Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Uma dúzia...

Faz hoje precisamente 12 anos que abri este espaço apenas com a ideia de desviar para aqui os textos que não tinham, a meu ver, cabimento neste meu blogue.

Actualmente é uma espécie de armazém de escrita intimista e a com qual tento dar mais um passo no caminho da excelência!

Entretanto este ano ousei desbravar caminhos diferentes em termos poéticos. Escrevi imensas quadras em diferentes desgarradas (pena que mais gente não tenha entrado na brincadeira) e mal versejei diversos sonetos.

Inventei uma família atípica e meio desconfigurada para corresponder a um desafio lançado por uma esta bloguer amiga ao mesmo tempo que respondia a outros desafios que em breve verão a luz do dia em forma de livro.

Ao todo foram publicados, neste último ano, somente 67 postais, portanto... coisa pouca...

Em jeito de remate final cabe-me agradecer a todos quantos aqui vieram ler e comentar. A escrita só tem mesmo verdadeiro valor se for lida. Nem que seja apenas por uma só pessoa.

Fiquem bem e a gente lê-se por aí!

"To do list"

Resposta a este desafio da Ana

 

O jovem Ano Novo dormia após uma noite de alegria. Ainda chegou a tempo de alisar as alvas longas barbas do Ano Velho, que para sempre dormia já e por isso não lhe colocou a questão que tanto o atormentava agora que era o Ano mais novo: como é envelhecer em 366 dias?

Uma voz entrou na sua cabeça zoando:

- Tu até tens sorte vives mais um dia que os outros…

- Quem está aí?

A voz respondeu com uma invulgar doçura:

- Estarás a falar de mim?

- Sim esta conversa… eu estou a escutá-la dentro de mim…

Pela primeira vez o Ano Novo teve medo. As mãos suaram, a pele eriçara-se, o coração batera acelerado.

- Não temas que eu não te farei mal. Só quero o teu bem…

O ainda infante Ano Novo acalmou por fim, mas não se sentia ainda descansado e por isso decidiu:

- Vou procurar espalhar todos os dias uma semente de vida recheada de ternura, compaixão e alegria, pelos céus do Universo.

Na manhã seguinte todo o Mundo se admirou com o que caía do céu… Não era neve, nem folhas secas das árvores, nem algodão… apenas singelos laivos de esperança!

Os Felícios! #10

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Episódio 6

Episódio 7

Episódio 8

Episódio 9

O ambiente em casa da família Felício não era o melhor, principalmente desde as festas natalícias onde ninguém recebeu o que gostaria de ter recebido.

De tal forma as coisas estavam desconfiguradas que as refeições faziam-se sempre aos pares. Primeiro pai e mãe e mais tarde os filhos. O grupo de uotessape que havia sido criado deixou de ter actividade.

Na véspera do Ano Novo, Maria Felícia e Mário Felício saíram de casa sem sequer se despedirem dos pais. O pai ficou tão furibundo que nunca mais falou aos filhos.

É neste mundo azedo que vamos reencontrar a família Felício com o pai a chegar agora mais tarde porque os tais “uberes” faziam grande concorrência aos taxistas originando que os clientes fossem muito menos. Valiam, ainda assim, algumas avenças previamente contratadas …

Felícia passou a lavar as escadas do prédio abichando com isso algum dinheiro que ajudava nas contas. Entretanto os filhos continuavam a viver lá em casa, mas sem qualquer compromisso financeiro… E como estava tudo de “telhas às avessas” também a roupa dos jovens deixou de ser lavada e passada a ferro. Amontoava-se à porta dos quartos.

Resumindo naquela casa a confusão era generalizada!

Certa noite Felícia escreveu para o marido:

- O jantar está na mesa!

- Vou já, vou só lavar as mãos!

Durante a refeição só se escutava os talheres a bater nos pratos. Mas há muito que era assim… Todavia o peso da ausência dos filhos tornava aquele momento ainda mais triste. Foi a mulher que munindo-se da maior coragem que tinha, tocou no braço do marido, chamando-o à atenção, dizendo:

- Temos de acabar com isto – e apontou para o telemóvel.

