Cheirava a Natal na aldeia rude e fria. Rude nas suas pedras graníticas, pesadas e invioláveis por qualquer aguaceiro por mais forte que este se mostrasse. Fria por uma brisa que sorrateiramente parecia descer pelas encostas geladas da serra contígua
Em cada casa as mulheres afadigavam-se em criar. Doces… muitos doces. A boca do forno não parava de receber formas com pudins, bolos e finalmente aquele cabrito para a consoada. Muitas mãos, muitas conversas, algumas repetidas de outros anos.
Os homens fugiam às azáfamas domésticas… antes a enxada, diziam. Escapuliam entre dois carregos de lenha para a boca negra do forno, antes que algumas delas se lembrasse de os voltar a chamar.
No tasco do Quim Maravilhas os fugitivos reuniam-se num conclave único e raro. Copos de vinho, cerveja, aguardente e até alguns sumos conviviam sem bravatas e as discussões nem se assumiam muito acérrimas. Era Natal… ou quase!
Ao balcão encostara-se Anacleto, um militar da GNR que escapara ao serviço natalício. Do alto do seu metro e oitenta de envergadura e ajudado pelas sucessivas cervejas ingeridas apregoava a sua sorte por se ter livrado ao serviço na quadra.
A algazarra parecia a de um mercado enquanto o tasqueiro distribuía bebidas. As contas far-se-iam no final…
No extremo da aldeia um vulto surgiu em passo lento, pesado vindo do meio do pinhal que ano após ano, como por milagre, ia escapando à voragem dos incêndios. Quando entrou no centro do povoado a torre centenária da igreja assinalou qualquer hora que o homem nem contou.
De ouvido treinado e atento escutou o alvoroço na taberna e aproximou-se. Por uma pequena janela percebeu muitos homens num enorme chinfrim. Corajoso empurrou a porta lentamente e entrou.
Tal qual um interruptor a confusão desligou-se instantaneamente e os homens ficaram a olhar a visita, que no mesmo passo que o trouxera até ali chegou ao balcão:
- Boa noite! Desculpe esta entrada.
Quim o dono era bom tipo, mas quando não conhecia alguém tornava-se bem antipático. Assim, de maus modos perguntou:
- O que vai?
- Se houver aqui uma alma caridosa que me pague um copito agradeço. Se não houver, não há problema, saio já!
Anacleto nesse mesmo instante fez sinal ao taberneiro para servir o vinho. O homem beberricou e olhando o aldeão agradeceu:
- Obrigado senhor! Muito obrigado.
Despejou o resto do copo e virou-se para sair, mas Anacleto curioso como sempre fora não o deixou partir e ofereceu:
- Beba outro, homem!
. Não posso!
. Não pode porquê?
- Vai cair mal na minha fraqueza…
O silêncio quase esclareceu, mas continuou:
- Há três dias que não como nada… a não ser uns dióspiros que apanhei por aí!
- Três dias? Mas donde é que você vem?
A resposta pretendida não seria aquela:
- Não sei!
- Não sabe?
- Não…
- Então explique-me como aqui chegou?
O viajante olhou em redor e percebeu que todos aguardavam por uma ideia. Não sentiu medo, mas ficou desconfortável. Com os ombros puxou o casaco que já fora velho e devolveu:
- Vim pelo pinhal abaixo…
- Mas de onde?
- Isso não sei, senhor!
- Não sabe? Como não sabe?
Um mutismo cavo.
- Porque fugi do lugar onde estava a trabalhar…
- Fugiu?
- Sim!
À resposta tão peremptória colou-se o silêncio. Foi o fugitivo que acabou por esclarecer:
- É verdade… Fugi de uma quinta onde estava aprisionado. No princípio há uns meses pagavam e davam-nos comida e cama, mas depois fomos mudando de sítio e cada lugar era pior que o anterior. Ainda por cima sem darem um tostão.
Um arrepio, que não de frio, trespassou alguns dos presentes. Anacleto mostrava-se muito interessado e assumiu:
- Mas isso é escravatura…
- Pois não sei. Mas há três dias, dois dos meus colegas revoltaram-se e tentaram fugir pela estrada. No meio da confusão também escapei, mas vim pela floresta. Depois apanhei um ribeiro e entrei nele porque sei que os cães que eles têm perdem o rasto.
As vozes começaram a crescer numa espécie de revolta. Foi nessa altura que o GNR à civil desanuviou:
- Estamos aqui à conversa e não sabemos o seu nome.
- Também não sei…
- Ai homem que você é uma raridade…
- Não sei o que sou nem quem sou.
- Mas sabe ao menos onde nasceu?
- Ah isso sei… Lá para os lados de Oliveira do Bairro.
- Bolas…está bem longe de casa.
- Nem longe nem perto já que não tenho rigorosamente nada! Nem um curral…
- Então o seu pai e a sua mãe…
O pobre homem molhou os lábios no vinho para avançar:
- O meu pai morreu na guerra de África… E quando partiu deixou a minha mãe grávida de mim. Portanto nunca o conheci. Era eu pequeno, a minha mãe fugiu não sei para onde e deixou-me com a minha avó até ser mais espigadote. Nessa altura fui tomar conta de um rebanho de ovelhas e cabras e por lá fiquei até ir para França.
- França?
- Sim. Um amigo lá da quinta arranjou-me trabalho em França e por lá fiquei uns anos. Ganhei algum dinheiro, mas tive de o gastar para regressar a Portugal pois fomos todos despedidos. Sem casa nem papéis lá conseguimos arranjar quem nos trouxesse para cá… mas tive de gastar o dinheiro todo que ganhara.
- E onde foi parar? – ouviu-se.
- Onde haveria de ser? À minha aldeia… Como não havia ninguém da família acabei por ir trabalhar com uns ciganos.
Anacleto pegou no homem sentou-o a uma mesa e disse para o Maravilhas:
- Trás pão, queijo e mais o que tenhas aí no frigorífico. Não quero que este senhor passe fome. Vá trata disso.
- E quem paga? És tu?
-Tens dúvidas?
- Só se for hoje… és um coça para dentro.
Anacleto quase chegou a vias de facto com o taberneiro e foi o desgraçado que amenizou:
- Por favor não se zanguem por causa de mim… Era o que mais faltava. Prefiro pôr-me a caminho…
- Vai'nada… isto é com a gente. Mas agora diga-me lá como se chama… ou pelo menos como o chamavam.
- Ora isso é fácil. A minha avó disse-me um dia que a vontade do meu falecido pai era que eu me chamasse António, como ele! Mas a minha velhota gostava de Francisco que era o nome do marido. Quando fui para a Quinta da Amoreira passaram a chamar-me Peralta que era o apelido do meu pai.
- E sabe ler?
- Nem ler, nem escrever! Como dizia a minha avó se não existes para ter um nome também não existes para a escola.
Um coro soou no salão.
- Bolas como pode ser possível alguém não existir?
