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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sentido dos dias – Confissão XII

Percebeu que alguém lhe batia à porta. Devagar, como se fosse um sacrifício levantar-se, chegou junto à velha porta e abriu-a. Deu de caras com Helena que de braços cruzados numa atitude pouco simpática, perguntou:

- Hoje o menino não vai para casa?

Pedro odiava quando a mulher o tratava por menino. Era como se regressasse ao tempo de criança pobre. Respirou fundo e respondeu com toda a calma que podia:

- Desculpa, tens razão, mas fiquei a arrumar uns livros nem dei pelo tempo passar.

Helena espreitou para dentro da loja tentando confirmar as declarações do marido e não vendo nada de diferente, acrescentou:

- Sim acredito. Mas deves ter metido uns sobre os outros…

O alfarrabista fechou a loja e dirigiram-se para casa. Caminhavam em silêncio, mas uma nuvem de tempestade parecia pairar por cima da cabeça de ambos. Foi Helena que começou:

- Temos de conversar… E muito a sério!

- Pois sim, fala!

Helena nem sabia por onde começar. A sua vida de casada com Pedro fora assim uma espécie de vida dupla. O marido desde a compra da loja jamais fora o mesmo. Passava horas e horas na livraria trazendo para casa uns parcos tostões. Não fosse a herança recebida e a família passaria imensas dificuldades. Mas o pior era aquele distanciamento que Pedro mantinha com a mulher e os filhos. Helena cansara-se. Não poderia ser uma personagem de segundo plano. E estava naquele momento decidida a colocar um fim.

- Eu nunca soube que segredo é esse que te consome as entranhas, que te faz ser um homem em casa e um outro na livraria. Eu preciso de saber!

O marido tentara durante anos adiar esta conversa e a divulgação do seu segredo. Mas agora era tempo de explicar tudo. Porém temia que Helena não entendesse, não aceitasse. Retirou um cigarro do maço Porto acendeu-o e perguntou:

- Mas saber o quê?

- Bolas homem, diz-me a verdade, fala comigo, desabafa… Sou a tua mulher, carrego na minha barriga um terceiro filho que não queria mas que tu pretendeste, por isso tenho o direito de saber.

Pedro meteu a mão ao bolso das calças à procura de uma pequena garrafa de aguardente. Habituara-se ao álcool tentando enfrentar cada dia, cada hora. Aquela revista reavivara-lhe tais memórias que… Doía-lhe o coração e o peito. As lágrimas começaram a correr cara abaixo. Parou então. Helena imitou-o. Mas não desarmou.

- Não entras em casa sem me dizeres tudo. Não quero discussões à frente dos miúdos. Portanto fazes o favor de falar. E a verdade…

Rafael olhou o céu já negro da noite e suspirou. Nem sabia como começar. Lembrava-se dos tiros e das explosões das granadas, dos gritos dos companheiros estropiados, do silêncio dos mortos a quem teve de fechar os olhos, do cheiro a carne humana queimada e de… Zuleica. As noites serenas, as lágrimas choradas e que ela secava com ternura… Os risos e os abraços, o amor à flor da pele, duma pele castanha e sedosa. O perfume de mangas e ananases…

- Hum… Na guerra, perto do quartel havia uma aldeia de nativos… E morava lá uma rapariga…

- A Zuleica que vos lavava a roupa? Já me tinhas contando.

- Essa mesma. Mas… Eu vivi com ela muito tempo… - e fiquei mais tempo em África do que o costume por causa dela... – disse tudo num repente, como se vomitasse as palavras.

Helena deixou sair um longo e profundo suspiro. A rua estava deserta. Um ou outro táxi passavam devagar. As lágrimas corriam também pela cara bonita da grávida. Buscou um lenço da parte de dentro da manga da camisola, assou-se e foi dizendo:

- És um canalha… Porque quiseste casar comigo? Para a esqueceres? Ou quando fazias amor comigo pensavas que estavas com ela? Não mereces o amor que tenho. Mas podes ir embora para Angola, vai ter com ela, desaparece da minha vista…

Era esta reacção que Pedro tentara evitar. Sempre pensara que o nascimento dos filhos o faria esquecer Zuleica. Mas aquela revista que agora guardava entre as suas coisas acordara-lhe uma imensidão de recordações. Tinha de lhe explicar, de a fazer entender.

