Dizem que tenho na família alguém que ficou muito conhecido pelas suas intervenções em estórias para crianças. Mais… dizem até que falava com os humanos o que eu desde já duvido… Era muito mais fácil falar com um boneco de madeira… Mas enfim cada um acredita no que quer. Digo eu!
Pela minha parte calhou-me uma estória, se não rocambolesca, pelo menos invulgar, quase demasiado invulgar para ser verdade.
O que aconteceu foi isto.
Andava eu muito feliz da vida a fazer-me à minha nova namorada, agitando com toda a pompa, circunstância e competência as minhas asas quando sem perceber como tal aconteceu, vejo-me fechado numa coisa muito estranha e da qual não conseguia sair.
Mais… afastaram-me da minha apaixonada que estava prestes a ceder aos meus reais e sonoros encantos.
Logo ali pensei que tudo isto fora coisa de um rival que tenho e com o qual já tive algumas demandas rijas e assaz sonoras. Só que pela noite percebi que não fora ele, certamente a aprisionar-me.
O animal humano é muito estranho. Já tinha consciência disso, mas alguns são simplesmente terríveis. Mas há que dizê-lo… outros surgem como contraponto e portam-se com grande seriedade e parecem ser bastante amigos.
Bom dito isto… estava eu há uns dias enclausurado quando um humano mais pequeno pareceu olhar para mim com algum cuidado e interesse. Ainda estou para perceber como me conseguiu ver no meio de tanta alface que colocaram na tal prisão. Ora, desconfiado como estava nem ousei bater uma asa, não fosse aquele bicho grande fazer-me alguma coisa menos simpática. Com estes animais é necessário toda a cautela!
Tudo isto para dizer o quê? Passado um tempo o tal humano mais pequeno retirou-me da tal caixa e levou-me para o campo, após uma espécie de bravata com os outros humanos. Entretanto senti nas minhas bonitas e sensíveis asas que o ambiente entre os bichos humanos estava deveras tenso.
Hummm… reconheço que soube bem voltar a sentir aquele odor a terra e a erva semi tisnada pelo Sol. O vento parecia soprar devagar ou então era deslocação do humano.
A verdade é que a determinada altura o humano mais pequeno, que vinha acompanhado com outros, abriu a mão e deixou que eu regressasse a casa. Foi tão bom, mas tão bom!
E o mais engraçado é que a minha apaixonada aguardava-me com evidente preocupação… Pudera!
Mas fiquei tão feliz que não consegui evitar um fortíssimo agitar das minhas asas que resultou numa sonoridade que os humanos mais pequenos parecem ter gostado.
Calhou-me um final feliz, mas nem imagino o que poderá ter acontecido a irmãos meus...
Naquela manhã quase estival Margarida chegou à escola bem cedo com o intuito de apanhar Matilde antes das aulas. Desde que fora proibido o uso de telemóveis dentro do recinto escolar os encontros transformavam-se em quase desencontros.
Assim que transpôs os portões correu para a larga escadaria e viu a amiga sentada num degrau a ler e quase sem fôlego chamou:
- Matilde, Matilde bom dia, tenho uma coisa muita fixe para te contar.
- Bom dia ‘miga, conta, conta!
A recém chegada respirou fundo tentando recuperar a normalidade da respiração, para finalmente:
- Este fim de semana fui passá-lo com a minha avó na aldeia dela…
Num exercício empolgado e vibrante contou toda a história do canário da avó, desde a sua libertação até à manhã seguinte quando surgiu dentro da gaiola de forma voluntária. Matilde naquele seu olhar entusiasmado ria tapando a face numa alegria genuína. Quando Margarida terminou o relato a amiga apenas soube dizer:
- Que estória linda… Quem me dera ter coragem para fazer isso a todos os animais que estão presos.
E abraçaram-se unidas numa causa.
