lhe em cima numa alegria contangiante.
- Bom dia meninos, Feliz Natal!
- Feliz Natal mamã! - gritam em uníssono.
Depois é a vez do pai receber os cumprimentos matinais dos seus rapazes e por fim descem para preparar o pequeno-almoço. Mas o mais importante estava ainda por vir. As prendas no sapatinho...
- Mamã quando vamos abrir as prendas?
- Daqui a nada! Primeiro vamos comer e depois vamos ver as prendas.
A refeição corria melhor do que o esperado já que as crianças estavam em pulgas para verem o que o Pai Natal lhes teria deixado. Faltam apenas os dois primos e os tios sempre dorminhocos e atrasados.
Quando todos se juntam alguém declarou:
- Vamos lá ver então as prendas que o Pai Natal deixou no sapatinho de cada um!
Entram na sala, mas surpresa das surpresas não havias dezenas de embrulhos como era hábito em anos anteriores. Ao invés as cinco crianças apenas acharam um embrulho sob cada sapato. A prenda parecia grande, mas não havia rigorosamente mais nada.
Entre o assustado e o admirado cada criança olhou para certificar-se que os outros ao seu redor estavam nas mesmas condições.
Foi Santiago que afoito começou a rasgar o papel de embrulho. As outras crianças imitaram-no. Papel desfeito o menino abriu finalmente a enorme caixa de papelão. Olhou para dentro dela e logo duas lágrimas cairam pela face. Sentou-se no chão e esperou a reacção dos outros.
Para todos as prendas foram iguais e abertas as caixas havia um coro de lágrimas, até que Salvador ergue-se do chão e leva a caixa para junto do pai e da mãe, quase grita:
- Esta caixa está vazia! Não tem nada. Onde estão as minhas prendas?
Cinco tristes crianças olham para o pai e tio e aguardam a resposta à questão de Salvador.
Com calma João coloca-se estrategicamente no meio das crianças, para depois se agachar. Senta-se no chão ficando quase ao mesmo nível dos miúdos e finalmente espera que todos acalmassem nem que fosse com a ajuda maternal.
- O que encontraram nas caixas?
- Nada - respondem em uníssono. As caixas estão vazias.
- A minha também - avançou Benedita, a mais nova de todos.
- Pois é, foi de propósito!
- Porquê, porquê?
- Calma, eu explico se me deixarem! Estamos na época do Natal e assim todos os meninos e meninas pedem coisas ao Pai Natal...
- Eu só quero uma boneca... - insistiu Benedita.
João passa a mão pela cabeça da sobrinha e acaba por carregá-la para o seu colo. Para logo continuar:
- Mas há muuuuuuuuuuuuuuitos meninos por todo o Mundo como vocês que nem uma caixa sem nada tiveram direito. Nada! O Pai Natal para eles apenas existe como um boneco de uma bebida, pois sabem que ele nunca lhes trará nada. Portanto achámos todos aqui que estava na altura de todos vós sentirem o que sentem as crianças pobres.
Um longo silêncio paira na sala para o pai dizer:
- Santiago... gostei das tuas lágrimas.
As crianças olham umas para as outras em silêncio. João ergue-se do chão com a sobrinha ao colo e olhando em redor e recebendo dos crescidos a aprovação final abre a porta do quarto contíguo e anuncia:
- As vossas prendas estão aqui todas. Agora divirtam--se.
Num segundo a magia do Natal volta àquela sala e a confusão no quarto parece enorme. Para logo a seguir Santiago e Salvador chegam perto do pai e da mãe e declaram em tom quase solene:
- Tivemos prendas a mais. Vamos querer dar algumas das nossas a outros miúdos. Consegues tratar disso pai?
Assim que saiu do aeroporto Vera entrou no táxi e deu a morada de destino:
- Boa noite, é para a rua Nova do Calhariz, se fizer favor!
- Com certeza menina.
Chegou ao destino, pagou a corrida e dirigiu-se ao prédio de três andares e empurrou a porta de fora, mas esta não se abriu.
- Olha queres ver que o senhorio já a arranjou?
Contudo logo a seguir lembrou-se do segredo para abrir e experimentou. Bingo! A porta abriu-se sem esforço e Vera subiu os dois andares onde tocou à campainha.
Ouviu uma voz:
- Quem é?
- Sou eu a Vera – todavia estranhou não conhecer a voz da mãe.
- Desculpe, mas não sei quem é a senhora…
Atarantada Vera olhou em redor e percebeu que alguém a olhava pelo óculo da porta. Voltou a tocar:
- Diga!
- Não mora aqui a dona Odete?
- Mora sim!
- Ora eu sou a filha.
- Vou-lhe perguntar. Aguarde se faz favor!
Vera estava irritadíssima por estar a falar com alguém com uma porta pelo meio. Temeu o pior com a mãe.
Finalmente:
- A Dona Odete afirma peremptoriamente que não tem filha. Lamento. Passe bem!
Vera bufava! Virou as costas à porta, respirou fundo e lembrou-se da vizinha do rés do chão. Desceu as escadas do prédio e tocou à campainha. Do outro lado escutou passos e uma voz:
- Quem é?
Temendo igual desfecho do andar de cima, perguntou:
- É a dona Alzira?
- Sou!
- Sou a Vera, a filha da Odete do segundo…
Ouviu então a chave rodar e o trinco abriu-se!
- Olá Alzira, viva como está?
- Oh minha querida Vera. Ai meu Deus que já nem te conhecia… Faz tanto tempo que não te via. Mas entra, entra, não fiques à porta.
- Dez anos… mais ou menos – e Vera fez um gesto com a mão, sinal de incerteza, enquanto entrava na casa.
- Já dez anos? Parece que foi ontem…
- Desculpe maçá-la, mas vou directa ao assunto: passa-se alguma coisa com a minha mãe?
- Que eu saiba não. Porque perguntas?
- Porque fui lá bater, atendeu-me uma voz feminina que nem me abriu a porta e depois comunicou-me que a minha mãe nunca tivera uma filha…
Um silêncio ficou na sala onde ambas se sentaram. Alzira foi à janela confirmar se estaria fechada regressando para ao pé de Vera.
- Sabes… a tua mãe nunca perdoou a tua partida… Sempre pensou que estavas a fugir dela… E esse pensamento tem-na devorado.
Vera ergueu-se e conferiu a casa humilde. Um pequeno hall de entrada e na parede uma figura de Nossa Senhora. Percebeu também as decorações de Natal espalhadas por quanto o seu olhar alcançava. Numa trinchante encostada à parede uma fotografia a preto e branco de um homem que deveria ser o senhor Américo, marido de Alzira. Tudo aquilo era pobre, mas cheirava a bafio e a genuíno.
Virou-se para Alzira:
- O que disse tem um pouco de verdade. Quando acabei o meu curso superior tive a hipótese de fazer um estágio em Barcelona. O estágio seria pago e ainda com direito a estadia. Por isso parti aproveitando a oportunidade surgida. Depois, sim, fugi das suas garras sempre tão poderosas.
- Mas o que é que tu querias que ela fizesse?
- Eu tenho consciência… ela criou-me sozinha, sem pai. Mas não era razão para me prender. Sabe… - e fez uma longa pausa como se quisesse ganhar coragem – ela detestava esta época do Natal.
- Detestava nada.
