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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

Sentidos dos dias - Humilhação XXI

Helena não dormiu bem toda a noite. Encontrou o marido pior que pensaria. À sua cabeceira um médico. Mais tarde, nesse dia, conheceria um outro. De cor, jovem ainda. O primeiro mais idoso, informou-a que o rapaz era seu interno e  teria todo o interesse em te-lo ali. Quanto a ele era um futuro portento da cardiologia. Acumulando também, conhecimentos sobre a medicina paralela e naturalista, que muitos povos de África possuem como "legado."  Helena não ficou muito bem impressionada com o jovem clínico. Pareceu-lhe algo arrogante ao olhá-la, quase tentou evitar-lhe o aperto de mão. Mas vinha cansada, algo irritada com o clima. Insatisfeita com a conversa de João e aquela coisa dos filhos, que não acabara por elucidar visto que mal o jeep parara, ficaram rodeados de gente. Frades e ajudantes, mais a confusão de malas e instalações. Depois as novidades e por fim... Pedro!

Parecia ter envelhecido mais cinco anos. Helena sentiu os olhos marejados de lágrimas ao ver o marido, mas fez força para ele não a ver fraquejar. Beijou-o, afagou-lhe o rosto e encorajou-o. Disse-lhe que tinha de se por bom, porque os filhos estavam à espera e os dois, ainda tinham muito para viver. Mas na realidade os fios, máquinas, biombos. Com o soro e montes de artefactos hospitalares, mais um enorme aparelho de ar condicionado portátil a fim de manter a temperatura fresca, deixaram-na esvaída... Mas ao mesmo tempo esperançosa! Aquilo poderia ser um convento, mas aquele quarto agora, parecia mais uma dependência eficiente que qualquer valência de cardiologia. Havia uma enfermeira sempre atenta à medicação, alterações do paciente e quando Helena se afastou por exigência do Dr. Germano (o tal mais velho), com a indicação de que queria falar-lhe, depois de o ouvir com atenção, fez questão de o informar que ela poderia ser dispensada. Com ela ali e sendo mulher dele, fazia questão de tomar conta do marido durante noite e dia, o tempo que ele levasse para poder ser transferido para Portugal. Logo aí recebeu um sorriso quase escarninho e a resposta que a enfermeira se manteria. Ela poderia ser uma mais valia, mas ao mesmo tempo um empecilho. Além de não ter preparação de enfermagem a ponto de substituir a outra profissional, em caso de agravamento, a vinda dela poderia complicar as coisas, uma vez que ela estando ali era uma grande carga emocional. 

Helena ia esbofeteando o homem, mas calou-se e admitiu que a gravidade da situação o requeria. Segundo ele Pedro agora estava, estável portanto seria de evitar qualquer comoção supérflua. Por isso se ela queria ajudar que o mimasse, ajudasse na higiene, alimentação quando ele começasse a comer e até a distraí-lo, mas não falasse de coisas muito emotivas. Não fizesse grande força ou exigência para ele melhorar, sobretudo não o culpasse de estar assim. Helena ficara miserável. Naquela maldita terra parecia ninguém gostar dela, ou achar que a sua vinda fora boa ideia. Raios! Por momentos sentia uns ciúmes doentios e uma vontade de gritar e barafustar! Se ele estava assim fora por causa daquela "preta de merda" que não lhe saía da cabeça. Ainda assim engoliu em seco e o resto do dia e noite, ficou calada e cumpriu tudo escrupulosamente. Tomou um calmante e um analgésico para a dor de cabeça e mal se deitou pensou que dormiria. No entanto ficou a olhar para ele encolhida no seu canto. A ouvir-lhe a respiração pesada, o som da gota do soro a cair diligente e a maldita máquina a trabalhar. A enfermeira que entrou duas vezes para tirar notas e lhe sorriu, saindo tão fantasmagoricamente como entrou. 

E resolveu por momentos ir até lá a fora de mansinho não se afastando das redondezas. A noite era um quadro irreal com a lua, estrelas as palmeiras. O vermelho da terra, o branco das pedras a ladear os caminhos e os odores. Depois os ruídos e um ou outro piar de ave que desconhecia, mais um soçobrar de elefantes que se banhavam muito ao longe nalgum lago perto, quiçá. Todo aquele conjunto de sombras e luzes e cheiros, com os animais pachorrentos e ainda o que ela sabia e poderia lembrar-se, dos filmes que vira de África fizeram-na a custo, curvar-se ao encanto que aquela terra teria provocado no seu homem, a ponto de o encantar para sempre. Ela estava ali há apenas algumas horas e sentia o chamamento. Porém mal recordou Zuleica rangeu os dentes e fechou os punhos. Voltou para dentro, fechou bem a porta e acomodou-se até amanhecer com uma ideia fixa: João ia elucidá-la de tudo o que não lhe contara, mal o dia raiasse ou ela não se chamasse Helena... 

E foi assim que mal se despachou e deixou Pedro "bem entregue", saiu porta fora e foi encontrá-lo a apanhar folhas secas com um ansinho... "Que lata! Até parece que não havia nada de mais importante que empossar-se em jardineiro."

- Bom dia, senhor João. Espero que tenha dormido bem, porque...

Ia morrendo! Não! Não morreria tão depressa e ainda suportaria tudo e mais alguma coisa, mas aquilo? Agora percebia porque Pedro se apaixonara por ela. Era... Linda! Ainda hoje. Mais alta que ela, muito bem feita, e... fina. E aqueles olhos lindíssimos. Com a fala, tão delicada e o sorriso? Franco! Não, isto era inaceitável.

- Olá, D. Helena! Hum... Vejo que chega a tempo de conhecer uma velha amiga. Chegou ontem à tarde com o Dr. Gil. Principalmente porque o Pedro não poderá... Bem, infelizmente está na hora do Pedro e ela falarem. Talvez seja este o único sítio onde o possam fazer, como a senhora sabe.

Helena sentiu-se incendiar. Deviam estar a gozá-la! Era esta ideia de pouca emoção que o seu marido precisava? E desde quando ela vinha, sem a consultarem a si? Passara a noite debaixo de mesmo tecto que aquela...aquela...  

 

 

Verniz Negro

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