- Porquê?

- Porque somos pessoas e não máquinas…

O marido nada disse. Para depois acrescentar:

- E eles? – e fez um jeito com a cabeça apontando para dentro de casa referindo-se aos filhos.

- Eles? Façam o que quiserem. São maiores e vacinados!

Novo estranho silêncio. Entretanto a porta de entrada abriu-se. Felícia olhou o relógio de parede a pilhas, de origem chinesa e estranhou a chegada de qualquer dos filhos àquela hora.

No momento seguinte apareceu na cozinha Maria Felícia com uma cara que parecia ter sido atropelada. Olheiras enormes onde se percebia a maquilhagem toda esborratada, o cabelo desgrenhado e as mãos numa tremedeira parecida a quem sofre de “delirium tremens”.
Admirados com aquele aspecto físico e psicológico os pais levantaram-se rapidamente da mesa e chegando perto da filha perguntaram de viva voz:

- O que passa Maria Felícia?

A jovem sentou-se devagar na cadeira, mas não respondeu. Escondeu a face suja entre as mãos e desatou a chorar.

A mãe foi buscar um copo com água e deu-lhe a beber. Finalmente sentou-se a seu lado e voltou a questionar:

- O que se passa contigo?

A filha ergueu o olhar para a mãe e respondeu:

- Há um novo Felício a caminho!

Primeiro o choque depois a alegria:

- Que bom, querida. Estamos mais ricos…

- Pois dizes tu… - devolveu a filha.

Depois rematou:

- Que telemóvel vou dar eu à criança? Não sei o que fazer!

Bom dia alegria

Dedicado ao Padre J. um amigo de caminhos e de vida no dia do seu aniversário

Alegria pela vida que temos
Pelo sol que vimos nascer.
Alegria pelo que somos
E pelo querer sempre viver.

Alegria pelas flores,
Também pelas incertezas.
Alegria pelas dores
Sinal das nossas tristezas.

Alegria por este Deus
Que nos convida a sermos
Mais que aos meus e teus
A todos... nós amarmos.

Alegria pelo caminho
Que já fiz contigo.
Alegria pelo carinho
De seres real Cristo amigo.

Quadras biográficas! #1

Nasci nu disseram-me

Em terras de Lisboa

Depois vestiram-me

Umas vestes à toa.

 

Filho único nasci

E assim fiquei eu.

Jamais mano eu vi

Nem com o mito Morfeu.

 

Aos seis anos era

Caixa de óculos, sim!

Uma alcunha bera

Que eu sentia em mim.

 

Longe de aluno bom

Triste noite e dia.

Acordei assim ao som

Da alma que sofria.

 

Mudei o meu vil rumo

Para pobre poeta.

Palavras sem aprumo

De coração pateta.

 

Foi nas letras que senti

O pulsar de mim mesmo

Escrevi e escrevi

Minhas dores a esmo.

Giz-barbeiro! #3

Resposta a este desafio

Parte 2

Após o demorado almoço decidi apresentar aos meus amigos os restantes animais! Já haviam conhecido as galinhas e os coelhos, mas faltavam aqueles com quem andava diariamente pelas charnecas e lameiros.

Fomos a pé, todos be⁸m agasalhados que o frio por aqui não é para brincadeiras. Por vezes até neva! Estava ainda longe do curral a já escutava o balir triste das ovelhas todo o dia presas.

Os borregos foram obviamente a sensação e os alvos preferidos das miúdas. Ficaram mais tristes quando lhes comuniquei qual o destino provável das crias. Mas eu também tinha de ter algum rendimento.

A tarde tornou-se plúmbea por uns algodões celestiais vindo da serra. Comuniquei:

- Não seria pior irmos para casa? Não tarda chove e está muito frio.

Já entre paredes iniciámos a preparação da célebre consoada. Na horta a tardoz cortei algumas couves que trouxe para casa num braçado gigantesco.

