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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O espírito de Natal!

Resposta ao desafio da Ana de Deus

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- Vivemos tempos estranhos…

- Porque dizes isso?

- Alguma vez viste neve nesta nossa cidade?

O outro ficou com um ar pensativo para depois responder:

- Há uns dez anos também nevou… lembro-me bem.

- Oh pá… mas nevar há cinco dias seguidos? Nunca vi tal… Ainda por cima nesta época…

Ambos eram seguranças num supermercado que em véspera de Natal encerrava mais cedo ao público, mas para eles que se encontravam na central de segurança era mais uma noite normal, apenas sem qualquer movimento.

Aguardavam serem substituídos antes da meia-noite, ainda a tempo de poderem regressar a casa de verem os petizes abrirem as prendas.

- Osvaldo onde deixaste o carro?

O outro retirou os olhos do livro que estava a ler e fixou-se nos múltiplos écrans à sua frente. Depois disse:

- Mesmo ao pé do teu… - e tentando achar o lugar num dos visores apontou finalmente - Aqu… O que é aquilo?

O colega estava tão absorto num concurso na televisão que nem ligou à questão de Osvaldo. Este insistiu:

- Jorge olha para aqui – e apontou para um visor onde se podiam ver duas viaturas devidamente estacionadas, mas com a particularidade de entre ambos os veículos se encontrar um trenó conduzido por aquilo que parecia ser uma rena.

- O que é aquilo?

- Já te tinha chamado à atenção… tu é que não ligaste nenhuma…

- Aquilo é o que eu penso?

- É!

- Mas… como apareceu ali… e quem terá conduzido?

O outro riu-se e acabou dizendo:

- Foi o Pai Natal!

- Deixa-te de coisas – e levantando-se num ápice avançou – temos de pesquisar nas outras câmaras…

- Ui que medo… do Pai Natal.

- Se ele aparecer com uma G3 para assaltar a loja diz-lhe que a arma é a brincar

- Não digas isso que eu também estou preocupado, mas não exageres.

- Vou ligar para a polícia… Não estou a gostar disto… Estás a ver as marcas dos pés na neve? Veio para aqui…

- Andas a levar a “A Casa de Papel” muito a sério…

- Não brinques com isto… Não sabes quem anda por aí… E se for um bombista?

- Tens um espirito de Natal muito parvo, mas pronto vou olhar a ver se o encontro.

De repente:

- Olha está aqui…

- Onde?

- No Multibanco…

- Mas o Pai Natal também usa dinheiro? – Soltou uma sonora gargalhada.

- Com esta crise deve usar tudo o que tiver à mão…

Voltaram para os visores em busca de tal personagem, mas sem o verem regressaram aos carros. O lugar estava novamente vazio.

- Vês foi-se embora zangado contigo…

- Porquê? Fiz algum mal?

- Não, mas como não acreditas no espírito de Natal, acabou por ir embora.

O outro voltou a conferir todas as câmaras e após se ter certificado que não havia ninguém aproximou-se da porta enquanto dizia:

- Só acredito nesse tal espírito de Natal quando tiver provas…

Abriu por fim a porta que dava para o corredor tendo encontrado então dois cestos de verga repletos de óptimas iguarias.

Um em nome de Jorge e outro de Osvaldo.

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