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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Segunda-feira, 28.05.12

Trilhos Privados XX - Medo

O dia fora extenuante. Os acontecimentos na sua vida precipitavam-se a uma velocidade supersónica. Sempre sonhara em ter uma vida cheia, mas aquilo fora demais… A sua beleza natural sempre atraíra muitos rapazes, como a luz atrai os insectos. Mas a maior partes deles eram uns idiotas convencidos, aramados ao “pingarelho”, com a mania que sabiam tudo sobre as mulheres. Mas Célia, mais por defeito do que por feitio, ligava pouco aos imberbes dos seus colegas, sentindo-se claramente mais à-vontade com jovens mais velhos. A doença prematura do pai, bloqueara-lhe todas as possibilidades de sair do País em viagens de férias. Mas por outro lado odiava parecer que não conhecia nada. Assim Célia desde muito nova, fazia apontamentos sobre viagens de sonho que nunca realizou. Se muitas das suas colegas lhe invejavam a beleza e a formosura, Célia, em silêncio, invejava-lhes a liberdade. E para que nunca duvidassem dela, assumia sempre uma postura arrogante e maior parte das vezes um olhar distante, como quisesse dizer que não era falsa… O problema é que de vez em quando, Célia acabava por entrar em contradição entre o que contara tempos antes. Nessa altura assumia aquele seu ar de menina empertigada e acusava em tom alto:

- Estás, a chamar-me mentirosa’?

As outras encolhiam-se  e acabam por aceitar a versão de Célia. Ou como dissera certa altura uma das suas poucas amigas: vencida mas não convencida! Mas a vida em poucas horas dera-lhe alguns ensinamentos, que muita gente demora a receber e a entender. Célia percebeu que não era dona da sua vida. Estava presa a um tipo, que sem dó nem piedade a queria em esquemas esquisitos, que ela jamais imaginara que houvessem, quanto mais ser ela uma referência naquele momento. Pensou então em Ricardo e na forma como ele a defendera. Mas primeiro como a recebera no carro: distante e quase mudo. Mas parecia ser um rapaz às direitas. Trabalhador e estudante, era (devia ser) um exemplo para ela. Mas faltava qualquer coisa. Não era charme, que isso tinha com fartura e beleza, também não, pois Ricardo era muito bem-parecido. E se começava a gostar dele... Célia, no seu quarto repleto de figuras de artistas de qualidade duvidosa, olhava o firmamento negro salpicado por pontos brancos. Depois uma série de questões vieram-lhe à cabeça de forma pateta:

- e se Ricardo não fosse quem era?

- e se ele estivesse conluiado com Gui

- e se…? E se… ?

Nem sabia o que pensar e pior, muito pior, em quem confiar… A sua ganância em tentar ser alguém, que não era, trouxera-lhe um sem número de dissabores. E o medo? Aquele sentimento que lhe fazia gelar as mãos em segundos… A jovem órfã, deitada na sua cama, desviou o olhar do céu e optou por um quadro que se encontrava na parede ao fundo da sua cama e onde podia ler:

- Carpe diem

Em voz alta traduziu:

- Goza o dia…

De súbito ouviu dois toques na porta do seu quarto:

- Quem, é?

- Sou eu, a Genoveva. Venho trazer-te um copinho de leite quente. Hoje quase nem jantaste…

Encaminhou-se para a porta e escancarou-a:

- Entra, minha amiga…

A governanta abriu a boca num sorriso. Em tantos anos, fora a primeira vez que Célia a tratara com tanta familiaridade e afecto. Uma evolução que pareceu positiva. Podia ser que o choque da morte do pai tivesse acordado Célia para a realidade do mundo. Colocou o pequeno tabuleiro em cima da mesa  e despediu-se:

- Até amanhã, riqueza…

- Até amanhã, Genoveva. Dorme bem.

Genoveva saiu e fechou a porta atrás de si. Célia levantou-se da cama e agarrou a caneca de leite morno. Foi beberricando e pensando em como poderia mudar a sua vida e a dos que a rodeavam. De repente o telemóvel tocou. Pensando que fosse Ricardo correu para o aparelho. Mas não conheceu o número. Por isso deixou tocar até que desistissem. Aquilo também não era hora para telefonar a ninguém. Só se…

No momento seguinte um sinal sonoro diferente no telemóvel, do toque de chamada, avisou-a de mais uma mensagem recebida. O número parecia ser o mesmo da chamada. Mas ao ler o texto, ficou sem pinga de sangue. As suas mãos gelaram ao mesmo tempo que um ligeiro fio de suor lhe escorria da têmpora. Leu em surdina como se não acreditasse:

- Amanhã muito cedo terás uma surpresa. Bico calado, se fores abordada! Ou então as fotos na “net” e nos jornais serão uma realidade. A decisão é tua! Gui

 

José da xã

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por José da Xã às 00:13



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