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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desafio de escrita dos pássaros # 2.16

elizário.jpg

Nota introdutória: Agradeço à Olga de blogue A cor da escrita o belo desenho que ilustra este meu último desafio. Um pedido meu que esta simpática bloguer aceitou. Um desenho diria que... perfeito!

 

Mote: vou ali e já venho

Hoje dia 22 de Maio de 2032 faleceu Elizário Mota, aos 80 anos de idade, nascido na bela ilha das Flores, numa Fajã inexistente e tendo sido, entre muitas coisas, avô de duas meninas sem nunca, todavia, ter sido pai.

A sua atribulada vida deu um salto qualitativo quando Gusmão e Maria Heliodora numa noite de voluntariado aos sem-abrigo deram a mão ao florentino. Uma sorte para eles dizia o casal, uma bênção de Deus afirmou sempre o ilhéu.

Elizário apagou-se neste dia triste como uma vela sem pavio, sentado no quintal, no seu banco preferido, sob uma frondosa laranjeira, enquanto as suas meninas Maria da Luz e Maria Flor brincavam alegremente.

Uma vida que começara dura numa Fajã longínqua e miserável. Depois… o Serviço Militar Obrigatório em África e um regresso sem grandes euforias. Valeu-lhe durante alguns anos um bom patrão de origem saloia que, curiosamente, haveria de morrer da mesma doença que um dia levaria Elizário.

Forçado nesse tempo a regressar à capital, foi com imensa dificuldade que encontrou alguns parcos trabalhos. Todavia eram quase todos de pouca duração.

Caiu por isso na rua. Vãos de escada e prédios devolutos conhecia-os a todos. Uma semana aqui, outra acolá e sempre, sempre a fugir da polícia.

Depois indicaram-lhe que em algumas salas de espera dos hospitais havia comida gratuita. Lançou mão da esmola e durante anos viveu dela.

Por fim... o tal casal!

Que o levou para casa dando-lhe uma vida digna. Os livros da biblioteca da casa leu-os quase todos e isso notava-se na forma como começava a ter ideias e a expor assuntos.

- Homem muito esperto e inteligente – assumia Gusmão.

Depois o enfarte. Conseguiu, no entanto, sobreviver ainda a tempo de ser referência para as duas meninas que acabariam por nascer e que o tratariam por avô.

Quando as Marias se aproximaram do idoso perceberam que ele parecia dormir, serenamente. Chegaram-se muito devagar de forma a não o acordar e repararam num papel rabiscado que tinha na mão. Retiraram com perícia. Maria da Luz leu em voz alta para a irmã:

- Desculpem queridas, mas a minha vela está a apagar-se. Não se preocupem comigo, estudem e portem-se bem, porque eu vou ali e já (não) venho.

- Mamã, mamã – chamou Flor – o avô escreveu isto.

Heliodora leu o recado, olhou o idoso com ternura e deixou que duas grossas lágrimas rolassem pela face.

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