Os petiscos apareceram na mesa e todos os presentes participaram no singelo repasto comendo, bebendo e exigindo ao tasqueiro mais coisas.
- O chouriço que tinhas aí onde anda?
Lá veio o enchido e vinho, cerveja, pão!
Finalmente na tasca da aldeia vivia-se o verdadeiro espírito de Natal. Partilhar comida “buída”, estórias… Até o Quim acabara por se sentar e alinhar no convívio.
- Mas a sua casa na aldeia ficou para quem? – perguntou Anacleto.
- A minha irmã vendeu-a por tuta e meia. Ainda lá passei a ver se havia alguma coisa de interessante para levar, mas apenas encontrei loiça partida e uma fotografia a preto e branco com alguns militares. Imagino que um deles seja o meu pai… mas não sei qual deles é!
Com gestos lentos meteu as mãos negras e calejadas na roupa suja e malcheirosa e retirou um pedaço de papel. Colocou-o em cima da mesa e com cuidado foi desdobrando até se encontrar a dita fotografia.
- É esta!
A curiosidade alastrou a toda a sala e foi o próprio Peralta que se dirigiu a cada um dos presentes e mostrou a foto. Quando o velho Zé Gentil pegou na fotografia e a observou exclamou:
- Não pode ser, não acredito…
Os homens acorreram céleres ao idoso.
- Então ti Gentil que se passa? Sente-se bem?
- Chegue aqui homem.
O viajante aproximou-se com medo do que viria a seguir. Mas o Gentil ergueu-se da sua cadeira e com as forças que ainda tinha ergueu a mão e fez uma continência que a todos admirou. No instante seguinte olhou a foto e devolveu o olhar para o homem sujo, pobre, de barba de muitos dias, quiçá semanas que tinha à sua frente. Meteu a mão no peito e sentou-se. Havia agora ali um mistério… que o velho iria certamente desvendar.
- Senhor Peralta este aqui é o seu pai António – apontando para um dos soldados – E este aqui ao lado sou eu!
Todos se olharam num misto de alegria e surpresa.
- Tem a certeza senhor?
- Certezinha absoluta, já que tenho uma foto igual! Os outros dois que aqui estão eram o Camões e o Belmiro.
- Isto merece um aplauso. Safa que grande Natal este! Nunca pensei – assumiu alguém.
O velho mandou baixar as mãos para rematar:
- Este António é o meu único herói. Entregou a sua vida para salvar a minha. Jamais o esquecerei.
Peralta ouviu, comoveu-se e sentou-se lentamente na cadeira para, pela primeira vez na sua estranha vida, chorar!
O inspector Carmindo Novais era sempre o primeiro a entrar na enorme sala da brigada de Homicídios. Não suportava chegar atrasado e muito mais se aborrecia quando tinha de sair tarde.
A equipa com menos recursos humanos que os necessários, estava recheada de agentes muito competentes e esforçados. De todos talvez o chefe fosse o único de menor valia. Todavia tinha o cuidado de deixar a equipa trabalhar à-vontade, sem grandes receios dos directores acima de si. Muitos consideravam-no incompetente como polícia, mas assertivo como gestor de recursos humanos.
Carmindo sentou-se na secretária que em tempos fora de Valdemar, um inspector inteligente e profissional porém muito, muito flexível no que dizia à organização. Disse-lhe uma vez Benvindo da Cruz, o mestre dos disfarces quando deles se valia para recolher informações… especiais:
- Esta secretária é o local mais visível desta sala. Antes, com o Valdemar, eram os Himalaias de processos por fechar e arrumar, agora é o deserto Saahra sem um único papel. Os extremos tocam-se, bem dizia o outro!
O inspector ria-se, estendia a mão e recebia uma palmada, à moda americana.
No entanto a maior característica do inspector não era só a sua exigente pontualidade, mas a forma como se vestia. Diariamente Carmindo trajava um fato completo sobre uma camisa sempre alva que fechava com um par de botões de punho personalizados. Calçava uns sapatos clássicos sempre brilhantes de tão engraxados e com os quais alguns colegas ousavam brincar:
- Carmindo hoje esqueci-me do espelho… emprestas-me um dos teus sapatos?
Todos riam com a graça, até o próprio, que devolvia sempre com anormal classe.
- Pelo menos sempre ficarias mais bonito no sapato que num espelho verdadeiro!
Nova risada geral!
Certo, certo é que Novais tinha uma disciplina horária muito rígida. Levantava-se sempre muito cedo, arranjava-se para depois lentamente ir acordando as crianças. Diana, a esposa, já se adiantara e preparava o pequeno-almoço para todos.
Sentados à mesa as conversas variavam somente sobre os trabalhos da escola e os testes, pois Carmindo nunca trouxera para casa qualquer preocupação laboral, por mais grave que fosse o crime. Tudo e todos prontos metiam-se, por fim, no carro e eram distribuídos pelas diversas escolas. A última era a esposa que também tinha direito a uma boleia.
Assim quase sempre antes das oito da manhã estava à secretária a ler as novidades nos jornais.
Aquela manhã fora igual a tantas outras, com direito a investigação jornalística mas pouco credível, para após o almoço escutar o toque no vidro do gabinete do chefe. Uma mão chamou-o apressado e lá foi Novais no alto do seu metro e oitenta em passo lento.
- Boa tarde chefe!
. Boa tarde Novais! Temos um caso… Mas nem sei bem se deveremos intervir.
- Então vou para a secretária!
- Vais nada, pá! Um amigo meu trabalha como enfermeiro no INEM e foi há pouco convocado para uma paragem cardio-respiratória numa moradia no Restelo…
- Pensavas que eram só os pobres que morriam disso?
- Deixa-te disso e escuta. A dona da casa garante que não conhece o tipo, que nunca o viu, nem sequer imagina como foi lá parar.
- Então queres o quê?
- Pega aí numa dessas miúdas acabadinhas de chegar à brigada e leva-a contigo. Pode ser que a tipa se abra com a cachopa.
- De acordo, saio já! Mas não te esqueças que hoje tenho jogo e, portanto, vou sair mais cedo do que o costume.
- Como queiras… Só quero é que descubras o que se passou na casa.
Olhando para o edifício simples quase austero, Rafael tentava, em vão, descobrir a razão ou razões para alguém erigir uma habitação naquele local quase ermo. Bem ermo não seria o termo perfeito, talvez afastado do povo, definiria com melhor competência o local, até porque a casa podia ser vista facilmente da aldeia.
As oliveiras, laranjeiras, cerejeiras e demais árvores de fruto emprestavam à quinta um ar estranhamente acolhedor. Sentou-se devagar numa enorme pedra que fora com toda a certeza um batente de uma velha casa e matutou na sua decisão, meio precipitada, ao adquirir aquela pequena fazenda.
Tamborilava os dedos na pedra granítica assumindo a dúvida quando uma voz atrás de si o cumprimentou:
- Ora viva jovem Rafael!
