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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O Pastor #5

(... Continuação daqui)

Os dias corriam moles e lentos para o Outono. A espaços caía uma água constante, baça e chata. O gado não se preocupava com a pluviosidade e ia rapando terrenos de erva fresca e tenra. Por seu lado o jovem pastor fugia pouco da sua tarefa de guardar as ovelhas e algumas cabras, entre os muros das suas fazendas.

A imagem da amazona bonita e persistente acabara por desaparecer e agora a única preocupação do guardador seria os futuros borregos prestes a vir ao mundo.

Todas as manhãs percorria o estábulo em busca de uma cria nova e se a achava procurava saber onde estaria a mãe, quase sempre perto. Depois ajeitava o teto da monja da ovelha na boca do filho e este depressa ganhava o jeito.

Quando não havia crias abria os portões e deixava que os animais saíssem com calma, mas sempre liderados por Sapatos que as encaminhava para o terreno certo.

Era uma vida calma, sem correrias nem apoquentações. Talvez a única preocupação seria inventar a estória para a noite. Mas bastava uma pedra bizarra no leito do ribeiro, um gesto ou uma brincadeira de uma qualquer cabra e logo o rapaz inventava mais uma aventura para contar ao serão.

À noite após a mesmíssima ceia de todos os dias, o contador de estórias acercava-se do largo, sentava-se na velha e puída pedra e antes de começar a falar alguém lhe fazia a pergunta sacramental:

- O que bebes hoje?

- Nada, obrigado… Tu sabes que eu não bebo…

- Pois é, esqueço-me, qu’é tu queres?

- Bom cá vai…

De repente uma voz entrou-lhe pela cabeça e veio atormentar-lhe o espírito:

- Já ouvi dizer que és um bom contador de estórias…

Ergueu então o olhar e percebeu, para seu enorme espanto, a figura esbelta da menina que no Verão o havia atentado mais que uma vez. O pastor por breves instantes pareceu perder a compostura, mas olhou o Sapatos que dormitava a seus pés e por fim iniciou o relato.

A jovem sentara-se entre dois ouvintes atentos e parecia estar imbuída do mesmo espírito dos demais, escutando as aventuras falsas, mas bem faladas pelo jovem pastor.

O enredo parecia desta vez ser mais complicado e tortuoso tal era a revolta de pensamentos com a presença da jovem, mas num ápice o contador desembaraçou-se do novelo criado matando quase as personagens e pondo um fim apocaliptico à história.

Os ouvintes ficaram tristes e um a um foram abandonando o lugar. A maioria regressou a casa, todavia alguns foram para a taberna afogar as tristezas da estória em copos de traçadinho e bagaçosy. No largo ficou apenas o casal jovem. Afastado…

A jovem tomou a iniciativa de se aproximar e perguntou:

- Não tens estórias de príncipes e princesas?

O pastor percebeu um breve sorriso trocista e após um anormal e longo silêncio respondeu:

- Tenho… Mas as princesas são más e o príncipes pior ainda…

(Continua...)