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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sentido dos dias – Maria da Graça XXII

 

Quando a mãe lhe comunicou que o pai ia a Angola, Maria da Graça apenas perguntou:

- Mas porquê Angola?

- Isso pergunta-lhe tu, se quiseres… - descartou-se Helena.

A relação entre a filha e o pai sempre fora de altos e baixos…  Se bem que Pedro não fosse um pai ausente era todavia um homem distante dos filhos. Ou pelo menos era essa a ideia que aparentava. Só que com a Maria da Graça, o alfarrabista usava de alguma indolência. Com o tempo ambos ficaram mais próximos de tal forma que a rapariga só estudava na loja, onde passava longas horas a seguir ao liceu e mais tarde à faculdade. De tal forma assim era que todos os momentos disponíveis para ambos eram usados para ler velhos e bons clássicos a que se seguiam naturais discussões sobre as ideias oriundas das obras…

A jovem admirava-se com o pai, nascido e criado em Trás-os-Montes e sem qualquer formação académica superior, discorria com saber as suas ideias e opiniões. Também sabia da escrita mas jamais solicitara ler o quer que fosse. Preferia-o assim…

A ideia peregrina do pai, em ir a Angola tornara-se para si um mistério. Sempre soubera das vicissitudes que o antecessor passara por terras de África numa guerra infame e injusta. Mas isto não lhe parecia razão suficiente para partir de Portugal… A não ser!

Foi nesse instante que a dúvida se instalou na mente de Maria da Graça. Havia claramente um passado na vida do pai relacionado com Angola e que não se chamava Guerra Colonial. Mas o que seria?

Perguntar-lhe directamente seria um erro enorme e que ele desvalorizaria com qualquer desculpa esfarrapada. Haveria que ter tacto, saber conduzir a conversa, ladear as questões importantes tentando dar relevância ao supérfluo.

Maria da Graça cedo percebeu que a mãe sabia das razões da viagem mas não as pretendia divulgar. Estava no seu pleno direito de esposa e mãe. Mas ela como filha já adulta necessitava saber. Não que o tentasse dissuadir a partir, isso não! Se algo conhecia do pai era a sua profunda teimosia.

Foi apoiada no conceito de que o pai lhe revelaria as coisas sem saber, que se aproximou de Pedro Rafael num fim de tarde chuvoso e muito sombrio. A chuva miúda e muito fina quase parecia pó e chuva caia suavemente sobre o seu guarda-chuva. Saíra de casa decidida em desvendar o mistério da partida do pai. Todavia tinha de pensar como abordar o assunto sem que ele se melindrasse ou fugisse consecutivamente às respostas. Foi pelo caminho remoendo ideias e mais ideias, e sem vislumbrar algo que sentisse fantástico para iniciar a conversa, deixou que o seu espírito encontrasse as perguntas certas apenas quando chegasse perto do pai.

Quando chegou, o livreiro acabava de receber um cheque de um dos velhíssimos amigos de Hermínio, que continuadamente apareciam na loja em busca de algo estranho ou bizarro. Conhecendo-o cumprimentou:

- Ora viva Dr. Meireles… Bons olhos o vejam.

O ancião elevou os olhos a cobertos de umas grossas lentes para as faces formosas de Maria da Graça e percebendo quem era devolveu:

- Olha a minha querida menina… Como está?

- Bem… E o meu amigo?

- Impecavelmente... Desde que o seu paizinho me arranje algo para ler… - e riu mostrando uma enorme ausência de dentes. Depois partiu levando um saco cheio de livros estranhos. Pedro pode finalmente cumprimentar a filha:

- Olá cachopa. Que vieste aqui fazer com este tempo?

- Nem sei paizinho! Quer crer? Ando preocupada com a minha vida… só isso.

- Preocupada? Como assim?

- Sabe… O meu trabalho não é muito interessante… Gostava de… outra coisa…

- Que coisa?

- Não sei realmente… Olhe sabe, necessito de aventura!

- Aventura? Mas tu endoideceste?

- Não senhor. Estou a pensar em partir para uma missão católica em África.

A última palavra de Maria de Graça fez o pai mudar de tom… E de atitude…

- Nem penses! Eu não te deixo ir… - disse com rispidez.

Tocara-lhe no ponto fraco. Agora bastava desbravar este enigma. Sem fazer caso das ultimas palavras de Pedro, Graça continuou:

- Na igreja está-se a formar um grupo de missionários para partirmos para África e como sei que o pai andou por lá, sei que na guerra, queria saber a sua opinião entre Angola ou Moçambique.

Pedro quase espumava. Tentava acalmar-se mas não conseguia… Sentiu o coração bater mais forte e sentou-se. Não podia ser… A filha também… Sentiu que tudo andava à roda e caiu por cima da secretária.

Maria da Graça correu lesta para o pai, sabendo dos seus problemas cardíacos:

- Paizinho, pai… Acorde, por favor… - batia-lhe ao de leve da face tentando reanimá-lo.

As pestanas tremeram e finalmente acordou:

- Pai, paizinho – chorava Maria da Graça – Estás bem?

Pedro respirou muito fundo e disse numa voz cava:

- Estou filha, mas peço-te não vás para Angola…

- Porquê meu pai?

- Porque deixas lá o coração!

 

José da Xã

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