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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Uma fruta mordida – XX

Resposta ao desafio da Ana

Ângela começou a desconfiar de que Alcides a evitava a todo o custo. Fosse por ter estado ligado à empresa onde agora trabalhava ou fosse por serem velhos conhecidos a verdade é que a gestora sentia que o seu coração necessitava de ver aquele homem de quem nunca se esquecera.

Retirou ao presente 15 anos para se colocar naquela aldeia onde conhecera um jovem tímido, com um sorriso enigmático, mas muito inteligente.

Porém na altura não o sabia já que tudo era alegria, festas e animação e  resto passava quase ao largo, a não ser umas trocas de ideias sobre livros lidos.

Esboçou um sorriso quando se lembrou daquela tarde em que ambos haviam desaparecido da companhia dos demais para apanharem umas peras esplêndidas, como diria Alcides. Porém a maioria dos frutos estava muito alta. Daí o jovem ágil e habituado àqueles desafios subiu ao cimo da pereira e apanhou apenas duas ou três peras que trouxe com cuidado para baixo.

Pegou numa passou-a pela manga do casaco de forma a limpá-la e finalmente ofereceu-a a Ângela. Lembrava-se tão bem dessa tarde. Deu uma dentada na pera e depois ofereceu-a a Alcides que recusou: Porém ela não desistiu e disse-lhe:

- Se deres uma dentada desse lado ficamos amigos para sempre.

Por fim ele mordeu a pera.

Uma tarde de Domingo – XIX

Resposta ao desafio da Ana

 

O primeiro fim de semana após ter assumido a chefia de um Departamento de investigação deveria ser de repouso. Porém Alcides tinha outros planos em mente e a maioria estava ligado à gestão de recursos humanos.

Até à entrada na empresa o jovem professor de uma Faculdade apenas se preocupava em dar as aulas de forma assertiva e competente e pouco se preocupava com a gestão humana. Parecia um sector com o qual tinha poucas ou nenhumas preocupações. Porém de um momento para o outro tudo mudara ainda por cimo após aquele conselho de Ângela-

A sua agulhe virou de repente e ficou a +ensara que estaria ela naquele momento a fazer? Pensou ligar-lhe mas isso poderia ainda mais estragar a sua relação já que após a entrevista jamais a vira.

O seu aparelho tremeu. Pegou nele e não conhecia o número. Atendeu:

- Estou quem fala?

Um breve silêncio e depois aquela voz:

- Olá… sou eu! Desculpa… deves tar mais que fazer…

- Não Ângela, não… Sinceramente estava a pensar em ti, mas antecipaste-te…

Novo silêncio para finalmente:

- Gostaria de me encontrar contigo… Amanhã à tarde… por exemplo Falarmos sobre Eça ou Camilo… ou outro autor mais recente.

Aguardou uma resposta:

- Agradeço mas amanhâ à tarde é impossúel  E dia da visita a um lar. Esta lá a minha mãe.

Uma pergunta intrigante – XVIII

Resposta ao desafio da Ana

Caía a noite sobre a cidade.

Ângela passara a tarde a ler estendida no sofá envolta numa manta quente. A chávena de chá fumegante estava já vazia após uma infusão de erva-príncipe. Lá fora uma água miúda batia na vidraça ajudada por vento algumas vezes forte.

Passara a manhã a responder a algumas entrevistas de emprego, mas ao invés de um normal desempregado era a ela que ligavam para recusar o emprego. Havia propostas para ser um pouco de tudo: Chefe de Recursos Humanos numa empresa de trabalho temporário, Administradora de consultora na área do retalho, directora de departamento de Auditoria de um banco.

Era óbvio que a sua fama de gestora de sucesso a precedera e daí os convites que caiam uns atrás dos outros.

 No entanto a sua cabeça saltitava entre o livro que tinha à sua frente e… Alcides naquele seu primeiro dia na empresa que ela dirigira nos últimos três anos com um sucesso evidente.

O curioso é que ainda não se tinham encontrado a sós desde aquela reunião atípica. Apenas troca de números de telefone que ainda nenhum usara. O seu coração começou a bater mais depressa e finalmente perguntou a si mesmo:

- Será Alcides o mesmo de há quinze anos?

Um gesto inspirador – XVII

Resposta ao desafio da Ana

Custou a Alcides abandonar os seus alunos, mas tendo em conta a proposta irrecusável, seria louco não aceitar o emprego de responsável pelo departamento de investigação com meios, tanto humanos com técnicos, ao seu inteiro dispor.

Quando entrou pela primeira vez na empresa, Ângela já se demitira tal como prometera, de forma a que não houvesse qualquer choque de interesses.

