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José da Xã

Escrever mesmo que a mão me doa.



Quarta-feira, 25.01.12

Contos Breves - A Pedra Quente - III

    Maria Clementina ou Tininha como os mais chegados lhe gostavam de chamar era a mulher mais bonita da aldeia. Os seus longos cabelos negros caíam-lhe pelas costas como de um xaile se tratasse. Os olhos, duas azeitonas maduras e a tez morena da pele concorriam com uma qualquer cigana nómada. Por detrás do seu sorriso aberto e franco surgiam os dentes alvos e perfeitos. Adorava a vida do campo e sobretudo as ceifas. Porém era mulher para pegar na guincha e escavar toda a horta se isso fosse necessário.
    Uma viuvez precoce deixara Manuel Funcho com três filhos bem pequenos para criar e educar. A mais nova tinha apenas alguns meses de vida quando ficou órfã, sendo assim entregue pelo pai à avó materna que a criou como da própria filha se tratasse.
    Os anos correram com a rapidez da juventude, mas com imensas ralações para os avós da neta mais nova. Esta ainda muito jovem enamorou-se perdidamente por um morgado da vila. Homem mais velho e conhecedor da vida, dando ares de galã e sussurrando palavras quentes, em breve tomou a cachopa como sua mulher, numa cerimónia discreta.
    Contudo em breves meses de matrimónio, a bonita rapariga percebeu que o agora marido só a pretendera para sua esposa como se de uma cabeça de gado se tratasse e em breve passou a carregar para cima da jovem fidalga algum desdém e considerável indiferença. Mas a este fidalgo estava reservado uma impensável queda de um cavalo alazão e que lhe provocou a morte repentina e prematura. Assim de um momento para o outro Tininha passou a ser tratada por dona Clementina e as vastas terras do marido passaram para a sua posse.
    Nas veias da viúva corria, no entanto, sangue fervilhante de novas aventuras amorosas que rapidamente veio ao de cima. E um ano após o falecimento do marido, a fidalga casava novamente. Desta vez com o José Gaio, um quarentão solteiro, enquanto a noiva pouco mais tinha que vinte anos mas de um espírito bondoso e afável e sem saber como caíra de amores pela nobre e esbelta senhora.
    Porém o casamento da fidalga teve momentos impróprios para a ocasião. Esta, durante a cerimónia e duma formalidade indiscreta não desviou o olhar do padre, que era novo e galante, havendo arribado à aldeia poucas semanas antes. Todavia arrastava consigo a fama e o proveito de pecar na carne e rapidamente percebeu que a noiva o contemplava gulosamente. Assim, na primeira confissão à recém-casada aproveitou para demonstrar os seus dotes de mulherengo. E num ápice Clementina passou a visitar o novo padre com alguma frequência. Demasiado, segundo opinião de algumas mulheres mais velhas e beatas.
    Certo dia o marido, naturalmente admirado com as constantes saídas da esposa perguntou-lhe:
-    Onde vais, Maria?
-    Vou a casa do Prior, confessar-me – respondeu sem hesitar.
    Tininha era esperta e sabida. De tal forma que sempre que vinha do leito do padre e antes de chegar a casa, sentava-se numa pedra granítica estrategicamente posta à entrada do quintal e dessa maneira arrefecia as partes mais quentes para que o marido jamais desconfiasse das suas aventuras e acima de tudo da traição.
    Porém certa noite na taberna, quando o vinho falou mais que a cabeça, José Gaio foi avisado pelos amigos, que a sua mulher visitava com frequência a casa do Padre e que este tinha fama e proveito de garanhão.
    Alertado, o marido enganado, empreendeu a jornada de espiar a esposa para ter a certeza que esta o traía. E assim, uma manhã, comunicou à mulher:
-    Maria arranja-me aí um farnel que eu vou à vila comprar semente. Só devo chegar à noitinha.
     A mulher preparou a merenda do homem num instante e entregou-a acompanhada de falsas palavras:
-    Homem vê se não vens tarde. É que eu tenho medo de ficar aqui sozinha.
-    Deixa, que eu venho, logo que me avie – devolveu José a mentira.
    Fez-se ao caminho, acompanhado de duas burras lanzudas. Quando o monte tapou a aldeia, José cortou repentinamente por uma vereda que seguia até uma propriedade que ficava por detrás do seu enorme quintal. Aí chegado após atravessar lameiros e hortas, saltar regueiras e muros, aproximou-se cuidadosamente das traseiras da sua casa e vigiou os futuros acontecimentos.
