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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.

O Sentido dos dias – Partida adiada XVIII

Os anos passaram com a velocidade natural da vida. Quando deu por si Pedro Rafael acariciava as cãs. Ainda se lembrava do seu casamento com Helena e dessa primeira noite e ora mirava os filhos já crescidos a requererem liberdade. Durante todo esse tempo muita coisa acontecera. As guerras indesejáveis com Helena por causa duma história de amor mal resolvida e que ainda o marcava, o azar e sorte de um negócio pouco rentável, um livro começado e ainda não terminado, um destino ainda por encontrar.

Certa noite Pedro deitou-se mais cedo. Colocou as mãos a fazer de almofada mirando o tecto do quarto e numa declaração quase dita de supetão, anunciou:

- Helena, vou a Angola…

A mulher soergueu-se da cama e sem surpresa perguntou:

- E isso é para breve?

Pedro Rafael admirou-se pela forma fria como Helena aceitou a sua vontade. Serenamente  como se fosse a coisa mais normal na vida de ambos, o marido perguntou:

- Queres vir comigo?

Helena esboçou um sorriso e com toda a calma do mundo declarou:

- Creio que já falámos disto diversas vezes. Não quero ir, nem nunca irei a Angola.

- Como queiras… Mas eu tenho de ir, entendes?

Helena não entendia. Aliás, a referência àquele país africano era quase sempre símbolo de desavença conjugal. Só que desta vez estava já cansada e nem se preocupou em dizer fosse o que fosse. Virou-se na cama dando-lhe as costas ao marido numa atitude que Pedro embrenhado nos seus pensamentos nem reparou.

A decisão de partir para África transformou o livreiro. Tornou-se mais afável e mais aberto. Às refeições passou a falar de uma forma mais aberta, rindo e brincando com os filhos. Helena por sua vez sentia-se mais apreensiva. Sabia do passado do marido e daquela história de amor que durante todo o casamento pairara como uma nuvem negra ameaçando tempestade.

Uma tarde ao almoço Pedro agarrou a mulher pela cintura e puxando-a para si, obrigou-a a sentar-se nas suas pernas. Jamais durante o seu casamento Helena fora abordada pelo marido daquela forma. Ainda assim tentou esquivar-se, dizendo:

- Larga-me homem… olha que caio!

Ele riu-se e atirou:

- Se caíres, cais nos meus braços…

Nesse mesmo instante Pedro sentiu um aperto no coração. Faltava-lhe o ar e a dor cresceu. Helena depressa percebeu que o marido tinha algo diferente e perguntou:

- Que tens, homem? Estás tão pálido…

Mas ele não respondeu. De mão no coração Pedro sentia a vida a fugir. Num momento de breve lucidez pediu:

- Chama o 112…

O INEM chegou rápido levando o alfarrabista para o hospital. Após uma bateria de exames foi-lhe diagnosticado um pequeno enfarte. Esforços e outras emoções teriam de ser controladas. E entre elas a viagem a Angola.

Pedro nem queria acreditar. Agora que tinha quase tudo preparado para partir, surgira-lhe aquele entrave. Mas não esmoreceu. Com a mesma coragem com que enfrentara muitas vezes o inimigo invisível por entre a floresta selvagem e o capim ressequido pelo sol quente dos trópicos, Pedro atirou-se a uma nova vida onde não cabia o álcool nem o tabaco. Foram por isso tempos muito difíceis, regressando aquele seu ar melancólico e taciturno.

Recomeçou a escrever o seu livro. Devagar, ao sabor das lembranças e das memórias ia alinhavando textos e mais textos. Porém nem a mulher nem os filhos tinham direito a ler os testemunhos que Pedro ia calmamente desenvolvendo. Sempre que alguém se aproximava lá escondia Pedro por entre a pasta já velha e surrada os seus escritos. A doença obrigara-o a alguma calma e serenidade. Era a Maria da Graça a filha mais velha que tomava agora conta da velha livraria. Também ela adorava refugiar-se naquele espólio. E lia muito do que por lá encontrava. E sonhava tal e qual o pai…

Uma tarde estando já melhor, Pedro regressou à livraria. Encontrou-a sem clientes mas com uma lojista atenta. Por detrás de uma resma de livros que tentava em vão arrumar, Maria da Graça dera conta da entrada de alguém e perguntou:

- Boa tarde deseja alguma coisa?

Quando reparou no pai riu-se e foi acrescentando:

- Que tal um banquinho para se sentar?

Ao que o pai respondeu:

- Olha minha menina aprende que os livros também falam…

Lembrou-se então de Alberto. E riu-se. A filha imitou-o. Pegou então num livro ao acaso e leu o título:

- Bom livro este…

- Como se chama?

 - “Africa Minha”

 

José da Xã

 

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