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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

"O Grito" de Edvard Munch

Resposta ao desafio da Fátima

Naquela manhã Rafael acordou completamente transfigurado já que havia qualquer coisa no seu espirito ou alma ou fosse onde fosse que o fazia sentir-se… vazio. Nunca se sentira daquela maneira. Por isso manteve-se na cama até mais tarde no intuito que aquele mau estar eventualmente passasse.

Quando por fim se levantou sentiu o quarto a rodar à sua volta como se estivesse profundamente ébrio. Respirou fundo, tentou acalmar-se e pretendeu encetar os primeiros passos em direcção à casa de banho. Não foi capaz.

Sentou-se na beira da cama e enfiou a cabeça entre as mãos e sem que desse por isso as lágrimas começaram a cair em profusão. Desconhecia porquê...

Não tinha nenhuma dor, unicamente aquele aperto no peito que quase o não deixava respirar. Voltou a tentar encher os pulmões, mas estes recusavam-se.

Estava sozinho em casa. A mulher saíra para fazer umas compras e inexplicavelmente teve medo, muito medo.

Com um esforço quase titânico arrastou-se para a sala. Não ligou a televisão, nem a aparelhagem. Não desejava ouvir ninguém, só queria silêncio. Fechou os olhos e de repente cresceu uma vontade de… morrer! Ou de, pelo menos, sair dali para fora...

Quando a mulher chegou foi encontrar o marido deitado no sofá numa posição fetal. Estranhou:.

- Rafael, Rafael… o que se passa?

Não respondeu! Ela insistiu:

- Amor, querido, que se passa?

Finalmente:

- Não sei… deixa-me morrer! Por favor...

Elsa assustou-se, pegou no telemóvel e ligou para um amigo de ambos que era psiquiatra que logo se disponibilizou para ir ver Rafael. Rapidamente o médico diagnosticou uma depressão. Profundíssima e consequentemente requereu muitos cuidados e terapia.

Rafael começou a ser medicado e em breve perceberam-se evidentes melhoras. No entanto não podia falhar um dia que fosse os comprimidos que paulatinamente foram sendo incrementados. Certo dia disse Rafael ao seu médico e amigo:

- Preciso acabar com tudo isto… – e apontou para a prescrição médica.

- Não conseguirias viver sem eles – o médico pegou no papel e agitou-o no ar.

- Haveria de conseguir…

- Falar é fácil… Mas pela minha experiência se parasses com isto em poucos dias estavas de rastos. Sabes… aproveita e vai passear. Enquanto andares por lá não pensas na doença.

Certa tarde Rafael folheava uma revista quando deu de caras com a lista dos melhores quadros do Mundo. Alguns conhecia bem, outros nem tanto e houve um que o marcou profundamente. Olhou o quadro impresso na revista e de repente disse a Elsa, que lia um livro a seu lado:

- Vamos a Oslo. Preciso de ver ao vivo “O Grito” de Edvard Munch.

- Porquê?

- Porque este quadro mostra tudo o que sinto… E como me sinto… Tenho um grito dentro de mim que não sei gritar!

- Mas esse pintor também não gritou...

- Pois não... mas desenhou-o.

 

No desafio Arte e Inspiração, participam: Ana de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em FlorCristina AveiroImsilvaJoão-Afonso MachadoLuísa De SousaMaria AraújoMiaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

2 comentários

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    José da Xã 29.09.2021

    Eu lidei e acho que ainda luto com a depressão. Não minha, mas de alguém muito próximo como é a minha mulher.
    Nao imagino o que deve sentir quem é apanhado por essa doença, mas calculo pir aquilo que assisti durante anos.
    Curiosamente a minha primeira ideia para este desafio passava por um roubo.

    Mas depois olhei bem para o quadro e achei que deveria escrever isto.
    Roubo outro mais à frente....
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