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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 05.06.12

Trilhos Privados XXVI - Desconfiança

Célia ficou completamente em pânico. Se dissesse mais uma palavra que fosse, implicaria Guilherme e o horror de ele exercer qualquer tipo de represália sobre a mãe ou Genoveva, foi demasiado para suportar. E havia... Ricardo que as levava e trazia! Mal pensou nele, uma violentíssima dor de cabeça toldou-lhe o espírito, numa branca colossal. Prendeu-lhe o discurso, que a fazer, não seria correcto ou inteligível. O mau estar despoletou-se, como se houvesse engolido toneladas de azeite cru. Um tambor ecoava-lhe nos miolos. E a crise de amnésia, atacava-a subitamente, ao ponto de deixar de saber onde estava, por segundos. Zeca terá reparado no olhar meio tresloucado. Na desorientação momentânea. O leve cambalear, que o sofrimento talvez mais martírio em que a rapariga estava, a deixava para lá do normal. No preciso momento em que o policial a ia interpelar sobre se necessitava beber alguma coisa, descansar um bocado, um carro já seu conhecido fez uma travagem aparatosa junto dele e da jovem. De dentro, o seu condutor saltitou apressado. Com muito bom humor dirigiu-se à rapariga. De caminho foi cumprimentando efusivamente Francisco que pensou: "Hum... Olha o passarão!" Mas manteve o ar alheio, que lhe permitia aparentar uma certa distanciação, até alguma burrice.

- Bom dia, querida! Fui a tua casa buscar-te mas a tua governanta disse-me que trouxeras o carro. Miúda! Não paras de me surpreender. A conduzir tão cedo, depois dum choque tão grande, amor. Mas... Quem é o teu amigo? Muito bom dia para o senhor também.

E vai de abraçar Célia. Pespegar-lhe um valente beijo na boca virando-a de costas para Zeca, o que o fez desconfiar, ainda mais. Mal se separaram ela parecia realmente ter recuperado a consciência, mas não era o agir normal de quem o esperava. Aquela familiaridade... Falava por reticências. Sorria nervosa. E ele quase não a deixava pronunciar-se, quase a obrigou a assentir, quando a intimou a entrar na escola de novo com ele, sobre pretexto de irem ao Gabinete da Direcção. Célia completamente apanhada de surpresa reagiu. 

- Mas... Já lá fui! E... Tu...Tens de ir... lá?! Também?

A admiração e entoação na voz dela, manifestou completa estranheza e confirmou o alarme. Este facto, soltou a pulga atrás da orelha de Zeca que muito pouco convencido com aquele à vontade, do tipo, aproveitou logo a deixa.

- E pode saber-se porque foste chamada à Direcção, Célia? Já agora... O jovem também?

A calma do homem e intromissão nos seus "esquemas", irritaram Gui que a bastante esforço, se controlou respondendo.   

- Não, meu. Problema algum em dizer. Coisas de putos desocupados que metem outros ao barulho, estás a ver. Mas que tipo de relação paternal, terás com a minha namorada que ainda desconheço?

Francisco sorriu. O tipo situara-se onde o queria. Picar-se e deixá-lo evidente, não fora inteligente. Ainda assim o irmão de Genoveva esclareceu.

- Bem! Não será também muito trabalhoso esclarecê-lo, meu amigo. Não sou nada à Célia como família. Mas o facto da minha irmã trabalhar na casa dos pais dela há mais de vinte anos, a ter visto crescer ( e eu também), sabermos que o pai morreu e ela e a mãe estão sozinhas no mundo, ao alcance de algum meliante menos bem intencionado, já fará com que eu e a minha irmã, passemos a ser mais que parentes. Tipo protectores... "Estás a ver...Meu?" - Fez especial ênfase na frase que o outro dissera.

Depois disto Gui disfarçou melhor, mas por meio de gestos persuasivos e olhares ameaçadores fez Célia segui-lo. Zeca percebeu e desvalorizou. Ficaria por perto. Além disso tinha de fazer um outro telefonema. Assim que ele e a miúda desapareceram, pegou no telemóvel.

- Mana! Sou eu. Fala-me do namorado da Célia. Hã... Como não sabes. O quê? Hum... Não! Este não é moreno, nem tem olhos azuis... Pois! Como eu pensava. Fica tranquila, mais tarde falamos. Não! Não te preocupes, eu mantenho-os debaixo de olho.

Assim que desligou o aparelho tremelicou com entrada de mensagem. Zeca, leu!

"O alvo foi localizado como pretendido, primeiro em Sintra depois....Aqui! Quando te vi guardei distância, aconselhável. Espero ordens!" O irmão de Genoveva ficou ultra satisfeito. Como sempre o seu colega e colaborador, estava a fazer um óptimo trabalho e com a ajuda de Deolinda...Ia ser canja desvendar aquilo!

 

Verniz Negro 

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por José da Xã às 10:01



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