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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Sábado, 10.06.17

Contos Tontos - 26

Do outro lado da secretária o médico abriu o sobrescrito, desdobrou o papel e percorreu todos os items. A mão esquerda foi à cabeça instintivamente, dando azo a que o entregador desconfiasse de algo.

Por fim disse:

- Bom está tudo... mais ou menos bom. Só há aqui um pormenor que pretendo esclarecido.

O doente recostado na cadeira, de perna traçada e mãos no joelho, avançou calmamente:

- Oiça Doutor... deixe-se de rodeios e diga o que se passa. Já percebi que há aí algo que não será bom. Vá diga lá o que tenho.

O médico continuava a observar o papel. A bola estava agora do seu lado. Dizer ou não a verdade pareceu ser a questão principal.

- Então Doutor diga o que lhe parece! Não tenho medo de nada. E não o culpo daquilo que tiver...

- Oiça... - respondeu finalmente - já percebi que é um homem pragmático. Assim digo-lhe tudo o que tem e qual vai ser o seu futuro.

- Vá desembuche...

- Bom o meu caro tem... um cancro em estado avançado... Mas tem tratamento.

O silêncio reinou na sala por uns curtos minutos. Até que:

- Quanto tempo terei de vida a partir de agora?

O médico não esperava aquela questão. Assim respirou antes de dar a resposta. Depois:

- Não imagino... Com tratamentos pode ainda durar muitos anos.

- Bom... digo-lhe já que não vou fazer qualquer tratamento. Nem direi à minha família o que tenho.

- Mas isso é um absurdo...

- Pode ser que sim. Mas a partir de agora se disser à minha família todos irão sofrer até eu morrer. Se morrer em breve só sofrerão com a minha morte e não com o meu sofrimento.

- Desculpe lá, mas se morrer em breve as pessoas sofrerão mais depressa com a sua morte. Ao invés, se tomar medicamentação vai poder viver mais anos e a sua família só sentirá a sua perda daqui a muito tempo.

O doente levantou-se da cadeira e contrapôs:

- Já viu com toda a certeza gente a definhar com os tratamentos, certo?

- Claro que sim, mas...

O outro interrompeu:

- Alguma vez deu conta do que sofre a família ao assistir ao lento murchar do familiar?

- Provavelmente não... mas... calculo...

- Então doutor... deixe-me morrer em paz. É só o que lhe peço!

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por José da Xã às 22:47


3 comentários

De Maria Araújo a 29.06.2017 às 15:14

Esqueço-me deste teu lado criativo.
Hei-de vir cá.

De José da Xã a 01.07.2017 às 21:38

Está à vontade.

Será um pouco mais intimista e menos simpático, mas é a parte b«vertenta da verdadeira escrita.
Bom domingo Maria

De MJ a 16.02.2018 às 18:55

Esse devia ser, de forma pragmática, um direito de todos.
Ao médico não cabe impor, cabe esclarecer e respeitar. Tão simples, isto!

Quantas vezes me interrogo sobre o direito que lhes assiste em "mandar" na vida e morte de qualquer pessoa.

Há situações em que o doente não tem conhecimentos que lhes permitam optar em consciência. Para estes, haja respeito, não se lhes inflija sofrimentos acrescidos que se sabe, à partida, não trazer qualquer benefício.

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