- Recordo-me que um certo Natal fui passar uns dias com a minha avó Florinda. Quando entrei deparei-me com uma árvore de Natal e um presépio, lindo, lindo, lindo… cheio de figuras, uma ponte, um moinho, uma fonte.
- Lembro-me bem desses presépios…
- Pois… só que a minha mãe proibiu-me de o contemplar. E de tal forma o fez que mandou a minha avó desmanchar o presépio ou no mínimo colocar um lençol sobre ele, se não íamos embora.
- E a tua avó que fez?
- Disse que na casa dela mandava ela. E se a minha mãe queria ir embora que fosse.
- E ela foi?
- Não! Mas sobrou para mim. E desde esse dia nunca mais tive direito a viver o Natal como os outros meninos. Até na escola foi complicado…
- Imagino…
- Olhe, dona Alzira, agradeço ter-me aberto a porta, mas vou-me embora para o aeroporto a ver se apanho um avião de regresso a Barcelona. Detesto sentir-me a mais, sabe?
- Vera, querida, não faças isso! A tua mãe sofre muito com a tua ausência…
- Não parece… - e uma lágrima caiu na mão de Alzira que lentamente afagou os cabelos bonitos da menina que vira crescer.
- A minha casa é pequena, mas tenho uma cama para ti. Aguarda até amanhã. Deixa-me lá ir falar com ela.
- Não merece a pena D. Alzira… a sério. E agradeço muito o seu gesto. Feliz Natal!
Vera deu dois beijos na idosa, abriu a porta e saiu sem olhar para trás.
De regresso inesperado à cidade condal, a jovem assumiu a sua ruptura com a antecessora, um sentimento que a deixou profundamente triste, numa época que se diria de reconciliação. Percebeu que nada mais na sua vida a ligaria ao seu velho Portugal. Passaria a ser mais uma catalã, apenas com a nuance de ter nascido no país vizinho.
O tempo voou e um ano depois da viagem de Vera à cidade que a vira nascer, uma mulher descia o Passeig de La Gracia a caminho da Plaça de Catalunya. Empurrava um carrinho de bebé e parecia imensamente feliz, ao mesmo tempo que a criança de meses, olhava a miríade de luzes daquele início de noite fria.
O tempo de Natal espraiava-se por toda a cidade com muita luz, cor e outrossim muitas feiras alusivas à época, com centenas ou milhares de pessoas em busca de algo diferente para colocar num sapatinho.
A criança pareceu agitar-se no berço de rodas e a mulher colocou-se na sua frente e perguntou-lhe:
- Queres ver o presépio, queres? Sim?
O bebé sorriu como que consentindo na visita.
- Então ‘bora lá!
Odete atravessou toda a Plaça e entrou no bairro El Gotic.
Nos tempos antigos de usar calção, Saía a pequenada, das duas salas, Cantando afinados na emoção, Desafinados nas vozes engalanadas.
Corria pimpona a pequenada, Saltando em fintas alegres, “Aulas acabadas, férias começadas, Vamos para casa comer rabanadas.” Em dezembro pelos vinte e dois, ou e três, Depois de tanto espreitar pelo nevoeiro Anunciava-se o quase, quase já, Do dia mais mágico do ano e do mês. Toda a pequenada abalava até casa Pegar em cestos e carrinhos Depois, entre mato e pinheiros, Colhia o melhor musgo p’r’ó presépio
Todos sabíamos de antiga tradição, Vinda dos pais dos nossos avós, tão velha, Que aquele dia era de enorme encanto De fazer presépios no canto da sala. Mesmo os olhos daqueles que viviam tristes, Nos outros dias do ano inteiro, Naquele dia incendiavam-se Como se lá se acendessem candeeiros. Ó meus amigos de antigas pernas nuas, Cobertas de picos e arranhões. Hoje olhamos pelas janelas da vida E tudo se desmorona aos atropelões.
É uma rua que se incendeia em novembro, É uma cantoria vendedeira pelas ruas, Um gordo vermelhusco sorrindo por obrigação De voz cansada rouqueja oh … oh… oh … Ó meus amigos, que, como eu, usavam calções, De joelhos no chão a raspar musgo, Mataram o nosso Natal de sonho e magia, Sepultaram-no no féretro do tudo se vende e se compra.
Maria Justina era uma mulher já com alguma idade, que vivera momentos fantásticos na sua vida e outros menos brilhantes que ainda assim não a ensombravam.
Mãe de três filhos e avó de meia dúzia de cabeças era uma mulher independente, não obstante ter o pensamento na idosa mãe com quase 90 anos que vivia sozinha. Todos os dias lhe ligava. As conversas não variavam:
- Bom dia mãe!
- Bom dia Ju! Que se passa?
- Nada! Só quero saber como estás…
- E para isso é necessário ligar todos os dias?
Não obstante o discurso seco por parte da antecessora, Justina preocupava-se genuinamente com a mãe a ponto de ter contratado uma senhora para estar com ela durante o dia. À noite ficaria sozinha, mas a idosa nunca fora pessoa para sair. Até ao dia que a companhia diária da mãe lhe ligou, logo pela manhã, comunicando entre lágrimas e fungos nasais o falecimento daquela, durante o sono.
Uma tristeza profunda que não sentia desde a morte prematura do marido, havia seis anos. Agora a mãe...
Entretanto os filhos ofereceram-lhe os seus préstimos, mas Maria Justina negou peremptoriamente qualquer apoio:
- Não quero nada. Sei cuidar das coisas muito bem sem necessidade de andarem em cima de mim. Vá chispa daqui e vivam a vossa vida que eu vivo a minha.
Durante meses após a morte da mãe, Maria Justina andou de volta dos papéis e demais burocracias para assumir a herança que consistia num casarão na aldeia, uns pedaços de terra, coisa pouca, e a casa da cidade.
Foi neste entretanto que percebeu que naquele ano teria de fazer algo de diferente para o Natal. Durante muitos anos dedicara-se aos filhos, depois ao marido com a sua doença e finalmente a preocupação permanente com a mãe. Com tudo isto deixara de viver coisas que sempre sonhara e uma delas seria viver um Natal diferente.
Se o pensou, melhor o organizou e fez uma lista do que gostaria de fazer para a sua festa natalícia. Sempre que ia ao supermercado trazia qualquer coisa que juntou num só lugar. Certo dia um dos filhos, o mais novo, visitou-a e vendo aquele rol de sacos e caixas questionou-a:
. Mãe, não me digas que agora te tornaste açambarcadora? – e apontava para os sacos repletos de coisas.
- ‘Tás parvo rapaz! Achas? Isso vai sair daqui em breve.
Não deu mais explicações. Era o que mais faltava divulgar os seus intentos ao fedelho. Então aquele que não gostava nada que alguém se metesse na sua vida.
Até que a duas semanas do Natal pegou no carro encheu-o com os sacos que havia guardado mais alguns agasalhos, enviou uma mensagem aos filhos “vou para longe passar o Natal, sozinha” e desligou o equipamento.
Deu à chave, o motor evoluiu e lentamente arrancou.
Horas mais tarde chegou ao velho casarão onde a mãe havia nascido e agora pertença sua, via herança. Fazia anos que não ia àquela aldeia, mais por força do marido e da antecessora. Agora era tempo de sentir o que para si faria sentido.
