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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Desabafo!

Porque quero escrever

Se mais não sei qu'isto?

Alinhar palavras e ver

Se vale a pena o misto.

 

Não serei nunca poeta

Pois nem sei chorar

Escrevo à dor pateta

Esta raiva de corar.

 

Desembainho motes

Que me dão alento

Ao ver nas frias fontes

O rosto do momento.

 

Que esperarás ó tu

Deste trágico viver

Que seja um gabiru

Até ao dia de morrer.

Nocturno

Gosto da doce

lentidão.

Como a noite desce

sobre este pobre

coração.

 

Tal qual a contínua

marca.

Que me indica

lentamente a

arca.

 

Sinto que a dor

perdida.

Doí muito mais

que aquela apenas,

sofrida.

 

Olho o horizonte

belo.

Será que o futuro

é apenas um

novelo?

Viagem

Há tristes dias assim

De vida santificada

Um simples crescer em mim

De uma vida dedicada.

 

Mas neste redor há paz

Candura, luz, alegria.

Hoje sou muito capaz

De viver este meu dia!

 

Vi belezas tantas, loucas

Únicas no coração

Guarda-las-ei como poucas

Cabem todas numa mão.

 

Vejo alegre azáfama

De quem deu o que me deu.

Sem prémio, glória, fama

De e a nada se escondeu.

 

Parto breve, de regresso

O coração aqui fica.

Não quero fugaz sucesso,

Apenas ter a alma rica.

Poema cansado!

Nem todas as palavras do Mundo

Diriam o que realmente sinto.

Gosto de sentimento profundo

Nos riscos hoje que aqui pinto.

 

Sinto na noite a companhia

Que não há no dia luminoso.

As palavras saem-me sem linha,

Feitas de um sonho tenebroso.

 

Passa o dia, a madrugada

E olho sereno esta tela

Nada realmente me agrada,

Nem tu, nem eu, nem ela!

 

Soneto IV

Tenho os dias cheios de silêncios

Daqueles que me dói escutar

Tenho os dias plenos de inícios

Que desejo nunca começar.

 

Paira por cima desta cabeça

Uma sentença triste, traída.

Construo meus dias numa peça,

Ainda antes da cortina caída.

 

Olho o horizonte tão vermelho

Cor do sangue me corre adentro

Sentindo o dia esvair-se ao espelho.

 

Não sei onde encontrar o centro

Deste mim tão seco e tão velho,

Quiçá aí fora, talvez aqui dentro.

Poema de resistência e amor

Este poema foi escrito em homenagem a um bom amigo vítima de Esclerose Múltipla, doença da qual viria a morrer. Trabalhámos juntos muitos anos e durante todo esse tempo sempre mostrou uma coragem e uma tenacidade de fazer inveja. Hoje recordei-o e a este breve poema.

 

Por vales de seda e linho,

Desafias um longo caminho…

De dor, de dor.

 

Um trilho ímpio, sinuoso,

Amargo, tenebroso…

E triste e triste.

 

Entre loas de imenso fervor

Há uma história de amor…

E paz e paz.

 

Renasce das tuas entranhas,

Uma aragem todas as manhãs,

De viver, de viver.

 

És a força, o mar e a terra,

Que em ti frágil, encerra…

A glória, a glória.

 

Os teus sonhos brilhantes,

São ósculos de amantes,

Sorrindo, sorrindo.

 

Resistes como um ancião vadio,

À morte num desértico baldio…

Tenaz, tenaz.

 

Coragem é quem vive assim,

Simplesmente tão perto do fim,

E ama e ama.