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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.


Quinta-feira, 14.05.15

Contos tontos!

Foram anos e anos a procurar a mulher. Sempre ocupada, indisponível, ausente...

Até que um dia ele cansou-se.

Procurou então noutras alcofas a forma de matar o desejo.

Até que ela descobriu.

Mas a partir desse dia passou a estar disponível e pronta para aceitar o marido.

Tarde demais!

Ele perdera para sempre o desejo daquela mulher.

E ela perdera a hipótese de ser finalmente amada.

 

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por José da Xã às 23:41

Quarta-feira, 19.09.12

Sentidos dos dias - Paz XIX

Passara um mês desde que Helena reunira os filhos e lhes contara tudo. Desde que o mais novo se insurgira contra o pai, dizendo que ele tinha deveres para com a mãe! Para com todos eles. Não era assim sem mais nem menos que... "Aquilo era uma acção descabida. Uma traição!" Helena sorrira, a morrer por dentro. Exigira respeito, ao filho, para com o pai. Fez-lhe ver que no fundo, maior traição tinha sido ele ter-se obrigado a viver uma vida inteira que não queria, só por causa de todos eles. Fora um homem que desde o início podê-la-ia ter abandonado. Quando vira que não conseguia esquecer-se da outra e nunca o fizera. Assumira sempre o casamento, os filhos, pondo o seu próprio bem-estar para último. Honrando a família. Mas o certo é que existia outra família, que o "chamava" sem dizer palavra. Sem se fazer notar. Explicou como e o que achara de Zuleica, quando a conheceu. Era notório o amor que ambos ainda sentiam um pelo outro. Ela apenas fora vê-lo, porque o sabia mal e antes que ele morresse... Sem nada exigir. Calada, chorosa, curvada na seu orgulho de mulher. E Helena soube o que lhe doía. Custou-lhe a admiti-lo, todavia acabou por admirá-la!

O que importava, afinal? Que Pedro Rafael voltasse para Portugal, agora que tudo tinha sido posto à luz do dia. Continuasse a viver infeliz e uma mentira junto deles? Ou prefeririam como ela, abdicar do seu amor, mas que ele pudesse fazer também justiça. Àquela mulher! Aos filhos, que cresceram sempre sem o amor e amparo do pai? Caramba! De certeza que a nenhum dos seus descendentes, estava a ser exigido o sacrifício. O suportar da dor que ela, mãe deles e mulher de Pedro estava a viver. E ainda assim escolhera... Faria o que fosse preciso para que Pedro fosse feliz. Pelo respeito que sempre lhe dera. Anos seguidos de se ter anulado para criar os filhos. Ficar junto dela, porque assim tinha prometido nos votos do casamento... Mas, hoje? Convenhamos! Os filhos estavam criados. Cada um seguia a sua vida. Ela e ele, ficariam como todos os pais ficam quando os filhos vão à procura do seu mundo. De o conquistar. Engolindo o orgulho e as lágrimas, a voz a embargar-se Helena finalizou.

- Foi muito melhor assim. Ele fará sempre parte das nossas vidas. Vocês podem visitá-lo, conhecer os vossos irmãos. Eu? fico bem! Em paz com a minha consciência. Feliz por ele, que merece sem dúvida ser feliz, os últimos anos da sua vida!

Maria da Graça abraçara-se à mãe. O filho mais velho encolhera os ombros, resignado. O mais novo estava ainda revoltado.

- Mãezinha! Sempre foste uma grande mulher. Não sei se o que aconteceu contigo e o pai, a passar-se comigo,teria essa coragem. Essa tua maneira de ser. Pode parecer desprendimento, frieza. Mas sabemos tão bem que é apenas imensa dignidade. E por amares o pai. Adoro-te mãe! 

- A mãe é uma grande parva, isso sim! Qual é a mulher que entrega o homem à outra de "bandeja!" Tenha lá ele os filhos que tiver. Nós não temos nada a ver com isso. A mãe conheceu-o depois. Eu continuo a achar que...

- Não continuas a achar nada. Um dia quando tiveres os teus filhos vais querer o melhor para eles. Vocês sempre tiveram o melhor. Os outros lá longe, nunca tiveram nada. Gosto muito de ti meu filho, mas pelo amor que me possas ter, respeita a minha decisão. O teu pai!

Ali em frente do mar, onde muitas vezes passeara de mãos dadas com Pedro, Helena era verdadeira consigo mesma. Quando viera embora desejara com todas as forças que Pedro a seguisse. Nas primeiras semanas ainda teve esperança. Mas, deixara as cartas. Nelas ilibava-os de culpas. Explicava o que queria e compreendia que a felicidade também lhes assistia, aos dois, agora. Aquela felicidade que mesmo em sobressalto tivera sempre. O certo é que Pedro telefonara. Estava recomposto, calmo. Perguntara-lhe se tinha a certeza. Mordeu os lábios e disfarçou o desgosto ao telefone. Mais algumas palavras, em que bastantes delas foram de elogio. Como a amaria, para sempre. Nunca esqueceria que aquele amor que ela lhe votava era tão enorme, que lhe permitia ter aquele altruísmo... E ponto final. Era assim que tinha de encarar a sua vida com ele. No fundo sentia-se em paz. Mais ou menos bem. A dor passaria. Afinal se ele tivesse morrido seria muito pior. Zuleica merecia ser feliz. Os filhos terem a oportunidade de conhecerem o homem bom, que o pai era, apenas vítima das circunstâncias... Pudessem todos os que lá deixaram filhos e sofrimento, colmatá-lo. As ondas banhavam-lhe os pés. Os olhos procuravam o horizonte. Para lá daquela linha longíqua, estava Pedro! O amor da sua vida. Sorriu tristemente. Sussurrou baixinho: "Sê feliz, meu amor. Sempre e em cada dia da tua vida!" Inverteu caminho, limpou bem os pés com a mão e calçou-se. Andou mais um pouco e viu a camioneta que a levaria a casa. Fez sinal e entrou. Subiu as escadas e meteu a chave na porta. Foi brindada por um coro de gargalhadas. As traquinices do costume.

- Mãe! Importas-te de ficar com eles esta semana. Eu a e Lígia queríamos, descansar um bocado. Tipo uma segunda Lua de Mel? Quem sabe não dê uma salto a Angola... - O filho mais velho riu-se com ar cúmplice. - Foi a Graça, que teve a ideia digo-te já!

- Oh, meu filho, claro que fico. Os meus netos são a minha maior riqueza, para além dos meus rebentos. E o casmurro do teu irmão? 

- Acreditas que a tua filha o convenceu também a ir. Aquele "miúda" é de fibra. Faz-nos andar todos na linha.