Assim que chegou abriu as janelas e deixou que o ar bafiento saísse em busca, quiçá, de outros casarões. Depois foi à cozinha devidamente equipada e testou fogões e restantes equipamentos electricos. Tudo trabalhava.
- Boa! Estamos bem! – pensou - Agora o quarto.
O sol da tarde entrava pelo quarto, mas não o aquecia tal era a brisa fria que entrava pela larga janela. Destapou a cama limpou o pó e finalmente estendeu os lençóis no enorme leito. A seguir um cobertor de papa e rematou com a colcha.
Durante dias a casa foi virada do avesso e num instante o bafio foi substituído pelo perfume de cera e limpeza.
Veio o passo seguinte: o Natal!
Maria Justina sempre sonhara em fazer o Natal na aldeia, juntar alguma família lateral que ainda tinha, mais o marido, os filhos, netos e todos juntos naquela enorme sala poderiam desfrutar da companhia uns dos outros. Mas por esta ou aquela razão e sempre contra a sua vontade, o Natal decorria em sua casa, na cidade, sem ajuda de ninguém.
Com calma e serenidade todos os dias principiou a levantar-se cedo e atirava-se ao compêndio de receitas que trouxera da cidade e onde durante décadas depositara as receitas de avós. sogra, mãe e algumas amigas.
Na enorme sala de jantar onde um enorme louceiro guardava mais heranças, Justina foi retirando travessas, pratos fundos, onde ia depositando cada bolo, cada doce que aprontava. Ao fundo na lareira, que tinha por cima uma tela pintada com a figura da sua mãe quando nova, ardia um fogo crepitante e acolhedor e de uma das janelas ela conseguia ver o rio que devido às chuvas recentes se alargara para as margens.
Quase ao fim do dia Justina ia ao café beber um chá de erva princípe bem quente e dava uns dedos de conversa com quem lá estava, geralmente senhoras reformadas que aguardavam os maridos do regresso da horta.
Ao Domingo ia à missa. Gostava daquela intimidade com Ele, pedia-Lhe que tomasse conta do marido e da mãe, já que do pai tinha poucas ou nenhumas recordações.
À noite ligava a televisão via umas parvoíces e cansada de mais um dia de acepipes adormecia em paz.
Chegou assim a véspera de Natal. Maria Justina entrou na sala de jantar e devagar foi destapando a mesa que estava coberta com um lençol de linho antigo que encontrara numa das arcas e lavara a preceito antes de o estender.
Apeteceu-lhe tirar uma fotografia do que via, mas logo percebeu que assim os filhos saberiam que ela esta disponível e ligar-lhe-iam. Preferiu não o fazer.
No forno colocou uma perna de borrego a assar lentamente com todos os condimentos. As batatinhas entrariam mais tarde.
Durante o resto do dia cirandou pela casa, sozinha, porém feliz. Como há muito não se sentia… Ou se calhar até não…
Obviamente que sentia saudades das suas crianças pequenas, mas mesmo na cidade via-as tão pouco. Disciplinas dos filhos.
A noite caíu na aldeia. Uma chuva miudinha começara a espalhar-se pelo vale. Maria Justina olhou o velho relógio de pé que estava no corredor e percebeu que teria de se despachar para ir à missa do Galo. Só depois se lançaria no desafio de derreter todos os acepipes que preparara nos últimos dias.
Na eucaristia escutou uma homília que quase a fez chorar, mas conseguiu resistir sem verter uma lágrima. Já na rua ainda com a chuva a molhar os crentes e não só, foi-se despedindo de algumas pessoas e regressou a casa.
Outra das iniciativas que tivera foi decorar o exterior da casa com umas iluminações eléctricas muito singelas, dando um ar festivo ao casarão. Ao aproximar-se admirou-se de não ver as iluminações acesas.
- Ai que me esqueci de acender as luzes de Natal. – pensou!
Apressou o passo, abriu o portão e subiu as escadas. Meteu a chave na porta e procurou o interruptor da luz, mas este não ligou nada. Um bréu havia invadido a casa. Assustada, pensou o pior e com cuidado foi entrando devagar pois sabia onde estava a central dos fusíveis. Mas para isso teria de atravessar toda a sala de jantar onde um fogo ardia baixinho quase como se tivesse receio do próprio escuro.
Chegado à central onde se encontravam os fusíveis apalpou se algum estaria desligado. E sim o fusível central havia disparado. Com cuidado rodou-o e de repente toda a sala se iluminou:
- Boas festas, mãe – desejaram os filhos.
- Feliz Natal avó – gritaram em uníssono os netos abraçando-a.
Só soube dizer:
- Obrigado meus filhos. E desculpem-me. Mas como souberam que estava aqui?
- Alguém nos avisou – confessou o mais velho.
Maria Justina estava atónita e de repente olhou para o retrato de jovem da mãe e pensou ou imaginou tê-la visto sorrir.
Assim que Artur, com pouco mais de três anos percebeu do poder que exibia perante os pais, passou a usá-lo sem dó nem piedade e fosse onde fosse. As birras que criava por querer aquele brinquedo ou simplesmente por teimar em ficar no baloiço mais uns minutos enquanto outras crianças esperavam que ele saísse, envergonhavam o pai Tomás e a mãe Marília.
De tal maneira as cenas eram tão estremadas em frente dos pais que amiúde estes evitavam sair de casa.
Entretanto no colégio Artur era tido como um menino bem comportado e educado. Nada de birras nem reacções adversas aceitando com humildade as ordens que recebia das educadoras.
Os pais admiravam-se desta dupla postura e acabaram por recorrer a um pedopsiquiatra que explicou com muita teoria e alguns exemplos práticos que o filho era uma criança perfeitamente normal apenas procurava o seu espaço.
Feitos os quatro anos a personalidade não mudou. Ou se mudou foi para pior. Aproximava-se a época do Natal e certo dia a Marília perguntou ao filho:
- Já sabes o que vais queres no Natal?
- Sim mãezinha…
E logo despejou um rol de desejos, a maioria só porque vira na televisão. A mãe escrevia a lista ciente que nem metade ele teria, mas enfim… era uma criança… deixá-la sonhar!
O Natal crescia em passos gigantes quando Tomás e Marília decidiram levar o filho a uma feira muito conhecida e imensamente divertida para crianças e pais. Ali chegados a pé depois do carro ficar a um quilómetro de distância Artur percebeu que os pais não o haviam enganado. Tanta luz, cor, música e meninos.
Porém no primeiro carrocel Artur não pretendeu esperar como as outras crianças e respectivos pais e esgueirando-se por entre a multidão infantil e mais crescida foi-se sentar num cavalito de madeira. A equipa percebeu a intrusão e logo solicitou em voz alta:
- O responsável por este menino, onde está?
Tomás demasiado envergonhado apareceu a receber o filho que logo ali perante todos fez uma birra descomunal. A organização e outras crianças deixaram que ele lhes passasse à frente e logo que se sentou, Artur sorriu.
Assim que acabou o menino quis mais, mas foi a vez do pai impor a sua vontade, dizendo:
- Artur já me fizeste passar uma vergonha. Não passarei outra. Portanto se pensas em fazer nova cena, ficas aí sozinho que eu e a tua mãe vamos embora. Grita, barafusta, mas não nos procures.
