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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desafio de escrita dos pássaros #2.5

Mote: acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se, conta-nos o teu dia

Havia três dias que a chuva não dava descanso. Uma água pesada que encharcava terrenos e homens. A única coisa boa daquela intempérie era que dificilmente saiam do quartel para novas operações de guerrilha. Os terrenos completamente alagados não permitiam que as viaturas e homens circulassem.

Deitado na tarimba por debaixo do camarada Teixoso, um beirão atarracado, valente e tal como ele sem quaisquer receios, Elizário fechava os olhos e de mãos atrás da nuca a fazer de almofada recordava da sua ilha a Fajã, o mar azul como não haveria outro, o canito magro e esfomeado, aqueles cordeiros que largara a pastar na encosta.

Nessa tarde porém:

- Ó Flores… o que é que neste momento te fazia feliz? Conta lá! – perguntou o vizinho de cima enquanto revia pela enésima vez uma revista de pouco pudor.

Elizário estremeceu com o vozeirão de Teixoso e devolveu:

- O que é que perguntaste?

- O que te faria feliz… agora?

- Feliz? O que é isso? – evidenciando que a sua pobreza ia para além da sua própria vida.

- Algo que gostasses que te acontecesse ou de ter?

O açoriano ergueu-se da cama lentamente, sentou-se à beira e ficou a matutar… Nada disse. Voltou a deitar-se, pois não sabia o que responder.

Mas a questão ficou a bater-lhe no coração e na cabeça, qual martelo. Finalmente devolveu:

- Sabes Teixoso… queria que esta porra acabasse… andamos a matar para quê? Já tantos camaradas nossos que morreram…

Após um mui breve silêncio, continuou:

- Só isso é que eu queria… Que isto tudo acabasse!

Teixoso fechou a revista, ficando a matutar.

De madrugada o açoriano acordou com um inusitado alvoroço na rua. Ergueu-se lesto e enquanto se calçava apressadamente Teixoso entrou na camarata esbaforido.

- Flores… aconteceu… aconteceu…

- Eh pá aconteceu o quê?

- Acabou a guerra!

- Não brinques com isso.

- Não estou a brincar…

O coração de Elizário começou a bater mais depressa. Por fim perguntou:

- Como é que sabes?

- O nosso furriel Cardoso recebeu uma mensagem!

- Donde…

- Sei lá… nem me interessa… O que ele disse é que a guerra tinha acabado.

- Assim sem mais nem menos?

- Eh pá já te disse que não sei mais nada… Vamos embora daqui… Finalmente!

- Não acredito… A nossa comissão só acaba no fim do ano que vem e ainda só estamos em Abril.

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