- Fico tão feliz. Finalmente tudo parecer estar a compor-se. Ele ter começado a perdoar o pai... É muito bom! Quanto à Maria da Graça...

- Tem a quem sair.

- Ah, sim! A quem?

- A ti, mãe! És uma mulher extraordinária. Os teus filhos só podem achar exemplo e inspiração em ti, mãe.

Entre abraços e lágrimas Helena sentia-se grata. Pelos filhos, netos e por Pedro ter estado na sua vida. Ter originado com ela, esta parte da sua felicidade. Sim! Ela também se sentia uma mulher feliz.

 

Fim

 

Verniz Negro

 

Ao meu grande amigo José da Xã!

 

 

Esta foi a última de algumas histórias que "entrançámos", juntos, por agora... Quem sabe um dia não surjam mais. É altura de paramos um bocadinho. Viver com mais calma outros compromissos. A vida em si. Mas nunca se pára uma amizade, pois não José? Podem-se afastar as pessoas. Pode não haver todos os dias, ou semanas aquela partilha, cumplicidade, mas a presença essa está sempre connosco. Dentro do coração e no pensamento. Agradeço-te até hoje a amizade... Que espero se vá fortificando. Durando para sempre, porque vou estar sempre aqui para ti, assim precises de mim. Me queiras por perto!

 

Obrigado, amigo! Foram semana divertidas de muita "inspiração forçada", outras vezes não. Quando por exemplo, nos saíam as ideias mal acabávamos de escrever o capítulo anterior. Para ti desejo o melhor. Todo o sucesso do mundo. Mais uma vez foi giro. Muito giro. E vamo-nos "vendo" por aí! Beijo enorme. Bons escritos!

 

Verniz Negro/Fátima Soares

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por José da Xã às 13:59

Quarta-feira, 12.09.12

Sentidos dos dias - Decisão XXVII

Helena temeu entrar no quarto e encarar Pedro. Mas fê-lo. E na mesma altura o seu coração poderia ter parado para sempre, porque não lhe faria mais falta sentir. Sentir-se assim, humilhada. Momentos depois ficou grata, quase feliz do marido estar sentado na cama, sem monitorização qualquer, com um sorriso de orelha a orelha. Acompanhado do médico mais patético de África, que ela tinha de aturar constantemente.

- Viu! Que lhe dizia eu D. Helena! O nosso homem reagiu às mil maravilhas ao "choque" que a senhora tanto temia.

Helena era extremamente educada, ou tê-lo-ia mandado à merda, acrescentando mais uns mimos..."Para "choque" dele, se calhar. Velhaco! Estava a gozá-la nitidamente do marido ter "arrebitado" com o encontro da outra!" Mas quando ela chegara, não ter mostrado qualquer evolução ou melhoria, além do sorriso. E claro, a afabilidade normal que se mostra a alguém que nos é "querido". Pedro Rafael deve ter notado o seu rosto contraído, o sorriso que lhe bailava nos olhos morreu-lhe junto com o dos lábios, porque sabia que a magoava. Sabia tudo o que ela não queria. Desde, que ele não tivesse vindo, a ter de vir ela também e presenciar este "ressurgir dos mortos", por alguém que mais uma vez se certificava ele mantivera bem vivo, dentro de si. O resto da tarde correu mais ou menos. Trocaram poucas palavras. Eram mais as indicações médicas, os avisos. A hora da medicação, o conter de muito mais por aquele dia, no que contava a emoção. "Pois, claro! Ele já as devia ter tido todas!" Que não sobrasse muito para ela... Já estava habituada às sobras da outra, pelo visto. Era mais do mesmo!Helena retraiu-se. Recordou o semblante dela consternado. A posição outrora altiva, curvada e decidiu que no fundo a outra? Era "outra" coitada! "Se ele lhe assobiasse corria...Como cão perdigueiro a abanar a cauda para junto do dono!" De repente um laivo de ódio perpassou pela cabeça e pelo coração de Helena na direcção de Pedro. Mas sorriu e conteve-se. "Até porque ela já corria há tantos anos atrás daquele assobio..."

À noite e depois dum caldo frugal, já no refeitório dos monges, momento em que Pedro agradeceu a hospitalidade e terem-lhe salvo praticamente a vida, quando correram prontamente a chamar os médicos, ele e Helena recolheram-se. Ela ajudou-o a caminhar, calmamente, com o braço por cima do seu ombro. Um dos monges sempre a distância curta, não fosse ser necessário algo. Porém, mal os viu na ombreira da porta despediu-se. Helena ajudou o marido a despir-se. Ele afagou-lhe a face, beijou-lhe os lábios de raspão. "Notaria quiçá que ela quase se esquivara ao gesto?" Ainda assim respondia e sorria quando ele falava, de tudo! Menos do que ela necessitava ouvir.

"A minha viagem está acabada. Estou em paz com a minha consciência. Pus em dia o que tinha vindo fazer. Ela e eu? O tempo passou e entre nós... Há um fosso, intransponível!" Resumindo: "Porque raios ele não falava com ela? Não explicava o que tinham dito, tinham sentido e decidido? Talvez amanhã! Como dissera o clínico, chegava de emoções. Mas Helena não pregou olho e o amanhã surgiu. Pedro pouco saíu do quarto. Das vezes que estavam sós, apenas se olhavam, comprometidos. Era pior que antes! Ele recearia contar? Ela não perguntaria! Não daria parte de fraca. E foi quando saiu para vir buscar toalhas lavadas, que no corredor e com a porta entreaberta, ouviu Pedro confessar a Joâo:

- Não sei que fazer, meu amigo! A minha mulher não merece isto, mas o facto é que eu...Não consigo! Compreendes?

- Hum... Mas não consegue o quê meu capitão? Esquecer a Zuleica e ponto final, Portugal consigo, mais a patroa. Ou dizer à sua mulher que regressa sozinha?

Se fossem pratos, copos ou tachos, Helena teria sido descoberta. Eram toalhas e quando lhe caíram das mãos, baixou-se lesta a apanhá-las, admirada com essa sua destreza, na sua idade. O certo é que um frenesim nervoso a percorrera como uma descarga eléctrica. Não entrou, virou a esquina do edifico. Ficou ali, com as lágrimas a correr a quatro, a pedir a Deus para ninguém a ver... Até que João saíu. Recompôs-se e fez o que era suposto. Como sempre! Cumpriu mais uma cena, daquele teatro. O dia viu a noite chegar e nada de palavras. De Zuleica. Somente dos filhos, da casa e quem ficara a cuidar? Da loja e pouco ou mais nada, que "estás com um ar tão cansado, devias repousar um pouco". Ao que ela se escusou. E mais uma noite os brindou. Helena pensava se alguma vez dormiria de novo com ele. Se regressariam juntos? Voltariam a ter sequer o que sempre tinham tido, fosse verdade ou mentira? Os pensamentos e palavras de João matraqueavam-lhe os miolos, até ferverem. Por isso levantou-se. Escreveu uma carta e já possuidora da informação dada nessa tarde, que a recuperaçãoo de Pedro seria lenta mas uma realidade, tomou uma decisão. No outro dia manhã cedo, perguntou se podia telefonar. Autorizada, fez uma chamada. De seguida procurou falar com o  frade que administrava o convento. Sendo-lhe cedido um acompanhante (nada menos nada mais, que o frade Martim, que os acompanhava sempre a ela e Pedro quando ele esticava as pernas) Helena saiu do convento, a seguir ao almoço enquanto o marido dormitava.

