Porque quero escrever
Se mais não sei qu'isto?
Alinhar palavras e ver
Se vale a pena o misto.
Não serei nunca poeta
Pois nem sei chorar
Escrevo à dor pateta
Esta raiva de corar.
Desembainho motes
Que me dão alento
Ao ver nas frias fontes
O rosto do momento.
Que esperarás ó tu
Deste trágico viver
Que seja um gabiru
Até ao dia de morrer.
Com a ajuda competente da Maria João
Dizem que sem a Musa
Não há poemas, rimas.
Já ninguém diz que usa
Os versos e as cismas.
A noite que o fim do dia,
me dá
Está tão escura como
a minh’alma.
Enfim de que me serviria
Saber já
Da vida o meu triste tomo
de luz e calma.
Se nem bem recordaria
A dor má!
Me fez chorar num assomo
De talma!
Para quê eu amar?
Gosto da doce
lentidão.
Como a noite desce
sobre este pobre
coração.
Tal qual a contínua
marca.
Que me indica
lentamente a
arca.
Sinto que a dor
perdida.
Doí muito mais
que aquela apenas,
sofrida.
Olho o horizonte
belo.
Será que o futuro
é apenas um
novelo?
Há tristes dias assim
De vida santificada
Um simples crescer em mim
De uma vida dedicada.
Mas neste redor há paz
Candura, luz, alegria.
Hoje sou muito capaz
De viver este meu dia!
Vi belezas tantas, loucas
Únicas no coração
Guarda-las-ei como poucas
Cabem todas numa mão.
Vejo alegre azáfama
De quem deu o que me deu.
Sem prémio, glória, fama
De e a nada se escondeu.
Parto breve, de regresso
O coração aqui fica.
Não quero fugaz sucesso,
Apenas ter a alma rica.
Nem todas as palavras do Mundo
Diriam o que realmente sinto.
Gosto de sentimento profundo
Nos riscos hoje que aqui pinto.
Sinto na noite a companhia
Que não há no dia luminoso.
As palavras saem-me sem linha,
Feitas de um sonho tenebroso.
Passa o dia, a madrugada
E olho sereno esta tela
Nada realmente me agrada,
Nem tu, nem eu, nem ela!
Ei-lo o derradeiro
São Pedro popular.
Dizem que sorrateiro
Se recusou a falar.
De Sintra é orago
A sorte que ele tem.
Queijadas de um trago
melhor só os de Belém.
Acabam breve as festas
Que enchem de alegria
O pópulo sem sestas,
Vida e alma rebeldia.
Agora vem o amigo S. João
Santo bom sem manjericos
Talvez no mercado Bolhão
Haja aquele Abade Priscos.
Santo da invicta cidade
Dos martelos até à Ribeira
Festa para qualquer idade
O que se quer é assadeira.
Na velha cidade de Almada
Também São João quer festa
Uns copitos uma sardinhada
Ui não batas aí com a testa.
Tenho os dias cheios de silêncios
Daqueles que me dói escutar
Tenho os dias plenos de inícios
Que desejo nunca começar.
Paira por cima desta cabeça
Uma sentença triste, traída.
Construo meus dias numa peça,
Ainda antes da cortina caída.
Olho o horizonte tão vermelho
Cor do sangue me corre adentro
Sentindo o dia esvair-se ao espelho.
Não sei onde encontrar o centro
Deste mim tão seco e tão velho,
Quiçá aí fora, talvez aqui dentro.
Este poema foi escrito em homenagem a um bom amigo vítima de Esclerose Múltipla, doença da qual viria a morrer. Trabalhámos juntos muitos anos e durante todo esse tempo sempre mostrou uma coragem e uma tenacidade de fazer inveja. Hoje recordei-o e a este breve poema.
Por vales de seda e linho,
Desafias um longo caminho…
De dor, de dor.
Um trilho ímpio, sinuoso,
Amargo, tenebroso…
E triste e triste.
Entre loas de imenso fervor
Há uma história de amor…
E paz e paz.
Renasce das tuas entranhas,
Uma aragem todas as manhãs,
De viver, de viver.
És a força, o mar e a terra,
Que em ti frágil, encerra…
A glória, a glória.
Os teus sonhos brilhantes,
São ósculos de amantes,
Sorrindo, sorrindo.
Resistes como um ancião vadio,
À morte num desértico baldio…
Tenaz, tenaz.
Coragem é quem vive assim,
Simplesmente tão perto do fim,
E ama e ama.