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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sexta-feira, 13.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #1

Mote: Problemas, só problemas.

Malquíades entrou em casa apressado, carregando a pesada mochila e numa fugaz ida ao quarto largou-a em cima da cama para logo procurar a cozinha.

O almoço estava na mesa. Devorou-o num ápice e em silêncio. De seguida tentou escapar de casa para a brincadeira. Porém a mãe, qual polícia atenta, tinha o dedo indicador apontado na direcção do quarto.

Já sabia ao que ia… Os idiotas trabalhos da escola. Sempre os trabalhos da escola. A sentença, essa, também a conhecia de cor: sem os deveres feitos não haveria brincadeira.

Pegou nos livros e nos cadernos e foi lendo e escrevendo. Primeiro a Língua Portuguesa com a cópia, ao que se seguiram as respostas ao texto. Depois aquilo do Estudo do Meio… Desta vez as soluções eram escritas no próprio livro (mas não com muita força, que os livros são para devolver no fim do ano, dissera-lhe a mãe).

Finalmente as contas.

A mãe, conhecendo o filho como ninguém perfilava-se à porta do quarto. Sabia da pouca capacidade que o jovem exibia para se concentrar e mais ainda da facilidade com que se distraía.
Pelo rabo do olho Malquíades percebia a mãe estrategicamente colocada. Não haveria hipótese de fuga sem que os trabalhos estivessem completados.

Aquilo era uma guerra surda e muda, desde o início do ano lectivo. E provavelmente perdida.

Naqueles momentos desejava ardentemente não ter mãe, responsabilidades, escola…

 

Segurou na fotografia descolorida da mãe ainda jovem e recordou com profunda saudade as chegadas diárias da escola, com graça os olhares reprovadores quando tentava escapar sem os trabalhos feitos, com dor as lágrimas que a antecessora vertera quando se viu viúva. Lembrava-se tão bem como se tudo tivesse ocorrido no dia anterior.

Sempre fora pessoa de muito poucas palavras. Preferia escutar… Por isso a sua relação com a mãe fora assente em muitos silêncios, que ambos entendiam quase como se falassem. Bastava por vezes um olhar reprovador, um imperativo indicador, um gesto simples com a cabeça para perceber que não valeria a pena esticar a corda. Sorriu só de recordar.

 

As contas complicadas, a aritmética com aquela tabuada mecânica e monótona que mais parecia uma lenga-lenga e finalmente aquelas longas e estúpidas perguntas sobre pesos e medidas que Malquíades olimpicamente detestava. Era por esta altura que o menino então falava, dando voz à sua imensa revolta:

- Problemas, só problemas!

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por José da Xã às 15:00


30 comentários

De Sarin a 13.09.2019 às 15:55

Se a vida correr normal, todos diremos
Je suis Malquíades

:*

De José da Xã a 13.09.2019 às 16:08

Sarin,

Ja vi que gostaste no nome do artista.
Ahahahahah!
Bom fds.

De Sarin a 13.09.2019 às 16:10

Ambrósio, Malquíades, Ponciano... adoro nomes assim fáceis :D

Mas referia-me às memórias ;)
Beijocas, bom fim-de-semana

De José da Xã a 13.09.2019 às 18:32

As memórias... o melhor para alguém com a minha idade.
E nao tarda estou a dizer: no meu tempo...
Bom fds.

De Maria Araújo a 13.09.2019 às 16:01

Muito bom!
Mas este texto não ultrapassa as 400 palavras?!
Eu tinha quase 500, fui cortando, cortando...
Beijinhos

De José da Xã a 13.09.2019 às 16:09

"Nasinhora". Serão trezentas e muitas mas nao chegam às 400.
Beijos miúda!

De Ana a 13.09.2019 às 16:15

adorei meu amigo !

De José da Xã a 13.09.2019 às 18:33

Ainda bem que gostaste.
Bom fds.

De Ana a 13.09.2019 às 19:11

Bom fim de semana meu amigo.

Beijinhos

De Ana de Deus a 13.09.2019 às 18:21

fabuloso

De José da Xã a 13.09.2019 às 18:34

Nem por isso!

De Fatia Mor a 13.09.2019 às 19:40

Quando os silêncios falam, a prosa surda vira poesia! Lindo José da Xã!

De José da Xã a 13.09.2019 às 20:13

Obrigado.
Não é grande texto, mas fiz o que a minha inspiração me deu.
Bom fds.

De A 3ª face a 14.09.2019 às 00:39

Que texto bonito!
Adorei!

De José da Xã a 14.09.2019 às 06:21

Obrigado!
Bom fds.

De Alala a 14.09.2019 às 09:07

Adorei José.

De José da Xã a 14.09.2019 às 09:34

Problema resolvido!
Muito obrigado.
Bom fds.

De belinha fernandes a 15.09.2019 às 00:57

Finalmente a Belinha do Palavras Cruzadas encontrou o Desafio e percebeu aquele comentário do Malquíades no seu Desafio! Belo texto que se lê com um sorriso! Então já somos três a ter-se lembrado dos problemas escolares! São coisas que marcam, ahahah!

Não percebo se o meu blogue tem algum problema. Primeiro pensei que sim, mas agora já vi que os Sapos conseguem lá comentar. Pode apenas ser que não tenham ficado entusiasmados com o Luisinho.

De José da Xã a 15.09.2019 às 12:55

Bem vinda a este estaminé.
Aqui se escreve mal e sem Acordo.
O Malquiades não guarda boas recordações da escola.
Como eu...
Bom domingo.
A gente lê-se por aí!

De imsilva a 15.09.2019 às 09:47

Com que então, voltamos os dois à escola. Como não poderia deixar de ser, (onde estava a dúvida ?) , mais um bom texto. Eu adorei revisitar o passado.

De José da Xã a 15.09.2019 às 12:56

E eu a catarse daquele maldito tempo.
Beijos.

De Anónimo a 15.09.2019 às 14:24

Gostei como escreves e ficou tocante o texto! abraços, chica

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