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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

A herança!

Respeitando um pedido da Isabel

 

Com os dedos bateu duas vezes. Escutou vindo de dentro:

- Entre!

Maria Clara empurrou devagar a porta do quarto e estando este envolto numa penumbra aproximou-se da rapariga que estava deitada e abraçou-a:

- Parabéns minha filha… Como estás? – e procurou logo o berço.

- Estou bem mãe. Obrigado… - depois pegou no recém-nascido e entregou-o à novel avó.

- Eis o seu neto primogénito.

A avó deixou cair duas grossas lágrimas:

- Tão lindo o teu menino… e a meia dúzia de dias do Natal até parece o Menino Jesus.

A filha ria feliz enquanto a avó devolvia a criança à mãe ajeitando a roupa demasiado grande para o bebé. De súbito recuou como se tivesse visto algo terrível. A filha notou:

- Que se passa mãe?

Tentando recompor-se a avó desviou a face para dizer:

- Não se passa nada, filha!

- Mãe, não mintas… O que viste no bebé?

- Já te disse… nada!

A parturiente pegou na criança e tentou pesquisar o que poderia ter assustada a avó. Não observando nada estranho insistiu:

- Mãe, dizes-me o que se passa se fizeres favor?

A mulher mais velha não conseguia tirar os olhos do inocente neto…

Num segundo recuara mais de trinta anos… para aquele dia de Natal em que após uma discussão fútil, abandonara os pais.

Partira nesse dia tão especial de família para abraçar uma vida diferente que na altura pareceu-lhe a única e maravilhosa. Que erro, que parvoíce, assumiria muito mais tarde para si mesma, mas o orgulho era superior e jamais tentou voltar atrás. Andou anos, muitos, demasiados talvez, em busca do seu verdadeiro sentido. E lembrava-se tantas vezes do que os pais lhe haviam dito: “tem cuidado filha, a vida não é um mar de rosas.”

Quando finalmente assentou os pais eram alguém perdido no passado. Esquecera-se deles ou pelo menos nunca os referiu. Entretanto lera muitos livros e pequenas estórias de reconciliação familiar onde nunca se revia, achando tudo demasiado lamechas já que a vida era sempre muito pior que as estórias e lidas ou contadas.

- Mãe ouviste o que perguntei? O quer se passa com o menino?

- A sério filha, não se passa nada. Tiveste uma criança lindíssima e agora é gozar todos os momentos – as lágrimas caiam agora em profusão e Maria Clara já nem tentava esconder.

- Por favor mãezinha diz o que se passa… O que viste na criança?

Não poderia esconder mais o segredo. Agora tornara-se demasiado tarde para recuar. Por fim:

- O teu filho trás uma herança com ele…

- Uma herança?

- Sim… - e aproximando-se da criança puxou o barrete que envolvia a cabeça e apontou com o dedo.

- Não percebo mãe!

- Vês esta pequena mancha aqui de lado? É uma herança de família…

- De família? Como sabes se não tens família…

- Uma herança da tua avó… minha mãe!

- Mas… mas… sempre disseste que não tinhas família…

- Tenho ou tive… sei lá!

Espantada com tamanha revelação a filha estendeu os braços à mãe e deixou que esta chorasse enquanto lhe perguntava de mansinho:

- Quem és tu realmente, mãe?

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