O homem assustado olhou donde veio o cumprimento e deu conta do decano da aldeia. Um velho, velho como o Mundo, respondia Almiro quando muitos tentavam adivinhar a sua idade e à qual o astuto idoso conseguia sempre esquivar-se ao número correcto.
- Bom dia Ti’ Almiro!
Apoiado numa ireconhecível bengala aproximou-se do novo dono da quinta e estendeu-lhe a mão num cumprimento efusivo e sincero:
- Boa compra, este naco de terra, boa compra. E com tanta história…
- História ti’Almiro? Como assim neste ermo? Mas obrigado de igual forma!
O velho nem respondeu, para ir acrescentando:
- A quem compra terra, nasce-lhe o Sol, a quem vende põe-se-lhe o Sol
- Nem sei se fiz bem… - confessou - isto vai requerer muito trabalho
- E o que tem isso? Fazes devagar como o primeiro dono de tudo isto…
A ideia de uma estória estimulou Rafael:
- O Ti’ Almiro conheceu-o?
- Ohhhhhh, não! Foi o meu bisavô que me contou o que aqui se passou. Que lhe contou o avô dele.
- Ui isso dá muitos anos…
- Nem imaginas… Muito mais do que calculas, todavia é uma belíssima estória.
- Que adorava ouvir…
- Uma mui antiga daquelas que jamais se perdem.
- Conte lá que eu adoro escutar um bom relato!
O velho sentou-se ao lado de Rafael e erguendo a bengala numa atitude viril, principiou:
- Há muitos, muitos anos esta casa não existia e nestes terrenos cultivavam-se outros produtos.
A bengala dançou de um lado para o outro como se desenhasse no ar um mapa fictício. Rafael percebeu-lhe o silêncio e não pretendeu acelerar o relato.
- A Quinta não era só este bocado, mas tudo quanto o teu olhar alcança, desde aqui…
- Isso parecia ser enorme.
- E era, meu filho, era!
No chão o idoso principiou a riscar uns traços, certamente o desenho original da quinta, para finalmente completar:
- Esta Quinta a que chamaram a “Quinta Nova” estava toda, mas toda mesmo, cercada por um muro altíssimo todo de pedra muito grossa, que dois homens um em cima de outro não alcançavam.
- Certo, ti’Almiro, todavia antes de continuar diga lá, se souber, quem foi o primeiro dono disto.
- Foi um fidalgo, D. Gaudêncio Torres, mais conhecido na época pelo “O Bravo”! Diziam que era aparentado ao Rei, mas como imaginas nunca ninguém confirmou esta ideia.
- Geralmente é sempre assim…
- Ora bem… naquela altura o país andava constantemente em bravatas. E quando não eram batalhas contra estes e aqueles inimigos eram os salteadores. Estes homens entravam nas aldeias e saqueavam tudo. Como as casas só tinham velhos, mulheres e crianças facilmente roubavam e fugiam antes que alguém avisasse os nossos militares!
Olhou o jovem a seu lado e percebeu-o atento às suas palavras. Continuou:
- Os dois filhos do fidalgo, já homnes feitos, foram apresentar-se ao Rei da altura, para combaterem a seu lado. O problema é que os rapazes eram valentes, corajosos, mas percebiam pouco de lutas. E deste modo facilmente foram mortos pelos inimigos.
- Os dois?
- Os dois! Uma desgraça tamanha que deixou os pais completamente destruídos! De tal forma que passado pouco tempo a esposa do fidalgo morreria de desgosto, ficando apenas D. Gaudêncio para uma quinta enorme, imensa e muito trabalhosa.
- O homem não tinha pessoal?
- Tinha, tinha, mas era pouco e quase todos viviam fora daqui. Ora bem... foi isso mesmo que o fidalgo resolveu. Certo dia mandou chamar todas as pessoas que viviam por aí em barracos pobres e podres e comunicou-lhes que passassem a viver dentro da quinta, até passar o tempo das guerras. Deu-lhes casa, comida, trabalho e pediu que todos trouxessem os animais que tinham e acima de tudo todas as escadas de madeira.
- Escadas?
- Já vais perceber… Quando tudo estava na quinta D. Gaudêncio distribuiu as famílias por diversas casas que tinha, a maioria palheiros que ele mandou limpar e arranjar aos aldeões mais velhos que não haviam ido para a guerra. Feito este trabalho pediu a quem fosse capaz, especialmente ferreiros, que fizessem na bigorna muitas facas sem cabo. A razão seria distribuí-las depois pelo cimo do muro de maneira a quem quisesse entrar, tivesse ali algo que os magoasse. Daí a necessidade das escadas.
- Boa ideia do fidalgo!
- Pois foi e quando um dia na aldeia ao longe, quase ao anoitecer, ouviram tocar a rebate os que estavam foram dos muros correram para dentro. Depois fecharam a entrada com um portão que não sendo enorme era assaz pesado.
- Daqueles à moda antiga…
O velho Almiro esboçou um sorriso, para continuar:
- Quando finalmente caiu a noite escura, escutaram a chegada de muitos cavalos trazendo soldados estrangeiros ou, quem sabe, salteadores. Fosse quem fosse tentaram, em vão, forçar o portão, mas incapazes de entrar por ali ousaram subir ao muro muito alto.
- Ui estou a imaginar…
- Pois imagina que nenhum dos atacantes conseguiu entrar na quinta, por lado nenhum… E o mais engraçado é que tentaram de tudo para forçarem a entrada pelo portão, que lhes pareceu a parte mais frágil. Empurraram, puxaram deram com troncos… nada. O portão não cedeu. Depois foram à procura de escadas e... elas estavam dentro da Quinta! Desencorajados partiram quase de madrugada deixando muitos companheiros para trás estropiados e muito feridos.
Respirou fundo, pegou num lenço sebento ao qual de assoou e manteve o ritmo:
- Quando finalmente vieram os soldados do Rei ajudar o fidalgo já nada restava do inimigo a não ser corpos mortos. Foi uma criança que, a pedido do fidalgo, abriu sem esforço o pesado portão aos soldados amigos. Para espanto de todos.
- Bolas, grande estória, safa! Gente corajosa essa.
- Mas isto ainda não terminou!
- Não? Então?
- Quando as guerras terminaram D. Gaudêncio estava muito velhinho, muito mesmo. Os homens que sobreviveram às batalhas regressaram a casa e foi ele que pediu para construírem esta casa.
- Então a velha casa?
- A velha casa e todos os muros em redor da quinta foram deitados abaixo e entregues a cada família para erigirem uma aldeia. As terras foram também distribuídos pelas famílias de forma a terem sustento.
- Espere lá a ver se eu entendi! A nossa aldeia foi feita com as pedras da Quinta Nova?
- Todinha!
- Ena… E o fidalgo ficou aqui?