- Ai tanta couve... Mas vem cá mais gente? - perguntou Isabel num sorriso maroto.

- Não, mas prefiro que sobre a que falte. E se sobrar vai para as galinhas... Aqui nada se desperdiça!

O curioso desta tsrde foi a postura de Joca... Estava distante, afectuoso, mas diferente! Assumi que fosse da emoção, mas em breve perceberia o porquê:

- Precisamos falar!

- Mau rapaz... que tom de voz grave é esse? Que se passa?

- Podemos ir para ao pé da lareira enquanta elas tratam da janta?

- Claro... Mas estás a deixar-me preocupado.

- Não te preocupes... é que é Natal e não sei o que gostas... e vai daí não te trouxe prenda nenhuma para te oferecer. Tenho para as miúdas e para a Isabel, mas tu...

- Oh homem... deixa-te disso! Não quero nada! Como vês não tenho televisão, computador, nem telefone fixo. E só tenho telemóvel porque posso precisar de ajuda quando ando por lá sozinho!

Depois apontei um velho aparelho:

- À noite oiço umas notícias naquele velho rádio e mais nada! Os livros que me mandas chegam!

- Pronto antes assim mas estava preocupado.

Num cagagézimo de segundo mudou a postura:

- E escrever,  hem? Quando começamos?

Ri.

- Estás a rir de quê?

Fui à gaveta e retirei o velho caderno e mostrei-lhe. João abriu-o devagar para logo exclamar:

- Uau que desenho mais bonito... Quem fez?

- Não imagino, mas isso que aí está escrito é a letra da minha avó Pureza. O desenho não sei se foi ela, mas desconfio que sim!

Continuou a folhear o vetusto caderno e parou no que eu escrevera. Leu devagar para logo perguntar:

- Falta o resto...

- Pois falta! - admiti - Necessito de inspiração.

- Puxa pelo bestunto, companheiro!

Mudámos de assunto até que lhe perguntei:

- E filhos, não queres?

A face mudou de tom e eu logo percebi que algo estava menos bem. Sem insistir mudei de conversa:

- Desculpa lá, dá-me aí esse tronco se fizeres favor. Está-se aqui bem, não está?

- Não posso ter filhos...

- Tens duas meninas - apressei a devolver.

- Um problema qualquer que eu tenho... nem com tratamentos...

- Tem calma, não fiques triste... não estás só como eu...

Joca deu-me outro abarço e continuámos a matar saudades de outros tempos.

Finalmente a ceia. Ou Consoada. Que eu havia muitos anos não fazia questão em comer diferente. Mesa posta mais perto do lume e iniciámos o jantar.

Até que de repente tocou o sino da aldeia:

- A tocar a rebate? - perguntou Isabel.

- Calculo que estarão a chamar os fiéis para a missa do Galo!

- Oh nunca fui a nenhuma...

- Mas podes ir hoje...

As meninas ficaram alvoraçadas:

- Podemos ir, podemos ir?

- Claro... mas só depois de comermos.

Fazia muito tempo que não estava com tante gente a jantar. E muito menos em casa. A refeição correu rápida e as meninas seguiram para a igreja. 

- Podes ir Joca...

- Eh pá tu sabes que nunca fui muito de alinhar nestes credos.

- Eu também não. Mas reconheço que muitas vezes são verdadeiros apoios psicológicos - assumi.

- Ai acredito! Mas vão elas e a gente fica aqui a arrumar a cozinha. 

- Boa ideia!

Era perto da meia-noite quando uma algazarra entrou na casa. As meninas vinham excitadas com a noite.

- Este é mesmo um Natal especial, pai! - disse Filipa abraçando o meu amigo.

De súbito um silêncio entrou na sala. Não tendo percebido acabei por perguntar:

- O que se passa?

Isabel aproximou-se de mim e de olhos rasos de lágrimas confessou:

- Foi a primeira vez que a Filipa o tratou como pai!

