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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desafio de escrita dos pássaros #2.3

Mote: manual para iniciar relacionamentos 

Pegou no aerograma amarrotado e conferiu a morada. Batia certo. Agora faltava o número 27. Desceu a rua ladeada por prédios de três pisos e um frondoso jardim onde cameleiras, carvalhos e eucaliptos conviviam em harmonia.

Achado o número procurou o andar seguindo as ideias do colega de armas, o Niza. Tocou no botão que dizia rés-do-chão e aguardou. O seu coração batia de excitação… Ninguém atendeu.

Insistiu. Nada.

Recuou dois passos e olhando para as janelas percebeu que as mais baixas pareciam fechadas.

- Ainda é cedo – calculou.

Sentou-se no degrau da escada e aguardou nem sabia bem o quê ou quem. Ao fim de um bom bocado apareceu uma idosa que ao aproximar-se da porta o cumprimentou:

- Bom dia!

- Bom dia minha senhora.

- Espera alguém?

O soldado desdobrou o aerograma e leu devagar:

- Cecília de Jesus…

- Não diga mais nada… sei muito bem quem é! Morava aqui em baixo no rés-do-chão, mas fugiu haverá aí seis meses com um miúdo que tinha idade para ser filho dela… Uma desavergonhada…

- Mas não está cá?

- Não! O senhor é familiar dela?

- Eu sou soldado… A dona era minha madrinha de guerra. Uma vez escreveu-me dizendo que quando chegasse à Metrópole viesse ter com ela que me arranjaria trabalho. E aqui estou…

- Ui mais um…

- Como?

- A Cecília teve por mau hábito arranjar muitos afilhados. Depois, tal como o senhor, vinham aqui ter com ela, ficavam dois ou três dias, ao fim dos quais ela aventava-os daqui para fora.

- Não percebi… - confessou genuinamente.

- Essa senhora tinha um manual para iniciar relacionamentos muito peculiar onde palavras como fidelidade e amor não existiam.

Sem perceber o que a idosa dissera, devolveu:

- Não sabe quando virá?

- Não imagino!

O veterano amarrotou o aerograma, enfiando-o no bolso e despediu-se da velhota:

- Muito obrigado, minha senhora.

Porém:

- Então o que irá fazer agora?

- Oh… vou até ao quartel até ser desmobilizado. Depois vou procurar trabalho.

- O que sabe fazer?

- Eu? – lembrou-se da Fajã largada havia anos no meio do mar azul - cavar umas batatas, apanhar uns inhames ou guardar umas cabecitas de gado.

- Lá na tropa não lhe ensinaram nada?

- Ensinaram... – um silêncio triste e negro abraçou o veterano.

Concluiu:

- Ensinaram-me a dar tiros… muitos tiros. E a matar!

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