O frio da noite envolvia-os. Cigarro atrás de cigarro, Pedro fumava compulsivamente enquanto Helena encostada a um prédio carpia de mansinho. Mas refém da coragem e tenacidade uma vez mais enfrentou o marido:

- Como me pudeste enganar?

- Mas eu não te enganei. Eu amo-te…

- Como podes amar duas pessoas ao mesmo tempo? Explica-me…

- Amando só… Não sei!

- Vai à tua vida, vai. Deixa-me em paz…

- Helena não me faças isso! Eu gosto tanto de ti.

De súbito Helena baixou-se com a mão na barriga. Gemia agora mais que chorava. Anunciou:

- Chama um táxi depressa e leva-me para o hospital.

 

 

José da Xã

Sentido dos dias – VI Dilema

 

Era uma daquelas manhãs negras de chuva e vento. Pelas fendas da janela de madeira velha e carunchosa o vento assobiava num silvo agudo e incomodativo.

Pedro Rafael acabou por acordar contrariado. Apetecia-lhe dormir até tarde. Ou mesmo não acordar durante muitas horas. Sentia o corpo mole a exigir ripanço. Porém Pedro percebeu que a sua vida tinha de dar uma volta. Necessitava urgentemente de fazer algo. Tratou da sua higiene, vestiu-se, pagou a conta do quarto e saiu para a rua. Tinha fome…

Mas estanhava aquela chuva miudinha, quase parecia pó de chuva. Lembrou-se de como eram as tempestades em Angola… A água caía de supetão em torrentes quase diluvianas ficando depois a pairar um cheiro característico a terra molhada. Da mesma maneira que aparecera, desaparecia deixando que o sol, forte e impiedoso, rapidamente secasse a terra. Mesmo habituado às chuvas angolanas, Pedro não pretendeu ainda assim lançar-se ao caminho. Tinha primeiro de comer qualquer coisa, ir ao quartel buscar a guia, entregar a farda, e por fim partir… Porém esse é que era o dilema… Partir!

- Olá bom dia.

A voz soou-lhe familiar. Virando-se meio círculo deu de caras com Helena que lhe estendeu a mão num cumprimento pouco feminino. Pela primeira vez Rafael tocou na mão de Helena. Sentiu-a trémula e levemente suada. No entanto sedosa e… fazia-lhe lembrar, pelo toque… Zuleica. Mas como poderia esquecer aquela mulher, como?

Helena por sua vez, aguardava uma resposta ao seu cumprimento para além da mão estendida e que Pedro apertava com doçura.

- Bom dia – repetiu – estás neste mundo?

Acordado pela questão Rafael “aterrou” por fim e calmamente foi-se desculpando:

- Bom dia Helena como estás? Desculpa mas habituei-me na guerra a viajar com o meu pensamento e agora… estava numa dessas viagens. Mas aqui não há guerra…

- Pois não… Mas há muitos carros e pessoas e aquelas coisas amarelas que fazem um barulho enorme…

- Os eléctricos? – Helena riu-se. Jamais pensou que alguém diria que os simpáticos transportes sobre carris que atravessavam Lisboa faziam muito barulho. Para ela que nascera numa aldeia encostada a Alenquer, cedo se habituou a vir para Lisboa. Enfim, decidida virou-se para Pedro e perguntou-lhe:

- E agora que vais fazer? Regressas à terra?

As questões eram pertinentes mas o ainda militar nem sabia que responder. Após um silêncio longo e quiçá esclarecedor para a jovem, foi dizendo:

- Tenho de ir a Campo, tenho! Depois não sei.