A casa de Zuleica não era longe, afinal. Nem rica nem pobre. Asseada e acolhedora. Onde duas mulheres se poderiam entender, com uma chávena de café... Uma segunda carta ficou em cima da mesa. Zuleica prometeu-lhe lê-la só dali a uma meia hora, quando ela já fosse distante.  Feito isto e de volta ao convento, Helena sorriu ao marido. Sondou-o sobre a sua saúde. O tempo que pensava ficar e obteve quase a resposta que queria... Ainda faltaria "bastante" para regressarem. E assim cuidou e mimou. A noite sucedeu-se ao dia. Fim de dia esse, em que Helena beijou Pedro. Disse-lhe como o amava. Como desejava que tudo ficasse bem e ele melhorasse depressa. Sobretudo para que ambos pudessem ainda ser felizes, no resto das suas vidas. Ele adormeceu calmo. Grato. E de manhã ao acordar, encontrou somente uma carta... Da esposa!

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 00:14

Quarta-feira, 05.09.12

Sentidos dos dias - Desorientação XXV

Helena sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés. A sua vontade de se despachar para poder ouvir algum bocado da conversa do dois, deu lugar a uma desorientação estúpida, que nunca sentira antes. Uma impotência que lhe dava medo! Se por um lado tinha a noção que deveria estar ao lado do marido, não só para lutar por "aquilo" que era "seu", mas zelar para que a emoção não o prejudicasse, por outro e agora como escolha, a puder fazê-la, seria desaparecer. Ou melhor! Voltar àquela tarde em que ficara pela primeira vez cara a cara com Pedro. Poder reverter toda a sua vida. Amava-o?! Muito. Ainda hoje ele era, fora sempre o homem da sua vida. Tivera os seus filhos e esforçara-se constantemente por estar à altura. Ser a esposa que ele idealizara, mas hoje? Lá atrás... Se tivesse sido mais forte, teria esquecido a empatia. O envolvimento. Não teria logo partido para uma relação precoce, com a sua mania de ser boa samaritana. De o pôr à frente de todas as suas prioridades... Até do emprego. Da sua formação académica que na altura a uma mulher custava tanto a conseguir. E hoje? Que coisa! Sentia-se parva com aquela palavra a repetir-se na sua cabeça. "Hoje... Hoje o quê?!" A saber o que se fizera entendível, neste momento, ponderava se talvez não fosse melhor ele ter regressado a Angola.  Ter feito toda a sua vida ao pé de Zuleica e ela ter seguido o seu caminho. 

Sem saber, formaria com Pedro este triangulo amoroso de miseráveis insatisfeitos. Três almas diferentes, que nunca tiveram descanso. Que sem se conhecerem, duas delas, partilharam aquela terceira, sendo quiçá, ela ( a esposa)a menos beneficiada, embora o tivesse ao lado. Caramba! Ele era o seu homem. Dormiam juntos. Nos primeiros tempos Pedro era fogoso. Exigia dela o que qualquer homem pede duma mulher, mas... Todavia ela nunca viu na relação de ambos, qualquer tipo de escândalo em lhe dar o que pedia. E era muito satisfatória a sua relação sexual. Porém no fim ficava sempre aquela sensação de frustração no seu íntimo. Quando ele a deixava muitas vezes imediatamente e ia fumar para a janela, pensativo. Não havia aquela conversa carinhosa, depois. Aqueles afagos e o ficar um pouco, que acontecia tão esporadicamente... Noutras entrava furioso na casa de banho e tomava banho mal acabavam. Como se quisesse tirar o gosto e o cheiro dela, de si. Seria isso? Equacionou através dos anos tantos cenários para as atitudes esquisitas... Meu Deus, tinha tantas! E a pensar assim enlouqueceria. Ela tinha de acreditar que Pedro também a amava quando o expressava e a quisera, também. E os filhos? Mas... Quando tinham começado os problemas, o afastamento? As discussões e a raiva surda que se apagava no corpo, mas se tornava amiúde uma "tarefa" a cumprir e não...Amor! Se bem que da parte dela era, mas sempre com medo de saber o porquê daquelas fúrias. Da instabilidade, das horas tardias para chegar a casa, do álcool. O fechar-se no escritório até altas horas a escrever como um fugitivo, escondendo o que fazia. O olhar perdido, o pensamento em noutro lado. Tudo se fazia claro... Hoje! 