Semanas mais tarde Matilde foi com os pais e o irmão mais novo visitar uns primos que viviam por opção numa quinta de meia dúzia de hectares, a norte da capital. O povoado mais próximo era pequeno e rodeado por imensas vinhas que davam à paisagem diferentes tons. Os parentes tenham dois filhos, um rapaz e uma menina, mais ou menos da idade de Matilde.
Assim que a família chegou os miúdos foram logo brincar. Depois correram para o imenso quintal onde as galinhas, coelhos, patos, perús, gansos e demais bicharada conviviam alegremente. Com os miúdos brincou também a Uva, uma enorme cadela negra, mas muito dada às crianças.
Defronte da casa havia um ínfimo parque infantil constituído apenas por um escorrega e um baloiço. Mas ainda assim suficiente para os gastos infantis. Os quatro miúdos não pararam durante toda a manhã até que de repente tocou um sino.
- O que é isto? – perguntou Matilde à prima.
- É um sino e serve para chamar as pessoas para o almoço. Às vezes o meu pai e o meu irmão andam lá para o fundo e assim já sabem que é a hora de comer.
- Muito fixe – acrescentou Matilde.
Correram para a casa e em vez de entrarem pela porta principal deram a volta ao casario para o fazerem pela cozinha. Mas antes teriam de lavar as mãos, que após tanta brincadeira estavam imundas. Havia para tal à entrada um alguidar de esmalte antigo e um jarro com água limpa ao lado. Todos lavaram ali as mãos que também serviu para brincarem, aspergindo salpicos de água uns sobre os outros, numa divertida galhofa.
Entraram de supetão pela cozinha onde cheirava muito bem. Entretanto dali podia-se ver a enorme sala de refeições já preparada para receber os convivas.
Foi nesta passagem entre divisões que Matilde reparou numa pequena gaiola colorida pendurada numa parede. Lá dentro estava qualquer coisa que a criança não conseguiu identificar. Em segredo perguntou à prima:
- O que tens ali?
- É um grilo. Chamei-lhe Policarpo! É giro, não é?
Porém Matilde sentiu a revolta nascer dentro de si e perguntou à prima:
- Porque está preso naquela gaiola?
A outra menina olhou a mãe que passava de terrina fumegante na mão, sem saber o que responder. Foi a mãe de Matilde que a veio salvar explicando:
- Sabes filha… é costume as pessoas nas aldeias terem um grilo em casa. Dizem que dá sorte aos donos!
- Sorte para eles, mas azar para os grilos, não é?
Nesse instante e para não criar mais atrito prometeu a prima mais velha:
- Matilde, tens razão… não devemos escravizar a Natureza para nosso único prazer. Fica aqui prometido que depois do almoço vão todos libertar o Policarpo, que por sinal nunca cantou.
- Mas eles não cantam, apenas agitam as asas… - esclareceu Matilde.
- Seja! Agora vamos comer, sim?
O almoço correu normalmente, todavia Matilde não tirava os olhos da gaiola. A mãe sentara-se a seu lado e de vez em quando por debaixo da mesa tapada pela toalha alva de linho, tocava-lhe na perna dando sinal para a postura da cachopa. Depois acrescentava aquele olhar reprovador que a filha tão bem conhecia.
Após os doces e a fruta Matilde levantou-se devagar do seu lugar e colocou-se estrategicamente por debaixo da gaiola. A prima cumprindo a promessa retirou a gaiolita da parede e pegou no grilo negro e com cuidado entregou-o a Matilde que sem pedir licença correu para a rua, em busca de um lugar para deixar o insecto.
Desceram todos os miúdos o caminho até que o primo mais velho parou e disse a Matilde:
- Foi aqui que apanhei mais o meu pai o Policarpo. Agora baixa-te e deixa que procure o seu caminho.
Matilde abriu a sua mão pequena e deixou que o bicho saísse num breve esvoaçar. Feliz a cachopita recuou para regressar. Mas foi nesse preciso instante que escutou um som estridente e característico de um grilo. Sem mais Matilde assumiu: