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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 21.11.18

Em bico dos pés

Havia umas semanas que Emídio andava arredio. A mulher Eugénia até comentara com a comadre Clarinda o mais recente estado do marido:

- Não sei o que se passa com o meu home’… desde há uns tempos que anda estranho…

- Algo que o preocupa… - desculpava a comadre.

- Humm... Espero que não seja um rabo de saia como aconteceu ao meu padrinho Jacinto. Embeiçou-se por uma galdéria qualquer lá da vila e largou tudo para ir atrás dela. Quando se viu sem cheta veio com o rabinho entre as pernas ter com a minha madrinha…

- Ah ele foi isso? É que me haviam dito que ele fora para Lisboa por causa de um nascido…

- Foi nada… o parvalhão. Mas espero que o meu Emídio não se meta numa dessas… Ele que se livre…

- Ó mulher o teu marido é boa pessoa. Não te faria isso com toda a certeza.

- Pois comadre… até pode ser, mas que anda cismado, isso anda. E não sei com o quê.

- Alguma dívida… talvez – avançou a outra tentando saber mais.

- De certeza que não. Tivemos aí uns dinheiros com a venda dos bezerros que deu para pagar à loja e ainda sobrou qualquer coisita.

A determinada altura Eugénia percebeu que falara demais tendo em conta a língua de trapo que costumava ser a comadre e fugiu do tema:

- Diga-me uma coisa comadre Clarinda, já nasceram os pintos da sua cocó?

O tema preferido da comadre era os seus bicos e assim rapidamente se mudou de assunto. A tagarelice versou capoeiras durante muito tempo.

Entretanto do outro lado da aldeia Emídio escardava umas oliveiras velhas, quase tão velhas quanto o tempo, como afirmou uma vez o seu pai Jerónimo. Aproximava-se o tempo da colheita mas o mato que crescera ao redor dos pés das oliveiras teria de ser cortado antecipadamente. Munido de uma enxada rasa e um alferce o homem ia cortando os rebentos e o mato. Na sua cabeça muitas ideias, muitos pensamentos todos eles poucos cristãos.

- Tenho de falar com o padre Abílio por causa desta cisma. Ele deve-me poder ajudar.

Mas o padre nem sempre estava disponível e Emídio foi adiando a conversa. O silêncio era o seu refúgio o que levou a esposa a perceber que algo não estava bem. Após diversas tentativas para descobrir o problema, Eugénia deixou de fazer perguntas e passou a aceitar a nova postura do esposo.

Do casamento não nascera qualquer filho o que fazia que Emídio se sentisse diminuído em relação aos demais aldeões. Muitos sobrinhos era certo, mas filhos, filhos… nem um!

A determinada altura a mulher pensou que seria isso. E tentou trazer ao de cima essa conversa avançando com uma proposta:

- Ó home’ será que andas assim por não termos filhos? Sabes que isso resolve-se depressa. A tua irmã tem uma ranchada deles e de certeza que não se importaria que tomássemos conta de um. Seria menos uma boca…

Mas o aldeão negou. Uma e outra vez! E Eugénia aceitou. Contrafeita.

Naquele sábado o homem levantou-se cedo. Como sempre. O gado requer sempre muita atenção e cuidado. Mas aquele dia deveria ser especial… A ideia que o atormentava havia tempo ganhara forma e Emídio iria dar vazão ao seu pensamento e vontade.

Ordenhou as ovelhas, deixou o tarro repleto em casa como era seu hábito, largou as vacas e a burra prenha no lameiro e partiu para o barracão onde normalmente guardava a palha. Este era um edifício velho mas rijo. O telhado alto assentava numa madeira ainda sem caruncho. Mais abaixo as traves, outrora grossos eucaliptos suportavam um soalho também ele de madeira. Emídio subiu com a ajuda de uma escada e atou uma ponta do cordame à volta da viga.

Depois em baixo foi buscar um banco velho colocou-se em cima deste, mediu o comprimento do cabo e na ponta fez um laço de correr. Por fim o último acto e colocou a laçada à volta do seu pescoço.

Olhou o céu, benzeu-se enquanto rezava um Padre-Nosso. Terminou com uma frase:

- Desculpai-me Senhor…

Com os pés fez tombar o banco para um dos lados. O corpo caiu com peso e Emídio sentiu num instante o laço apertar-lhe o pescoço e a respiração a ficar dificultada. O fim aproximava-se e com ele toda uma angústia vivida nas últimos meses, semanas.

Mas o destino é por vezes amargo, outras doce e quando Emídio esticou os pés estes… tocaram o chão. O suficiente para o laço não apertar mais com a força do seu peso.

E assim ficou até Eugénia o descobrir, após muitas horas de busca!

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por José da Xã às 23:09


2 comentários

De Ana a 22.11.2018 às 08:10

Não foi apenas um problema que o fez tomar essa decisão, foi um acumular de pequenas coisas, muitas sem importância. Mas a hora do nosso amigo não tinha chegado e o destino trocou - lhe as voltas e deu-lhe mais uma oportunidade...

De José da Xã a 22.11.2018 às 17:02

O fim desta história é verdadeiro. Os seus contornos é que foram inventados.

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