- Sim até morrer. E sabes o que as pessoas construiram primeiro antes das suas próprias casas?
- Não imagino!
- Uma capela. A nossa capela onde D. Gaudêncio seria mais tarde sepultado.
- Realmente esta é uma estória fabulosa…
- Eu não te avisei?
- Falta saber um pormenor…
- Qual é?
- Quem ficou com o tal portão dos milagres, alguém saberá?
- Essa é fácil responder…
- Então?
- É aquele que ali tens debaixo da varanda. Com as rosetas brancas!
Quando Armandina e Olegário já tinham desistido de serem pais, eis que certa tarde a esposa foi encontrar o marido a perceber como estava a latada de uva branca.
Num breve gesto de olhos o homem percebeu a novidade e exaltou de alegria quase bíblica. Nessa mesma noite convocou todo o pessoal não só para informar da belíssima notícia, mas também pedir que todos olhassem pela futura mãe.
A mulher ergueu-se para tomar da palavra:
- A minha mãe sempre me disse que gravidez não era doença, ela teve 13 filhos e sempre fez a sua vida. Mas prometo quando não me sentir bem pararei e pedirei ajuda.
Todos felicitaram os patrões e estes, já noite dentro, encontraram-se no quarto onde Olegário pediu:
- Mulher… toma cuidado contigo, por favor… Tanto sofreste para alcançar este estado…
- Homem, crê que eu terei o maior cuidado comigo e com quem aqui carrego.
Em Abril do ano seguinte Armandina deu à luz. Finalmente após uma gravidez um tanto complicada que obrigou a mulher a passar a maior parte do tempo de cama. O Dr. Ambrósio assim aconselhara.
Na hora foram chamadas diversas mulheres, entre elas a parteira, a mãe, a sogra e uma irmã. Do lado de fora do quarto o pai descascando umas laranjas sem sequer as comer. A noite fora longa quando saem do quarto duas mulheres carregando cada uma, as filhas. Sim… Armandina tivera gémeas, algo raro por aquelas zonas.
No instante seguinte o pai lembrou-se que uma tia, entretanto falecida, era irmã gémea de uma outra que optara pelo convento e da qual nunca mais tivera notícias. Se um filho era uma alegria, dois seria alegria a dobrar.
Mas o homem olhou para a nova avó e percebeu que qualquer coisa não estaria bem com as crianças. Aproximou-se das lactentes e antes de se debruçar perguntou à sogra:
- Que se passa minha mãe?
A avó deu-lhe a criança e avisou:
- Vê por ti!
Destapada a face da recém nascida Olegário, quase deixou cair a criança. Depois ficou a olhar para a gémea e percebeu o mesmo sentimento.
- Serão deficientes?
- Não meu filho… São feias como uma noite de tempestade.
- Quando forem mais velhas, verá, que tornar-se-ão bonitas.
A avó não pretendeu contrariar o genro e levou dali as crianças.
2
O tempo passou célere para Hermengarda e Hirondina, porém a fealdade das meninas manteve-se sem um naco de melhoramento, muito embora mãe e avós tentassem, em vão, dissimular o aspecto das cachopas.
Os pais lutaram para que as meninas convivessem com as jovens da mesma idade, mas na aldeia todos fugiam à sua passagem. Desse modo os pais acabaram por contratar diversos professores que lhes foram ministrando conhecimentos. Se bem que iguaizinhas no aspecto físico ambas tinham gostos muito diferentes. Hermengarda preferia área das ciências, matemáticas e químicas, enquanto Hirondina estava talhada para as letras com leitura de imensos clássicos, estudos aprofundados de história e filosofia, para além de línguas estrangeiras, especialmente Francês.
Para comemorar o aniversário dos dezasseis anos das filhas, os pais organizaram uma festa enorme, nos jardins da casa senhorial onde viviam. A ideia seria algum jovem se embeiçar de uma das filhas e daí nascer talvez maior relação com outras pessoas.
Para a festa foram convidadas todas as famílias de três léguas em redor, para além de uma orquestra, artistas diversos e muita e boa comida e bebida. À noite abriu-se o baile, mas as manas continuaram sentadas durante toda a noite sem que um rapaz se aceitasse delas convidando para dançar. Desiludidas as moças abandonaram o recinto da festa sem sequer partirem o bolo, que contudo não ficou por comer.
Anos mais tarde Olegário morreria de forma repentina para logo a seguir partir aa esposa incapaz de aguentar a dor do falecimento do marido.
As gémeas agora com 22 anos e prontas para a vida de professoras, profissão para que haviam sido ensinadas, estavam longe dessa vida quase académica. Até que certo dia uma criada as veio chamar:
- Meninas, meninas… está na biblioteca um senhor que deseja falar com vocês.
- E com qual de nós?
- Ai isso não sei menina… O senhor não deu preferência.
- Diz-lhe que já descemos.
Quando por fim entraram na biblioteca a visita quase se assustou. Era verdade o que diziam daquelas jovens, mas sem demonstrar qualquer constrangimento, avançou:
- Bom dia meninas! Chamo-me Alcibíades e venho da adeia ao lado. O que aqui me trás prende-se com o meu filho Zenóbio que tendo passado por um conjunto de colégios e professores, ninguém conseguiu meter-lhe alguma sabedoria naquela cabeça tonta. Ouvi entretanto que as meninas poderiam ajudá-lo e assim venho perguntar se estarão disponíveis para ensinar alguma coisa ao meu rapaz? Pagando claro… E o vosso preço será o meu preço.
As manas não esperavam aquela oferta e ficaram um pouco indecisas. Foi Hermengarda que erguendo-se do vetusto “fauteil” declarou:
- Aceitamos essa incumbência, mas só com uma condição!
- E qual é?
- Se daqui a umas semanas o senhor não vir melhoramentos no seu filho não recebemos o dinheiro e o seu rapaz pode partir.
- Como queiram. E quando poderá vir?
- Quando quiser. A minha irmã dará as partes das letras de manhã e de tarde darei eu as ciências. Três horas de manhã e três de tarde… Que nos diz?
- Óptimo! Amanhã pelas nove estará cá. Será boa hora?
- Sem dúvida. Cá o esperaremos!
No dia seguinte às nove em ponto Zenóbio entra no solar das "Gémeas Feias” preparado para as aulas.
O jovem de quinze anos parecia ter muito mais idade. Um olhar vivo e um sorriso contagiante ainda assim insuficiente para agradar às manas professoras. Na biblioteca reservaram-lhe um lugar e Hirondina deu início às aulas.
3
Durante muitos meses as gémeas mostraram que podiam não ter qualquer beleza física, mas conseguiam bons resultados com os alunos. Zenóbio foi um deles. A fama de competência das feias professoras acabou por se alastrar a toda a região, originando uma procura inusitada.
Certo dia Hirondina chamou a irmã ao quarto. Hermengarda estranhou o pedido, mas foi lesta a apresentar-se defronte da irmã:
- Que se passe mana?