Por causa de Zuleica Pedro Rafael ficara em África mais tempo do que era previsto. Mas teve obrigatoriamente de regressar e deixar para trás uma vida… A sua! Agarrada a uma mulher e não sabia mais o quê… E se fosse a Trás-os-Montes poderia nunca mais voltar à cidade que lhe parecia ser um mar de oportunidades.

Por fim olhou a jovem madrinha de Guerra e perguntou-lhe:

- Achas que vá?

Helena não esperava a pergunta, mas com algum bom senso foi respondendo:

- Podes e deves ir à tua terra… Visita a tua família, revê amigos mas não te prendas por lá… Vais passar a vida a guardar gado como me contaste ontem à noite, que foi a tua vida até aos vinte anos? Não sei se é isso que queres para ti…

O jovem não entendeu bem o que ela queria dizer… Havia nas palavras de Helena algo que não descortinava. Atrapalhado, temeroso e repleto de incertezas Pedro Rafael disse:

- Achas que consigo aqui trabalho?

Helena olhou-o nos olhos e respondeu com autoridade:

- Oh Pedro, aqui em Lisboa o que não falta é trabalho… Falta sim quem o faça!

Aquela vitalidade demonstrada por Helena estimulou-o. A chuva continuava a cair agora mais de mansinho e ambos conversavam debaixo de um toldo de uma drogaria. O patrão saiu à rua e foi retirando algumas coisas para dentro expostas não fosse a chuva, ajudada pelo vento estragá-las. Pegou num braçado de vassouras de cabo de madeira, atadas num cordel e deixou à mostra um papel que colara no vidro da montra: Precisa-se empregado.

Pedro leu o anúncio e virando-se para Helena sorriu pela primeira vez desde que saíra de Angola.

- E… - observou.

- É sempre uma oportunidade…

- Assim já não vou à terra…

- Dizes que ainda estás na tropa… Pedes para te apresentares para a semana…

O tropa olhou o saco volumoso e pesado que tinha na mão. Mirou Helena com ternura. Observou à sua volta o ambiente. E pensou… Helena aguardava por uma decisão. E num instante percebeu que o rapaz vivia um profundo dilema. Serena e discretamente deu-lhe a mão e sussurrou-lhe ao ouvido:

- Coragem, vá!

Foi o que ele quis ouvir…

 

José da Xã

 

 

Trilhos Privados XXXI - De regresso

O carro de Célia parou à porta da clínica privada acendendo os quatro piscas. A jovem saiu a correr e entrou no edifício. Algum tempo depois reaparecia com Ricardo que combalido caminhava devagar. Com cuidado e carinho ajudou.o a entrar no lado do pendura e colocou-lhe o cinto. Depois de se assegurar que ele estava bem, deu a volta a correr pela frente do veículo, agradecendo à paciência dos automobilistas que esperaram entretanto na fila que se juntou para estacionar e arrancou finalmente.

Quando chegou a casa esperavam-na no jardim Genoveva e Jorge Simas. Uma vez imobilizados novamente a rapariga abriu a porta a Ricardo. Mas já lá estavam Jorge e Genoveva para auxiliar. Um braço de cada lado e o jovem erguia-se a caminhar ainda hesitante, para a enorme sala. A tarde estava fria. Um vento gelado penetrava nos corpos arrefecendo-os. Por isso na lareira ardia uma chama crepitante e acolhedora. O rapaz sorriu e agradeceu o fogo aceso. Sentado finalmente num sofá, Célia ajoelhou à frente perguntando-lhe:

- Como te sentes? Dói-te alguma coisa?

Ricardo sorriu e respondeu com doçura:

- Estou óptimo - E acariciou os cabelos da bela jovem.

Jorge Simas aproximou-se e estendendo a mão para um cumprimento tardio mas compreensível, desviou-se para o lado assim que Genoveva entrou trazendo um café bem quentinho e aromático para todos. 

