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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

“A ONDA” de Katsushika Hokusai

Resposta ao desafio da Fátima

Havia tempos que andava com anseio de ir a um antiquário. Acima de tudo porque necessitava de comprar uma estante e as modernas durariam menos que nada.

Entrou na loja repleta de tanta coisa velha e antiga. Pairava no ar um aroma onde se misturava a cera, cânfora e bafio. 

Por detrás de uma velha secretária ergueu-se o vendedor que, não obstante as evidentes cãs, parecia mais novo do que aparentava.

- Boa tarde…

- Boa tarde – respondeu o cliente – posso dar uma volta?

Conhecia bem a forma de comprar algo mais barato neste tipo de lojas.

- Com certeza… Esteja à-vontade… Procura alguma coisa especial?

- Não, nem por isso – mentiu – mas gosto de ver este tipo de lojas.

- Então... sinta-se em casa.

Foi tricotando por entre muitos móveis loiças, faianças, relógios ou rádios velhos. O dono seguia-o à distância não fosse alguém mais… estranho e quiçá amigo do alheio. A determinada altura o eventual cliente perguntou:

- Diga-me este lustre é de vidro banal ou cristal?

- Vidro antigo… Tem mais de 150 anos!

- Qual o preço?

Aproximando-se retirou de um godé do lustre um pequeno papel onde marcava trezentos euros. Mostrou-o, mas acrescentou:

- Para me estrear hoje vendo por 250 euros…

O cliente nada disse e continuou a procurar o tal móvel que não confessara. Viu discos de vinil e bobines de fita magnética para gravadores, estatuetas, cachimbos, cómodas do tipo D. José, cadeiras em pau-santo, umas caixas de charão, uma grafonola e um gramofone de campânula de madeira que assumiu ser bem antigo, diversos vidros em casca de cebola e uns pratos da antiga Fábrica Ratinho. Por cima de alguns móveis pode perceber umas travessas Miragaia e noutro uma terrina que lhe pareceu razoavelmente antiga, quiçá da Real Fábrica de Sacavém. Nalgumas vitrines conseguiu também descobrir diversas garrafas licoreiras, algumas completas, outras sem tampa e outras ainda com os cálices em anexo.

Pelas paredes, para além de uns espelhos velhos, alguns relógios ingleses e diversos quadros. No chão havia outros. Meteu as mãos e foi folheando as diversas molduras encostadas umas às outras e em cada uma das gravuras espreitava. Até que percebeu algo diferente. Puxou o quadro para fora.

Endireitou-o com ambas as mãos e ficou a mirá-lo. Poisou-o em cima de uma trinchante e afastou-se para ter uma melhor perspectiva.

O lojista aproximou-se e perguntou:

- Gosta?

- Gosto… sabe o que é?

O outro fez uma espécie de careta e devolveu:

- Quem não conhece...?

- A “Onda” não é uma peça fácil de encontrar.

Percebeu que tinha falado demais já que o homem iria provavelmente aproveitar-se do comentário para acrescentar alguns euros ao preço. Deixou o quadro e prosseguiu pela loja. Finalmente viu ao longe a estante que lhe serviria. Aproximou-se, mas em vez de se mostrar interessado no móvel voltou as suas baterias para uma secretária ao lado.

- Sabe o tamanho desta?

Num passe de magia surgiu uma fita métrica nas mãos do vendedor e num ápice estendeu a fita e respondeu:

- Tem um metro e vinte… - virou a fita… - por oitenta!

- E quanto quer por ela?

- Setecentos euros… Mas olhe que isto é de pau-santo…

- Já vi que sim.

- E esta estante?

- Essa é barata… Duzentos euros… - respondeu de cor.

Era um preço interessante, mas aquela gravura de Katsushika Hokusai ficara-lhe no goto!

- Bem se calhar em vez da secretária levo a estante…

- Fica bem servido… é um bom móvel. Quer que lho entregue em casa? - perguntou o lojista contrariado por não vender a secretária.

- Mas ainda não acordámos no preço…

- Olhe que duzentos euros é barato…

O cliente virou as costas como se desinteressasse e dirigiu-se para a saída. De súbito o vendedor propôs:

- Duzentos euros pelo móvel e leva a “Onda”…

A alma do cliente quase saltava de alegria, todavia nada demonstrou e com a calma de quem está habituado a fazer negócios estendeu a mão dizendo:

- Negócio fechado!

 

No desafio Arte e Inspiração, participam Ana DAna de DeusAna Mestrebii yue, Célia, Charneca em Flor,  ConchaCristina AveiroGorduchitaImsilvaJoão-Afonso MachadoJorge OrvélioLuísa De SousaMariaMaria AraújoMarquesaMiaMartaOlgaPeixe FritoSam ao Luarsetepartidas

6 comentários

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    José da Xã 15.09.2021

    Obrigado.
    Que é feito de ti? Pensei que estavas em trânsito para Marte.
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    Ana Mestre 15.09.2021

    E estava, mas ali para os lados de Jupiter fiquei sem gasoil e tive que voltar
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    José da Xã 15.09.2021

    Como é sempre a descer chegaste num instante...
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    Ana Mestre 15.09.2021

    Mais ou menos isso
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    José da Xã 15.09.2021

    Já calculava!
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