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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Hoje convido eu! #17

A desafiarem-me!

Advogado e escritor o João-Afonso é responsável por este espectacular blogue: "Fugas do meu tinteiro". A ele também lancei um convite para me desafiar. Não se fez rogado e na volta do correio electrónico apresentou a palavra vinho.

Um tema diferente dos demais, mais pragmático e menos filofósico deu então origem ao texto que segue! Espero que se divirtam!

 

Olhou-o pela última vez.

Imóvel naquele luto sentiu-se mesquinho tal era o misto de sentimentos que sentia.

Fora um dos seus melhores amigos, quiçá o melhor de todos.

Durante anos com ele partilhara dias, tardes, noites em franca convivência e muita alegria. Companheiro mui fiel nos bons e maus momentos a ele havia confidenciado os seus maiores segredos. E se tinha segredos!

Recordou-se que aquela amizade não se iniciara da melhor maneira. Diria mesmo que principiara de uma maneira um tanto estranha ou seria melhor assumir como... azeda.

No entanto com o tempo foram-se conhecendo e ficando cada vez mais próximos. Náo era quase sempre assim que nasciam as boas amizades? De forma lenta e duradoira!

A determinada altura da vida poder-se-ia dizer que eram quase inseparáveis!

Mirou-o mais uma vez… (talvez fosse a última).

E quase chorou de emoção vendo-o ali assim tão próximo e tão… morto.

Regressaram as memórias onde se destacavam as tardes passadas com outros amigos e companheiros, as inúmeras festas, os incontáveis jantares faustosos aos quais nenhum deles faltava e principalmente as longuíssimas noites, entre endinheiradas apostas e muitos baralhos de cartas. E demasiados maços de cigarros...

Observou-o com doçura (de certeza que não seria a derradeira).

Um sorriso subiu à face quando de repente se lembrou daquela vez na festa de despedida de solteiro de um outro amigo… Juntos haviam sido o centro das atenções e rido até não poderem mais. Momentos inesquecíveis que ele evocava agora com uma profundíssima saudade!

Fitou-o… e com os olhos marejados:

- Desculpa meu bom amigo… desculpa! Ordens médicas a isto me obrigam!

Num gesto exclusivo pegou na garrafa do vinho tinto e despejou-a inteirinha no ralo do lava-loiças.

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