- Ora, ora meu jovem! Segundo vejo é um valente. .. E um cavalheiro!

O rapaz agradeceu o elogio com um bonito e espontâneo sorriso e por fim perguntou:

- Mas Jorge conte-me tudo desde que fui para o hospital, por favor.

Nesse momento Guiomar descia as escadas e Jorge quase se calou, mas ela já sabia alguns pormenores portanto... E ter o rapaz ali era de sua autoria. Fora ela que sabendo que ele interviera para livrar a filha do pior, logo o quis para o compensar devidamente por tudo. Além disso engraçava com o "miúdo". E mal ela lhe deu as boas vindas continuou.

- Ui isso é uma história muito comprida…

- Eu tenho tempo. E se é assim tão longa é melhor começar já… Se a senhora não se importar e a Célia...

Ambas acenaram concordando.

- Pois bem. Vamos lá desde o inicio. O pai de Gui foi nosso amigo e pediu-nos, antes de morrer, que tomássemos conta dele e sem que ele soubesse. Durante uns tempos fomos seguindo o patife. Mas ele era como uma enguia. Penso até que começou a perceber que o tínhamos na mira. Certo dia por culpa nossa perdemo-lo… Pensei que estava no estrangeiro. Assim constava. Só o voltei a ver no funeral do velho Ludovico. Foi aí que recrutei uma brigada para o seguir…De novo! Não gostei do aspecto!

- Mas e eu?

- Tu o quê meu mariola? – riu-se Jorge.

- Como entro nesse… filme.

- Tu foste contratado pelo Gui, certo?

- Certo?

- Vi-te aqui à porta naquele dia. Cigarro atrás de cigarro...Hum! Pensei. Sabíamos dos negócios de cobranças difíceis, das mulheres da noite, do tráfico de armas e de droga… portanto Gui não era um tipo fiável. E tu corroboraste a coisa. Após o funeral  do meu amigo passámos na organização a controlar todos os movimentos e conversas de Gui.

- E o que é feito dele?

- Creio que esse assunto terá de ficar para mais tarde.

Ricardo fez um trejeito de face contrariado e um esgar de dor.

- Aquele sacana violou Célia, drogou-a, chantageou-a, tentou matar-me… e vocês dão-lhe... Mais tempo para tramar outras?

Célia assustada com a reacção do namorado, tentava acalmá-lo:

- Calma amor, calma…

Por sua vez, o velho militar ria-se:

- Mas cheira-me que desse tempo tu não queres partilhar.

- Como assim?

- Sabes onde fica Yakutsk?

- Não… sei lá, na China?

- Na Sibéria!

- Na Sibéria?

- Porquê lá?

- É a cidade mais fria do mundo. Vinte graus negativos é a média de temperatura. Pode ser que seja suficiente para lhe arrefecer os ânimos. Metemo-lo num avião e só espero que me digam que está tudo certo. - E piscou o olho. Ricardo não percebeu mas continuou a inquirir.

- E quanto aos outros? O polícia, o chinês?

- O polícia faz parte da “nossa” gente. Está tudo sobre controle. Mas agora tenta descansar. Amanhã falaremos mais, Há uns pormenores que a Guiomar e as senhoras presentes compreenderão serem só referentes a cavalheiros. Podes esperar não podes?

- Que remédio.

- Muito bem. Até amanhã meu jovem. Adeus Guiomar. Célia... Genoveva.

Elas roderam-np mal Jorge saíu. Sorria. Pensava que entre mulheres Ricardo nem sentiria as dores. Ainda mais com Célia que destilava amor em cada olhar.

Ainda bem.

 

 Verniz Negro/José da Xã

Trilhos Privados – XVII Vingança

Quando chegou a casa, encontrou a sua última conquista toda nua deitada na sua cama. Guilherme não gostou de a ver ainda em casa e correu com a jovem de um loiro espampanante e pouco atraente.

- Olha lá, mas tu julgas que isto é algum hotel? Vá, vamos a despachar que tenho mais que fazer.