Nem comentei pois percebi que aquele momento seria apenas deles. Entretanto a esposa desaparecera da sala, regressando com alguns sacos que poisou no chão. Depois e como não havia árvore de Natal... apenas a jarra com o giz-barbeiro foi lá que encostou cada prenda sobre os sapatos.

- Joca, este embrulho é para a Filipa e esta é para a Sara.

Chegou a hora de abrir as prendas. A excitação ao rubro por parte das meninas mais novas. No sapato de Isabel um pequeno embrulho que esta abriu devagar quase temendo o que lá estaria. Finalmente abriu uma pequena caixa de veludo onde encontrou um anel com um brilhante. Levantou o olhar para o João e parecia perguntar algo:

- É um anel de noivado! Queres?

As lágrimas corriam pela face bonita de Isabel que só soube dizer:

- Sim, claro que sim! - e beijou o noivo!

Entretanto as meninas nem tinham dado pelo caso e só souberam mais tarde. Sara ria muito e perguntava na sua inocência:

- Vais ser o meu pai verdadeiro?

- Sim, se quiseres...

- Quero, quero muito!

Afastei-me por que achei aquilo um tanto lamechas e sendo eu quase um eremita percebi que me deveria afastar. Fui à cozinha e trouxe um moscatel velho para comemorarmos. Peguei em três copos e na botelha e quando cheguei, Joca parecia também chorar. Disse para comigo:

- Isto dava para uma estória de cordel...

João viu-me e quase correndo para mim trazia uma papel na mão. Confessou:

- O Natal fez o milagre...

- Ainda acreditas nisso?

- Agora mais do que nunca - e mostrando o papel, continuou - vou ser pai!

- Como?

- Esta é uma imagem da ecografia do meu José.

- Ups! - Exclamei espantado.

- Sim será José como tu.

Mas nem tive tempo de falar. As miúdas tinham vindo à rua buscar algo e regressaram gritando:

- Está a nevar, pai. Está a nevar!

Pronto, pensei eu, já tenho o meu Conto de Natal!

 

FIM

Giz-barbeiro! #2

Resposta a este desafio

Parte 1

Naquela véspera de Natal levantei-me de madrugada, por volta das cinco e meia! No fundo fiz o que faço há diversos anos, já que o gado não dá férias nem um mero fim de semana ao seu tratador!

Vesti a roupa perfumada de bedum e que sempre deixo em lugar fora de casa, peguei nas chaves dos cadeados do curral e entrei na madrugada ainda escura como bréu! Corria uma brisa gelada que me obrigou a aconchegar a roupa ao corpo ainda quente da cama.

Desta vez não iria com as ovelhas em busca de erva gelada, mas encheria as manjedouras com muito feno seco e algumas malgas de favas! E ficariam o dia todo no curral. Aproveitei para ordenhar algumas mães para mais tarde entregar o tarro repleto na tia Celsa que me faria como ninguém uma série de maravilhosos queijos!

O relógio da Matriz tocava oito badaladas no preciso momento que notei um anormal movimento de gente à frente do portão da minha austera casa. Não apressei o passo, mas naquela aparente família alguém me pareceu familiar. Os gestos das mãos, aquele jeito da cabeça... Aproximei-me lentamente.

- Joca?

O outro rodou meio círculo e vendo-me estendeu os braços num amplexo que juntaria muitos anos de afastamento físico.

- Eu mesmo. Dá cá um abraço... valente!

Abraçamo-nos durante muitos segundos até que nos separamos e olhamo-nos em silêncio. Fui eu que desboqueei:

- Estás na mesma João Carlos!

- Estás devidamente autorizado a tratar-me por Joca, como sempre o fizeste! - deu uma gargalhada daquelas que eu já tinha saudades!

- Que fizeste aos anos? Olha para mim e estas cãs...

- Isso é sinal de charme... Quanto aos meus anos... olha vivi-os.

Nova risota franca para finalmente rematar:

- Antes que eles me vivam a mim!

A assistir àquele espectáculo três caras femininas. Joca chegou-se a elas e juntou-as num abraço e comunicou-me:

- Estas meninas e tu são a minha única família.

