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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #29

A desafiarem-me!

Conhecemo-nos nestas andanças da blogosfera há muito pouco tempo. A Mafalda Carmona (tadita!) foi logo arregimentada para este desafio. Tem no Cotovia e Companhia o seu blogue de grande qualidade e do qual fiquei fiel leitor. Apresentou-me o seguinte tema: Museu a voar!

Tudo isto para dizer que este exercício foi aquele que mais me deixou a cabeça "em água"! Nem recordo quantas versões escrevi. Para de súbito quase num momento de inspiração escrever o texto infra. 

 

A amizade entre Guilherme e Joicelindo, mais conhecido por Jóy, era daquelas cinematográficas portanto… improváveis.

Naquela manhã de Setembro aquando de um intervalo entre aulas Guilherme foi repentinamente cercado por um grupo de rapazes, mais ou menos da idade dele, donde se destacava Jóy. As armas brancas surgiram nas mãos de alguns dos jovens, mas ao invés do que seria de esperar Guilherme manteve a calma e conseguiu ajustar um cerrado diálogo.

- Dá-me o teu casaco? Já!

- Este? Mas é velho… Se quiseres mesmo um destes trago-te um amanhã para o teu número…

Desarmados com a reacção calma de Gui, ficaram a olhar uns para os outros, sem saberem bem o que fazer. O jovem corajoso acabou por acrescentar:

- Está bem de ver que criei nas vossas cabeças uma dúvida. Isso é bom!

Mas houve alguém que tentou chegar-se a Guilherme, mas este com uma palmada rápida defendeu-se, ficando com a arma branca na mão. Depois virou o cabo para o agressor e devolveu-a.

- Vês, ficaste sem arma, não me tocaste e ainda passaste uma vergonha na frente de todos eles.

Foi naquele instante que Guilherme rompeu do grupo e colocou a mochila às costas sem dizer nem mais uma palavra. No dia seguinte mal entrou na escola e vendo Jóy ao longe rodeado da sua troupe aproximou-se dele e atirou-lhe com um saco dizendo:

- Tens aí dentro um casaco igual ao meu. Novo!

Foi a partir deste episódio que iniciou uma amizade entre Jóy e Guilherme.

Joicelindo nascera no seio de uma família cabo-verdiana com muitos irmãos e irmãs, primos e avós. Tudo num andar pequeno num dos bairros mais problemáticos da zona, onde a polícia só entrava com escolta especial!

Guilherme era o inverso. Filho de uma família estupidamente abastada pedira ao pai para entrar na escola pública em vez do colégio privado. Desejava sentir o ambiente de uma escola normal! Fizeram-lhe a vontade colocando-o numa escola conhecida por diversos problemas de disciplina.

Assim que pode sair da escola Jóy foi trabalhar, primeiro como entregador de refeições, mas após um acidente, mudou de ramo e entrou numa grande superfície como arrumador de produtos. Entretanto Gui seguira os estudos e no dia em que finalizou o curso foi comemorar.

Os colegas chamaram-no para uma série de eventos, mas Guilherme tinha outra coisa em mente. Ligou para o amigo:

- Comé’ meu? Qué feito?

- Viva Jóy estás a trabalhar?

- Não! Saí há “bué da tempo”!

- Já jantaste?

- Yep! “Puquê” meu?

- Queria saber se quererias ir comigo comer umas francesinhas?

- Ui, “mene”! Tou nessa!

- Então eu vou-te buscar em frente à loja da ti’Branca, sabes qual é?

- Oh se sei… as “jolas” que lá bebemos – riu-se.

- Ok! Espera lá por mim! E vê se vais arranjado?

- Queres que leve aquele casaco?

- Eheheheheeh! Brincalhão!

Meia hora depois Guilherme rodava devagar, quando o amigo lhe perguntou:

- Onde vamos “mene”?

- Vais comigo, vais bem!

Era noite cerrada, mas Jóy percebeu logo onde se encontrava!

- Onde vamos?

- Tu és chato, safa!

Entraram num edifício e após muitas portas e demasiados seguranças encontraram-se novamente na rua, mas por pouco tempo.

- Sobe – ordenou Guilherme.

Jóy subiu as escadas e entrou. Virou à direita e perante o espectáculo que via só assobiou. Guilherme seguia-o com um sorriso nos lábios. Sentaram-se ambos em dois sofás tão brancos como a neve e foi-lhes servido uma bebida fresca por uma jovem muito bonita. Jóy virou-se para Guilherme e perguntou:

- Esta é uma das francesinhas?

- Tás parvo Jóy! Esta menina é uma empregada!

O jacto particular fez-se à pista e elevou-se no ar com suavidade. Quando pode o cabo-verdiano levantou-se e começou a olhar ao seu redor. Nas pareces havia muitos quadros, a maioria velhos. Uns jarrões chineses seguravam-se dentro de vitrines e no topo um relógio Hermle.

Jocelindo olhava aquilo espantado e perguntou:

- Isto é teu?

- É!

- Parece um museu a voar!

Guilherme riu-se do dito e beberricou a sua bebida. Jóy finalmente perguntou:

- Vamos para França?

- França?

- Às francesinhas?

- Não meu amigo… vamos ao Porto! É lá que se comem as melhores francesinhas!

- Ah! - respondeu Jocelindo desiludido mas sem tirar o olho da esbelta empregada, a quem sorrateiramente piscou o olho, recebendo de volta um brilhante sorriso!

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