E virando costas e puxando pelo braço da mulher saiu dali. Artur percebera que esticara em demasia a corda e agora esta partira-se. Assim ergueu-se do chão e partiu a correr atrás do pai e da mãe que quase se misturavam na multidão. Finalmente sossegado viu as barracas onde quase tudo se vendia. Mas quando se aproximou do algodão doce num instante esqueceu a ameaça do pai e pretendeu exigir.
Tomás em profundo mutismo, continuou o seu passeio pela Feira de Natal, sem ligar aos pedidos do filho, até que chegou a um local onde numa enorme e iluminadíssima cadeira se sentava… o Pai Natal. Este estava vestido todo de vermelho que contrastava com os seus cabelos brancos que se alastravam até à barba.
Lá conseguiu a permissão de se sentar ao lado do Pai Natal e desta vez aguardou na fila como os outros.
Quando chegou a sua vez aproximou-se devagar do homem gordo e alto e sentou-se a seu lado. O velhote simpático perguntou-lhe:
- Como te chamas?
- Artur!
- Quantos anos tens?
- Quatro!
- Muito bem e agora dá cá um abraço ao Pai Natal…
O rapazito levantou-se do pequeno banco e aproximou-se ainda mais do bom velhote. Mas naquele instante a sua malvadez fez com que agarrasse as barbas do idoso e as puxasse para baixo. Depois exclamou:
- A barbas não são verdadeiras!
Mas no segundo seguinte a tenda onde estavam ambos fechou-se como por magia e as luzes apagaram-se ficando tudo num bréu. Artur viu-se sozinho e desatou num berreiro:
Da mesma maneira que se apagaram as luzes estas acenderam-se. Só que o menino não viu pai nem mãe e muito menos o tal Pai Natal a quem tentara arrancar as falsas barbas. À sua frente muitos meninos da sua idade, mas com ar muito travesso. Cada um tinha na mão um objecto que Artur percebeu serem iguais aos seus desejos.
Uma das crianças aproximou-se e mostrou-lhe um carro de bombeiros grande e muito engraçado:
- Foi isto que pediste ao Pai Natal?
Artur acenou afirmativamente com a cabeça e acto contínuo o outro menino desfez o brinquedo com os pés. Logo outro gaiato apareceu com um novo objecto:
- Pediste este?
Artur chorava agora e respondeu que sim. O outro despedaçou também o brinquedo. Um a um os brinquedos que Artur colocara na lista apontada pela mãe passaram pela sua frente e todos foram destruídos. Quando acabou a mostra o último menino travesso ordenou:
- Despe-te! Tira toda a roupa. Precisamos dela para dar a crianças que não têm nenhuma e que só pedem agasalhos. Vá despe-te…
Quando Artur se sentou no chão para principiar a descalçar, a luz voltou a desaparecer para logo surgir.
O mais fantástico é que Artur estava novamente ao colo de Pai Natal com a mão na barba. Porém em vez de a puxar o menino deu um abraço ao Pai Natal e correu por fim para os braços dos pais.
Na noite de Natal à meia-noite Artur foi a correr abrir as prendas e viu o que pedira inteiro e imaculado. Brincou, divertiu-se para no fim, já noite fora, adormecer no sofá enrolado, não ao carro de bombeiros que tivera direito, mas a um Pai Natal que retirou do pinheiro iluminado.
Horácio deu conta da porta da rua abrir-se ao mesmo tempo que o velho relógio de pé da entrada batia três badaladas. Admirou-se da hora tardia e confirmou com o velhíssimo relógio de pulso.
- Ena tão tarde e eu ainda sem nada esgalhado… Que chatice!
Passaram uns breves minutos quando escutou:
- Boa noite pai, ainda a pé?
- Boa noite filho… é tarde é… mas ando às voltas para escrever um conto de Natal e ainda não saiu uma palavra sequer!
- Isso acontece não te maces. Deitas-te e amanhã escreves uma estória num ápice, logo pela fresquinha!
Sorriu à confiança do filho no seu desembaraço, mas ousou contradizê-lo:
- Isto do Natal já foi mais fácil escrever!
- Então porquê?
- Porque já se escreveu sobre tudo e mais alguma coisa nesta época. Desde o Dickens…
O filho rodeou a secretária do pai, sentou-se do outro lado do móvel naquela velha e pesada cadeira de pau-santo e dispôs-se a ter aquela conversa.
- Achas mesmo?
- Ai rapaz detesto esses achismos que usas, mas pronto hoje alinho: acho!
- Pai, o Natal é muito mais que comércio selvagem! E também sei que não concordas nas crenças religiosas!
- Tenho consciência disso tido, mas responde-me lá: a quem interessa verdadeiramente o Natal?
O jovem pegou nuns papéis depositados no tampo da secretária, juntou-os e finalmente entregou-os ao pai quase como fosse uma oferta. Por fim acrescentou:
- Há dois tipos de Natal… Provavelmente haverá mais, mas dois existem de certeza.
- O Natal dos Hospitais e o Natal dos Hotéis…
- A sério pai… a brincar com isso? – O tom de voz parecia ter mudado.
- Desculpa tens razão! Nunca fui adepto destes dias recheados, dizem, de tanta coisa e depois vai ver-se e não é nada! E também esse tal de espírito de Natal!
O jovem ergueu-se da pesada cadeira e foi dar uns passos pela enorme sala que servia também de escritório, parou defronte da enorme pintura que diziam ser do seu bisavô que ninguém conheceu e voltando-se para o pai:
- Sabe quem foi este atrás de mim?
- O teu bisavô Segisnando!
- Tem a certeza?
Um silêncio escondeu a dúvida. Horácio acabou por responder:
- Como posso ter a certeza se não o conheci? Quem o conheceu, e por pouco tempo, foi o teu avô já que ele morreu ainda relativamente novo. Creio com a pneumónica!
- No fundo o Natal é assim como este teu antepassado… Sabes que existiu, mas nunca o viste…
O pai ergueu a cabeça para finalmente pedir um ponto de situação:
- O que é que esse avô tem a ver com o Natal… Não entendo… Provavelmente deve ser da hora tardia.
O filho esboçou um sorriso para devolver:
- Tu necessitas escrever sobre o Natal e eu estou a mostrar pistas para o fazeres.
- Ai… Cada vez percebo menos…!
- Pai… imagina como seria o Natal deste teu avô? Mais imagina como seria o Natal dos pobres dessa altura?
O antecessor levou a mão à cabeça e por via das dúvidas tentou esclarecer:
- Estou tão baralhado que não percebo como começámos para acabar neste ponto…
- Mas eu sei pai!
- Estou a ver que sabes mais que eu!
- Sabes onde estive até agora?
O pai ergueu o olhar pesado para o filho. Depois respondeu:
- Não sei, nem tenho nada que saber! És maior e vacinado…
- Pronto ficas agora saber: faço parte de uma comunidade de voluntários e andamos a distribuir comida e agasalhos aos sem-abrigo, durante toda a noite.
- ‘Tás a gozar…
- Eu não brinco com isto, pai. Faço-o há muito tempo e não só na época do Natal. Ou melhor… diria que faço com que o Natal aconteça durante todo o ano.
O velho não respondeu. Continuou:
- Creio que gostarias de um dia ir comigo... Talvez olhasses para esta festa de forma bem diferente...
Num momento seguinte o jovem visou atentamente o pai, mas Horácio estava ora longe pois esgalhava freneticamente esta estória!