Ele vivera com ela sempre pensando noutra! Quantas vezes teria fechado os olhos e imaginado que estava com ela? Se saciara quase de modo violento, lembrando-a e a rejeitava a seguir? Naquelas formas malucas de estar, que a princípio lhe pareceram desadequadas. As evasivas pobres que não lhe serviam. Havia algo mais e ela sentia-o. Sempre sentiu. E quando ele contou doeu-lhe como mais nada doeria, mas nunca imaginou que aquela "sombra distante" significasse mais, muito mais que ela nunca significou para ele de facto! De repente teve de sair do lado de João, tentar  ir respirar noutro lado. r os pensamentos no lugar sozinha. Mas onde raios naquela terra, se podia respirar, com o maldito clima? Onde podia ir, se não conhecia nada dos arredores? Sujeita a cair nalgum barranco, ou ser vítima de um animal ou... Mas tinha de fugir dali, mesmo que os dois estivessem agora nos braços um do outro (o que seria difícil dada a monitorização a que Pedro estava sujeito)... Mas como o filho dos dois ao pé. O outro médico de conivência até podiam... Jesus! Isto era insuportável, estava a ser vulgar e absurda. E quando o melhor do "seu longe", passou pelo extremo do convento muito distanciado do sítio onde estivera, pelo menos sentou-se num banco isolado de tudo, debaixo duma palmeira com uma sombra providencial e desabou. Sem ninguém a ver chorou como nunca chorara. Nada indicado para a sua idade. Daqui a nada seriam dois com um avc, para tratar. Tentou acalmar-se. Enquanto isso apalpou o telemóvel. Afagou-o pensando nos filhos. Especialmente em Maria da Graça. De mulher para mulher. Não de mãe para filha! Helena necessitava desabafar. Gritar e revoltar-se, sob pena de rebentar. No entanto, para que ia macular a imagem do pai, perante os seus descendentes? Ela era que tinha de lidar com aquilo e decidir. Teimosa, cheia de altivez levantou-se, mal pressentiu o vulto de Zuleica a caminhar na sua direcção. Maldita, sina! Ia ter de ouvi-la? Falar-lhe depois de não saber como fora o seu encontro com o homem... Que afinal, ao que parecia as duas amavam! Ou ela não teria ido lá. Nem que o filho pedisse, ou o outro clínico quisesse. Se ela não sentisse nada, que desprezo... Distanciamento. Ou Pedro lhe fosse hoje, indiferente, não se abalaria do sítio onde morava ali, por uma homem que a abandonara e aos filhos, sem nunca mais dar notícias. Mesmo que ele estivesse às portas da morte! Ou seria outra estúpida que levava o  ser cordial, solidária e humanista, à letra, mesmo para quem a ferira? Reparou que os bonitos olhos verdes estavam raiados de sangue. Também chorara! E toda a contrariedade e desdém lhe passaram naquela hora. Queria poder ser capaz de a odiar. De enfrentá-la e deixar claro que teria sido a última vez que falaram e se viam. Tanto! Muito mais combatia dentro de si em relação à outra, mas sobrepunha-se sobretudo dó! Até de si mesma. Não podia desfeitear a outra! Ela era uma vítima maior que ela talvez dado o que sabia agora. E quando ela lhe disse uma única palavra (obrigado) e a olhou nos olhos com aquele ar resignado e sofrido e seguiu caminho, placidamente, teve vontade que se sentasse. Ficassem ali, uma ao lado da outra em silêncio, com lágrimas, problemas e um sentimento em comum, que talvez ambas quisessem partilhar, tentar compreender, dar volta a algo que não tinha volta a dar.

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 11:28

Quarta-feira, 29.08.12

Sentidos dos Dias - O segredo XXIII

Podia proibi-la de vê-lo, com todas as desculpas válidas e o facto de ser sua mulher... E ele jamais a perdoaria quando soubesse. Podia exigir estar presente, ou pelo menos próximo, que pudesse ouvir o que falavam, mas seria traição. Baixo da parte dela. Além de que fervendo em pouca água, lhe daria vontade de intervir. Portanto seguindo a sua capacidade de "encaixe", deixando-se levar pelo bom senso, foi assim que Helena voltou costas a Zuleica, e enquanto esta ia com o tal médico negro ao encontro de Pedro, ela foi com João até ao jardim do Convento. Pelo caminho cruzaram-se com o físico mais idoso que a cumprimentou efusivamente.

- D. Helena! Como está a senhora, hoje? Espero que tenha descansado. E o nosso doente?

- Bom dia, Dr., lamento desapontá-lo. Na realidade não preguei olho. O meu marido passou bem, dentro do esperado, suponho! Está agora...

- Sei, muito bem! Está com visitas. Não espero que compreenda. Aceito que me censure, mas na minha idade já vi de tudo e se isto não resultar...

- Devo presumir que este "tratamento de choque" é o que chamou de contenção de emoções? Não! Não percebo. Se ele piorar o senhor vai explicar a sua ideia, e praticas de medicina, também aos meus filhos!

- Não se revolte comigo. O seu marido é reincidente, portanto um homem forte! Já sobreviveu antes. Está cansado, muito cansado. Desmotivado. A pensar que desta, já não há volta a dar. Está bem acompanhado! E eu estou decidido a que saia daqui, como veio...Pelo seu pé! Ponho a minha carreira em jogo. Ele também precisa de estímulos...Bem dirigidos. A senhora foi um. Notou que gostou que viesse. Agora a outra senhora, segundo parece, também seria alguém com quem deve falar. Um homem deve tratar dos seus assuntos, não acha? Considere isto uma fisioterapia do músculo cardíaco.

Helena seguiu com João cada vez mais nervosa e angustiada. Não sabia que pensar. Se o homem era maluco ou seria ela que não estava boa do juízo! Em Portugal nenhum médico faria isto de certeza, mas queria despachar-se. Regressar depressa ao quarto, a fim de ver a reacção de Pedro. Se pudesse apanhar alguma coisa do fim da conversa... E diante do amigo dele ouviu finalmente, bebendo as palavras, a história dos dois. O segredo totalmente revelado. João fez questão de não omitir nada. Disse-lhe que menos, nem uma ou outra, o mereciam. E todo o tempo em que Pedro falaria com o seu primeiro amor, a mulher soube que existiam dois filhos, sim! Gémeos falsos. Não só o destino fizera o "favor" de os separar do pai, como dera àquela mulher mais uns "brindes" pelo caminho. João e a mulher foram para ela, o que Pedro devia ter sido. Depois do abandono ela trabalhou muito e conseguiu reerguer-se. Voltou à sua terra empregou-se novamente como professora. Os miúdos teriam por volta dos onze anos quando na sua escola, eram "vítimas" sucessivamente, da maldade de outros alunos. O que fez com que um deles não aceitasse que Zuleica não contasse o que acontecera  com o pai, uma vez que se recusara a deitar mão duma mentira. Contar-lhes que morrera! E assim livrar-se de mais explicações. 

Mas, num dia já muito cansada e sem ver por que adiar,(quando o miúdo não se calava, contagiando o outro) desesperada, triste e humilhada, sentou-os na frente e contou: O pai deixara-os. Era um soldado, que tinha escolhido vir para o seu país, como muitos fizeram. A culpa não era de ninguém, mas da guerra. Um dia, quem sabe, poderiam conhecê-lo... Só que nunca pensou que depois de ser bombardeada de perguntas, sobre o porquê dele nunca perguntar por eles? Se tinha outra família, como se chamava... e os ver já exaustos a dormir, um, durante a noite fugisse de casa. Explicara que queria apanhar boleia com o intuito de vir a Lisboa... Mas o que conseguiu foi, ser encontrado pelo irmão e a mãe, caído na estrada com uma bala alojada na espinha, disparada por não se sabe quem.

Resumindo: O resultado de todo aquele calvário era, além de muito mais de que ficou conhecedora, um dos filhos de Pedro ser nem mais nem menos o rapaz gerente do hotel onde ele ficara acomodado. O outro? E aqui Helena quase ia tendo ela própria, uma sincope! Era o Doutor Gil...Que vendo o irmão a esvair-se em sangue, jurou naquele momento, que seria médico se ele se salvasse. O que podia Helena fazer contra tamanha revelação? Tanto pormenor cheio de sangue, lágrimas. Uma vida de martírio? O que podia ela contra o maldito destino, ter posto agora um dos filhos a tratar do pai, e um outro, no seu hotel. Muito antes de todos terem chegado aqui...A um convento no meio do nada! Quando se levantara de manhã, nunca supos vir a sentir-se, assim... Pavorosamente siderada.

