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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Terça-feira, 15.05.12

Trilhos Privados – VIII A primeira vez

Quando Heng entrou no Bentley, não sabia para onde o levavam. Apenas recebera a informação de que alguém viria ter com ele. Andaram alguns quilómetros por estradas secundárias com relativo pouco trânsito até que pararam num pequeno aglomerado de frondosas árvores, com moradias, quase todas cercadas por muros altos evitando assim olhares demasiado curiosos. Augusto saiu e Heng imitou-o. Da estrada olhou à sua volta e pode ver a serra de Sintra e o mar.

Heng Yong não sentia medo mas apresentava algum desconforto. Primeiro porque não avisara a restante equipa que o acompanhava deste encontro. Segundo, necessitava com alguma urgência da documentação que usaria para as negociações. Assim e antes de entrar na vivenda, Heng disse:

- Tenho de avisar a minha equipa que estou aqui. Eles podem vir cá ter?

- Podem desde que venham sozinhos… Não gostamos de curiosos. Ou melhor nós vamos lá buscá-los. Avisa-os para estarem à nossa espera à entrada do hotel. 

O asiático pegou no telefone ligou a um dos outros e falou-lhes em mandarim. Penetraram finalmente na moradia. Ao lado esquerdo da entrada abria-se uma enorme sala de jantar com uma mesa posta para almoçar. Mas Heng ainda não tinha fome. Comera no avião e com a questão do jet-leg perdera o apetite. Em frente, uma escadaria larga levaria com certeza a outros aposentos. Mas foi à direita que se dirigiram onde encontraram um mesa enorme com lugares definidos por copos e pequenas garrafas de água. 

Sentaram-se ambos á mesa em amena cavaqueira recordando episódios, colegas, professores da faculdade. A sala ampla e mobilidada de forma austera, era ainda aquecida por um enorme fogão de sala, onde ardiam grossos troncos de sobreiro. Estáva-se em Outubro e um inesperado frio glaciar invadira Portugal.

Heng olhou para o relógio. Augusto percebendo algum constrangimento acabou por dizer:

- Calma Heng, estamos à espera do teu pessoal.

Heng nem sabia que dizer. Aquilo parecia mais retorcido que uma retorta de alambique. Finalmente chegou a sua pasta e com ela apareceram mais dois homens que ele jamais vira. Augusto apresentou-os:

- O Dr. Veloso e o Dr. Trindade… - apontou para os recém-chegados.

O chinês cumprimentou-os com deferência dizendo:

- Heng Yong em representação da International China Enterprises…

Iniciaram então os trabalhos que duraram o resto da manhã e toda a tarde com o almoço pelo meio. Todavia Augusto Nunes a meio da tarde, aproveitando alguns momentos de pausa para café e chá, aproximou-se de Heng pegou-lhe no braço e levou-o para uma zona da casa mais reservada. Aqui virou-se directamente para o antigo colega e falou de modo a não deixar dúvidas:

- Heng, eu mais que tu quero este negócio bem feito. Há muita coisa em jogo… - fez uma pausa, baixando o tom de voz – para além do dinheiro. Política meu amigo, política. E como tu sabes, política significa poder…

O comanditário sabia ao que vinha, por isso respondeu-lhe:

- Nada tenho a ver com isso. Estou aqui para defender quem em mim depositou confiança. Jamais os trairei…

Voltou para a sala deixando Augusto à beira de um ataque de nervos…

A reunião seguiu o seu rumo até quase ao fim da tarde. A noite já era uma realidade e Heng olhou para o relógio. Estava na hora de sair.

- Meus senhores, creio que é hora de pararmos. Perante todos estes novos factores aqui apresentados terei de falar com a minha equipa e pensar melhor neste assunto. Marcamos nova reunião para amanhã no meu hotel por volta das dez. pode ser?

E sem aguardar qualquer responta continuou:

- Até lá vamos pensar nestas propostas. Boa tarde e obrigado.

Pegou na mala e saiu da moradia. Um vento vindo da serra de Sintra arrefecera ainda mais o fim de tarde. Já fora do gradeamento encontrou os seus homens a quem pediu para o levarem ao hotel. Odiava chegar atrasado a qualquer lugar. Ainda por cima tinha uns convidados muito especiais para o jantar.

Eram 8 horas em ponto quando Heng Yong entrou na ampla sala de jantar acompanhado das suas silenciosas sombras. No fundo da sala uma mesa redonda era já ocupada por outros dois asiáticos e uma loira espampanante de quem Heng não gostou. Todavia cumprimentou:

- Boa noite minha senhora, a sua beleza ofusca-nos.

- Olá sou a Miriam! – disse a loira sem polimento, numa voz esganiçada que quase irritou o recém chegado.

Depois sentou-se à mesa com os seus compatriotas e ficou a falar em Mandarim. O tempo passava e a sua companhia não aparecia. Olhou o telemóvel e nada, nem uma mensagem. Os seus amigos começavam já a perguntar se ele trazia alguém com ele. Ao que respondeu que sim, mas parecia estará atrasada. Pediu champanhe.

Os ponteiros moviam-se sem parar e a fome começava a dar os primeiros sinais. Foi Miriam a primeira a falar:

- Vocês só falam e não se come… Tenho fome.

Heng comprometido, começava a denotar algum nervosismo. Pegou no telemóvel e ligou:

- Gouveia? Estou há 45 minutos à espera da companhia e até agora ainda não apareceu ninguém.

- Desculpe mas tive de a ir mandar buscar por outra pessoa. E devem-se ter atrasado. Vou tentar saber e já lhe ligo…

De súbito entrou na sala uma rapariga alta de vestido branco, com um decote pronunciado e de uma beleza que até doía. Um empregado aproximou-se dela e apontou para a mesa dos chineses.

Hang estava ainda de pé ao telefone e quando a viu, emudeceu. Jamais vira mulher tão bela e tão formosa.

Porém os olhos dela diziam qualquer coisa… de estranho. Logo atrás dela surgiu Gui!

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por José da Xã às 12:22



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