Após o demorado almoço decidi apresentar aos meus amigos os restantes animais! Já haviam conhecido as galinhas e os coelhos, mas faltavam aqueles com quem andava diariamente pelas charnecas e lameiros.
Fomos a pé, todos be⁸m agasalhados que o frio por aqui não é para brincadeiras. Por vezes até neva! Estava ainda longe do curral a já escutava o balir triste das ovelhas todo o dia presas.
Os borregos foram obviamente a sensação e os alvos preferidos das miúdas. Ficaram mais tristes quando lhes comuniquei qual o destino provável das crias. Mas eu também tinha de ter algum rendimento.
A tarde tornou-se plúmbea por uns algodões celestiais vindo da serra. Comuniquei:
- Não seria pior irmos para casa? Não tarda chove e está muito frio.
Já entre paredes iniciámos a preparação da célebre consoada. Na horta a tardoz cortei algumas couves que trouxe para casa num braçado gigantesco.
- Ai tanta couve... Mas vem cá mais gente? - perguntou Isabel num sorriso maroto.
- Não, mas prefiro que sobre a que falte. E se sobrar vai para as galinhas... Aqui nada se desperdiça!
O curioso desta tsrde foi a postura de Joca... Estava distante, afectuoso, mas diferente! Assumi que fosse da emoção, mas em breve perceberia o porquê:
- Precisamos falar!
- Mau rapaz... que tom de voz grave é esse? Que se passa?
- Podemos ir para ao pé da lareira enquanta elas tratam da janta?
- Claro... Mas estás a deixar-me preocupado.
- Não te preocupes... é que é Natal e não sei o que gostas... e vai daí não te trouxe prenda nenhuma para te oferecer. Tenho para as miúdas e para a Isabel, mas tu...
- Oh homem... deixa-te disso! Não quero nada! Como vês não tenho televisão, computador, nem telefone fixo. E só tenho telemóvel porque posso precisar de ajuda quando ando por lá sozinho!
Depois apontei um velho aparelho:
- À noite oiço umas notícias naquele velho rádio e mais nada! Os livros que me mandas chegam!
- Pronto antes assim mas estava preocupado.
Num cagagézimo de segundo mudou a postura:
- E escrever, hem? Quando começamos?
Ri.
- Estás a rir de quê?
Fui à gaveta e retirei o velho caderno e mostrei-lhe. João abriu-o devagar para logo exclamar:
- Uau que desenho mais bonito... Quem fez?
- Não imagino, mas isso que aí está escrito é a letra da minha avó Pureza. O desenho não sei se foi ela, mas desconfio que sim!
Continuou a folhear o vetusto caderno e parou no que eu escrevera. Leu devagar para logo perguntar:
- Falta o resto...
- Pois falta! - admiti - Necessito de inspiração.
- Puxa pelo bestunto, companheiro!
Mudámos de assunto até que lhe perguntei:
- E filhos, não queres?
A face mudou de tom e eu logo percebi que algo estava menos bem. Sem insistir mudei de conversa:
- Desculpa lá, dá-me aí esse tronco se fizeres favor. Está-se aqui bem, não está?
- Não posso ter filhos...
- Tens duas meninas - apressei a devolver.
- Um problema qualquer que eu tenho... nem com tratamentos...
- Tem calma, não fiques triste... não estás só como eu...
Joca deu-me outro abarço e continuámos a matar saudades de outros tempos.
Finalmente a ceia. Ou Consoada. Que eu havia muitos anos não fazia questão em comer diferente. Mesa posta mais perto do lume e iniciámos o jantar.
Até que de repente tocou o sino da aldeia:
- A tocar a rebate? - perguntou Isabel.
- Calculo que estarão a chamar os fiéis para a missa do Galo!
- Oh nunca fui a nenhuma...
- Mas podes ir hoje...
As meninas ficaram alvoraçadas:
- Podemos ir, podemos ir?
- Claro... mas só depois de comermos.
Fazia muito tempo que não estava com tante gente a jantar. E muito menos em casa. A refeição correu rápida e as meninas seguiram para a igreja.
- Podes ir Joca...
- Eh pá tu sabes que nunca fui muito de alinhar nestes credos.
- Eu também não. Mas reconheço que muitas vezes são verdadeiros apoios psicológicos - assumi.
- Ai acredito! Mas vão elas e a gente fica aqui a arrumar a cozinha.
- Boa ideia!
Era perto da meia-noite quando uma algazarra entrou na casa. As meninas vinham excitadas com a noite.
- Este é mesmo um Natal especial, pai! - disse Filipa abraçando o meu amigo.
De súbito um silêncio entrou na sala. Não tendo percebido acabei por perguntar:
- O que se passa?
Isabel aproximou-se de mim e de olhos rasos de lágrimas confessou:
- Foi a primeira vez que a Filipa o tratou como pai!
Nem comentei pois percebi que aquele momento seria apenas deles. Entretanto a esposa desaparecera da sala, regressando com alguns sacos que poisou no chão. Depois e como não havia árvore de Natal... apenas a jarra com o giz-barbeiro foi lá que encostou cada prenda sobre os sapatos.
- Joca, este embrulho é para a Filipa e esta é para a Sara.
Chegou a hora de abrir as prendas. A excitação ao rubro por parte das meninas mais novas. No sapato de Isabel um pequeno embrulho que esta abriu devagar quase temendo o que lá estaria. Finalmente abriu uma pequena caixa de veludo onde encontrou um anel com um brilhante. Levantou o olhar para o João e parecia perguntar algo:
- É um anel de noivado! Queres?
As lágrimas corriam pela face bonita de Isabel que só soube dizer:
- Sim, claro que sim! - e beijou o noivo!
Entretanto as meninas nem tinham dado pelo caso e só souberam mais tarde. Sara ria muito e perguntava na sua inocência:
- Vais ser o meu pai verdadeiro?
- Sim, se quiseres...
- Quero, quero muito!
Afastei-me por que achei aquilo um tanto lamechas e sendo eu quase um eremita percebi que me deveria afastar. Fui à cozinha e trouxe um moscatel velho para comemorarmos. Peguei em três copos e na botelha e quando cheguei, Joca parecia também chorar. Disse para comigo:
- Isto dava para uma estória de cordel...
João viu-me e quase correndo para mim trazia uma papel na mão. Confessou:
- O Natal fez o milagre...
- Ainda acreditas nisso?
- Agora mais do que nunca - e mostrando o papel, continuou - vou ser pai!
- Como?
- Esta é uma imagem da ecografia do meu José.
- Ups! - Exclamei espantado.
- Sim será José como tu.
Mas nem tive tempo de falar. As miúdas tinham vindo à rua buscar algo e regressaram gritando:
Naquela véspera de Natal levantei-me de madrugada, por volta das cinco e meia! No fundo fiz o que faço há diversos anos, já que o gado não dá férias nem um mero fim de semana ao seu tratador!
Vesti a roupa perfumada de bedum e que sempre deixo em lugar fora de casa, peguei nas chaves dos cadeados do curral e entrei na madrugada ainda escura como bréu! Corria uma brisa gelada que me obrigou a aconchegar a roupa ao corpo ainda quente da cama.
Desta vez não iria com as ovelhas em busca de erva gelada, mas encheria as manjedouras com muito feno seco e algumas malgas de favas! E ficariam o dia todo no curral. Aproveitei para ordenhar algumas mães para mais tarde entregar o tarro repleto na tia Celsa que me faria como ninguém uma série de maravilhosos queijos!