    Por volta da hora do almoço apercebeu-se de que a mulher saía, levando consigo um escrinho à cabeça. José, cautelosamente, seguiu-a à distância e asseverou que a esposa entrara na casa do padre. Este desfrutava duma pequena habitação rodeada por um jardim bem cuidado e de fácil acesso. O marido introduziu-se por fim no quintal de forma sorrateira e confirmou, para seu imenso desgosto, por entre cortinas de rendas, a traição da mulher. O primeiro impulso foi irromper pela casa dentro e apanhá-los em flagrante, mas naquele momento a cabeça foi mais serena, do que o coração alvoraçado pretendia e aguardou a altura certa para dar uma lição à traidora.
    Quando Maria Clementina regressou a casa e se sentou no seu costumado lugar reparou que as burras que o marido levara para a vila já pastavam pachorrentamente no lameiro. Apressou o passo e entrou em casa onde encontrou o marido à mesa tasquinhando um pouco de fogaça com um naco de queijo. Espantada com a rapidez da jornada do homem, perguntou:
-    Então Zé, o que é que aconteceu para vires tão cedo? Não chegaste a ir à vila? - o coração batia tão violentamente, com medo que o marido descobrisse a traição, que quase nem respirava.
-    Não fui, não. A meio do caminho encontrei o Manuel da Tia que regressava de lá e avisou-me que as sementes ainda não tinham chegado, só para a semana...
Acrescentou então, mentindo:
-    Mas só cheguei há pouco.
    A consorte respirou fundo e acalmou, finalmente. Nos dias seguintes reservou-se somente para o seu marido, fazendo a lida da casa, tratando da criação, bordando um lençol de linho branco, aquecendo a cama e o corpo do companheiro.
    Certo tarde estava José comendo um botelo bem temperado, quando ouviu uma voz na rua, cantarolando:
-    Passarinho trigueiro salta cá para fora...
    Clementina conheceu a voz, corou e escondeu a face não fosse o marido vê-la assim tão rubra. Gaio assomou à frente da casa e percebeu que as palavras tinham a mulher como destinatária. Após o almoço esta pareceu mais nervosa do que o costume. Até que arranjou forças e disse ao parceiro:
-    Homem! Não sei que diabo tenho hoje. Vou à capela rezar e se estiver o padre, vou-me confessar.
-    Sim, vai, vai. Está um frio danado e não me apetece sair. Vou ficar por aqui, ao lume.
    E assim Maria regressou aos seus encontros amorosos com o padre. Todavia, ao contrário do que havia dito, José foi ao quintal e com perícia retirou a pedra que servia de assento à mulher quando vinha do padre e levou-a para a lareira onde a deixou aquecer ao lume forte e intenso. Quando por entre as cortinas vislumbrou a silhueta feminina e esbelta da esposa, subindo o carreiro de acesso a casa, foi numa correria colocar a pedra perfeitamente aquecida no lugar devido. E de tal forma estava requentada que quando a mulher se sentou na pedra, deu um salto repentino gritando de dor. Num esforço quase titânico reprimiu mais gritos quando penetrou na cozinha. O marido continuava sentado ao lume, remexendo umas brasas com a tenaz negra, como se nada tivesse ouvido. Tininha olhou-o primeiro com raiva, depois com ódio e finalmente com doçura. Sentia dolorosamente na pele o preço da traição e percebeu que o marido conhecia as suas aventuras amorosas com o jovem clérigo. Finalmente acalmou e recolheu ao quarto, onde tentou curar as feridas.
    Dias depois regressou novamente a cantoria à porta de casa. O padre sem dar conta que José se encontrava por perto trovava com entoação:
-    Passarinho trigueiro salta cá para fora...
    Responde-lhe então, para grande espanto e atrapalhação do pároco, José Gaio, enquanto Clementina cortando umas rodelachas de cebola deixava que as lágrimas lhe corressem pela face morena, não sabendo, contudo, se eram do vegetal ou da alma:
-    Tem as nalgas esturradas, não pode ir agora...

 

 

 

Publicado a primeira vez em 1 de Agosto de 2001 no O Concelho de Vila Velha de Rodão

Publicado a segunda vez em 1 de Novembro de 2001 no O Arrife



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por José da Xã às 10:19


2 comentários

De Fátima Soares a 01.04.2012 às 17:28

Isto realmente quando a fé é demasiada... Tonta da Tininha e o padre cá para mim precisava de um ensinamento! Gostei.

De José da Xã a 04.04.2012 às 23:34

Ola, cá estou de regresso!
Este conto foi o primeiro após um interregno de vários sem escrever. Talvez por isso tenho um carinho especial por ele.Uma estória transmontana...

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