A jovem levantou-se da cama e toda despida dirigiu-se à casa de banho onde tomou um duche rápido, mas que a Gui pareceu uma eternidade.

Finalmente despachou-se e saiu quase a correr. Um táxi esperava-a à porta. Gui fechou-lhe a porta e viu desaparecer o carro no fundo da rua. Entrou em casa e mais calmo rememorou a sua manhã.

Ricardo, o seu selecto motorista embeiçado com uma cróia. E depois os chineses…  Que estariam ali a fazer? Por uma vez sentira-se impotente… Mas jurou vingança. Bastar-lhe-ia um telefonema e o chinês e os seus amigos passariam um mau bocado.

Foi  à garagem e retirou o belo Porsche, colocando lá dentro a moto.  A manhã estava a querer-se virar para chuva. Nuvens plúmbeas e pesadas começavam a invadir o firmamento. O frio amenizara mas adivinha-se com facilidade chuva. Gui abriu o portão eléctrico de fora da vivenda. Por fim retirou o carro e fechou o portão. Seguiu então para Lisboa onde o esperavam para ultimar um negócio. Tocou o telemóvel. No visor estava escrito Sérgio. Não lhe apetecia falar, mas os negócios…

- Bom dia Sérgio.

- Olá Gui, então que tal?

- Que tal o quê?

- A miúda? Saiu-se bem…

- Eh pá nem me digas nada…

- Mas olha que eu cobrei o serviço. E não foi tão pouco quanto isso.

- Eu sei! Mas o chinês passou-se com a gaja…

- Passou-se como?

- Não sei como é que foi… mas deve ter-lhe dado a volta.

- Ena que cena! Mas ela não foi…

- Foi, foi, que eu própria a levei ao gajo no restaurante. Jantou connosco e subiu com ele, que eu disse-lhe o que tinha a fazer.

- Ah então tudo bem…

- Tudo bem o tanas… A gaja anda enrolada com o motorista que tenho para estes casos e nem sei como, o chinês estava também hoje no funeral do velho.

- Do pai?

- Sim, do pai dela!

- Explica-me lá isso outra vez… A gaja anda com o teu motorista?

- Parece que sim… Mas eu nem sabia disso. E hoje de manhã fui ao funeral do velho dela, apenas para controlar a gaja e dou de caras com o “nosso” amigo chinês e ela aos beijos ao outro sacana… Ainda andámos ali com coisas mas depois vieram os guardas costas do outro e tive de cavar. E agora não sei que fazer a esse filho da mãe do Ricardo…

Sérgio Gouveia conhecia bem Guilherme e achou por bem por alguma água naquela fervura.

- Gui, tem calma…

- Calma, eu! Eu dou cabo dele…

Sérgio já nem percebia de quem se estava a falar. Tentou esclarecer:

- Mas dás cabo de quem?

Gui perdeu as estribeiras.

- Dou cabo de todos, do chinês, do Ricardo, da gaja… Fod…

- Gui , tem calma.

- Tenho calma, o caraças… Aquela desgraçada saiu-me melhor que a encomenda. O único gozo é que fui o primeiro… Isso, ninguém me tira.

Um silêncio entre ambos. Sérgio não estava nada preocupado com os problemas de Gui, por isso voltou ao ataque, duma forma serena :

- Mas eu preciso de saber se posso contar com ela.

Gui riu-se e respondeu:

- Claro que podes… Eu tenho umas fotos dela em posições pouco recomendáveis e que posso publicá-las num instantinho. E até me davam dinheiro por elas….

- Toma cuidado… Isso da chantagem pode dar mau resultado.

- O que dá mau resultado é não ganhar nenhum… E eu anda a precisar de um carro novo…

- Ainda tens esse vício… dos carros?