O relógio da Matriz tocava oito badaladas no preciso momento que notei um anormal movimento de gente à frente do portão da minha austera casa. Não apressei o passo, mas naquela aparente família alguém me pareceu familiar. Os gestos das mãos, aquele jeito da cabeça... Aproximei-me lentamente.
- Joca?
O outro rodou meio círculo e vendo-me estendeu os braços num amplexo que juntaria muitos anos de afastamento físico.
- Eu mesmo. Dá cá um abraço... valente!
Abraçamo-nos durante muitos segundos até que nos separamos e olhamo-nos em silêncio. Fui eu que desboqueei:
- Estás na mesma João Carlos!
- Estás devidamente autorizado a tratar-me por Joca, como sempre o fizeste! - deu uma gargalhada daquelas que eu já tinha saudades!
- Que fizeste aos anos? Olha para mim e estas cãs...
- Isso é sinal de charme... Quanto aos meus anos... olha vivi-os.
Nova risota franca para finalmente rematar:
- Antes que eles me vivam a mim!
A assistir àquele espectáculo três caras femininas. Joca chegou-se a elas e juntou-as num abraço e comunicou-me:
- Estas meninas e tu são a minha única família.
Temendo dizer algo que não devia, acabei por as cumprimentar, iniciando pela mais velha:
- Viva como está, muito gosto em conhecê-la - e estendi a mão
Mas a senhora, como fosse minha irmã, chegou-se a mim e pespegou-me dois beijos na face, enquanto denunciava:
- Sou a Isabel e conheço-te sem nunca de ter visto. Tu tens sido um exemplo para o Jo... João que fala de ti como um irmão!
- Amabilidade sua...
Sem levar em conta a minha resposta apresentou-me as outras meninas, claramente filhas.
- Esta é Filipa de treze anos e aquela mais novita é a Sara de seis.
Baixei-me e cumprimentei:
- Olá meninas bem vindas à minha humilde casa.
Depois abri os braços e convidei:
- Vamos para dentro que aqui está muito frio!
Desbravei caminhos, portas e deixei que todos entrassem na casa.
- Desculpem esta minha postura minimalista, mas como estou sozinho...
Convidei então:
- Quem me quer ajudar a acender a lareira?
- Eu, eu, eu - responderam as meninas em uníssono!
- Então vamos buscar lenha...
E virando-me para Joca quase ordenei:
- E tu meu mariola, trás para aqui o teu carro. Abres os portões, enfia-lo aqui dentro e carregas as coisas para dentro de casa.
Joca:
- Ok chefe... quem sou eu...
Já não tinha recordação da casa com tanta gente. Num instante a minha lareira, daquelas enormes, foi acesa para logo se sentir o calor crepitante e desigual do fogo.
Mais uma vez desculpei-me:
- Como disse sou demasiado minimalista e como qualquer coisa. Daí parte das coisas se encontrarem fechadas naquele louceiro, mas podem usá-las à vontade. Provavelmente necessitam ser lavadas.
Isabel interveio:
- Não te preocupes... tudo se resolverá!
De súbito:
- Ai o que iremos comer hoje ao almoço? Almoçam e jantam cá certo?
- Claro companheiro. Para a consoada estamos preparados...
Ocorreu-me:
- Vocês gostam de feijão frade?
Sara perguntou:
- O que é?
Ups e agora? Que deveria responder? Passei a mão pela cabelo a ver se encontrava uma resposta. Depois devolvi:
- É um feijão muito pequeno, mas muito saboroso. Tenho a certeza que irás gostar... Anda comigo!
Todos me seguiram até à loja por detrás da casa. Aqui encontra-se uma velha arca de madeira meio repleta de feijão frade apanhado no Verão anterior. Peguei na malga e enchi um saco.
- Creio que chega! Vamos lá pô-lo em água. Depois vamos cozê-lo.
Entusiasmadas as crianças seguiram-me por todo o lado. Até à capoeira onde retirei alguns ovos que as miúdas adoraram pegar!
- Mãe, mãe ainda estão quentes!
Era uma da tarde quando o almoço foi servido: feijão frade, ovos cozidos e pimentos fritos em azeite e alho. Uma conversa alegre alastrou-se na enorme mesa de castanho. Até que questionei Joca:
- Mas tu nunca me disseste que eras casado e tinhas duas filhas?
- Porque não era e nem as tinha... - e riu-se com gosto.
Depois segurando a mão da mulher confessou:
- As meninas são filhas do primeiro casamento da Isabel!
Esta interveio:
- O meu primeiro marido faleceu de um acidente de viação há quatro anos.
A igreja ampla e bem iluminada encheu-se naquele fim de tarde frio, para a costumada eucaristia vespertina. Por altura do Natal era frequente os fiéis aparecerem em maior número no templo. Um fenómeno estranho e ainda pouco entendido pelas autoridades eclesiásticas.
O culto decorreu com a exigência do momento e do local, mas terminada a comunhão e antes da bênção final, o padre Fernando aproximou-se do microfone que um dos acólitos colocara à sua frente. Com deferência e cuidado ajeitou a estola e comunicou:
- Esta terceira semana de Advento culminará com a bonita festa do Natal. Um momento de enorme entrega e partilha, quase sempre em família. Por isso pensei que seria, quiçá interessante, tomarmos a iniciativa nessa noite de Consoada deixarmos os nossos confortáveis lares e irmos jantar fora com os mais necessitados e que vivem permanentemente ao relento!
Um burburinho percorreu a assistência.
- Este convite é apenas para quem quiser e puder!
A plateia manteve-se agitada e houve mesmo quem abandonasse a igreja sem esperar pela bênção final. O padre Fernando calculou de antemão que tal pudesse acontecer, no entanto foi seguindo o seu raciocínio.
- A ideia será cada um de nós elaborar na sua casa refeições para duas ou mais pessoas, sendo que uma delas será para o próprio e a outra ou outras serão para oferecer aos sem-abrigo.
Novo pequeno tumulto invadiu a enorme sala.
- Mas desta vez não chamaremos aqui os sem-abrigo, pois seremos nós a ir aos locais onde pernoitam para jantar com eles. Cada um deverá levar o que achar melhor e jantaremos no seio da comunidade mais desfavorecida.
Serenamente continuou:
- Se somos todos filhos de Deus, como abandonamos estes irmãos na rua sem partilhar com eles um pouco do nosso jantar? Que cristãos seremos então? Onde encontramos Cristo nascido?
Os fiéis olhavam-se quase assustados com a iniciativa e questões do padre.
- Mais uma ideia estapafúrdia - diria mais tarde uma mulher para os seus míseros botões a caminho de casa em passo apressado e embrulhada num xaile negro de viúva até à alma, como escreveu Eugénio de Andrade.
Outros, ao invés, consideravam a iniciativa deveras interessante.
Todavia foram poucas as ovelhas, do imenso rebanho, que constituía aquela paróquia, que aceitaram o desafio e ajudaram o Padre Fernando a levar até à cidade a alegria de uma refeição quente e acima de tudo a partilha de vidas e respectivas estórias.
