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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Domingo, 24.06.12

Sentidos dos dias IV - Regresso

Através dos cabogramas Pedro denunciara a sua chegada à metrópole. Mil dias haviam passado desde que pusera os pés em Luanda. E agora de regresso tudo lhe parecia tão diferente. Deixara havia muito de ser um menino quase imberbe a quem haviam dado uma arma para matar. Os obuses e rajadas de metralhadora, as vísceras dos companheiros ao ar, as pernas e braços estropiados, haviam feito de Pedro Rafael um homem duro e quiçá frio. Muitos que com ele regressavam no paquete Infante D. Henrique falavam de saudades das suas terras, das famílias, das namoradas, saudades de tanta coisa… Mas Pedro falador por natureza quando partira da Metrópole, tornara-se silencioso e ouvinte. Curiosamente não tinha saudades de Portugal… Ou melhor passava a ter saudades de Angola. Do que lá ficara… Da inocência perdida e duma mulher…

Um mar de gente espalhava-se pelo cais da Rocha de Conde de Óbidos naquela tarde plúmbea a ameaçar chuva. Milhares de mãos acenavam do cais nem sabiam para quem. Bastava levantar a mão!

Pedro sentado em cima de caixas de cerveja Cuca fumava um cigarro, vício que o tomara no meio do mato. Quantas vezes passara horas e horas de sentinela, tendo apenas o paivante como companhia. O navio atracou. Todos acorreram ao portaló de saída onde fora colocada uma prancha. Rafael deixou-se ficar para o fim… De quando em vez um companheiro passava por ele a correr e perguntava:

- Então “Rafa” não vens? Olha que já chegámos.

- Já vou, já vou… – respondia em voz serena como fosse outra a vontade. E provavelmente era…

A multidão inicial parecia desaparecer e ele que era dos últimos, depressa viu a mãe e o pai. Que choravam, que riam, que se benziam.

- Deus seja louvado, é o nosso menino…

Um abraço envolveu-o parecia uma carcaça, dum lado a mãe que o devorava com beijos, do outro o pai sempre austero mas lavado em lágrimas… Foi a primeira vez que Pedro Rafael viu o pai chorar.

- Filho, filho… chegaste bem… Deixa-me olhar para ti. Estás tão magrinho…– a mãe.

- Então rapaz como correu isso por lá? Ganhamos a guerra ou não? – o pai.

Filosofias de vida tão diferentes e às quais Pedro apenas queria dizer: Basta!

Mas não podia, nem devia. Faltava ele falar. Mas não lhe apetecia. Um fotógrafo apareceu e tirou uma foto aos três. Depois entregou um papel a Pedro dizendo:

- Passe pela minha loja a partir de amanhã à tarde para levantar a fotografia. Nesse papel está a morada.

E lá ia ele à procura de mais vítimas.

O silêncio mantinha-se… Aquele cheiro do pai a esterco das ovelhas acordou-o:

- E vocês como estão por cá? Ena mãe está cheia de cabelos brancos…

- Pois estou meu filho! E tudo por tua causa… Mal escrevias… e quando o fazias dizias tão pouco. A mãe de Asdrúbal todos os dias recebia carta do filho…

Só faltava a crítica, pensou… Mas eles tinham razão. A sua vida em Angola não fora só guerra. Muitos sentimentos haviam ficado por lá. Mas agora não havia nada a fazer. Pensou em Zuleica, nas noites que passara com ela, nos sonhos que com ela sonhara, nos desejos que ambos haviam projectado.

Entretanto lembrou-se da madrinha de guerra, que o queria conhecer. E estaria ali à sua espera. Olhou em redor e a multidão quase que dispersara por completo. Ao longe uma mulher de mala na frente das pernas parecia aguardar. Pedro Rafael aproximou-se e perguntou:

- Boa tarde é a dona Helena?

A mulher ergueu os olhos e Pedro viu pela primeira vez um olhar simples e terno daquela que seria a sua mulher.

- Sou a Helena sou… É o Pedro Rafael?

- Em pouca carne e muito osso… - e riu-se.

O militar apresentou os pais e dali partiram devagar. Nem sabiam para onde ir… O pai olhou o velho relógio de bolso e confirmou:

- Comboio para o Porto só às oito da noite. Ainda temos muito tempo até lá.

Mas o filho não estava para regressar:

- Pai eu daqui a dois dias tenho de estar em Lisboa no quartel. Eu vou ficar lá. Quando for desmobilizado regresso então a casa. Mas hoje não posso ir. Mal lá chegue tenho de voltar para trás…

Foi um choque para os pais. Mas o filho tinha razão: ir e vir eram quase dois dias até Campo de Víboras. O tempo que tinha para o descanso. Assim caminharam todos até à estação de Santa Apolónia e ali ficaram os quatro à conversa horas a fio. Até que o comboio para o Porto partiu e com eles os pais de Pedro Rafael, descansados e felizes pelo bom regresso do filho.

- E a menina como vai para casa?

- Vou a pé. Tenho uma tia aqui na Graça e vou lá dormir - e olhando para o relógio exclamou – ai tâo tarde…

Para Pedro não havia horas. Tinha umas notas pequenas que tinha ganho ao jogo na viagem de regresso e podia dormir numa pensão.

- Posso acompanhá-la até a casa?

- Pode, claro.

- E diga-me há lá uma pensão perto?

- Até mais que uma.

Pedro desconhecia o caminho, assim:

- Para aonde vamos, então?

 

 

José da Xã

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por José da Xã às 21:51



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