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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desafio de escrita dos pássaros #2.8

Mote: Foi tão bom, não foi

Encostado à enxada de bicos gastos, Elizário mirando o quintal, sorria. Um mimo.

Regos impecavelmente direitos, cômaros certos e as couves a crescerem com encanto.

Sentia-se bem naquela família que definitivamente o adoptara. Ainda por cima agora que a sua conterrânea estava de esperanças… Avô… diziam-lhe que seria avô… Mas como se nunca fora pai?

Era sempre com renovada alegria que o florentino chegava ao quintal e via o resultado do seu trabalho. Um manto verde, viçoso, fresco e pujante.

Porém naquele dia o ilhéu levantara-se estranho. Acordara com um mal-estar que o incomodava. Todavia nem uma queixa já que não queria aborrecer ninguém. Sentia que algo não estaria bem… uma dor permanente no peito, alguma dificuldade em respirar…

Quando acordou e tomou verdadeira consciência viu-se rodeado de um conjunto de aparelhos e tubos que entravam no seu corpo. A seu lado a sua amiga recente e o marido.

- Olá… Que grande susto nos pregou…- disse o futuro pai, enquanto ela segurava na mão isenta de tubos.

As forças eram poucas e fechou os olhos. Tinha sono, muito sono e sentia-se deveras cansado… tão cansado. Voltou a adormecer.

Quando recuperou do longo sono tinha a seu lado um homem de bata vestida.

- Então mestre Elizário, sente-se melhor?

Os tubos, aparelhos e demais artefactos médicos continuavam a rodeá-lo. Nem sabia se a pergunta feita pelo doutor seria para ter resposta. Preferiu calar-se.

O especialista foi olhando para os visores e para uns papéis e comentou com outro colega entretanto chegado.

- O caso parece grave… Se esta creatinina não descer os rins param.

- E como está o coração?

- Mal… muito mal!

Foi a última coisa que Elizário escutou.

Ao acordar achou-se noutro lugar.

- Estranho… nunca aqui estive…

À sua frente uma planície estendia-se a perder de vista. Olhou as suas roupas e percebeu que eram as mesmas que vestira quando assentara praça. A seu lado soou então uma voz:

- Bonito não é!

- S… sim… - respondeu sem perceber o que dizia.

- O Elizário acaba de chegar a um local fantástico. O Céu…

- O quê? O Céu? Quer dizer que… morri.

- Pois… um dia teria de ser.

- Mas os meus amigos?

- Foi tão bom, não foi? Gente boa…

- Foi… mas eu não posso deixá-los sozinhos. Não posso!

De súbito ouviu:

- Já o temos doutor, já o temos novamente!

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