Temendo dizer algo que não devia, acabei por as cumprimentar, iniciando pela mais velha:

- Viva como está, muito gosto em conhecê-la - e estendi a mão

Mas a senhora, como fosse minha irmã, chegou-se a mim e pespegou-me dois beijos na face, enquanto denunciava:

- Sou a Isabel e conheço-te sem nunca de ter visto. Tu tens sido um exemplo para o Jo... João que fala de ti como um irmão!

- Amabilidade sua...

Sem levar em conta a minha resposta apresentou-me as outras meninas, claramente filhas.

- Esta é Filipa de treze anos e aquela mais novita é a Sara de seis.

Baixei-me e cumprimentei:

- Olá meninas bem vindas à minha humilde casa.

Depois abri os braços e convidei:

- Vamos para dentro que aqui está muito frio!

Desbravei caminhos, portas e deixei que todos entrassem na casa.

- Desculpem esta minha postura minimalista, mas como estou sozinho...

Convidei então:

- Quem me quer ajudar a acender a lareira?

- Eu, eu, eu - responderam as meninas em uníssono!

- Então vamos buscar lenha...

E virando-me para Joca quase ordenei:

- E tu meu mariola, trás para aqui o teu carro. Abres os portões, enfia-lo aqui dentro e carregas as coisas para dentro de casa.

Joca:

- Ok chefe... quem sou eu...

Já não tinha recordação da casa com tanta gente. Num instante a minha lareira, daquelas enormes, foi acesa para logo se sentir o calor crepitante e desigual do fogo.

Mais uma vez desculpei-me:

- Como disse sou demasiado minimalista e como qualquer coisa. Daí parte das coisas se encontrarem fechadas naquele louceiro, mas podem usá-las à vontade. Provavelmente necessitam ser lavadas.

Isabel interveio:

- Não te preocupes... tudo se resolverá!

De súbito:

- Ai o que iremos comer hoje ao almoço? Almoçam e jantam cá certo?

- Claro companheiro. Para a consoada estamos preparados...

Ocorreu-me:

- Vocês gostam de feijão frade?

Sara perguntou:

- O que é?

Ups e agora? Que deveria responder? Passei a mão pela cabelo a ver se encontrava uma resposta. Depois devolvi:

- É um feijão muito pequeno, mas muito saboroso. Tenho a certeza que irás gostar... Anda comigo!

Todos me seguiram até à loja por detrás da casa. Aqui encontra-se uma velha arca de madeira meio repleta de feijão frade apanhado no Verão anterior. Peguei na malga e enchi um saco.

- Creio que chega! Vamos lá pô-lo em água. Depois vamos cozê-lo.

Entusiasmadas as crianças seguiram-me por todo o lado. Até à capoeira onde retirei alguns ovos que as miúdas adoraram pegar!

- Mãe, mãe ainda estão quentes!

Era uma da tarde quando o almoço foi servido: feijão frade, ovos cozidos e pimentos fritos em azeite e alho. Uma conversa alegre alastrou-se na enorme mesa de castanho. Até que questionei Joca:

- Mas tu nunca me disseste que eras casado e tinhas duas filhas?

- Porque não era e nem as tinha... - e riu-se com gosto.

Depois segurando a mão da mulher confessou:

- As meninas são filhas do primeiro casamento da Isabel!

Esta interveio:

- O meu primeiro marido faleceu de um acidente de viação há quatro anos.

- Lamento!

- Não lamentes nada, pá! - disse Joca a rir.

Para rematar:

- De outra forma como teria eu estas flores?

 

Parte 3

Giz-barbeiro!

Resposta a este desafio

Por esta altura do ano, invariavelmente, o Joca (sei como ele detesta este tratamento agora que somos velhos!!!) telefona-me. Entre muitos temas que falamos há um que é recorrente.

- Será este ano que leio um conto teu?

- Tu és um bocadinho teimoso, não?

- Serei? Talvez, mas nota que não teimo sozinho!

- Deixa-te disso! Sabes bem que não compro essa ideia!