 

Verniz Negro

 

 

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por José da Xã às 10:30

Domingo, 26.08.12

Sentido dos dias – Maria da Graça XXII

 

Quando a mãe lhe comunicou que o pai ia a Angola, Maria da Graça apenas perguntou:

- Mas porquê Angola?

- Isso pergunta-lhe tu, se quiseres… - descartou-se Helena.

A relação entre a filha e o pai sempre fora de altos e baixos…  Se bem que Pedro não fosse um pai ausente era todavia um homem distante dos filhos. Ou pelo menos era essa a ideia que aparentava. Só que com a Maria da Graça, o alfarrabista usava de alguma indolência. Com o tempo ambos ficaram mais próximos de tal forma que a rapariga só estudava na loja, onde passava longas horas a seguir ao liceu e mais tarde à faculdade. De tal forma assim era que todos os momentos disponíveis para ambos eram usados para ler velhos e bons clássicos a que se seguiam naturais discussões sobre as ideias oriundas das obras…

A jovem admirava-se com o pai, nascido e criado em Trás-os-Montes e sem qualquer formação académica superior, discorria com saber as suas ideias e opiniões. Também sabia da escrita mas jamais solicitara ler o quer que fosse. Preferia-o assim…

A ideia peregrina do pai, em ir a Angola tornara-se para si um mistério. Sempre soubera das vicissitudes que o antecessor passara por terras de África numa guerra infame e injusta. Mas isto não lhe parecia razão suficiente para partir de Portugal… A não ser!

Foi nesse instante que a dúvida se instalou na mente de Maria da Graça. Havia claramente um passado na vida do pai relacionado com Angola e que não se chamava Guerra Colonial. Mas o que seria?

Perguntar-lhe directamente seria um erro enorme e que ele desvalorizaria com qualquer desculpa esfarrapada. Haveria que ter tacto, saber conduzir a conversa, ladear as questões importantes tentando dar relevância ao supérfluo.

Maria da Graça cedo percebeu que a mãe sabia das razões da viagem mas não as pretendia divulgar. Estava no seu pleno direito de esposa e mãe. Mas ela como filha já adulta necessitava saber. Não que o tentasse dissuadir a partir, isso não! Se algo conhecia do pai era a sua profunda teimosia.

Foi apoiada no conceito de que o pai lhe revelaria as coisas sem saber, que se aproximou de Pedro Rafael num fim de tarde chuvoso e muito sombrio. A chuva miúda e muito fina quase parecia pó e chuva caia suavemente sobre o seu guarda-chuva. Saíra de casa decidida em desvendar o mistério da partida do pai. Todavia tinha de pensar como abordar o assunto sem que ele se melindrasse ou fugisse consecutivamente às respostas. Foi pelo caminho remoendo ideias e mais ideias, e sem vislumbrar algo que sentisse fantástico para iniciar a conversa, deixou que o seu espírito encontrasse as perguntas certas apenas quando chegasse perto do pai.

Quando chegou, o livreiro acabava de receber um cheque de um dos velhíssimos amigos de Hermínio, que continuadamente apareciam na loja em busca de algo estranho ou bizarro. Conhecendo-o cumprimentou:

- Ora viva Dr. Meireles… Bons olhos o vejam.

O ancião elevou os olhos a cobertos de umas grossas lentes para as faces formosas de Maria da Graça e percebendo quem era devolveu:

- Olha a minha querida menina… Como está?

- Bem… E o meu amigo?

- Impecavelmente... Desde que o seu paizinho me arranje algo para ler… - e riu mostrando uma enorme ausência de dentes. Depois partiu levando um saco cheio de livros estranhos. Pedro pode finalmente cumprimentar a filha:

- Olá cachopa. Que vieste aqui fazer com este tempo?

- Nem sei paizinho! Quer crer? Ando preocupada com a minha vida… só isso.

- Preocupada? Como assim?

- Sabe… O meu trabalho não é muito interessante… Gostava de… outra coisa…

- Que coisa?

- Não sei realmente… Olhe sabe, necessito de aventura!

- Aventura? Mas tu endoideceste?

- Não senhor. Estou a pensar em partir para uma missão católica em África.

A última palavra de Maria de Graça fez o pai mudar de tom… E de atitude…

- Nem penses! Eu não te deixo ir… - disse com rispidez.

Tocara-lhe no ponto fraco. Agora bastava desbravar este enigma. Sem fazer caso das ultimas palavras de Pedro, Graça continuou:

- Na igreja está-se a formar um grupo de missionários para partirmos para África e como sei que o pai andou por lá, sei que na guerra, queria saber a sua opinião entre Angola ou Moçambique.

Pedro quase espumava. Tentava acalmar-se mas não conseguia… Sentiu o coração bater mais forte e sentou-se. Não podia ser… A filha também… Sentiu que tudo andava à roda e caiu por cima da secretária.

Maria da Graça correu lesta para o pai, sabendo dos seus problemas cardíacos:

- Paizinho, pai… Acorde, por favor… - batia-lhe ao de leve da face tentando reanimá-lo.

As pestanas tremeram e finalmente acordou:

- Pai, paizinho – chorava Maria da Graça – Estás bem?

Pedro respirou muito fundo e disse numa voz cava:

- Estou filha, mas peço-te não vás para Angola…

- Porquê meu pai?

- Porque deixas lá o coração!

 

José da Xã

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por José da Xã às 01:22

Quarta-feira, 22.08.12

Sentidos dos dias - Humilhação XXI

Helena não dormiu bem toda a noite. Encontrou o marido pior que pensaria. À sua cabeceira um médico. Mais tarde, nesse dia, conheceria um outro. De cor, jovem ainda. O primeiro mais idoso, informou-a que o rapaz era seu interno e  teria todo o interesse em te-lo ali. Quanto a ele era um futuro portento da cardiologia. Acumulando também, conhecimentos sobre a medicina paralela e naturalista, que muitos povos de África possuem como "legado."  Helena não ficou muito bem impressionada com o jovem clínico. Pareceu-lhe algo arrogante ao olhá-la, quase tentou evitar-lhe o aperto de mão. Mas vinha cansada, algo irritada com o clima. Insatisfeita com a conversa de João e aquela coisa dos filhos, que não acabara por elucidar visto que mal o jeep parara, ficaram rodeados de gente. Frades e ajudantes, mais a confusão de malas e instalações. Depois as novidades e por fim... Pedro!

