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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #6

A desafiarem-me!

A Lu do blogue Aqui há coração foi uma das "vítimas" deste meu desafio. 'Tadinha! Fiz o convite por mansagem electrónica para esta bloguer responder  na volta com a seguinte frase: Morte, o que haverá para além?

Bom o tema é difícil e dava pano para mangas... e eu escrevi isto!

 

Sempre que se juntavam tinham duas certezas: a primeira é que se divertiriam e a segunda é que nunca imaginavam em que estado etílico ficariam.

Ambrósio, Clemente, Saturnino e Noé, amigos desde crianças, cresceram lado a lado entre fugas à escola ou em busca de aventuras. Todavia a vida não era igual para todos, portanto mais uma razão para partilharem o que tinham.

Assim se foi construindo uma amizade daquelas férreas e inquebrável.

Naquela tarde quase fim de noite voltaram a juntar-se. Desta vez faltava um. Saturnino havia morrido no dia anterior num aparatoso e trágico acidente de motorizada.

Abraçaram-se como de costume, mas cada um carregava a tristeza à sua maneira. Eram já homens feitos e com vidas tão diferentes que ninguém imaginaria que eram verdadeiros amigos. Ambrósio apertado pela fome e por um desgosto de amor decidiu procurar abrigo e vida no seminário. Dez anos mais tarde abraçou diversas paróquias distantes onde era venerado como de um santo se tratasse. Por seu lado Clemente correu atrás da fortuna de uma mulher, mas esta depressa o dispensou. Assim longe de casa e sem dinheiro, atirou-se ao que apanhou até chegar à serralharia do ti’João onde deu provas da sua apetência para a arte de trabalhar o ferro. Mais tarde compraria a pequena fundição e rapidamente fez crescer o negócio. Finalmente Noé que fora de todos o mais abastado foi estudar leis e tornara-se num afamado advogado. Saturnino era dos quatro o mais estoira-vergas e muitas vezes munira-se da amizade a Noé para escapar à pildra. Mulherengo, zaragateiro por “dá cá esta palha”, calão era, talvez por tudo isto, o mais divertido e com o futuro mais incerto.

Sentados à mesa na costumada e velha taberna que geralmente os recebia iam beberricando copos de vinho. Foi o causídico que abriu o diálogo:

- Meninos digam-me lá se fosse um de nós a ter morrido o que estaria aqui a fazer o Saturnino?

Os outros trocaram olhares e encolheram os ombros. Foi Ambrósio que acabou por responder:

- Provavelmente a rir-se das partidas que nos pregava. Sempre foi um grande mariola.

Clemente deu uma gargalhada e acrescentou:

- Desde que és padre usas de palavras mais caras. Di-lo se fores capaz… Diz que era um sacana da pior espécie.

Voltou a rir! Ambrósio acenou afirmativamente com a cabeça e respondeu:

- Tens razão… era um grande sacana… Mas também sabia divertir-se e divertir-nos…

- Lá isso tens razão – concordou Noé.

A conversa foi-se desenrolando assim como os copos de vinho que se esvaziavam cada vez a maior velocidade. Entretanto o taberneiro trouxera o tão afamado chouriço assado ao qual se juntou uns nacos de pão e azeitonas. Parecia um festim…

Clemente pedia conselhos legais a Noé e este pedia perdão a Ambrósio pelos erros cometidos no escritório e que muitas vezes o incomodava. Porém o centro do diálogo era Saturnino.

- Vocês lembram-se daquela estúpida aposta que o gajo fez com o Saraiva?

- Qual delas? – perguntou outro – ele fez tantas. E o Saraiva era sempre a vítima.

Desataram a rir. De repente Clemente baixou a cabeça e desatou a chorar. Ambrósio colocou o braço por cima do ombro do amigo, dizendo:

- Chora amigo, chora! Que chorar lava a alma.

- Pois é… mas não o trás de volta…

- Pois não – respondeu Ambrósio.

Para logo este acrescentar:

- Este é o caminho que todos teremos de fazer…

- Porra homem… mas aos 40 anos, não achas que é cedo demais? – questionou Noé.

- Todos temos a nossa hora!

- Então posso parar agora o relógio? – perguntou Clemente ainda a limpar as lágrimas.

Ambrósio quase que riu, mas manteve um ar sério não fosse o amigo ficar ofendido e nem respondeu. Foi a vez de Noé perguntar:

- Morte, o que haverá para além?

- Essa questão é para mim? – perguntou o clérigo.

- Para ti, para mim, sei lá… para todos! – devolveu já com a voz arredondada pelo álcool.

Ambrósio, o mais sóbrio dos três, recostou-se na cadeira. Esta rangeu e no instante seguinte o padre caía redondo no chão. Os dois amigos não evitaram uma risada geral. De tal forma que Noé respondeu:

- Agora sei o que há para além da Morte?

Enquanto Ambrósio se levantava e sacudia o pó do fato, Clemente perguntou:

- O que há, então?

- Há o Saturnino… Imagino que a Morte já deve estar arrependida de o ter levado. Aquilo por lá vai ser giro, vai!

Voltaram os três a rir à gargalhada!

Ou foram os quatro?

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