A última pergunta!
Seis da manhã. Dia de Natal.
João percebe movimento no corredor. Estremunhado imagina ser um sonho, para no instante seguinte escutar conversas em surdina.
Devagar acorda a mulher e faz-lhe um sinal de silêncio e pede para se levantar. Depois ambos escondem-se atrás da porta do quarto. No corredor continua um diálogo em tom muito baixo mas que ainda assim o pai consegue escutar:
- Vai tu Santiago és o mais velho...
- Não posso, vai o Simão que é o mais novo!
- Não quero, tenho medo!
- Pronto vou eu - avançou Salvador.
O rapaz do meio entra no quarto meio escuro, todavia encontra a cama vazia. Recua e nem sequer repara nos pais escondidos.
- Não estão cá!
Os miúdos olham-se e temem o pior. Simão palpita:
- Foi o Pai Natal que os levou?
- Deixa-te de ideias parvas miúdo. O Pai Natal não existe, pá!
- Existe sim... eu já o vi!
- Viste nada, os pais levantaram-se mais cedo e devem ter ido para baixo.
Os três rapazes de 12, 9 e 5 anos descem as escadas e aparecem na cozinha. Mas pelo caminho reparam que tudo está ainda em silêncio devido à hora madrugadora. Voltam para cima.
É neste vai vem que acabam por encontrar os pais. A mãe estende os braços para os filhos e eles caiem-lhe em cima numa alegria contangiante.
- Bom dia meninos, Feliz Natal!
- Feliz Natal mamã! - gritam em uníssono.
Depois é a vez do pai receber os cumprimentos matinais dos seus rapazes e por fim descem para preparar o pequeno-almoço. Mas o mais importante estava ainda por vir. As prendas no sapatinho...
- Mamã quando vamos abrir as prendas?
- Daqui a nada! Primeiro vamos comer e depois vamos ver as prendas.
A refeição corria melhor do que o esperado já que as crianças estavam em pulgas para verem o que o Pai Natal lhes teria deixado. Faltam apenas os dois primos e os tios sempre dorminhocos e atrasados.
Quando todos se juntam alguém declarou:
- Vamos lá ver então as prendas que o Pai Natal deixou no sapatinho de cada um!
Entram na sala, mas surpresa das surpresas não havias dezenas de embrulhos como era hábito em anos anteriores. Ao invés as cinco crianças apenas acharam um embrulho sob cada sapato. A prenda parecia grande, mas não havia rigorosamente mais nada.
Entre o assustado e o admirado cada criança olhou para certificar-se que os outros ao seu redor estavam nas mesmas condições.
Foi Santiago que afoito começou a rasgar o papel de embrulho. As outras crianças imitaram-no. Papel desfeito o menino abriu finalmente a enorme caixa de papelão. Olhou para dentro dela e logo duas lágrimas cairam pela face. Sentou-se no chão e esperou a reacção dos outros.
Para todos as prendas foram iguais e abertas as caixas havia um coro de lágrimas, até que Salvador ergue-se do chão e leva a caixa para junto do pai e da mãe, quase grita:
- Esta caixa está vazia! Não tem nada. Onde estão as minhas prendas?
Cinco tristes crianças olham para o pai e tio e aguardam a resposta à questão de Salvador.
Com calma João coloca-se estrategicamente no meio das crianças, para depois se agachar. Senta-se no chão ficando quase ao mesmo nível dos miúdos e finalmente espera que todos acalmassem nem que fosse com a ajuda maternal.
- O que encontraram nas caixas?
- Nada - respondem em uníssono. As caixas estão vazias.
- A minha também - avançou Benedita, a mais nova de todos.
- Pois é, foi de propósito!
- Porquê, porquê?
- Calma, eu explico se me deixarem! Estamos na época do Natal e assim todos os meninos e meninas pedem coisas ao Pai Natal...
- Eu só quero uma boneca... - insistiu Benedita.
João passa a mão pela cabeça da sobrinha e acaba por carregá-la para o seu colo. Para logo continuar:
- Mas há muuuuuuuuuuuuuuitos meninos por todo o Mundo como vocês que nem uma caixa sem nada tiveram direito. Nada! O Pai Natal para eles apenas existe como um boneco de uma bebida, pois sabem que ele nunca lhes trará nada. Portanto achámos todos aqui que estava na altura de todos vós sentirem o que sentem as crianças pobres.
Um longo silêncio paira na sala para o pai dizer:
- Santiago... gostei das tuas lágrimas.
As crianças olham umas para as outras em silêncio. João ergue-se do chão com a sobrinha ao colo e olhando em redor e recebendo dos crescidos a aprovação final abre a porta do quarto contíguo e anuncia:
- As vossas prendas estão aqui todas. Agora divirtam--se.
Num segundo a magia do Natal volta àquela sala e a confusão no quarto parece enorme. Para logo a seguir Santiago e Salvador chegam perto do pai e da mãe e declaram em tom quase solene:
- Tivemos prendas a mais. Vamos querer dar algumas das nossas a outros miúdos. Consegues tratar disso pai?