Parecia ter envelhecido mais cinco anos. Helena sentiu os olhos marejados de lágrimas ao ver o marido, mas fez força para ele não a ver fraquejar. Beijou-o, afagou-lhe o rosto e encorajou-o. Disse-lhe que tinha de se por bom, porque os filhos estavam à espera e os dois, ainda tinham muito para viver. Mas na realidade os fios, máquinas, biombos. Com o soro e montes de artefactos hospitalares, mais um enorme aparelho de ar condicionado portátil a fim de manter a temperatura fresca, deixaram-na esvaída... Mas ao mesmo tempo esperançosa! Aquilo poderia ser um convento, mas aquele quarto agora, parecia mais uma dependência eficiente que qualquer valência de cardiologia. Havia uma enfermeira sempre atenta à medicação, alterações do paciente e quando Helena se afastou por exigência do Dr. Germano (o tal mais velho), com a indicação de que queria falar-lhe, depois de o ouvir com atenção, fez questão de o informar que ela poderia ser dispensada. Com ela ali e sendo mulher dele, fazia questão de tomar conta do marido durante noite e dia, o tempo que ele levasse para poder ser transferido para Portugal. Logo aí recebeu um sorriso quase escarninho e a resposta que a enfermeira se manteria. Ela poderia ser uma mais valia, mas ao mesmo tempo um empecilho. Além de não ter preparação de enfermagem a ponto de substituir a outra profissional, em caso de agravamento, a vinda dela poderia complicar as coisas, uma vez que ela estando ali era uma grande carga emocional. 

Helena ia esbofeteando o homem, mas calou-se e admitiu que a gravidade da situação o requeria. Segundo ele Pedro agora estava, estável portanto seria de evitar qualquer comoção supérflua. Por isso se ela queria ajudar que o mimasse, ajudasse na higiene, alimentação quando ele começasse a comer e até a distraí-lo, mas não falasse de coisas muito emotivas. Não fizesse grande força ou exigência para ele melhorar, sobretudo não o culpasse de estar assim. Helena ficara miserável. Naquela maldita terra parecia ninguém gostar dela, ou achar que a sua vinda fora boa ideia. Raios! Por momentos sentia uns ciúmes doentios e uma vontade de gritar e barafustar! Se ele estava assim fora por causa daquela "preta de merda" que não lhe saía da cabeça. Ainda assim engoliu em seco e o resto do dia e noite, ficou calada e cumpriu tudo escrupulosamente. Tomou um calmante e um analgésico para a dor de cabeça e mal se deitou pensou que dormiria. No entanto ficou a olhar para ele encolhida no seu canto. A ouvir-lhe a respiração pesada, o som da gota do soro a cair diligente e a maldita máquina a trabalhar. A enfermeira que entrou duas vezes para tirar notas e lhe sorriu, saindo tão fantasmagoricamente como entrou. 

E resolveu por momentos ir até lá a fora de mansinho não se afastando das redondezas. A noite era um quadro irreal com a lua, estrelas as palmeiras. O vermelho da terra, o branco das pedras a ladear os caminhos e os odores. Depois os ruídos e um ou outro piar de ave que desconhecia, mais um soçobrar de elefantes que se banhavam muito ao longe nalgum lago perto, quiçá. Todo aquele conjunto de sombras e luzes e cheiros, com os animais pachorrentos e ainda o que ela sabia e poderia lembrar-se, dos filmes que vira de África fizeram-na a custo, curvar-se ao encanto que aquela terra teria provocado no seu homem, a ponto de o encantar para sempre. Ela estava ali há apenas algumas horas e sentia o chamamento. Porém mal recordou Zuleica rangeu os dentes e fechou os punhos. Voltou para dentro, fechou bem a porta e acomodou-se até amanhecer com uma ideia fixa: João ia elucidá-la de tudo o que não lhe contara, mal o dia raiasse ou ela não se chamasse Helena... 

E foi assim que mal se despachou e deixou Pedro "bem entregue", saiu porta fora e foi encontrá-lo a apanhar folhas secas com um ansinho... "Que lata! Até parece que não havia nada de mais importante que empossar-se em jardineiro."

- Bom dia, senhor João. Espero que tenha dormido bem, porque...

Ia morrendo! Não! Não morreria tão depressa e ainda suportaria tudo e mais alguma coisa, mas aquilo? Agora percebia porque Pedro se apaixonara por ela. Era... Linda! Ainda hoje. Mais alta que ela, muito bem feita, e... fina. E aqueles olhos lindíssimos. Com a fala, tão delicada e o sorriso? Franco! Não, isto era inaceitável.

- Olá, D. Helena! Hum... Vejo que chega a tempo de conhecer uma velha amiga. Chegou ontem à tarde com o Dr. Gil. Principalmente porque o Pedro não poderá... Bem, infelizmente está na hora do Pedro e ela falarem. Talvez seja este o único sítio onde o possam fazer, como a senhora sabe.

Helena sentiu-se incendiar. Deviam estar a gozá-la! Era esta ideia de pouca emoção que o seu marido precisava? E desde quando ela vinha, sem a consultarem a si? Passara a noite debaixo de mesmo tecto que aquela...aquela...  

 

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 01:36

Domingo, 19.08.12

Sentido dos dias – Arrumar a vida XX

Não seria uma mera doença que impediria Pedro de partir. Retivera-o sim por mais algum tempo mas nada lhe retirara nem o desejo nem a teimosia de retornar a Angola.

Nessa tarde de domingo de loja fechada, começou a arrumar a sua vida interior antes de voar para África. Para tanto foi à velha mala e começou a retirar de lá alguns papéis. Pedaços de vida escritos havia anos. O tal livro jamais compilado. Centenas e centenas de folhas A4 ou apenas nacos de papel, onde num vislumbre escrevia o que sentia ou aquilo que se recordava.

E havia ainda diário de guerra. Mas esse… Seria provavelmente outro livro. Tinha medo de o abrir, de relembrar o que acontecera tantos anos atrás… Todavia um dia teria de ser! Mas não agora…

Pegou novamente nos textos e foi relendo o que escrevera. Alguns tinham data outros nem tanto… Porém ia lendo e rindo. E lembrava-se de quase tudo. As notas que tirara de Alberto por causa da livraria também ali se encontravam. E aquela teoria impensável que os livros tinham um destino antecipado… Ria para dentro porque por fora a sua fisionomia mantinha-se impenetrável. Sempre fora assim, ou pelo menos a guerra obrigara-o a reservar os seus sentimentos. Podiam-se contar pelos dedos as vezes que ele sorrira de forma espontânea e simpática. Jamais!

