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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 16.09.12

Sentido dos dias – Descoberta XXVIII

Assim que desligou o telemóvel Maria da Graça sentou-se na velha cadeira da livraria e tapou a boca num espanto desmedido. Calculava que a ida do pai a Angola, não era no mínimo inocente mas aquilo… Tinha de falar com os irmãos, contar-lhes da novidade. Pensou na mãe. Lá longe para onde fora a correr quando soubera do estado do marido, sozinha a lidar com uma miríade de acontecimentos. E agora já regressada... A sua voz calma a contar-lhe ao telefone, porque tinha de desabafar. A pedir-lhe para reunir os irmãos para conversarem todos. Coitada! Como conseguia ela, ser aquela mulher impressionante e sacrificada? Pegou novamente no telemóvel e ligou a João, o irmão mais novo e com ela tinha uma relação de muita proximidade. Esperou que atendesse, não obstante ainda ser cedo.

- Estou Gracinha, bom dia.

- Boa dia mano, como estás?

- Acordado – e riu numa gargalhada sonora e bem disposta que a irmã gostou de ouvir.

- Tenho enormes novidades para te contar.

- E são boas?

- Não sei, tu próprio analisarás…

- Então diz-me.

- Sabes aquela ideia idiota do pai ir a Angola?

- Sim sei…

- Não era tão idiota como isso.

- Então?

- O pai quando esteve em África na guerra teve lá uma namorada.

- Mas isso já desconfiávamos… Hum… cheira-me que essa história tem outros contornos…

- Pois tem! A mãe deu de caras com uma outra realidade.

- Coitada… Mas diz-me o que passa.

- Temos dois irmãos gémeos…

Um silêncio foi tão grande que Maria da Graça, chamou:

- João! Estás aí?

- Estou sim… - a voz parecia mortiça e triste.

- Então o que se passa?

- Levei um murro nos estomago.

- Pois calculei.

- Eu sempre percebi que o pai ia à procura de qualquer coisa. Jamais pensei que fosse de dois filhos.

- Mas o pai também não sabia…

- Não? De certeza?

- Não! Apenas tinha conhecimento da gravidez da senhora com quem teve uma longa história de amor. Quando regressou na altura à metrópole ela disse-lhe o estado em que estava mas o pai temeu que ela apenas estivesse a tentar prendê-lo.

- E o pai viveu todos estes anos na dúvida…

- Exactamente. E quando se sentiu mais doente pretendeu esclarecer todo esse passado.

- Mas a mãe sabia da existência dessa senhora?

- Sabia!

- Ui! Agora entendo algumas atitudes e conversas …

- Que conversas?

- Quando miúdo ouvi diversas vezes a mãe a solicitar ao pai que mudasse de maneira de ser, que ela não aguentava viver com aquela tristeza permanente dele.

- Não admira que assim se sentisse – desculpou Maria da Graça.

- Então a mãe descobriu isso tudo?

- Um dos médicos que está a tratar do pai é um dos rapazes…

- Ena que coisa estranha… Então e agora?

- Agora não sei…

- E já falaste à Ana?

- Ainda não… Tu sabes que ela vive naquele seu mundo do teatro muito especial e sempre ligou pouco a todos nós.

- Eu sei eu sei, mas tens de lhe contar…

- Pois tenho, mas mais logo.

- Queres que vá ter contigo aí à loja?

Ela queria . Mas custava-lhe dizer. Mas ganhou coragem e respondeu:

- Sim gostava muito… Sinto-me agora que sei que tenho mais dois irmãos, mais só!

- Mais só? Então e eu? Não conto?

- Contas João contas… Mas falta-me algo…

- A nova descoberta não te deu grande alegria.

- Pois não… Falta-me o sentido dos dias.

E desligou.

 

José da Xã 

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por José da Xã às 13:26


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