Joca é jornalista e andámos juntos na escola durante diversos anos. Num desses períodos a professora de português, a Dona Elvira, uma santa e viúva senhora, lançou um concurso para as melhores composições sobre o Natal. O concurso acabou por ser alargado a toda a escola surgindo centenas de textos.

A minha composição também foi a concurso, mas porque foi o Joca a inscrevê-la sem a minha prévia autorização. O resultado foi divulgado no último dia de aulas antes das férias de Natal e o premiado vencedor… fui eu!

Desde esse dia o meu amigo passou a insistir para que escrevesse amiúde, coisa que jamais aconteceu, acima de tudo porque no final desse ano lectivo fui transferido para o interior do país.

O meu pai, operário de profissão, fora despedido por encerramento da fábrica e perante a escassez de dinheiro e trabalho teve a ideia de regressar à aldeia que o vira nascer. Fomos todos…

Se durante os primeiros meses a coisa pareceu complicada, quando o meu pai conseguiu trabalho na Quinta do Leal, tudo se tornou bem melhor!

Regressei à escola, agora já sem Joca para me atentar o juízo, mas depressa desisti de estudar. A minha paixão pelo gado levou-me a passear os animais pelas charnecas e encostas da quinta que aceitara meu pai!

Uma vida que ainda hoje sigo, ora sem prestar contas a ninguém! Na verdade, a enorme herdade, após a morte do velho dono, foi vendida por um punhado de notas e mais tarde definitivamente abandonada, porque as terras querem quem as trate com carinho e paixão.

Hoje a casa é um monte de escombros invadida por hera e alaga-cão, o pinhal, esse, ardeu há uns anos e ainda está por cortar, as oliveiras cresceram, entretanto, desmesuradamente e o resto… são frondosos silvados sem controlo!

O telefonema costumeiro foi há uns dias, mas hoje lembrei-me do João Carlos ou Joca, para os amigos e do seu insistente pedido: quando escreves um conto de Natal?

Andava pelas terras a pastorear uma centena de ovelhas, muitas delas acompanhadas das suas bíblicas crias, quando percebi por debaixo de um silvado, por onde havia fugido um animal, um tufo de giz-barbeiro! Fazia muito tempo que não via esta planta tão campestre!

A minha falecida avó Pureza é que costumava, por esta altura do ano, andar pelos campos em busca deste selvagem arbusto. Quase com meiguice cortava uns ramitos donde se destacavam as bagas sempre vermelhas e já em casa colocava-os numa jarra que ornamentavam o presépio.

Recordei esses Natais, vividos há tantos anos…

Nessa altura já havia abandonado a cidade e os estudos. Mas nunca a leitura. De vez em quando recebia uma encomenda de livros vindo de Lisboa. Sabia que era o Joca… que mos fazia chegar como prenda de Natal. Aquele mariola… era um bom amigo!

Peguei no giz-barbeiro e com o canivete cortei os pés que tinham mais bagas. Sorri porque naquele segundo me senti imensamente feliz! Sabe sempre bem recordar quem amámos, mesmo que já tenho feito a derradeira viagem.

Já tarde e depois de gado ordenhado e guardado coloquei num aparador o ramo silvestre, devidamente enjarrado. Fiquei a olhar aquele verde salpicado de vermelho redondo quais pérolas rubras, enquanto na lareira velha e negra ardia com fervor um cepo de mimosa.

Escrever um conto de Natal? Quem leria? O Joca, a namorada, o pai da namorada? Ou simplesmente ninguém.

Levantei-me da vetusta cadeira que já fora do meu avô Patrício e procurei na cristaleira, onde deixei as fotos mais antigas em molduras de pau-santo (quem diria?), umas folhas brancas. Encontrei um velho caderno de folhas fritas pelo tempo e humidade.

Não sei porquê aquele caderno pareceu-me familiar… Provavelmente já lhe pegara para retirar alguma folha em branco… Abriu-o e na primeira página o meu nome escrito com letras grandes e bem desenhadas.

- Esta é a letra da minha avó! Lembro-me bem dela!

