O Presépio!
Assim que saiu do aeroporto Vera entrou no táxi e deu a morada de destino:
- Boa noite, é para a rua Nova do Calhariz, se fizer favor!
- Com certeza menina.
Chegou ao destino, pagou a corrida e dirigiu-se ao prédio de três andares e empurrou a porta de fora, mas esta não se abriu.
- Olha queres ver que o senhorio já a arranjou?
Contudo logo a seguir lembrou-se do segredo para abrir e experimentou. Bingo! A porta abriu-se sem esforço e Vera subiu os dois andares onde tocou à campainha.
Ouviu uma voz:
- Quem é?
- Sou eu a Vera – todavia estranhou não conhecer a voz da mãe.
- Desculpe, mas não sei quem é a senhora…
Atarantada Vera olhou em redor e percebeu que alguém a olhava pelo óculo da porta. Voltou a tocar:
- Diga!
- Não mora aqui a dona Odete?
- Mora sim!
- Ora eu sou a filha.
- Vou-lhe perguntar. Aguarde se faz favor!
Vera estava irritadíssima por estar a falar com alguém com uma porta pelo meio. Temeu o pior com a mãe.
Finalmente:
- A Dona Odete afirma peremptoriamente que não tem filha. Lamento. Passe bem!
Vera bufava! Virou as costas à porta, respirou fundo e lembrou-se da vizinha do rés do chão. Desceu as escadas do prédio e tocou à campainha. Do outro lado escutou passos e uma voz:
- Quem é?
Temendo igual desfecho do andar de cima, perguntou:
- É a dona Alzira?
- Sou!
- Sou a Vera, a filha da Odete do segundo…
Ouviu então a chave rodar e o trinco abriu-se!
- Olá Alzira, viva como está?
- Oh minha querida Vera. Ai meu Deus que já nem te conhecia… Faz tanto tempo que não te via. Mas entra, entra, não fiques à porta.
- Dez anos… mais ou menos – e Vera fez um gesto com a mão, sinal de incerteza, enquanto entrava na casa.
- Já dez anos? Parece que foi ontem…
- Desculpe maçá-la, mas vou directa ao assunto: passa-se alguma coisa com a minha mãe?
- Que eu saiba não. Porque perguntas?
- Porque fui lá bater, atendeu-me uma voz feminina que nem me abriu a porta e depois comunicou-me que a minha mãe nunca tivera uma filha…
Um silêncio ficou na sala onde ambas se sentaram. Alzira foi à janela confirmar se estaria fechada regressando para ao pé de Vera.
- Sabes… a tua mãe nunca perdoou a tua partida… Sempre pensou que estavas a fugir dela… E esse pensamento tem-na devorado.
Vera ergueu-se e conferiu a casa humilde. Um pequeno hall de entrada e na parede uma figura de Nossa Senhora. Percebeu também as decorações de Natal espalhadas por quanto o seu olhar alcançava. Numa trinchante encostada à parede uma fotografia a preto e branco de um homem que deveria ser o senhor Américo, marido de Alzira. Tudo aquilo era pobre, mas cheirava a bafio e a genuíno.
Virou-se para Alzira:
- O que disse tem um pouco de verdade. Quando acabei o meu curso superior tive a hipótese de fazer um estágio em Barcelona. O estágio seria pago e ainda com direito a estadia. Por isso parti aproveitando a oportunidade surgida. Depois, sim, fugi das suas garras sempre tão poderosas.
- Mas o que é que tu querias que ela fizesse?
- Eu tenho consciência… ela criou-me sozinha, sem pai. Mas não era razão para me prender. Sabe… - e fez uma longa pausa como se quisesse ganhar coragem – ela detestava esta época do Natal.
- Detestava nada.
- Recordo-me que um certo Natal fui passar uns dias com a minha avó Florinda. Quando entrei deparei-me com uma árvore de Natal e um presépio, lindo, lindo, lindo… cheio de figuras, uma ponte, um moinho, uma fonte.
- Lembro-me bem desses presépios…
- Pois… só que a minha mãe proibiu-me de o contemplar. E de tal forma o fez que mandou a minha avó desmanchar o presépio ou no mínimo colocar um lençol sobre ele, se não íamos embora.
- E a tua avó que fez?
- Disse que na casa dela mandava ela. E se a minha mãe queria ir embora que fosse.
- E ela foi?
- Não! Mas sobrou para mim. E desde esse dia nunca mais tive direito a viver o Natal como os outros meninos. Até na escola foi complicado…
- Imagino…
- Olhe, dona Alzira, agradeço ter-me aberto a porta, mas vou-me embora para o aeroporto a ver se apanho um avião de regresso a Barcelona. Detesto sentir-me a mais, sabe?
- Vera, querida, não faças isso! A tua mãe sofre muito com a tua ausência…
- Não parece… - e uma lágrima caiu na mão de Alzira que lentamente afagou os cabelos bonitos da menina que vira crescer.
- A minha casa é pequena, mas tenho uma cama para ti. Aguarda até amanhã. Deixa-me lá ir falar com ela.
- Não merece a pena D. Alzira… a sério. E agradeço muito o seu gesto. Feliz Natal!
Vera deu dois beijos na idosa, abriu a porta e saiu sem olhar para trás.
De regresso inesperado à cidade condal, a jovem assumiu a sua ruptura com a antecessora, um sentimento que a deixou profundamente triste, numa época que se diria de reconciliação. Percebeu que nada mais na sua vida a ligaria ao seu velho Portugal. Passaria a ser mais uma catalã, apenas com a nuance de ter nascido no país vizinho.
O tempo voou e um ano depois da viagem de Vera à cidade que a vira nascer, uma mulher descia o Passeig de La Gracia a caminho da Plaça de Catalunya. Empurrava um carrinho de bebé e parecia imensamente feliz, ao mesmo tempo que a criança de meses, olhava a miríade de luzes daquele início de noite fria.
O tempo de Natal espraiava-se por toda a cidade com muita luz, cor e outrossim muitas feiras alusivas à época, com centenas ou milhares de pessoas em busca de algo diferente para colocar num sapatinho.
A criança pareceu agitar-se no berço de rodas e a mulher colocou-se na sua frente e perguntou-lhe:
- Queres ver o presépio, queres? Sim?
O bebé sorriu como que consentindo na visita.
- Então ‘bora lá!
Odete atravessou toda a Plaça e entrou no bairro El Gotic.