- Meu amigo, eu não tenho um vício, tenho um gosto…

 

José da Xã

Trilhos Privados - XVI - O Convite

Pelo caminho Ricardo ouviu pacientemente Célia. Se lhe dissesse que gostava do que ouvia, mentia. Se confessasse que no fundo, estava tão desiludido e magoado, que só lhe apetecia largar-lhe a mão e desaparecer, perdê-la-ia de novo. Não que ela quisesse talvez, mas as circunstâncias em volta dela, com a chantagem… Ricardo sabia que ela sozinha não podia fazer muito mais. Ou se submetia, ou era o escândalo. Mal o pai acabara de morrer, seria tudo o que não convinha àquela família. Nem com ele vivo… Por isso engoliu em seco. Se gostava dela, a queria para si, não seria a merda de um porco qualquer, que numa noite de copos a tinha seduzido e emporcalhado, no mais íntimo que uma mulher pode ter, o orgulho da reputação, que os separava. Que raios! Ela também provocara, mas quantas vezes, ele já não tinha bebido demais. Uma ou duas, acabado a acordar ao pé de alguém que nem sabia quem era, de onde aparecera. Bem, de onde aparecera…se calhar do interior de uma limusina preta, onde choravam sozinhas quando as levava a casa à noite. O que lhe fazia ter um cuidado e rigor imensos. Algum dia ainda se dava mal e não queria aproveitar-se. Mas também eram poucas as que andavam naquilo por sujeição. Havia imensas, que sustentavam vícios. Anos passados, estavam tão agarradas àquilo que não saberiam viver de outro modo. Não se deixarem encantar com uma pipa de massa, hotéis de luxo, aviões particulares, desfiles de moda, promessas variadas e mais. Eram jóias, guarda-roupa, casas. Cartões e passes, livres. Tanto, que a maior parte das pessoas nem sonhava. Muitas eram mantidas por gente importante. Se viessem a saber… Políticos com vidas estabilizadas e filhos. Banqueiros e outros. Enfim…Uma miséria. Depois havia as outras, que já mais entradotas deixavam de ter interesse. Acabavam a levar pancada. A fazer o que eles queriam de pior. Entre a sarjeta e elas, pouca diferença havia. Uma autêntica podridão. Era dessas que Ricardo tinha mais pena. Infelizes, não amealhavam quando bonitas e novas, gastavam tudo em luxo, bebida e drogas. Acabavam uns farrapos humanos. Ele jamais gostaria, ou queria imaginar Célia metida naquilo. Perto da casa dela Genoveva esperava-os assomando à janela. Abriu-lhes a porta e reconheceu o rapaz da outra vez que lá estivera. Sorriu-lhe! Engraçava com o moço. Parecia ser boa gente. Fazer bem à sua “menina”. Ela precisava de companhias assim. Depois de informar a rapariga que a mãe tomara vários comprimidos e aterrara num sono de pedra, Genoveva convidou Ricardo para almoçar. O rapaz aceitou. Todo o tempo que estivesse perto de Célia não só a protegia como lhe sabia bem. Especialmente quando ela apareceu em fato de treino e rabo-de-cavalo, pronta para se esmerar na cozinha. A governanta tinha outras coisas à espera e agradeceu sobremaneira. Toda a sala ainda estava desarrumada. Ou pelo menos não ao seu gosto. Havia marcas de copos nos móveis, cinzeiros por despejar… Enquanto esperara que Célia aparecesse, tinha feito muito, mas faltava ficar tudo impecável. Por isso deixou-a a tratar do bacalhau com natas e foi para a sala e resto da casa arrumar. Célia gostava de cozinhar. Fazia-o bem, depois de tantas vezes observar Genoveva, enquanto fazia trabalhos da escola, ou a desenhava por prazer. O que não contava foi que Ricardo se juntasse a ela a colaborar. Num, todo iam-se completando nas tarefas, exactamente fazendo-as como equipa. O que a levou por momentos a sorrir feliz, em todas aquelas horas tristes, metendo-se com ele.

- Quem veja parece que fizémos sempre isto juntos. – Disse, ao pôr o tabuleiro no forno.