Foi colocando os papéis por ordem de datas. Os outros, sem qualquer referência de data, foi-os deixando de lado. Muita da escrita nem parecia dele, tão distante que estava agora da realidade. Dava-lhe a estúpida sensação que quem escrevera aquilo fora outra pessoa tão diferente do Pedro Rafael Assunção que era agora…

O actual escritório que fora em tempos um dos quartos dos filhos entretanto independente, tinha apenas a porta encostada. Sentiu que alguém abria a porta. Só podia ser Helena. Esta olhou o marido e percebeu como ele estava velho. Como a vida o tinha comido por dentro e por fora. Lembrou-se daquela tarde em que o foi esperar à Doca Rocha de Conde de Óbidos, como madrinha de guerra de um soldado que apenas conhecia por carta. E nesse mesmo dia conheceu os pais dele e seus futuros sogros. Gente simples e boa… Uma lágrima teimou em cair na alcatifa.

O marido tinha dado pela entrada da esposa, mas ao contrário do que muitas vezes acontecera permitiu que ela se aproximasse dele. Ela abraçou-o por detrás com carinho e declarou:

- Sei que sou impotente para te impedir que vás a Angola. A dúvida que toda a vida te consumiu há-de ser dissipada. E hás-de regressar e viver os restos dos teus dias finalmente em paz…

Pedro virou-se para a mulher e naquele breve instante sorriu. Um sorriso sincero e grato. Ergueu-se, pegou na face, já rasgado pelos anos, da mulher e deu-lhe um beijo simples. Tocou-lhe os lábios com simplicidade e finalmente declarou:

- Obrigado Helena.

Era um agradecimento profundo. Mas parecia prenunciar algo diferente. Se por um lado a mulher gostou do gesto carinhoso do marido, por outro sentiu que havia ali algo… tenebroso. Mas rapidamente afastou essa sua ideia. Assim e vendo os papéis em cima da mesa perguntou:

- Que estás a fazer?

Pedro voltou a sorrir. E respondeu duma forma franca e aberta, como ela nunca o vira:

- Estou a arrumar a minha vida. Anos e anos de parvoíces escritas para um dia poder compilar e…

Uma pausa para respirar, como se as recordações o cansassem. Mas continuou:

- E um dia espero poder publicar um livro com tudo isto… Mais o diário de guerra…

Helena riu também. Havia anos que ela sabia de todos aqueles textos, do diário, mas jamais lhe dera a curiosidade de ler fosse o que fosse. Seria trair a confiança dele. Porém gostaria de ler algo dele e assim pediu:

- Posso ler alguma coisa que escreveste nesses papéis?

O marido pegou em diversas folhas e entregou-lhe, sem mais comentário. Helena aceitou e sentou-se num velho “fauteuil”. Sem pressas foi lendo e passando folha a folha. O marido continuou a arrumar mais papéis. Quando de repente se virou para a mulher, viu-a lavada em lágrimas. Assustado ergueu-se do seu cadeirão e dirigiu-se à mulher, preocupado.

- Que tens Helena? Dói-te alguma coisa?

A mulher levantou os olhos para o marido e encontrando o olhar ansioso de Pedro, disse apenas:

- Onde aprendeste a escrever assim?

- Hã? Não entendo…

- Tu escreves coisas maravilhosas. Porque me escondeste isto toda a vida?

A pergunta tinha razão de ser. Mas Rafael não sabia responder.

- Mas eu não escrevo assim tão bem… Há coisas que saem melhor que outras… isso é verdade.

Helena levantou-se e foi a vez dela agradecer:

- Muito obrigado por teres partilhado isto comigo. Fico muito feliz!

Finalmente o antigo soldado, o herdeiro de uma fortuna, o alfarrabista que nascera e crescera numa aldeia de Trás-os-Montes, arrumara a sua vida. A lágrima sagrada rolava por entre as rugas até cair na mão de Helena

Faltava agora apenas e só um por maior.

 

José da Xã

 

 

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por José da Xã às 10:11

Domingo, 12.08.12

O Sentido dos dias – Partida adiada XVIII

Os anos passaram com a velocidade natural da vida. Quando deu por si Pedro Rafael acariciava as cãs. Ainda se lembrava do seu casamento com Helena e dessa primeira noite e ora mirava os filhos já crescidos a requererem liberdade. Durante todo esse tempo muita coisa acontecera. As guerras indesejáveis com Helena por causa duma história de amor mal resolvida e que ainda o marcava, o azar e sorte de um negócio pouco rentável, um livro começado e ainda não terminado, um destino ainda por encontrar.

Certa noite Pedro deitou-se mais cedo. Colocou as mãos a fazer de almofada mirando o tecto do quarto e numa declaração quase dita de supetão, anunciou:

- Helena, vou a Angola…

A mulher soergueu-se da cama e sem surpresa perguntou:

- E isso é para breve?

Pedro Rafael admirou-se pela forma fria como Helena aceitou a sua vontade. Serenamente  como se fosse a coisa mais normal na vida de ambos, o marido perguntou:

- Queres vir comigo?

Helena esboçou um sorriso e com toda a calma do mundo declarou:

- Creio que já falámos disto diversas vezes. Não quero ir, nem nunca irei a Angola.

- Como queiras… Mas eu tenho de ir, entendes?

Helena não entendia. Aliás, a referência àquele país africano era quase sempre símbolo de desavença conjugal. Só que desta vez estava já cansada e nem se preocupou em dizer fosse o que fosse. Virou-se na cama dando-lhe as costas ao marido numa atitude que Pedro embrenhado nos seus pensamentos nem reparou.

A decisão de partir para África transformou o livreiro. Tornou-se mais afável e mais aberto. Às refeições passou a falar de uma forma mais aberta, rindo e brincando com os filhos. Helena por sua vez sentia-se mais apreensiva. Sabia do passado do marido e daquela história de amor que durante todo o casamento pairara como uma nuvem negra ameaçando tempestade.

Uma tarde ao almoço Pedro agarrou a mulher pela cintura e puxando-a para si, obrigou-a a sentar-se nas suas pernas. Jamais durante o seu casamento Helena fora abordada pelo marido daquela forma. Ainda assim tentou esquivar-se, dizendo:

- Larga-me homem… olha que caio!

Ele riu-se e atirou:

- Se caíres, cais nos meus braços…

Nesse mesmo instante Pedro sentiu um aperto no coração. Faltava-lhe o ar e a dor cresceu. Helena depressa percebeu que o marido tinha algo diferente e perguntou:

- Que tens, homem? Estás tão pálido…

Mas ele não respondeu. De mão no coração Pedro sentia a vida a fugir. Num momento de breve lucidez pediu:

- Chama o 112…

O INEM chegou rápido levando o alfarrabista para o hospital. Após uma bateria de exames foi-lhe diagnosticado um pequeno enfarte. Esforços e outras emoções teriam de ser controladas. E entre elas a viagem a Angola.

Pedro nem queria acreditar. Agora que tinha quase tudo preparado para partir, surgira-lhe aquele entrave. Mas não esmoreceu. Com a mesma coragem com que enfrentara muitas vezes o inimigo invisível por entre a floresta selvagem e o capim ressequido pelo sol quente dos trópicos, Pedro atirou-se a uma nova vida onde não cabia o álcool nem o tabaco. Foram por isso tempos muito difíceis, regressando aquele seu ar melancólico e taciturno.

Recomeçou a escrever o seu livro. Devagar, ao sabor das lembranças e das memórias ia alinhavando textos e mais textos. Porém nem a mulher nem os filhos tinham direito a ler os testemunhos que Pedro ia calmamente desenvolvendo. Sempre que alguém se aproximava lá escondia Pedro por entre a pasta já velha e surrada os seus escritos. A doença obrigara-o a alguma calma e serenidade. Era a Maria da Graça a filha mais velha que tomava agora conta da velha livraria. Também ela adorava refugiar-se naquele espólio. E lia muito do que por lá encontrava. E sonhava tal e qual o pai…

Uma tarde estando já melhor, Pedro regressou à livraria. Encontrou-a sem clientes mas com uma lojista atenta. Por detrás de uma resma de livros que tentava em vão arrumar, Maria da Graça dera conta da entrada de alguém e perguntou:

- Boa tarde deseja alguma coisa?

Quando reparou no pai riu-se e foi acrescentando:

- Que tal um banquinho para se sentar?

Ao que o pai respondeu:

- Olha minha menina aprende que os livros também falam…

Lembrou-se então de Alberto. E riu-se. A filha imitou-o. Pegou então num livro ao acaso e leu o título:

- Bom livro este…

- Como se chama?

 - “Africa Minha”

 

José da Xã

 

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por José da Xã às 13:11

Quarta-feira, 08.08.12

Sentido dos dias - Perto XVII

O resto da viagem correu sem acidentes. Andaram mais que o estipulado, não fosse acontecer novo percalço e noite já alta chegaram a Negage. O rio Cáua corria indiferente, escuro, só reflectindo a luz duma lua branca magnífica, no meio de pouca claridade. Tão tarde da noite João preferiu não arriscar os dois únicos hotéis da zona, até porque a maior parte do seu espólio se tinha esgotado. Preferia que o seu amigo resguardasse o dele, para qualquer eventualidade futura. Portanto, adiantou-se na estrada até à missão de padres capuchinhos, datada de 1970. Lá por certo lhes dariam guarida de boa vontade. Os aprovisionariam do que necessitassem, dentro das suas possibilidades. Ainda que dormissem num catre, ou no chão mesmo, fazê-lo ali era estar seguro. Longe de predadores de toda a espécie, dos mosquitos e dos "renegados" ou aproveitadores. Foram bem recebidos. E mesmo àquela hora, havia sempre alguém de vigília. Logo que se lavaram, uma malga de caldo condimentado e grosso para confortar o estômago, soube-lhes como o melhor manjar.

Já cada um nas suas celas exíguas Pedro, exausto, deixou-se cair na cama estreita. Doía-lhe a perna. Todo o corpo. E a imagem da enorme cobra ao ombro do negro, passou-lhe do novo pela memória...Havia algo que o protegia ali. Que parecia querer que ele levasse a sua missão até termo. Olhando o enorme crucifixo pendurado nas paredes caiadas suspirou. Devia fechar os olhos e dormir. Apagar apenas! Como se o mundo o engolisse, de preferência sem sonhar. Contudo voltou a erguer-se e sentado acendeu a vela da mesa de apoio, tosca, única peça de decoração além do jarro e bacia, com o penico de esmalte branco. Escreveu. Data. Hora e acontecimentos recentes. Parou! Levantou-se e alto como era, não lhe foi difícil espreitar pelo pequeno buraco com grades, que servia de janela. O cheiro do rio, misturado com a frescura da terra, à noite, acariciada pela torreira do sol implacável, durante o dia trouxeram-lhe a imagem dos cafezais. O seu aroma. Pedro Rafael inspirou sôfrego. Atreveu a vista mais longe alcançando as palmeiras. O branco do edifício em contraste com o chão, de caminhos bem definidos orlados de pedras pequenas claras. Um céu de cortar a respiração. E...Pensou nela!

"Estava tão perto. Tão perto! Como estaria ao fim de tanto tempo? Ainda seria bela, de certeza! E aqueles olhos verdes que o enfeitiçaram... O sorriso como um monte de neve pura. O seu menear de ancas. As pernas lindíssimas. Os seios, cheios, cabelos..."

Aquela mulher iria com ele para a tumba! Com todos os sentidos ainda despertos, sempre que pensava nela. Aquele tambor no peito. Era tal se ouvia antes nas picadas, transmitir-se pelo ar, de cubata em cubata como sinalização...Mas o seu tambor? Era o coração. A paixão forte! Tão vincada que ainda que morresse daí a segundos, se a visse morreria feliz. E portanto era um homem casado. Com filhos. Uma vida tão distante e ainda hoje..."Deus! Largaria tudo se ela o quisesse. Se estivesse livre." Que estupidez! Onde estava com a cabeça? E... Helena?! Não lhe merecia aquilo.

A cabeça rebentava-lhe. Daí a nada nasceria o sol e se não dormisse poucas horas que fosse, arriscaria a ficar doente. Pelo caminho com o calor e toda aquela excitação acontecer-lhe-ia o que adiava..."Não! Não era a porcaria dum derrame qualquer cerebral... Uma merda dum ataque cardíaco, que fariam com que perdesse tudo de novo. Queria vê-la. Falar-lhe, desculpar-se. Como? Não sabia! Mas se ela sentisse o que ele sentia... Queria ver o filho. O fruto daquele amor tão lindo, que..."

Agarrou na toalha puída, mas imaculada, e molhou-a no jarro de água. Levou-a à cabeça. Entretanto na sacola que levava consigo, para além de algumas outras coisas essenciais, procurou um analgésico. Tomou-o! Apagou a luz e deitou-se. Pela fresta da janela e reflectida no pequeno quarto, entrava a luz do luar que incidia no Cristo da cruz. Rezou! Implorou um pouco de paz. Conseguir dormir. Aguentar. "Por favor, Senhor! Só vê-la. Só te peço isso. Deixa-me chegar lá. Falar-lhe. Sentir-me de novo um homem digno. Depois, meu Deus... Sou todo teu!"

Era já meio da manhã quando João, para lá da grossa porta de madeira, o chamou:

- Então, meu capitão? O manhã já vai alta... Está tudo bem, aí dentro?

 

Verniz Negro

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por José da Xã às 14:09


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