- Sinto-me estranha…
- Como assim estranha?
- Hoje de manhã estava nauseada e fui lá fora ao jardim apanhar ar, mas acabei por vomitar. E depois veio o cheiro da comida da cozinha e ainda fiquei pior…
Hermengarda levou as mãos à boca dizendo:
- Ai mana… o que fez?
- O que eu fiz? Não fiz nada!
- Mana… há quanto tempo a boca do seu corpo não vomita as tristezas?
- Ah… isso… sim… há umas semanas. Mas porquê?
- A mana Hirondina está grávida!
- Eu grávida? Não pode ser… Só se for por obra e Graça…
- Do Zenóbio, não?
- Não mana, não!
Hirondina agachou-se defronte da irmã e pegando-lhe nas mãos comunicou:
- Não sei como aconteceu, mas a mana está grávida e eu vou ser tia!
- Ai que vergonha… mas como aconteceu isto, como?
Hermengarda levantou-se puxou de outro tom de voz e descarregou:
- Não me faça de parva, mana. Aconteceu a si e há-de acontecer a muitas mulheres neste Mundo. Agora só gostaria de saber com quem foi? Vá lá desembuche…
Hirondina deixou que as lágrimas inundassem a sua face para finalmente confessar.
- Há uns meses entrei atrasada na missa e sentei-me cá atrás. Quase a começar a eucaristia veio um cavalheiro e sentou-se a meu lado. Pareceu-me simpático e trocámos umas palavras. Na missa seguinte lá estava outra vez. Depois perguntou-me quem eu era e quando lhe disse que era professora ficou entusiasmado, porque gostaria de saber ler e escrever.
Um lenço alvo afagou as lágrimas.
- E depois?
- Assim quando a mana dava aulas de matemática eu fui a casa dele ensinar-lhe a ler e a escrever.
- Pronto já percebi… mas agora necessito saber quem é ele? E não vale a pena enganar-me…
Hirondina chorava, para num momento de pausa por fim confessar:
- Foi o João…
- João, qual João? Deve haver muitos cá na aldeia…
Não acreditei quando me disseram que estive assim tão perto de um humano, não acreditei mesmo! Se não fosse uma mana a afiançar-me ficaria com a ideia de que andavam a zombar de mim.
Na verdade, esta manhã acordei com o gostoso calor do sol, que por entre muitas pedras lá conseguiu penetrar e aquecer-me. Hummmm, tããããããão bom aquele calorzinho!
O problema é que me deu a fome. Uma fome danada, daquelas em que apetece tudo comer. Bom saí da minha toca de Verão – no Inverno costumo ficar numa muito longe do frio – vim até à superfície, mas com todos os cuidados que anda por aí muita malandragem.
Apanhei uma mosca logo ali, depois mais um gafanhoto pequeno, mas bem perto da saída avisaram-me que havia um lugar repleto de comida. Porém para lá chegar teria de atravessar um conjunto de pedras cinzentas e já quentes pelo Sol da manhã.
Anda eu em busca do lugar quando de súbito dou com aquele bicho enorme, que se encontrava ali mesmo à minha frente, muito quietinho, quase parecia eu quando me preparo para atacar. Parei e ali fiquei sempre muito atenta ao que o humano fazia. Sei lá o que aquele bicho poderia atentar numa lagartixa tão pequena como eu. Se fosse como alguns dos meus primos… Ah pois é… há pra’í um local onde há milhares de familiares meus. E pelo que sei enormes, com ninguém a incomodá-los…
Não sei nem imagino o tempo que ali ficámos tão sossegadas, mas eu, como já disse, estive sempre muito atenta.
De repente escutei no campo um barulho estranho e o humano saiu do lugar. E eu também… é que posso perder o rabo, mas não pretendo perder a vida. Fugi dali rapidamente e entrei no meu covil já meio quente.
Daqui mais um pouco volto para apanhar Sol e mais comida. No entanto espero que o bicho humano regresse. Digam o que disserem gostei de estar ali a partilharmos ambos o Sol do meio da manhã.
Já passou muito tempo. Entretanto comi mais umas mosquitas, mas a figura humana desapareceu definitivamente. Não sei se não gosta de Sol ou se foi outra coisa qualquer…
Ah tenho uma novidade… A mestra da família disse-me há pouco que também viu o humano e contou-me várias novidades sobre o humano. É uma fêmea ainda muito jovem e que provavelmente viria acompanhada por outro humano mais velho, E é destes que devemos ter mais cuidado.
Amanhã se a fêmea pequena voltar a aparecer vou subir para cima dela, isso será certo. Ensinaram-me que eles deitam um calor muito acolhedor e eu gosto de coisas quentinhas.
Mas não percebo porque o tal bicho homem nos quer fazer mal. Eu não lhes faço mal nenhum e nem quero comer a comida deles. Aquilo cheira mal…
Enfim aguardemos pois que o humano fêmea aqui volte, certamente que ficaremos boas amigas.
Leotilde acordou cedo ainda o Sol não despontara por detrás da serra. Andou pela casa a arrumar as parcas roupas que a filha, Gabriela, deixara espalhadas e quando o astro-rei surgiu foi acordar a miúda.
- Gabi, querida! Acorda sim? A mãe precisa de ir trabalhar e tu tens de ir comigo.
A menina virou-se na cama sem vontade de acordar. A mãe insistiu:
- Vá lá amor… Acorda! – e agitou-a tão devagar que quase parecia um embalo.
Gabriela abriu um olho para finalmente se levantar. Na ínfima casa de banho tratou da sua higiene para depois seguir para a cozinha onde se vestiu. Aqui a mãe tratava de lhe preparar o pequeno almoço e uma bucha para ambas comerem ao meio-dia.
Enquanto terminavam o pequeno-almoço a filha perguntou:
- Onde vamos mãe?
- Combinei que iria hoje cavar a terra do senhor Florentino.
- E é longe daqui?
- Um bocadinho. mas eu levo-te ao colo.
- Não preciso mãe… eu gosto de andar nas terras! Gosto de ver os bichinhos…
- Eu sei querida e fico muito contente por gostares de tratar bem a Natureza. Mas agora despacha-te que tenho de passar por casa do patrão buscar uma enxada.
Após uma longa caminhada Leotilde largou a pesada alfaia na terra e comunicou:
- Pronto chegámos! Deixa o farnel pendurado nessa oliveira e a infusa sob aquela carrasqueira - e apontou ambos os lugares à filha – enquanto cavo isto podes ir brincar e procurar os teus bichos. Mas não vás para muito longe…
- Sim mãe!
A cachopita pendurou o saco de pano num pequeno galho partido no pé da oliveira e foi esconder a infusa repleta de água fresca no imo mais fresco da viçosa carrasqueira. Depois foi brincar.