Página dois! Li:

- Um conto de Natal.

Ri com gosto pela bizarra coincidência para na página seguinte dar conta de um desenho a lápis de cor! Era um ramo verde de giz-barbeiro repleto de bagas vermelhas tão bem desenhadas que quase pareciam verdadeiras.

O desenho tinha por baixo uma assinatura. Um mero rabisco, que ao invés do resto era quase indecifrável. Mas antes uma pequena frase que me deixou petrificado:

- O meu desenho de Natal!

E a mesma letra redonda e perceptível da minha avó Pureza.

Virei mais uma página que estava, desta vez, vazia e comecei então a escrever. O caderno pequeno foi ficando ocupado de letras, frases, parágrafos, no entanto não está completo pois eu ainda não escrevi nele o meu conto de Natal!

giz_barbeiro.jpg 

Parte 2

Os Felícios! #9

Resposta a este convite da Ana

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Episódio 6

Episódio 7

Episódio 8

O Natal aproximava-se à velocidade de uma bota de sete léguas como rezava a antiga estória de Perrault!  Por isso Mário Felício e Maria Felícia andavam numa fona desde o início do mês de Dezembro com óbvias referências ao que gostariam de ter no Natal próximo.

De vez em quando a menina mais nova escrevia no uotessape: Desculpem algum erro, mas este aparelho já deu o que tinha para dar... Tenho de ver se arranjo outro nem que seja em segunda mão (Maria Felícia sabia do pânico que a mãe tinha em comprar coisas em segunda mão!).

Mário Felício pelo seu lado era mais subtil e respondia assim à irmã: Não sejas idiota... esse telemóvel terá pr'aí um ano. Se tivesse uma consola para jogos com cinco anos... ainda terias razão.
Entretanto Felício e Felícia faziam-se de surdos e cegos não dando qualquer seguimento às conversas dos filhos.

Na verdade pagavam da mesma moeda que os infantes haviam entregue aos pais aquando da campanha da azeitona, de má memória.

O Natal chegou enfim com a costumada alegria da época. Alguns acepipes na mesa, uma garrafa de tinto daquele especial que Maria Felícia trouxera do supermercado onde havia semanas era caixeira e uma lampreia de ovos, o doce preferido do chefe do clã.

A família Felício não fugiu à ancestral tradição e logo pela manhã a troupe juntou-se de volta da árvore de Natal pouco iluminada. No chão ao redor sapatos velhos, mal cheirosos e uns embrulhos.

Mário foi o primeiro a pegar na prenda que encontrou sob o seu sapato rôto. No entanto achou estranho que não fosse uma caixa maior, mas imaginou alguma brincadeira familiar.

Rasgou o papel colorido e logo percebeu que não teria o que imaginara. Ao invés desembrulhou um belíssimo cachecol de malha do Clube Desportivo e Cultural de Alguidares de Baixo.

Uma fúria nasceu dentro de si justamente quando a mana viu a sua prenda e ria a bom rir.

Mas quando Maria foi abrir a sua e descobriu que em vez de um novo telemóvel (como quase pedira!) recebera um conjunto de costura, rapidamente perdeu o sorriso para enorme gáudio do irmão. 

No mesmo instante ambos olharam o casal de pais. Estes riam apenas.

Depois o Felício escreveu:

- Feliz Natal. Bonitas prendas, hem!

Logo veio a resposta. Mário primeiro:

- Tens cá uma graça!

Seguiu-se Maria:

- Sim, muito bonita a minha prenda. Tal qual a tua cara.

Entretanto Felícia abre a sua prenda e encontra um avental todo giraço!

Mas para o pai estaria guardado o melhor naco de fantasia. Aberto o embrulho o táxista encontra uma capa para o seu telemóvel.

- Boa malha! - escreve no uotessape.

Depois abre o involucro e constata que este tem o símbolo do clube que Felicio detesta.

Recua dois passos, deixa cair todo o corpo no velho sofá enquanto diz em tom furibundo:

- Que gentinha velhaca!