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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sozinho em casa!

Mais um conto para o desafio da Isabel!

O telemóvel tocou. Acácio poisou a sua “Divina Comédia” que estava a ler em cima da mesa e olhando o monitor do aparelho logo percebeu a origem. Atendeu:

- Olá Luizinha, minha filha, como estás?

- Estou bem e o paizinho?

- Também, felizmente.

- Que estava a fazer?

- A ler…

- Boa…. Gosto de saber que tem com que se entreter…

- Olha lá… não me estejas a passar a mão pelo lombo que eu conheço-te de ginjeira. Diz lá o que queres…

- O pai é muito sabido… Mas pronto venho perguntar mais uma vez como vai ser o Natal?

- Como é que há-de ser? Eu fico aqui e tu vais à tua vida.

- O pai não me vai fazer essa desfeita?

- Desfeita? Porquê?

- Porque estamos no Natal, é o tempo da família e eu não o quero nestes dias sozinho.

Um silêncio que durou segundos.

- Então, não diz nada?

- Não tenho nada para te dizer. Ou melhor vou repetir o que te disse há dias e há pouco: quero ficar aqui.

Agora foi a vez da filha se calar para logo a seguir teimar:

- E o que é que eu digo aos seus netos? Estão fartos de perguntar quando vem o avô…

- Diz-lhes simplesmente que não vou porque não quero. Tenho esse direito, não?

- Mas explique-me porquê, se faz favor. Deve-me essa explicação.

- A tua mãe partiu há somente seis meses e não me sinto com coragem para ver gente. Prefiro o recato desta casa pobre, mas acolhedora.

- Pai, isso não é motivo. Por a mãe ter partido é que não deve ficar sem nós.  Mais, se não quiser ficar comigo fica com o meu irmão… Eu não me importo.

O pai nada disse.

- Então paizinho?

Um suspiro longo atravessou a chamada e por fim o velho disse:

- Sabes Luísa, durante mais de setenta anos vivi o Natal conforme os outros queriam: primeiro foi na casa enorme da minha avó Juliana que queria sempre a família toda lá reunida, chegámos a ser 60 pessoas à mesa, estás a imaginar?

- Pai eu sei disso, mas eram outros tempos…

- Posso continuar?

Após um breve silêncio filial:

- Depois só com a minha mãe e os meus irmãos, tios, primos e sei lá mais quem. Portanto cresci sempre com multidão à minha volta. Mais tarde quando casei com a tua mãe em Janeiro logo nesse ano nasceu o teu irmão… E o Natal continuou a ser sempre com muita gente.

- O pai não gostava?

- Gostar, gostava… mas também queria ter uma vez um Natal sereno… Sem horas, tempos ou outra limitação qualquer e que, justamente, nunca tive. Agora que estou viúvo, só peço que me deixem gozar o Natal como sempre sonhei um dia…

- E que era? – devolveu Luísa.

- Sozinho e em paz… comigo mesmo! Posso?

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