Por entre pedras e arbustos a pequena Gabi tentava encontrar os seus bichos. Ali um monte de terra denunciava uma entrada para uma toca de formigas laboriosas e irrequietas. Mais à frente um coelho correu fugindo apressado. Entretanto no ar esvoaçavam muitos pássaros, especialmente cartaxos, pardais, melros e um ou outro pisco. Olhando o céu anilado e cortado pelos vôos das aves, Gabriela sentia-se também uma ave. Não voando é certo, mas sentia também aquela liberdade. O curioso é que os passaritos preferiam a presença da mãe à dela. Procurou-a de enxada na mão ferindo a terra vermelha e seca.
- Mãe porque é que os pássaros gostam mais de ti do que de mim?
Leotilde poisou a alfaia e descansou. Passou o braço pela testa para depois devolver à filha:
- Eles não gostam mais de mim que de ti… Mas como estou a cavar faço vir ao de cima alguns bichinhos especialmente minhocas que os passaritos levam para os ninhos para dar de comer aos filhos…
- Ahhh! – e virando as costas à mãe foi em busca de mais natureza.
O calor principiava a apertar e Gabi já cansada sentou-se num pequeno penedo à sombra de um frondoso medronheiro. Depois com uns pauzitos e demais folhas que foi recolhendo construíu uma pequena casa como se os pássaros ou outros animais lá quisessem ficar.
Estava nesta azáfama quando percebeu a aproximação de uma lagartixa. Pequena, ligeira e desconfiada, o réptil parecia procurar o calor emanado pelo Sol. Subiu a um conjunto de pedras cinzentas e sentindo aquelas já saborosamente quentes parou. E ali ficou longos minutos a observar e a ser atentamente observada pela menina curiosa.
Gabriela nem se mexia. Encantada com a nova companhia ali ficou longuíssimos minutos em modo estátua, evitando com isso que a lagartixa fugisse. Mas a mãe haveria de estragar tudo.
- Gabi querida, onde estás?
Tapada por uns arbustos a mãe não a veria e daí a menina tentou sair do lugar lentamente. Todavia a lagartixa ao mais pequeno gesto da menina desapareceu no meio da vegetação que crescia espontaneamente. Finalmente respondeu:
- Estou aqui, mãe. Estou a ir!
Já perto da Leotilde, esta perguntou:
- O que estavas a fazer, querida?
- A tentar fazer amizade com uma lagartixa! Tão bonita. Chamei-lhe Clotilde!
A antecessora deu uma sonora risada para logo avançar:
Dizem que tenho na família alguém que ficou muito conhecido pelas suas intervenções em estórias para crianças. Mais… dizem até que falava com os humanos o que eu desde já duvido… Era muito mais fácil falar com um boneco de madeira… Mas enfim cada um acredita no que quer. Digo eu!
Pela minha parte calhou-me uma estória, se não rocambolesca, pelo menos invulgar, quase demasiado invulgar para ser verdade.
O que aconteceu foi isto.
Andava eu muito feliz da vida a fazer-me à minha nova namorada, agitando com toda a pompa, circunstância e competência as minhas asas quando sem perceber como tal aconteceu, vejo-me fechado numa coisa muito estranha e da qual não conseguia sair.
Mais… afastaram-me da minha apaixonada que estava prestes a ceder aos meus reais e sonoros encantos.
Logo ali pensei que tudo isto fora coisa de um rival que tenho e com o qual já tive algumas demandas rijas e assaz sonoras. Só que pela noite percebi que não fora ele, certamente a aprisionar-me.
O animal humano é muito estranho. Já tinha consciência disso, mas alguns são simplesmente terríveis. Mas há que dizê-lo… outros surgem como contraponto e portam-se com grande seriedade e parecem ser bastante amigos.
Bom dito isto… estava eu há uns dias enclausurado quando um humano mais pequeno pareceu olhar para mim com algum cuidado e interesse. Ainda estou para perceber como me conseguiu ver no meio de tanta alface que colocaram na tal prisão. Ora, desconfiado como estava nem ousei bater uma asa, não fosse aquele bicho grande fazer-me alguma coisa menos simpática. Com estes animais é necessário toda a cautela!
Tudo isto para dizer o quê? Passado um tempo o tal humano mais pequeno retirou-me da tal caixa e levou-me para o campo, após uma espécie de bravata com os outros humanos. Entretanto senti nas minhas bonitas e sensíveis asas que o ambiente entre os bichos humanos estava deveras tenso.
Hummm… reconheço que soube bem voltar a sentir aquele odor a terra e a erva semi tisnada pelo Sol. O vento parecia soprar devagar ou então era deslocação do humano.
A verdade é que a determinada altura o humano mais pequeno, que vinha acompanhado com outros, abriu a mão e deixou que eu regressasse a casa. Foi tão bom, mas tão bom!
E o mais engraçado é que a minha apaixonada aguardava-me com evidente preocupação… Pudera!
Mas fiquei tão feliz que não consegui evitar um fortíssimo agitar das minhas asas que resultou numa sonoridade que os humanos mais pequenos parecem ter gostado.
Calhou-me um final feliz, mas nem imagino o que poderá ter acontecido a irmãos meus...
Vocês podem não acreditar, mas a minha Flauzina era a galinha mais bonita lá da quinta. Quando a vi pela primeira vez, já era assim um rapaz meio espigado, dono de um belo vozeirão e com muita saída entre as cachopas que por ali cirandavam. Só que naquela manhã quando a vi… ui… foi paixão à primeira vista.
Só que ela não estava muito virada cá para o jovem. Preferia um galo pedrês, muito mais velho, com uma crista vermelha enorme e aquela imensa penugem, que quase nos assustava quando abria as asas. Estranhamente desapareceu de um dia para o outro, sem deixar rasto e nunca mais lhe pusemos a vista em cima.
Todos os dias e mais do que uma vez, uma velhota aparecia com sacos e alguidares velhos para distribuir comida por todos nós. Ali naquele enorme espaço vedado por uma rede alta e muito fina, conviviam sem qualquer problema nem bravatas coelhos, patos, gansos, perús, galos e galinhas. De vez em quando aparecia um gato matreiro na esperança de filar algum pinto, mas os gansos davam logo sinal e nunca nenhum felino conseguiu levar algo dali. Noutras noites havia muito reboliço tudo por causa de uma raposa manhosa que por ali também tentava a sua sorte. Os gansos eram os primeiros a dar sinal para logo acorrerem os cães, fazendo com que a raposa fugisse sem ceia.
O estranho foi que um dia a velhota humana deixou de aparecer. E não fosse um vendaval por esses dias ainda lá estaríamos presos ou se calhar mortos. Pois foi… o temporal de chuva e vento foi tão grande que a rede caiu fazendo com que todos fugíssemos da quinta.
Ora nesse dia procurei na confusão da partida a Flauzina e perguntei-lhe se queria ir comigo ao que ela respondeu que sim.