Porém antes, naquela manhã, Alcides retirou do seu roupeiro aquele fato, vestiu a camisa de punhos branca, colocou uma gravata e finalmente enfiou os botões de punho na camisa. Olhou-se ao espelho, respirou fundo, pegou na carteira e no telemóvel e partiu para o novo desafio.

Após as milhentas apresentações Alcides foi finalmente introduzido num amplo gabinete com vista para o Tejo.

- Será este o seu gabinete daqui por diante! – disse o administrador-delegado e responsável pelos Recursos Humanos.

- Obrigado… mas… não seria melhor ficar mais perto do laboratório?

- Claro e terá lá uma pequena sala de trabalho… Mas quando necessitar de fazer uma reunião este gabinete parece-nos adequado.

Aproximou-se da ampla secretária onde encontrou um envelope dirigido a si. Admirado pegou, mirou-o e percebeu que estava fechado. Finalmente abriu-o, retirou a folha de dentro e leu:

Viva Alcides,

espero e desejo que entres nesta empresa ciente que és uma forte aposta da administração para a evolução.

Estarei sempre a teu lado… sempre… mesmo que não me vejas.

Termino com um conselho: as pessoas nessa empresa são seres humanos!

Não te esqueças disso. Nunca.

Com amor,

Ângela

 Alcides só soube sorrir!

Um desafio empolgante – XVI

Resposta ao desafio da Ana

Com a contratação de Alcides, a jovem administradora cumpriu o que havia dito e demitiu-se da empresa. Mesmo oferecendo-lhe um lugar como consultora preferiu sair para não causar mal-estar.

Para já iria tirar uns dias de férias ainda que o tempo não fosse convidativo. Longe da cidade, do movimento louco, das permanentes correrias.

Naquela manhã levantou-se tarde de tal forma que a empregada quando entrou em casa assustou-se com a presença da patroa:

- Ai doutora… que não a sabia cá… Que susto! Desculpe… bom dia!

- Bom dia! Não te preocupes comigo. Vou arranjar-me e depois irei sair. Não sei quando chegarei.

- A doutora trabalha demais… e é uma jovem… tão bonita e solteira…

A patroa sorriu. Aproximou-se da empregada e confessou em tom baixo:

- Sabes que a vida prega-nos muitas partidas…

- Oh se prega doutora… - concordou a outra acenando com a cabeça.

- O que te vou dizer não é para contar a ninguém.

- Fique descansada… a minha boca é um túmulo – e cruzou os dedos sobre os lábios.

- Desempreguei-me… por amor!

- Ai doutora que história tão linda… - e rapou de um lenço que tinha na manga do casaco e limpou duas lágrimas.

- Agora é que vai ser um desafio… no mínimo empolgante! – devolveu Ângela.

Um medo forte – XV

Resposta ao desafio da Ana

Aprendera desde novo a viver com as adversidades que a vida lhe propunha. Como também percebera que teria de lutar mais que os outros para chegar mais acima.

Quando chegou ao seu pequeno apartamento numa zona suburbana ficou a pensar na precipitação de acontecimentos desse dia. Uma amálgama de sensações, emoções, memórias e no fim um receio terrível!

Sabia que o seu coração, havia muito, que tinha dona. Mas assumi-lo não era coisa que ele dissesse a alguém. Depois esperava encontrar alguém que a fizesse olvidar. Bem que tentou, mas nenhuma delas era… Ângela. Para naquele dia a ver ali bem perto de si, com aquela beleza que sempre a caracterizara.

- Caneco o mundo é tão pequeno… - disse para consigo já sentado no seu sofá.

O problema maior surgia agora, pois teria de escolher entre ser professor numa faculdade ou quase investigador sénior numa empresa de renome… com as naturais boas alternativas financeiras. A responsabilidade seria muito grande e daí sentir um medo tão forte que quase lhe tolhia a fala.

Depois deitou-se no sofá cruzou as mãos por detrás da cabeça e ficou a mirar o tecto branco e a recordar aqueles dois beijos que tivera a coragem de pespegar em Ângela!

Acabou por adormecer e tal como na bonita canção de Carlos Paião sonhou com ela!

Uma previsão do futuro – XIV

Resposta ao desafio da Ana

Após a reunião assaz estranha e inimaginável onde gratas recordações vieram a lume no seu espírito, Ângela regressou ao seu gabinete e aguardou por alguns dos seus colegas da equipa de gestão.

