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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 24.12.18

A consoada

Portázio Antunes sentou-se à cabeceira da comprida mesa, cruzou as mãos no regaço e aguardou em silêncio.

À sua frente espraiava-se um mar de cores vermelhas e douradas. De forma simétrica uma frota de pratos, talheres e copos fundeavam na longa mesa.

Ao fundo da sala um relógio de pé encostado à parede, batia compassadamente um monótono tiquetaque. Lentamente soou um gemido e arrancou o carrilhão das oito horas, tocando com suavidade as badaladas. Ao canto uma enorme árvore de Natal repleta de enfeite e luzes. Por baixo um pequeno presépio assente num tapete de musgo verde.

Ali perto uma algazarra aproximava-se. Eram os filhos e cônjuges que acompanhavam a mulher e que carregavam o repasto da consoada.

Todos sabiam que o homem que herdara o nome de um tetravô não gostava de atrasos na hora da refeição. E assim às oito horas todos chegaram e foram distribuindo os diversos tabuleiros, travessas e terrinas pelo mar vermelho.

- Vou chamar os miúdos – disse Aurélio, o filho mais velho.

O pai ordenou, peremptório:

- Fazes o favor de não os chamar…

- Pai…

- Não quero saber… Eles não sabem a que horas se come aqui?

- Ahhhh… Sim… mas…

- Meu filho… Tu e os teus irmãos viveram nesta casa e sempre cumpriram com estes preceitos. Porque terão eles de serem diferentes?

- São miúdos têm outros interesses… - justificou.

- Se cada um viver segundo a sua própria regra passamos a viver numa anarquia. Vamos então comer e que ninguém os chame. Eles já são suficientemente crescidos para terem alguma responsabilidade.

O silêncio que envolveu a sala de jantar durante a refeição quase se assemelhava a um glaciar. Devagar foram todos servindo e comendo.

As conversas eram parcas e aqui e ali um sorriso que mais sabia a falsidade tal era o ambiente triste daquela consoada.

Os pratos foram entrando e saindo e os miúdos sem virem. Justino o filho mais novo de quando em vez olhava a porta para perceber se as crianças surgiam. Mas nada.

Já estavam a começar as sobremesas quando um grande alarido veio das escadas e meia dúzia de crianças e jovens penetraram na sala.

Com admiração repararam que todos já haviam comido. Em silêncio foram ocupar os lugares vazios. E aguardaram.

A avó Doroteia levantou-se do lugar oposto ao do marido e exclamou antes que o velho Portázio dissesse alguma coisa.

- Meninos… vocês sabem que a principal regra desta casa é a hora da refeição. Ainda por cima esta noite que é de consoada, vocês aparecem muito tempo depois. O vosso avô proibiu os vossos pais de vos chamarem. Assim vocês têm duas opções: ou ficam aqui e não comem ou vão comer para a cozinha onde cada um se servirá como quiser. A escolha é vossa…

O decano olhou a mulher e percebeu que de uma forma inteligente ela conseguira dar uma lição sem que os miúdos ficassem sem refeição. Todavia Marta a neta mais velha ergueu-se da sua cadeira e exclamou:

- Não me parece justo avô!

Marta era uma jovem fora do vulgar. Adorava ler e escrever. Já lera os grandes clássicos da literatura e adorava poesia. Dizia que queria ser jornalista e fazia tudo por isso sendo a melhor aluna da escola. De forma geral toda a família olhava para a Marta com orgulho. Por isso quando a jovem falou todos se calaram.

O avô adorava aquela neta, talvez por ter sido a primeira, e aceitou o desafio que a jovem lhe lançava. Por isso respondeu:

- E o que é a justiça minha filha? Será justo que todos aqui trabalharam para se ter uma refeição e vocês assumam que tudo está garantido? Será justo que tenhas sabido a que horas devias aqui estar e não apareças só porque os teus interesses estão à frente das restantes pessoas? Será justo tudo isso?

Marta não se atemorizou. E ripostou:

- Avô… até podes ter razão… Mas custava alguma coisa ter-nos chamado à hora? Ou achas que estou sempre a olhar para o relógio? E a ideia da consoada em família? Preferes a nossa ausência como castigo para todos do que acederes à vontade dos nossos pais em chamar-nos… Uma família não é uma regra, uma lei, mas tão só um sentimento. Que tu avô queres quebrar.

As palavras ditas de forma quase rude pela jovem, tiveram o condão de amansar o ancião. O velho Antunes respirou fundo e quando ia para falar Marta antecipou-se:

- Eu avô, vou comer na cozinha! Preferes estar só… fica só!

Virou as costas e saiu. Os primos e irmãos seguiram-na em silêncio.

Na enorme sala todos perceberam de duas lágrimas que o Portázio nem evitou nem escondeu.

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por José da Xã às 08:09



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