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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 11.07.12

Sentido dos dias - Coincidências IX

 

Pedro Rafael ia entrar no jipe quando reparou que se esquecera do diário em cima da mesa de cabeceira. Estivera a ler passagens, durante todo o tempo que não conseguia conciliar o sono. A rever lugares, sítios, antecipando tudo que iria agora encontrar e preparando-se de algum modo para isso. O coração já não era o mesmo, embora ainda fosse um homem vigoroso naquela idade. Contudo a "máquina" parecia querer falhar amiúde. Motivo de alguma preocupação do seu médico assistente de muitos anos, que desaconselhara terminantemente a viagem. Todavia, Pedro se não fosse, morreria na mesma. Assim, mais valia se tivesse de ser, morrer "consolado". Pelo menos com a sua consciência tranquila, depois de rever aquela mulher de quem se separara por covardia talvez, mas que vivera todos os dias consigo! Em cada acto, ou pensamento que votava a algo. Portanto desculpou-se perante o amigo e voltou atrás, numa espécie de passo de corrida para o ir buscar. Mas com o calor imenso, logo àquelas horas da manhã, desfaleceu um pouco no átrio, tendo que se apoiar a uma bonita e fresca coluna de mármore. Ir sem o diário estava fora de questão. Lá anotava tudo. Um dia se calhar ainda lhe daria algum dissabor, ou aquando da sua morte, se fosse antes de Helena, ela o lesse, jamais lhe perdoaria o que lá estava escrito. Porém não poderia enganar-se. Nunca atraiçoar-se a si mesmo, já que o fizera a tantos que puseram toda a sua vida e esperança nele.

Um dos empregados da recepção, que acumularia funções com uma colega e lhe tinha feito a admissão no dia anterior, saiu detrás do balcão e veio ver se ele necessitava de ajuda. Pedro Rafael ficou algo incomodado quando reparou que o rapaz, um jovem muito bem apessoado originário sem dúvida do "cruzamento" dum branco com uma negra, cuja pele era dum dourado bonito muito claro, o sorriso bondoso se estendia aos olhos também bastante expressivos, algo amendoados, com uma cor muito peculiar! Castanhos tão transparente, orlados por uma circunferência verde muito bonita, o interpelou. Uma vez que era inválido. Embora "circulasse" rapidamente na cadeira de rodas.

- Necessita alguma coisa, Senhor Pedro Rafael? Um médico. Uma água. O senhor, sente-se bem?

O português era impecável. A mão, fora do que seria habitual, já tinha pousado sobre um dos cotovelos de Pedro com um toque tão doce e prestável, que nem teve vontade de lhe fazer sentir que a familiaridade seria de evitar. Sentado, o rapaz dava-lhe quase pelo ombro. O que o fazia reparar que era alto. Seria bem constituído em pé, munido de força. Atrás do balcão realmente ninguém o diria sentado naquela, mas sim numa cadeira ou banco qualquer vulgares.

- Não, muito obrigado! Isto é natural. A diferença de temperatura é muito grande. O corpo ainda não se me habituou, mas a água seria bem vinda. No entanto tenho um amigo à espera, necessito ir buscar algo ao quarto...Ficará para depois.

O rapaz fez imediatamente sinal a um outro empregado que passava e sibilou uma palavra que Pedro não entendeu logo. Passados segundos o mesmo homem aparecia com uma bandeja e um copo, tendo ao lado uma garrafa do Luso semi fresca, que lhe saberia pela vida.

- Deixe-me por favor ajudá-lo. Sente-se um pouco, aproveite a sua água. Eu, ou um dos meus funcionários, iremos ao seu quarto buscar o que pretende.

Pedro voltou a olhar o rapaz. A face inspirava-lhe uma calma fora do normal. O olhar quase o hipnotizava, mas até confiar-lhe o diário nas mãos...

Quem lhe afirmaria que não o abriria e leria alguma linha? O rapaz voltou a perguntar como se sentia. Fê-lo tão meigamente, a oferecer de novo toda a assistência e disponibilidade que Pedro permitiu. Deu as indicações de onde estava e o que era e sentou-se a refrescar-se um pouco, enquanto mandava uma mensagem a...

- Então, homem? Estou uma carrada de tempo no jipe, a torrar e tu aqui dentro a beber aguinha?

Pedro revelou ao amigo a peripécia. Mal ia a meio as portas do elevador abriram-se e a cadeira de rodas deslizou rápido até perto dos dois. Uma mão estendida revelando um punho de camisa muito branca e bem passada, com umas unhas muito bem tratadas, apresentou-lhe o seu caderno com firmeza. Bem apertado sobre os elásticos.

- Era isto que lhe faltava, suponho? Espero ter sido breve o suficiente para não ter causado qualquer atraso suplementar.

Pedro estava admiradíssimo. O homem tinha ido e vindo num segundo, como conseguira tão rápido? Seria impossível ter-se perdido em contemplações no quarto, ou se atrevido sequer abrir o diário, porque o percurso do elevador era bem célere também. Mas o que o admirou mais foi a pergunta do amigo.

- Jorge... André? És...Tu?

O rapaz sorriu e acenou afirmativamente. Antes que João começasse com mais perguntas, ou evasivas esclareceu que trabalhava ali e tinha sido promovido a gerente há dois dias. Que a família estava bem. Ao que João quis saber se ainda no mesmo sítio. O jovem sorriu e acrescentou se ele achava possível viverem noutro lugar. Nunca! E logo de seguida, opinou, que talvez fosse melhor meterem-se ao caminho, uma vez que o sol daqui a pouco tão alto, não permitiria grandes distâncias. João riu-se, deu-lhe uma palmada amigável nas costas e virando Pedro também, já na direcção da porta começou a caminhar enquanto dizia.

- És um miúdo fantástico. Parabéns pelo novo cargo. - E já no umbral das portas de vidro que se afastavam para passarem gritou. - Dá cumprimentos à tua mãe!

Pedro, ainda atónito e já o veículo arrancava a toda a brida, inquiriu:

- Conhecesses o rapaz e a família? São alguém dos nossos tempo por acaso?

 

Verniz Negro

 

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por José da Xã às 14:17


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