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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O Presépio!

Assim que saiu do aeroporto Vera entrou no táxi e deu a morada de destino:

- Boa noite, é para a rua Nova do Calhariz, se fizer favor!

- Com certeza menina.

Chegou ao destino, pagou a corrida e dirigiu-se ao prédio de três andares e empurrou a porta de fora, mas esta não se abriu.

- Olha queres ver que o senhorio já a arranjou?

Contudo logo a seguir lembrou-se do segredo para abrir e experimentou. Bingo! A porta abriu-se sem esforço e Vera subiu os dois andares onde tocou à campainha.

Ouviu uma voz:

- Quem é?

- Sou eu a Vera – todavia estranhou não conhecer a voz da mãe.

- Desculpe, mas não sei quem é a senhora…

Atarantada Vera olhou em redor e percebeu que alguém a olhava pelo óculo da porta. Voltou a tocar:

- Diga!

- Não mora aqui a dona Odete?

- Mora sim!

- Ora eu sou a filha.

- Vou-lhe perguntar. Aguarde se faz favor!

Vera estava irritadíssima por estar a falar com alguém com uma porta pelo meio. Temeu o pior com a mãe.

Finalmente:

- A Dona Odete afirma peremptoriamente que não tem filha. Lamento. Passe bem!

Vera bufava! Virou as costas à porta, respirou fundo e lembrou-se da vizinha do rés do chão. Desceu as escadas do prédio e tocou à campainha. Do outro lado escutou passos e uma voz:

- Quem é?

Temendo igual desfecho do andar de cima, perguntou:

- É a dona Alzira?

- Sou!

- Sou a Vera, a filha da Odete do segundo…

Ouviu então a chave rodar e o trinco abriu-se!

- Olá Alzira, viva como está?

- Oh minha querida Vera. Ai meu Deus que já nem te conhecia… Faz tanto tempo que não te via. Mas entra, entra, não fiques à porta.

- Dez anos… mais ou menos – e Vera fez um gesto com a mão, sinal de incerteza, enquanto entrava na casa.

- Já dez anos? Parece que foi ontem…

- Desculpe maçá-la, mas vou directa ao assunto: passa-se alguma coisa com a minha mãe?

- Que eu saiba não. Porque perguntas?

- Porque fui lá bater, atendeu-me uma voz feminina que nem me abriu a porta e depois comunicou-me que a minha mãe nunca tivera uma filha…

Um silêncio ficou na sala onde ambas se sentaram. Alzira foi à janela confirmar se estaria fechada regressando para ao pé de Vera.

- Sabes… a tua mãe nunca perdoou a tua partida… Sempre pensou que estavas a fugir dela… E esse pensamento tem-na devorado.

Vera ergueu-se e conferiu a casa humilde. Um pequeno hall de entrada e na parede uma figura de Nossa Senhora. Percebeu também as decorações de Natal espalhadas por quanto o seu olhar alcançava. Numa trinchante encostada à parede uma fotografia a preto e branco de um homem que deveria ser o senhor Américo, marido de Alzira. Tudo aquilo era pobre, mas cheirava a bafio e a genuíno.

Virou-se para Alzira:

- O que disse tem um pouco de verdade. Quando acabei o meu curso superior tive a hipótese de fazer um estágio em Barcelona. O estágio seria pago e ainda com direito a estadia. Por isso parti aproveitando a oportunidade surgida. Depois, sim, fugi das suas garras sempre tão poderosas.

- Mas o que é que tu querias que ela fizesse?

- Eu tenho consciência… ela criou-me sozinha, sem pai. Mas não era razão para me prender. Sabe… - e fez uma longa pausa como se quisesse ganhar coragem – ela detestava esta época do Natal.

- Detestava nada.

- Recordo-me que um certo Natal fui passar uns dias com a minha avó Florinda. Quando entrei deparei-me com uma árvore de Natal e um presépio, lindo, lindo, lindo… cheio de figuras, uma ponte, um moinho, uma fonte.

- Lembro-me bem desses presépios…

- Pois… só que a minha mãe proibiu-me de o contemplar. E de tal forma o fez que mandou a minha avó desmanchar o presépio ou no mínimo colocar um lençol sobre ele, se não íamos embora.

- E a tua avó que fez?

- Disse que na casa dela mandava ela. E se a minha mãe queria ir embora que fosse.

- E ela foi?

- Não! Mas sobrou para mim. E desde esse dia nunca mais tive direito a viver o Natal como os outros meninos. Até na escola foi complicado…

- Imagino…

- Olhe, dona Alzira, agradeço ter-me aberto a porta, mas vou-me embora para o aeroporto a ver se apanho um avião de regresso a Barcelona. Detesto sentir-me a mais, sabe?

- Vera, querida, não faças isso! A tua mãe sofre muito com a tua ausência…

- Não parece… - e uma lágrima caiu na mão de Alzira que lentamente afagou os cabelos bonitos da menina que vira crescer.

- A minha casa é pequena, mas tenho uma cama para ti. Aguarda até amanhã. Deixa-me lá ir falar com ela.

- Não merece a pena D. Alzira… a sério. E agradeço muito o seu gesto. Feliz Natal!

Vera deu dois beijos na idosa, abriu a porta e saiu sem olhar para trás.

De regresso inesperado à cidade condal, a jovem assumiu a sua ruptura com a antecessora, um sentimento que a deixou profundamente triste, numa época que se diria de reconciliação. Percebeu que nada mais na sua vida a ligaria ao seu velho Portugal. Passaria a ser mais uma catalã, apenas com a nuance de ter nascido no país vizinho.

O tempo voou e um ano depois da viagem de Vera à cidade que a vira nascer, uma mulher descia o Passeig de La Gracia a caminho da Plaça de Catalunya. Empurrava um carrinho de bebé e parecia imensamente feliz, ao mesmo tempo que a criança de meses, olhava a miríade de luzes daquele início de noite fria.

O tempo de Natal espraiava-se por toda a cidade com muita luz, cor e outrossim muitas feiras alusivas à época, com centenas ou milhares de pessoas em busca de algo diferente para colocar num sapatinho.

A criança pareceu agitar-se no berço de rodas e a mulher colocou-se na sua frente e perguntou-lhe:

- Queres ver o presépio, queres? Sim?

O bebé sorriu como que consentindo na visita.

- Então ‘bora lá!

Odete atravessou toda a Plaça e entrou no bairro El Gotic.

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