- E isso é mau? – Respondeu ele voltando-se, enquanto acabava de pôr a mesa para três.

- Não! Muito bom. Não estou acostumada a ter gente da minha idade aqui. Assim, então…

Ricardo reparou no semblante dela, melancólico. Não condizia com o sorriso algo descontraído. Por momentos sentiu uma infinita vontade e abraçá-la. Percebeu como devia ser difícil ser filha única de pais já “idosos”, numa família tradicional daquelas. Mas conteve-se. Foi no preciso momento, que ela reparou ter-se esquecido de pôr o pão ralado, por cima no bacalhau e se queimou ao fazê-lo, que ele se precipitou para a ajudar a pôr a mão debaixo de água corrente, que tudo se alterou.

- Que desastrada! Eu… Distrai-me contigo. Estava tão feliz que…Esqueci-me de tudo.

- Hum… Distraiste-te…Comigo?

- Sim. Também podíamos comê-lo sem o pão ralado e…Mas…

As cabeças estavam tão juntas, olhos nos olhos. As mãos de ambos debaixo da água corrente. A respiração batia na cara do outro, quente! E quando ele lhe afastou o cabelo da cara, deixando um rasto molhado na pele, roçando-lhe o dedo nos lábios, o beijo aconteceu. Desta vez ainda mais intenso. As mãos dele, molhadas entraram-lhe por baixo da camisola, sentindo-lhe o tremor do corpo. As dela aterraram-lhe no peito percebendo-lhe o desenfreado do coração. Ele estreitou-a tanto, como se a quisesse fazer parte de si. Ela não se afastou e deixou-se ir. Num momento a porta da cozinha trancou-se com a corrente de ar. Eles nem se aperceberam. Ricardo beijava-a, saboreava-lhe os lábios, a orelha. Suspirava-lhe nervosamente no pescoço. Queria-a! Ela correspondia, arquejante. No minuto seguinte, quase se amavam completamente. Célia não via qualquer semelhança entre o que lhe acontecia e Gui… Mais! Começava a capacitar-se que apaixonara seriamente. Mas foi Ricardo que, tenho a força necessária para parar e onde estava, se afastou, fazendo-a criar também noção do que estavam prestes a fazer. Mal tiveram tempo de se recompor, Genoveva assomava e batia à porta apressada.

- Então! Tudo bem aí dentro?

-Tudo bem, por aqui e a senhora? – Respondeu Ricardo com uma naturalidade invejável a abrir-lhe a passagem.

- Desculpem! Abri uma janela lá dentro para arejar e deve ter feito correspondência. - Afirmou Genoveva a espiar Célia com olhos de lince.

A rapariga estava um pouco corada, mas respondeu.

- Estava-nos a saber bem o vento. Aqui está um calor… Do forno! Mas, deve estar quase pronto.

- Pois! Cheira muito bem. – Concluiu Genoveva a sorrir.

 

Verniz Negro

Trilhos Privados – XI - Paixão

O telefone tocou três vezes antes que Heng atendesse. Com a voz estremunhada de sono atendeu:

- Estou, quem fala?

Responderam-lhe em mandarim. Heng devolveu a resposta na língua materna. Depois dirigiu-se à casa de banho onde tomou um banho, rapou a barba e acabou a sua higiene pessoal. De seguida vestiu um fato escuro, escolheu uma camisa branca com monograma e optou por uma gravata de seda com traços regimentais ingleses de tons escuros.

A noite fora muito longa. Fora-lhe extremamente difícil adormecer. Sempre que fechava os olhos só via a face de Célia. E aquele olhar de quem vive num permanente suplício. Pairava no seu íntimo uma pergunta à qual ele ainda não obtivera resposta. Como é que Célia tinha ali chegado? Porque vivia naquele mundo paralelo?