Cada um dos outros partiu para seu lado completamente à nora. Vale a pena confessar que eu a princípio também não sabia se havia de ficar ou partir, mas depois com o sim da Flauzina, pusemo-nos a andar. Só que não segui pelos caminhos mais abertos, escolhendo preferencialmente trilhos fechados com erva alta e também com a probabilidade de encontrar melhor comida.
Quando chegava o fim do dia arranjávamos um lugar mais abrigado e ali dormíamos. De madrugada voltámos ao caminho. Até que ao fim de uns dias encontrei um velho barracão.
Estava a chover, mas lá dentro estava tudo seco. Óptimo local para já… pensei eu! Depois logo se veria, que a vida, mesmo para nós galináceos, é mesmo assim. Quase sem saber e de um momento para o outro perdemos a cabeça…
Andámos por ali uns dias com muita comida e ninguém para nos aborrecer, nem sequer um gato ou um cão esfaimado… Nada! Local perfeito… ainda por cima a Flauzina começou a dar sinais de começar a chocar os ovos.
Todas as manhãs subia para cima de uma madeiras que estavam da parte de fora e toca a acordar a malta em redor. Não sei se acordei algum humano, mas a verdade é que um dia surgiu um homem meio jovem e que devagar entrou no barracão. Depois começou a retirar as caixas onde se acoitava a Flauzina.
Ora foi nesse instante, tentando defender a mãe dos meus ovos que saltei para a cabeça do humano e ferrei-lhe umas bicadas valentes. O tipo bem que me tentava apanhar, mas eu consegui escapar sempre. Finalmente e após muitas bicadas acabou por sair do barracão. Ainda me disse qualquer coisa, todavia eu só desejava é que ele se fosse embora.
Só que, pasmem-se, passado um bom par de horas ele reapareceu com comida e água que colocou à frente de Flauzina que estava cheiinha de fome. Eu vi aquilo á distância e percebi que o jovem tinha bons instintos.
O que aconteceu a seguir explica-se bem… O humano todos os dias vinha ali trazer comida e água. Mas eu jamais apareci não fosse ele cravar-me as unhas.
Mas um dia os meus pintos saíram da casca e para além da mãe viram-no a ele. E nem fugiam já que eles tomaram o humano como um deles.
Certa manhã ele chegou, deixou os mantimentos e ficou a li a olhar os pequerruchos a devorarem a comida que trouxera. Foi por isso que acabei por fazer um ínfimo vôo e aterrei no ombro dele.
Deitou-se a desoras! Algo que vinha fazendo havia algumas semanas. A morte recente do seu avô, no fundo o homem que o criara e educara após a morte prematura dos seus pais num trágico acidente de viação, deixara-lhe profundas marcas.
Afogava assim as mágoas em inúmeras garrafas de cerveja ou outras bebidas. Depois já alcoolizado pedia um táxi e atirava-se para a cama tal como vinha.
Naquela manhã, porém, acordou mais cedo do que imaginaria. Um cantar de um galo despertara-o. Num segundo pensou que estava novamente na velha aldeia com o avô, onde os animais eram bem madrugadores. Olhou em redor e pela desarrumação do quarto percebeu que estava em casa, na cidade onde nascera e agora aterrara contra vontade.
Entretanto o galaró não se calava e Nuno pretendeu saber onde estaria tal animal já que estava no meio de uma cidade. No fundo a sua relação com a vida rústica ainda não se diluíra no álcool bebido.
Ergueu-se a custo da cama e foi à casa-de-banho enfiar a cabeça debaixo da torneira de água fria. Já reactivo vestiu uma roupa informal pegou nas chaves de casa e foi em busca do cantar do galo.
Na rua curiosamente deixou de o ouvir e andou para trás e para à frente para tentar perceber de onde viria aquele vozeirão. Ouvi-o de novo e palpitou que estivesse na rua debaixo da sua e para lá se encaminhou. À entrada do arruamento um sinal indicava uma rua sem saída. À esquina uma moradia ainda em construção para logo pegado com esta, um longo terreno cheio de erva verde que em alguns locais chegava à altura de um homem. Percebeu então que a parte de trás do baldio dava para as traseiras do prédio onde vivia, daí ouvi-lo bem.
Ao fundo do terreno erguia-se, o que parecia ser, um barracão. Com a vegetação tal alta logo assumiu que se desejasse ali entrar teria de se munir de ferramentas apropriadas.
Regressou a casa, desceu à garagem onde em tempos existira um carro e buscou uma enxada rasa, um serrote e uma tesoura de podar. Retornou ao terreno e com saber foi raspando o chão devagar de forma a criar um pequeno carreiro que o levasse ao barracão. Curioso é que o galo deixara de se ouvir. Quiçá com medo da estranha visita e para não denunciar o seu poiso.
Lentamente Nuno desbravou o terreno até que chegou à entrada do velho barracão. Sem qualquer porta, o telhado ainda assim estava bem montado e provavelmente não choveria lá dentro. Estava escuro e Nuno deixou que os olhos se habituassem à escuridão. Depois conseguiu ver uma enorme desarrumação com algumas caixas de madeira, em tempos teriam levado fruta, muitos sacos velhos e algumas alfaias em péssimo estado.
Parou à entrada e esperou o galo, que deveria andar por ali, surgisse. Mas o que escutou foi um cacarejar dolente e quase inaudível.
Devagar, muito devagar o jovem foi-se aproximando do local de onde surgira o barulho e tentou destapar retirando algumas caixas amontoadas. O cacarejar repetiu-se e Nuno percebeu que estava no sítio certo. Outra caixa retirada e logo ali surgiu uma galinha branca cpomo a neve, que parecia estar no choco e voltou a colocar as caixas mais ou menos como estavam.
Eis que no instante seguinte algo voou para cima da sua cabeça e picava-o. O rapaz sabia quem era e tentou, não afugentá-lo, mas segurá-lo. A luta parecia renhida e o galo não dava tréguas. Sentia que o sangue lhe corria pela cara, mas Nuno não desistiu.
Vendo-se por fim em desvantagem o galo voou o que pode para cima de um monte de lixo e como que aguardou o que o rapaz iria fazer. Nuno passou a mão pela cabeça que veio cheia de sangue.
- És valente, Óscar! Safa que me deixaste a cabeça em sangue. Mas acredita que não te quero fazer mal.
A ave parecia entender o que o jovem estava a dizer. Depois esticou a garganta e cantou agitando ao mesmo tempo as asas.
- Espera que eu já te digo o que vou fazer… Fica aí, toma conta da tua gente – e apontou para o sítio onde estava a galinha, continuando – que eu vou buscar comida para vocês.
Pela primeira vez em algumas semanas Nuno sentia o pulsar da vida dentro de si. Voltou a casa, tratou da cabeça e partiu em busca de mantimentos para os bichos.