Chegada a noite de Consoada um grupo restrito de fiéis saiu da igreja em busca dos desemparados que se espalhavam pelos mais tenebrosos buracos da capital. No grupo alguns jovens e assíduos voluntários em trabalhos de campo. Conheciam bem a cidade e melhor ainda as pontes, viadutos e casas devolutas para onde se arrastavam demasiados sem-abrigos.
A maioria destes toxicodependentes, muitos alcoólicos, outros sem maleita definida a não ser a… solidão.
O padre Fernando era um jovem clérigo com ideias muito radicais sobre a forma como espalhar a fé. Dizia muitas vezes em conversas semiprivadas que a fé só se espalharia pelo exemplo e pelas obras, , seguindo a ideia de S. Tiago e não só com palavras. E era este sentido que ele queria colocar na sua iniciativa de Natal.
Ainda não era tarde, mas a noite gelada já descera à cidade. O trânsito fazia-se quase todo no sentido da saída da imensa urbe enquanto aquele grupo se dirigia no caminho inverso.
A certa altura num largo o carro da frente parou e fez sinal aos que o seguiam da comitiva que ficaria ali. Aquele seria um dos locais mais preenchidos de pobres e desvalidos.
Estacionaram os outros e espalharam-se pelas ruas quase desertas. Sob um viaduto encontraram homens e mulheres já deitados sobre nacos de mantas e cobertos por grossos pedaços de cartão tentando minimizar o frio da noite.
Uma fauna bizarra onde independentemente do sexo todos se misturavam sem pudor. Eles de barbas de muitas semanas, sujas e que escondiam profundas rugas dos anos e das intempéries da vida, olhares longínquos e frios. Elas de longuíssimos cabelos emaranhados e muito sujos, atados no cimo da cabeça por um cordel criando um novelo fétido.
Mas o mais comum em homens e mulheres era a quase ausência de dentes. Alguns perdidos pelas doenças e vícios, outros pelas contínuas zaragatas por um lugar melhor nalgum vão de varanda.
Todavia para o comum cidadão o pior estava no odor nauseabundo que estes pobres exalavam. Nem eles nem ninguém sabia há quanto tempo não tomavam banho. Mas não se importavam…
A equipa desceu ao inferno da cidade levando consigo muitas refeições. Um dos sem-abrigo vendo-os chegar e percebendo que havia comida aproximou-se e perguntou:
- É para mim, é para mim?
Alguém disse que sim, mas acrescentou:
- Vai haver muita comida, mas precisamos de um lugar onde nos possamos sentar.
Parecia um terramoto a movimentação dos que dormiam ao relento e, quase por milagre, apareceu uma longa mesa, bancos, caixas e até uma cadeira. Tudo para que todos se sentassem. Todavia um dos pobres disse:
- A cadeira é para o Pai Óscar!
As visitas não sabiam de quem se tratava para minutos depois vindo do fundo de uma manilha de esgoto e que por ali fora abandonada surgir um idoso. Dobrado sobre uma velha bengala o Pai Óscar, como todos o tratavam, caminhou devagar e sentou-se no lugar que lhe haviam reservado!
2 – O jantar
Ao lado do velho sentou-se o Padre Fernando que de uma forma cuidada foi ajudando a colocar todos os apetrechos para o jantar! Pratos, copos, talheres, guardanapos!
Para depois vir a comida que todos os desgraçados olhavam com gulodice e que se espalhou pela mesa. O velho ainda nada dissera desde que chegara e todos aguardavam as suas palavras. Inclusive o padre!
O idoso ergueu o braço devagar e foi gesticulando para que se sentassem e aquietassem. De seguida olhando para o padre sentado a seu lado disse numa voz rouca e quase sumida:
- Quero agradecer esta comida que vocês trouxeram e mais ainda perceber o porquê deste solidário gesto.
Os voluntários olharam-se temerosos a aguardar uma resposta do padre. Mas este fez que não entendeu a ideia e seguiu para uma breve oração que só alguns dos presentes seguiram. Finalmente a palavra mágica:
- Comamos!
Já conhecedor da natureza humana o jovem padre Fernando percebeu que o idoso sentado à cabeceira da longa mesa fora, algures no tempo, alguém com conhecimentos largos. A forma como falava, mesmo com alguma dificuldade e, acima de tudo, a serenidade que colocara nas palavras.
Contudo o mais curioso foi a maneira como aqueles seres humanos, pouco habituados a serem tratados como tal, se portavam à mesa. Não houve bravata por um naco de pão ou um pedaço de carne. Todos comeram devagar como se conhecessem há diversos anos.
De vez em quando chegava mais um necessitado, para o qual havia sempre mais um prato! A tristeza que muitos teriam naquela noite mágica para tanta gente fora substituída por uma alegria contagiante. E nem o odor nauseabundo que exalava dos pobres desgraçados fora suficiente para esmorecer a alegria da partilha.
A noite carregava-se de frio e muita humidade. Todavia naquele espaço, mesmo ao ar livre, ninguém sentia a intempérie da noite e a alegria era contagiante,
O Padre na sua serenidade eclesiástica olhava a mesa e percebeu que era aquilo que deveria ter feito, não obstante muitas vozes discordantes. Depois questionara-se de que serviria esta época se não fosse para partilhar o pouco que se tem com outros que têm menos?
O vinho que viera desaparecia a uma velocidade luminosa, muito por culpa dos alcoólicos presentes, mas outrossim de outros sedentos de iguarias.
Tudo evaporada qual éter! Queijos, azeitonas, pão, manteiga como entradas. Depois o bacalhau, o polvo, as couves, batatas tudo regado com bom azeite. Perú, borrego, lombo de porco e até umas pernas de frango eclipsaram-se num instante.
Por fim a fruta e os doces que tal como o restante repasto imolaram-se pela fome, num ápice!
Pai Óscar comeu pouco essencialmente porque o seu olhar perscrutava atentamente os seus amigos e muito mais os beneméritos.
Um verdadeiro ancião!
3 – Uma longa conversa
O jantar aproximava-se do fim e entre o padre e o chefe do clã dos despojados da vida o diálogo não passara de um mero como está a comida? ou está a gostar? ao que o idoso respondia com elogios curtos, mas assertivos confirmando a ideia primeira do clérigo.
Alguns convivas cantavam já com vozes bem desafinadas, canções sem nexo o que criava um ambiente alegre e salutar. Algumas mulheres ousaram dançar ao som das canções inventadas, mas foram logo paradas perante o olhar desaprovador do velho Óscar!
Atento a todos os acontecimentos o padre decidiu questionar o idoso sem receio de ser mal interpretado:
- Diga-me meu irmão como se chega a esta decadência? O que o atirou para a rua?
O interlocutor fez um gesto largo com ambos os braços como se tudo estivesse explicado nesse envolvimento. Mas o vigário não ficou esclarecido.
- O Mundo, a vida e acima de tudo as pessoas, especialmente as más!
Num segundo Fernando recordou-se de uma fase do Padre Américo e que dizia... “ não há rapazes maus!” e esteve para lhe devolver como resposta, mas preferiu perguntar:
- Há quanto anos anda nesta vida?
Ao longe tocou o sino da igreja talvez chamando os fiéis para o culto ou somente estaria a bater as horas. Naquele instante nada disso parecia importante.
O velho sem responder ergueu-se do seu patriarcal lugar e começou a caminhar devagar bem preso à vetusta e puída bengala. Depois olhou para trás e percebendo que o padre não o seguia chamou-o com a mão.