Desceu até à sala de pequeno almoço onde já se encontravam os seus fieis companheiros. Sentou-se à mesa e pediu sumo de laranja, torradas e café forte. Comeu em silêncio, pois o seu pensamento não se encontrava ali entre aquelas paredes luxuosas e de imenso requinte. Quando acabou a refeição ligou o telemóvel e fez uma chamada. Esperou que atendessem.

- Bom dia, Heng.

- Bom dia Nunes, está tudo bem?

- Está. Estamos a sair para ir à reunião.

- É melhor não vires…

Do outro lado um primeiro silêncio. Depois uma voz mais revoltada, acusou:

- Tu estás a brincar não estás? Eu gosto pouco de brincadeiras…

- Não estou a brincar, não. Acontece é que ainda não recebi resposta dos meus chefes… quanto às vossas propostas. E sem isso não há reunião.

A verdade é que nem Heng nem os seus assessores haviam comunicado qualquer informação a Pequim. Mas isso Augusto Nunes não sabia. Este, preocupado e pressionado para um entendimento rápido, sentiu que algo lhe escapava. Mas não sabia o quê.

- Bom, fico a aguardar evolução neste processo – concluiu Augusto.

- Muito bem. Assim que saiba alguma coisa ligo-te e combinamos nova reunião.

Heng desligou e sem comunicar à sua equipa dirigiu-se à recepção.

- Necessito alugar um carro…

- Com certeza senhor Yong. Com ou sem motorista?

O asiático pensou um pouco e respondeu:

- Sem!

- E tem preferência por alguma marca?

- Um Mercedes se for possível. Com mudanças automáticas.

- Sim senhor, vou já tratar disso.

Meia hora mais tarde Heng dirigia-se para a morada que se lembrava de Célia. Inscreveu o nome no GPS do carro e este indicava agora o caminho. Conduzia depressa e sem medo. Sabia que muita coisa podia depender da sua rapidez de decisão. Entretanto aproveitou o caminho e ligou para a China. Rapidamente contou como correra a reunião do dia anterior e apresentou as vantagens e os perigos daquele negócio. E obviamente necessitava de novas indicações.

Quando desligou, tentou falar à sua equipa mas esta não atendeu, o que o surpreendeu sobremaneira. Temia que eles começassem a perceber que ele tinha outros interesses para além dos negócios e que esses interesses, envolviam saias. Pelo GPS do carro, percebeu que já estava perto da casa de Célia. Quando entrou na rua notou no fundo um ajuntamento. Estacionou e foi a pé até à moradia. Um magote de gente de negro vestida, espalhava-se pelo jardim. Heng aproximou-se devagar, vestiu a face com um ar pesaroso e penetrou na casa. Esta era ampla e arejada, bem mobilada com gosto. Por todo o lado espalhavam-se móveis e objectos de boa qualidade, impecavelmente limpos e dispostos. Um quadro com uma senhora de chapéu enfiado na cabeça e ar pesado, assumia uma pose quase ditatorial. Talvez fosse alguma antepassada... O chinês foi serenamente entrando até que penetrou numa enorme sala, onde as pessoas se juntavam em grupos. Ao meio podia ver-se um caixão aberto ladeado por dois círios acesos. Num fauteil de veludo azul escuro, sentava-se uma senhora totalmente vestida de negro e que chorava em silêncio e a seu lado um jovem afagava-lhe as mãos trémulas e brancas. Heng olhou-a e quando Célia levantou os olhos, deu um salto da cadeira.

Em meia dúzia de passos chegou-se ao chinês. Os seus olhos chispavam lume de comprometida. As mãos crispadas. Mas estava linda, naquele seu longo vestido negro…

- O que está aqui a fazer? Por favor deixe-me enterrar o meu pai…

Heng em voz baixa apenas lhe disse:

- Não venho aqui para lhe fazer qualquer mal… mas para a defender…

Célia quase que riu:

- Defender? Defender de quem? Eu não tenho medo de ninguém e muito menos de si.

Foi a vez dele rir:

- E se fosse do Gui?

 

José da xã

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