Um a um foram chegando e sentaram-se à frente da secretária da responsável máxima aguardando o que Ângela teria a dizer. Após um breve silêncio a Administradora iniciou a reunião:

- Bem… como calculam a reunião com o… Al… o engenheiro Alcides Correia foi, no mínimo, estranha. Jamais pensei ver este senhor com quem convivi há muitos anos. Na altura perdi-lhe o rasto…

Levantou-se do seu lugar, virou-se para a paisagem urbana e continuou:

- Não sei o que decidirá o engenheiro, mas uma coisa assumo já aqui e agora… se ele vier para a empresa eu peço imediatamente a demissão. Não quero que haja choques de interesses.

Um burburinho fez-se ouvir e um dos colegas acabou por perguntar:

- Ângela… e qual será o nosso futuro sem a sua presença?

Ela esboçou um sorriso, rodou 180 graus, e enfrentou o outro sem mágoa nem rancor:

- A minha previsão é que o futuro será sempre risonho. Cada um de vós sabe muito bem o que faz e com a chegada do engenheiro a nossa maior falha fica colmatada.

- E a Ângela? Que vai ser de si?

- Eu? Vou finalmente viver o amor da minha vida!

Um animal de estimação – XIII

Resposta ao desafio da Ana

A porta da sala de reunião abriu-se para dar passagem à responsável máxima. Ao redor da mesa estavam já três administradores, a directora dos Recursos Humanos e Alcides como engenheiro a quem haviam lançado um desafio. Entrou e todos se levantaram.

- Bom dia, desculpem-me o atraso.

Quando Alcides olhou de frente para a Administradora o seu coração quase explodiu. Se fosse um animal de estimação iria a correr para a dona de língua de fora e com o rabo a dar a dar.

Assim manteve-se em silêncio de pé a aguardar que ela olhasse bem para ele. Ângela deu a volta à mesa de reuniões e quando deu de caras com Alcides é que percebeu.

Nem Alcides nem ela sabiam o que dizer… Um silêncio entre ambos que não passou despercebido aos restantes, tornou-se quase pesado. Coube ao engenheiro quebrar o gelo de uma forma invulgar. Aproximou-se da jovem e dados dois beijos acrescentou com um sorriso:

- Há muitos anos que não te via Ângela.

A responsável desarmada por aquele gesto próximo de Alcides, devolveu:

- Os anos foram-te benéficos.

Uma vista da janela - XII

Resposta ao desafio da Ana

Bateram-lhe à porta.

- Entre!

- Doutora está já na sala de visitas o senhor engenheiro Alcides Correia para a reunião. Já chamei os restantes elementos da Administração.

- Ó Elsa como se chama o tal engenheiro?

- Alcides Correia…

Um longo silêncio. Por fim:

- Obrigada. Já lá vou ter…

A secretária saiu e Ângela levantou-se da sua cadeira rodou 180 graus e aproximou-se da janela.

O farol do Bugio surgia ao longe. O mar parecia um espelho cinzento onde o sol se vinha mirar e brilhar. Mas até ao mar havia uma distância onde uma urbe se erguia a caminho do céu.

Da janela do seu gabinete tinha a visão fantástica do fim do estuário do Tejo e o início do Atlântico. Um principio e um final sem linha nem fronteira física.

Perguntou a si mesma:

- E se…?

Uma nuvem no céu - XI

Resposta ao desafio da Ana

O telefone tocou. Alcides ergueu o auscultador daquele negro aparelho de baquelite e atendeu:

- Senhor engenheiro tem aqui uma chamada de fora, quer atender? – informou a telefonista.

- Disseram quem são?

- Sim senhor engenheiro, mas sinceramente não consegui perceber de onde era…

- Passe então a chamada.

Após uns breves instantes escutou então:

- Engenheiro Alcides Coreia?

- O próprio… Quem fala?

- Chamo-me João Sacramente e Sá, trabalho numa multinacional e procuramos alguém para montar uns sistemas nas nossas fábricas. Alguém me falou de si como alguém especializado na área.

- Mas o que pretendem realmente?

Um rol de funções, actividades e outras funções foi sendo desbravado pelo interlocutor. Enquanto falava, o professor da faculdade ia olhando em seu redor. O gabinete estava forrado de prateleiras onde milhares de livros repousavam. Aqui e ali uns espaços das paredes era ocupado por gravuras velhas em molduras de estilo império. Atrás de si havia uma iluminura muito desbotada e onde ainda se poderia perceber uma nuvem que em tempos teria sido branca, pintada no céu ora mais cinzento que anil.

- Que me diz?

- Compreende que sendo eu professor não tenho a experiência laboral que me exigirá. Proponho que escolha outra pessoa.

Um silêncio… Depois:

- Percebo a sua ideia, mas não seria melhor vir até aqui para falarmos cara a cara. A administração gostaria de conversar consigo antes que tome uma decisão… irreversível!

- Disponho de pouco tempo, sabe? – tentado fugir.

- Diga o dia e a hora…

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