- Siga-me se fizer favor!
O outro alcançou-o e caminharam uns metros lado a lado. O idoso parou, ergueu a bengala e apontou para um buraco meio escondido entre dois velhos prédios. Naquele espaço estava uma enorme manilha abandonada havia muitos anos e da qual Óscar se apropriara. Dela fizera a sua casa e lentamente desceu o caminho de terra até chegar. Aqui bateu com a bengala na orla de cimento e de dentro veio um som surdo, como estivesse cheia de gente.
- É aqui que eu vivo faz agora muitos anos.
- Lamento sabê-lo, mas falta saber porquê neste buraco?
- Isso é uma estória longa e sem um final feliz…
- Tenho a noite toda!
O velho entrou remexeu em algumas coisas para de súbito apareceu uma luz mortiça oriunda de uma vela de cera. Por fim convidou:
- Se quer saber da minha vida é melhor sentar-se.
O padre vergou-se à vontade do idoso e penetrou no local lúgubre e mal-cheiroso. Sentou-se nem reparou em cima de quê e preparou-se para escutar o que o velo Óscar teria para contar.
- Sabe padre… há muito que perdi a fé!
- Em Deus ou nos homens?
- Sinceramente? Em ambos!
O idoso pegou no seu inseparável apoio e quase como se conversasse consigo mesmo desfiou:
- Era véspera de Natal naquele dia. Eu tinha trabalhado o dia inteiro para poder passar mais uns dias com os meus…
- Filhos? - interrompeu.
- E mulher, irmãs, cunhados, sobrinhos, sobrinhos-netos… enfim uma multidão.
- Uma alegria…
- Uma tristeza…
- Desculpe…
- Não tem mal… já digeri tudo isso… depois de tantos anos.
- Mas o que aconteceu?
- Nessa noite que vocês dizem que é Santa, a minha mulher na frente de todos abandonou-me. Trocou-me por outro. Humilhou-me...
- Uau… isso deve ter doído.
- Sim, na altura! Depois acabaram por partir também os filhos e eu fiquei só mais o meu trabalho. Procurei no álcool maneira de afogar a tristeza e foi de tal maneira que uma noite fiquei na rua… Quando acordei tremia de frio pois haviam-me surripiado as roupas e os sapatos.
- Que malvadez…
- Pois foi… mas um sem-abrigo mais novo que eu socorreu-me levando para um prédio devoluto. Aí deu-me de comer e de vestir… coisas velhas e rotas já se vê e por ali fiquei uns dias.
- Deus mostra-se nas pessoas mais humildes!
- Era bom tipo o Elizário… Nunca mais soube dele…
- Elizário… esse nome não me é estranho!
- Não deve ser o mesmo! Há anos que não sei nada dele!
- Eu conheci um com esse nome no hospital onde fui capelão! Era para lhe dar a Extrema-Unção, mas o homem era rijo e safou-se…
- Esse meu amigo era de uma ilha dos Açores…
- Das Flores?
- Daí mesmo!
- Só pode ser o que eu conheci! Que coincidência!
Lembrava-se bem do bom do açoriano e um sorriso aflorou aos lábios ao evocar a memória. Por fim continuou:
- E depois ficou por aqui?
- Sim fiquei… o meu trabalho de investigação no laboratório já não me dava qualquer gozo e preferi ajudar os que por aqui sofriam… com os meus conhecimentos…
- Nunca mais soube da sua família?
- Sinceramente Padre aquilo não era uma família… Daí dizer que perdi a fé! Aquilo era um antro de gente pérfida e má!
- Mas hoje é respeitado… bastou ver como todos o tratam.
A luz trémula do coto da vela ainda deixou ver uma espécie de sorriso sobre uma longa barba cinza. Para finalmente declarar.
- Sou o primeiro socorro deles! Para alguns sou um bruxo, outros um curandeiro, mas poucos ou nenhuns sabem que fui um médico…
- Que desperdício!
- Engana-se…
- Porque estou enganado?
- Porque sempre sonhei em ajudar os outros. Primeiro investiguei agora pratico. Mesmo que não tenha meios…
- Então Óscar não é o seu nome verdadeiro, pois não?
- Não senhor padre, não é?
- Então com se chama?
- Isso importa?
Realmente naquela noite não interessava, mas ainda assim…
- Não! Mas preferia chamar pelo seu nome verdadeiro… merece isso.
A noite abraçou a aldeia com o seu manto negro e silencioso. Apenas se escutava a chuva que caía abundantemente nos telhados de telha vã ou escorrendo pelos beirados. Era véspera de Natal e Arsénio atravessava o casario devagar, cansado de mais um dia de jorna dura.
Todavia só assim conseguia sustentar a pobre família. A sua casa, que mais parecia um pardieiro, situava-se no outro lado do povo. E o frio e a chuva que se entranhava no corpo franzino tolhia-o ainda mais. O sino dea velha igreja tocou oito badaladas. Contou-as como se fossem passos na vida. No lar sabia que encontraria a mulher e a filha que aguardavam por um naco de broa ou umas folhas de couve para enganar a fome. Um Natal como tantos outros... de mingua!
- Vida maldita de quem é pobre – desabafava para consigo.
No instante seguinte apercebeu-se que alguém o chamava. Olhou para o lado e debaixo do alpendre da casa senhorial da aldeia achava-se o homem mais rico da região:
- Boa noite Arsénio, para onde vais?
- Bom noite senhor Bernardo. Vou para casa. Porque pergunta?
- Quem te aguarda lá?
- A minha pobre mulher e uma filha pequena.
- A tua família, portanto?
- Sim é a única que tenho e para a qual trabalho arduamente para a sustentar.
O homem saiu do alpendre no mesmo instante que a Lua desembaraçava-se de duas nuvens e incidiu na face triste do homem rico. A chuva deixara de cair entretanto, mas uma brisa fria mantinha-se. Depois aproximou-se do pobre e entregou a Arsénio um saco. Este a princípio recusou, mas o outro insistiu:
- Leva Arsénio para a tua família. Aí dentro encontras um belo naco de presunto, uma galinha pronta a cozer, bolos e duas garrafas: uma de azeite e outra de vinho. Aproveita… a tua ceia!
O pobre espantou-se com uma anormal generosidade e perguntou desconfiado:
- Porquê senhor? Que lhe fiz para receber tamanha prenda?
O outro apenas respondeu:
- Partilha com a tua família. Sou rico em dinheiro, mas pobre em amigos e família. Sempre pensei que o meu dinheiro compraria tudo… Como vês é noite da Consoada e eu estou aqui só. Sem mulher, sem filhos, sem pais, nem irmãos... e muito menos amigos!
Vergando-se como conclusão continuou:
- Sei que o dinheiro não compra amor verdadeiro nem estima sincera. Portanto leva homem, leva para a tua casa e partilha com os teus. És mais merecedor que eu!
Arsénio temia. Pensou um pouco e finalmente aceitou, mas impôs uma condição:
- Aceito, sim. Mas vem comigo partilhar a mesa. A minha casa é pobre, muito pobre, no entanto há sempre lugar para mais um desde que venha em paz.
O rico homem iluminou-se de esperança e devolveu:
- Vou sim... com prazer! Mas deixa-me ir a casa aparelhar a carroça e levar mais comida... essa não chega. Havemos de ter uma rica consoada já que somos ambos pobres.