Quando de braços carregados regressou ao barracão não deu pelo galo, todavia a galinha mantinha-se no choco. Lentamente e como tantas vezes fizera na capoeira do avô estendeu a comida à frente da ave e esta logo principiou a debicar o milho partido. Ao lado uma taça velha com água e um monte de palha que colocou mesmo encostada à ave.
Sentiu-se bem no seu gesto e partiu para regressar no dia seguinte e voltar a dar comida à futura mãe. Uma acção que foi repetindo até perceber que os pintos já haviam nascido.
De todas as vezes que Nuno visitou a galinha sentiu que Óscar estava a espiá-lo. Não percebera onde, mas que estaria perto isso tinha a certeza. Certa vez fez uma amálgama de couves bem migadas, ao que acrescentou sêmeas, milho e pão duro. Depois deitou um pouco de água e finalmente levou tudo até ao barracão.
Os pintos, ao invés da galinha e do galo, aproximavam-se de Nuno sem receio e este deu-lhes aquela comida. E ficou uma vez mais a olhar aquela vida que ajudara a nascer. Para no instante seguinte sentir o ar a agitar-se. Percebeu que seria o Óscar e não se mexeu.
O galo veio então poisar no ombro de Nuno. Bem quieto para não o assustar, o jovem sentiu de forma vibrante o vozeirão do galo a cantar.
Acontece-me cada uma que, por vezes, só me apetece auto imolar pelo fogo. O que vos vou relatar foi um evento idiota e jamais deveria ter acontecido e não teve piores consequências porque alguém cuidou ao pensar em mim. De outra forma agora já estaria na barriga de algum estúpido gato e de uma cobra matreira.
Sou um pequeno canário nascido com mais três miúdas numa gaiola, nem sei onde! No entanto nunca me faltou nada: o calor da minha mãe, a animação das manas, comida e água.
Ora desde muito cedo mostrei mais genica que qualquer das minhas irmãs. Mas calculo, depois do que me aconteceu, que elas teriam sido mais inteligentes que eu ou, no mínimo, mais perspicazes.
Por causa da minha hiperactividade a minha mãe um dia avisou-me: tu vais dar-te mal com essa precipitação. Mal sabia ela ou melhor ela sabia, eu é que não!
Cresci e principiei a treinar a minha voz. De tal maneira o fiz e com tanto sucesso que num instante estava noutra casa e noutra gaiola… sozinho. Com tudo do bom e do melhor que até tive direito a uma concha onde treinava e afiava o meu bico. Só vos digo… um luxo de gaiola. É pena ser aquilo mesmo... gaiola!
Cedo percebi que o animal humano é um ser pouco fiável. No entanto há alguns que merecem a nossa atenção e de mim a melhor voz. A dona Olimpia é uma delas, tal como a sua neta Margarida. Uma menina bem curiosa e que fui percebendo ter um cuidado especial com todos os animais.
Por exemplo a Guidinha não gostava nada que estivessa na gaiola. Nada mesmo! E eu, para ser sincero, também gostava pouco. Preferia voar livremente na rua como aqueles safados dos pardais que não cantam nada e são livres, livres! Bom os pintassilgos também cantam bem e andam lá fora! E bem merecem, sim senhor!
Um destes dias estava eu naquela enorme cozinha quando a avó Olímpia e a neta falaram de mim. Depois tiraram a gaiola do sítio, invadiram a minha casa e apanharam-me. Assim que senti a mão humana mais frouxa, voei dali e saltitei de armário em armário.
Não demorou muito que a janela abrisse. Foi a menina Guida que o fez creio por causa de mim. Bom aquilo era a oportunidade de uma vida: ser livre!
A liberdade é assim aquele desejo que quase todos temos, mas que poucos conseguem! Até porque ser livre, nos animais, não é uma coisa assim fácil! Essencialmente porque todos somos alvos de caçadores. Uns por fome, outros por malvadez.
Estão a imaginar, não é? Eu desejoso de sair da gaiola e a janela completamente escancarada. Pimbas… nem pensei nas consequências, bati a asas e fui pousar num ramito de uma árvore que estava defronte da janela.
Ousara fugir da gaiola e agora seria gozar da tal liberdade que tanto ansiara. Bom, o primeiro passo ou melhor o primeiro vôo seria procurar qualquer coisa para comer, já que agora não haveria mistura ao meu dispor.
Abandonei o ramo, principiei a descer para o chão para apanhar uns grãos quando me deparei com um assanhado gato que estava ali numa briga com um cão. O felino ao ver-me deixou logo a zaragata tentando caçar-me (lembram-se daquela ideia dos caçadores?). Ui… levantei logo o bico e dei às asas para fugir de tal malandro. Escapei por um triz. Ufa!
De súbito escutei a minha mãezinha: tu vais dar-te mal com essa precipitação! É verdade… as mães sabem muito mais que os filhos. Foi neste preciso instante que descobri algo que nunca tivera e que se chama arrependimento! Se eu pudesse voltar atrás…
Pois... não podia e a minha saga ainda agora principiara. Veio então a fome, daquela que nunca tivera. Na mesma altura chegou uma aragem fresca de fim de tarde. Logo ali confessei com as minhas icterícias penas: estou tramado!
Já estávamos no Verão mas a noite era fria. Por aquela altura do dia já todos os meus colegas pássaros estavam recolhidos e eu, que tinha a mania que era mais esperto, voava para trás e para a frente feito barata tonta.
Após muito voar lá encontrei um poleiro vazio num ramo, nem sei de que árvore. Pousei para logo a seguir escutar uma chilreada medonha:
- Sai daí, depressa… esse é o poleiro da Esguia… Foge!
- Quem é a Esguia?
- Essa cobra que está a olhar para ti para te comer.
Num gesto rápido a serpente atirou-se a mim, mas eu… zás… consegui fugir, diga-se com muita sorte.
Pois é, pensei eu, estou livre da gaiola, mas não estou livre de qualquer perigo. Voei de seguida para o meio de muitos colegas que lá se encostaram para me dar lugar e finalmente pude repousar. Esfomeado, triste e cada vez mais convicto que me precipitara em escolher a liberdade sem perceber muito bem onde ela me levaria.
A noite caiu e lá consegui adormecer.
Quando a madrugada chegou senti uma anormal agitação. Os meus companheiros de liberdade partiam em busca provavelmente de comer e beber. Segui-os na esperança de apanhar qualquer coisa.
Foi nesse instante que reparei numa janela aberta e lá dentro uma gaiola… a minha gaiola.
Nem pensei duas vezes. Entrei pela janela dentro introduzi-me na gaiola e procurei que comer. Finalmente a mistura saborosa, aquele ovo migado e a tal concha. Enchi o papo, dormi qualquer coisa e finalmente pus-me a cantar!
Foi nessa altura que Margarida acordou com um sorriso nos lábios. Ai se não fosse ela!
Certo é que a porta da minha gaiola ficou paea sempre aberta.
Donde eu só saía quando vinha a menina Margarida, pousando então na sua mão sem receio nem vergonha!